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Opinião: “sobre futebol”

raquel-varela_1_corCaríssimos adeptos. Percebi pelos comentários ao meu post que não sabem nada de futebol. Eu – que não sei uma única regra do jogo – passo a explicar-vos o que é o futebol em Portugal. E porque há um Berardo no meio disto tudo. Ou um Cristiano Ronaldo que foge aos impostos.

O Benfica ou outro grande não são clubes. Não são grupos de pessoas que se juntam para jogar futebol. São, principalmente, hoje um negócio. Tanto que se chamam SAD, isto é, sociedades anónimas (anónimas!), capitalizadas através da Banca, que forma juros com esses capitais – dinheiro que não vem de lado algum a não ser, mais cedo do que tarde, das nossas pensões e salários porque juros não pagam juros, só o trabalho real produz valor para pagar isso. Toda a Banca faliu em 2008, entre a falência da Banca estava por isso também uma massa de capitais das SAD. Junta-se a isto a isenção de impostos que estes clubes têm.

A partir do momento em que os valores entram na Banca geram investimentos não só em juros mas em títulos. Pode ser em fundos de pensões ou nas acções da empresa onde os adeptos trabalham. Por exemplo, o adepto Manuel trabalha na EDP, quanto mais cortarem o salário desse adepto na EDP mais a acções da SAD vão valorizar. É o que se chama meter uma corda à volta do próprio pescoço.

O Futebol é um desporto primitivo. Joga-se com os pés, reproduz aliás, historicamente, um campo de batalha ancestral. É mais fácil por isso mexer com milhões, porque mexe com instintos primitivos, cuja reprodução está na nossa natureza. Ao contrário de outros jogos para os quais é preciso saber mais elaborado o futebol tem a seu favor esta dimensão, será sempre de massas e o Bridge não. Não passa a ser mau por isso. O que é mau é o papel que ele tem na nossa sociedade. Não é mau – é inaceitável, é irrespirável. E, pelo menos na minha página, vão ter que conviver com a liberdade de opinião, toda a liberdade.

Como desporto primitivo e de contas obscuras, e de ligações políticas ainda mais obscuras, tem sido palco de histórias de violência sistemáticas. Com ligações políticas todos os anos denunciadas pela Segurança do Estado nos jornais como associadas a grupos extremistas. Quer isto dizer que são todos assim? Não, claro que não, a maioria de adeptos são pacíficos, mas a violência associada tem que ser pensada na sociologia.

Portugal é um país à venda, a Banca boa foi vendida aos espanhóis; vendemos portugueses como imigrantes-força-de trabalho e os governos têm orgulho nisso; vendemos casas aos estrangeiros, e vamos viver para 50 km do trabalho e dizemos que isso é “sair da crise”; e vendemos jogadores de futebol porque os produzimos em massa, através de clubes minúsculos que há em todo o país.

Estes clubes pequenos produzem aos 4, 5, 6 anos pequenos profissionais, que vivem o desporto já para um padrão que deve seleccionar os melhores. Os pais tiram assim os miúdos da cama às 7 da manhã ao Domingo com 6 anos na esperança de que sejam ricos, visto que já não acreditam no ensino para esse efeito. Os países ricos, que produzem cientistas, jamais produzem jogadores de futebol assim. O que fazem é virem comprá-los aos países pobres: Portugal, Brasil. Nenhum alemão sonha que o filho seja jogador de futebol porque sabe que essa é uma carreira para a maioria miserável, mal paga, e que acaba aos 30 anos. Para um país rico é desastroso porque não é uma economia produtiva. Só os tontos como nós acham isto o máximo.

Este negócio foi – de forma irresponsável e populista – abraçado pelos políticos e pelo Estado, de tal forma que em nenhum país do mundo se liga uma televisão – incluindo no atrasado Brasil – e se tem 4 debates de futebol ao mesmo tempo. Os telejornais são assim: política parlamentar (como se não houvesse política fora do Parlamento), catástrofes naturais (como se não houvesse política internacional e só tufões) e futebol (como se não existisse outro desporto, lazer, cultura, livros, teatro). Assim somos de forma totalitária bombardeados com aquilo que devia ser um jogo, de clubes, divertido e passou a ser um sistema totalitário de “cultura” onde nada mais floresce.

É tanto assim que a população Portuguese adepta ganhou um saber sobre futebol único – falam horas de um passe, de um golo, de um treinador. Não conseguem balbuciar duas linhas sobre dívida pública, mundo do trabalho, sistema de Governo, forma de Estado e resumem tudo a uma simplificação perigosa, o famoso “é tudo uma roubalheira”, mas conseguem estar horas a falar sobre futebol porque são educados através dos media – e, volto a dizer, de uma política de Estado irresponsável, para isso.

O futebol-negócio tem também se tornado cada vez menos interessante porque é padronizado para ser mais eficiente, toda a indústria implica padronização, raramente se passa em campo algo que não tenha sido já visto milhares de vezes. A este respeito aconselho verem a história da Democracia Corintiana ou da famosa selecção Holandesa Laranja que lutaram contra isto. E fizeram do futebol um jogo de celebração da vida, amizade, da vida em sociedade.

Como tudo no capitalismo o futebol passou a separar consumidores de produtores. A maioria das pessoas não joga futebol – vê futebol no sofá. Como a maioria das pessoas não anda a passear no jardim, mas vê telenovelas onde outros passeiam no jardim. Passivos. Por isso o futebol não é para a maioria um desporto, porque a maioria dos envolvidos não faz desporto, vê desporto. Temos a mais alta taxa de diabéticos da Europa e o maior número de adeptos, como acham que aqui chegámos? A jogar futebol nos bairros e fazer disso uma actividade de prazer com os amigos? Não, a pagar capitais bancários e direitos de TV.

No meio disto tudo há algo que me espanta – como é possível eu ser sócio de um clube que pague um ordenado de milhões e eu aceite isso? Sim, como é possível que estes sócios todos aceitem estes salários obscenos pagos a estrelas?

Dito isto, confesso que até nos clubes grandes eu tenho que pensar nas cores, reflectir por um segundo, e saber qual é. Não sei nada de futebol. Sei imenso de economia política do futebol. Carregamos nesta economia o que de mais atrasado há. Era bom que jogassem e se divertissem muito – para isso seria necessário reinventar o futebol como um clube de jogadores e não como uma indústria de capitais bancários produtores de juros.

Se em vez de adeptos ferrenhos e fanáticos, quando não violentos, a olhar a TV tivéssemos redução do horário de trabalho para a malta ter tempo e vida decentes e ir jogar com os amigos, que nem se importam de perder, porque estão ali para conviver, eu seria uma grande adepta do futebol. Como espaço de lazer e amizade. Isso seria futebol. Isto que temos hoje é tão só um negócio.

Saúde, minha gente !

Raquel Varela

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A ver os adeptos de vermelho em massa no Marquês pensei que seria uma manifestação pela expropriação de Berardo. Pensei em juntar-me. Afinal é por um mais um dos grupos de futebol falidos que salvámos com dinheiros públicos depois da crise de 2008, e cuja t-shirt faz publicidade aos Emirados, um lugar que não existe, mas onde milhares de Berardos vestidos de branco e óculos pretos têm um apartado fiscal. Como diz um familiar meu “não me estou a sentir bem, preciso de tomar um pastel de nata”. Lamento mas é triste esta alegria. É que jogar futebol e gostar é uma coisa. Outra é que este seja o maior movimento social do país e o que mais junta gente num entusiasmo colectivo. Lamento que o Governo, o Presidente e os media incentivem isto. É bestialmente deprimente.

Opinião: “Os deslizes da ‘imprudência’.”

Patriarcado

Bruno CarapinhaO Patriarcado afirmou que a publicação de uma explícita recomendação de voto no Basta, no Nós Cidadãos e no CDS foi uma ‘imprudência’. Mas quer a publicação da recomendação de voto, quer a expressão usada para a comentar oferecem-nos confissões muito interessantes.

A primeira confissão é a da continuada interferência da Igreja na vida democrática do país, usando a adesão de crentes à confissão religiosa como mecanismo de exercício de poder sobre as suas vidas e opiniões políticas.

A Igreja vai a jogo, está no combate político, não paira acima da vida política – e, portanto, não pode continuar imune ao escrutínio mais apertado que esse posicionamento obriga. É a essa luz que se torna necessário um debate maior sobre a laicidade do Estado, sobre a sua omnipresença institucional, sobre os privilégios que esta confissão continua a ter no país e sobre os inúmeros mecanismos de financiamento directo e indirecto que insidiosamente vai conseguindo impor com o apoio expresso de alguns partidos.

A segunda confissão é a normalização da extrema-direita em Portugal. O Patriarcado deu o sinal de que mais facilmente se oporia ao PS e ao PSD do que ao Basta. Se isso não é a validação católica das mensagens xenófobas e autoritárias, não sei o que poderia ser.

O histórico da Igreja Católica não a ajuda. Ao longo de milénios, ela fez mensagens de apoio aos mais fracos mas conviveu sempre foi com os mais fortes; jurou proteger os marginais, mas perseguiu e apoiou a exclusão de minorias étnicas, religiosas, políticas, sexuais, etc. E, claro está, no último século, esteve quase sempre do lado dos fascismos e dos autoritários.

Perante a emergência de uma nova vaga autoritária global, a Igreja tem responsabilidades, quer na recusa da validação do extremismo antidemocrático, quer no efectivo combate à sua propagação. Ao permitir esta colagem, o seu contributo vai exactamente em sentido contrário. E confessa uma visão pequena do impacto e dos perigos de uma sociedade envenenada pela xenofobia, pelo obscurantismo e pelo ostracismo promovidos por movimentos como o Basta para o centro da mensagem católica.

A terceira confissão é a mais subtil e, por isso, mais perigosa. O Patriarcado não diz que errou. Não se demarca do apoio implícito às mensagens autoritárias e xenófobas, à reintrodução da pena de morte, à crítica à alegada inversão da escravatura com que o Basta sujou as ruas das nossas cidades.

Poderia dar-se o caso da página estar a ser gerida por um qualquer radical católico. Mas a Igreja não disse nada disso. Não emendou a mão. Perante a forte reacção nas redes sociais, apagou o post. Mas já deveria saber que, uma vez na internet, para sempre na internet.

O Patriarcado afirma que foi uma ‘imprudência’. Não era para publicar. Não era para se saber. Não quer o escrutínio. A Igreja quer continuar a fazer o que faz longe dos olhares dos outros, cujas vidas também afecta, mesmo que não sejam crentes. Perante as perguntas dos jornalistas sobre o apoio explícito a estes partidos, não o nega, escusa-se a comentar.

Publicar nas redes sociais expôs a Igreja, as máscaras caíram. Mas convenhamos que nada disto é novo. O recurso ao passa-palavra, às homilias, às orientações directas foram sempre os métodos habituais de uma intervenção que não cessa. Assim foi nas campanhas eleitorais, no referendo da IVG, na mobilização do seu aparelho social e institucional contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou em defesa dos contratos de associação de escolas privadas suportadas com dinheiros públicos – e em tantos outros processos.

Mas se o Patriarcado pensa que a coisa fica por aqui, deveria antes saber que a resposta dada é imprudência maior que a publicação. Não se demarcar, não fazer desta posição da tal federação uma posição minoritária, não a tirar do centro da sua mensagem, obriga a muitas perguntas – e a respostas mais profundas. Os outros também têm memória.

Bruno Carapinha

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Opinião: “Berardo e o Estado”

raquel-varela_1_corAinda sobre Berardo e o Estado cumpre-me contar três histórias que conheço de quem paga estas contas. Além, claro, dos contribuintes como nós que pagamos serviços públicos que não funcionam.

A L. foi dar aulas para o Oriente, filha de pais humildes, ficaram desempregados para cortar custos depois de 2008, cortes que foram para pagar a Banca. De lá manda dinheiro para os pais. Ficámos com menos um quadro no país.

O M. da Madeira, estivador, perdeu a casa porque para lutar contra os salários baixos sindicalizou-se no SEAL- Sindicato dos Estivadores, e como retaliação foram-lhe retiradas horas extraordinárias.

E a Lídia O. que deu a cara publicamente contra a falência da Moviflor, também perdeu a casa, o emprego. Não perdeu a dignidade e ajudou a fundar uma Associação, A Casa, de defesa dos direitos dos trabalhadores.

O que é importante aqui -, além de dar voz aos exemplos de dignidade humana por oposição ao lixo moral que representa o sector financeiro -, é que não foi Berardo que desenhou o sistema legal que permitiu isto – foi o Estado. E o Estado não somos todos nós. Não nos escondamos no senso comum, que repete que o poder económico domina os Estados. Não é verdade. O poder político tem sempre a última palavra. E deu-a a Berardo. Que conservou a sua casa, a sua Associação, a sua colecção, a sua quinta, impune. Em 11 anos desde a crise nunca ninguém entrou com uma bateria de polícias e inspectores na sua casa. Mas o mesmo Estado levou uma semana a entrar na Ordem dos Enfermeiros e vasculhar as contas – abrindo um precedente gravíssimo para todos os sindicatos e ordens, com o claro propósito de amedrontar quem ousa lutar por si e pelos serviços públicos.

Raquel Varela

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