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Artigo de opinião: “CGTP, a correia de transmissão de um sinal errado”

Vitor MatosBom dia!

Era óbvio que a realização do comício do 1º de Maio na Alameda ia ter efeitos secundários. A CGTP, velha “correia de transmissão” do PCP, passou a correia de retransmissão de uma polémica desnecessária onde a maior responsabilidade é do Governo (e do Presidente da República) por ter autorizado uma exceção que passou o sinal errado à população. Só não terá sido uma correia de retransmissão do vírus pela organização exemplar da Intersindical, elogiada aqui pelo ministro Eduardo Cabrita. Alvo de críticas previsíveis, a Intersindical que não é ingénua e sabia que ia estar sob fogo, emitiu ontem um comunicado que só se pode justificar por cegueira ideológica: “Há setores da nossa sociedade que procuram no surto epidémico a justificação para o regresso ao passado, para a reintrodução do totalitarismo, de mordaças e do unanimismo como única forma de pensar e estar.”

No contexto que estamos a viver, só por desonestidade intelectual se pode agitar o fantasma do fascismo por críticas legítimas numa democracia: discordar ou dizer à CGTP que não podia realizar o comício durante o excecionalíssimo estado de emergência por causa de uma pandemia que já matou mais de mil pessoas em Portugal, que devastou a Espanha (com o contributo de uma manifestação) e está a devastar o mundo, é voltar ao fascismo? Vamos excluir da equação as críticas da direita, ficamos só com as da esquerda. A UGT, que não foi para as ruas – Carlos SIlva fez críticas duras à CGTP no Expresso – e celebrou o 1º de Maio pelas redes sociais, quer reintroduzir o “totalitarismo”? A corrente do Bloco de Esquerda na própria CGTP que foi contra o comício na Alameda, é um grupo de saudosistas a defender uma “mordaça” na luta pelos direitos dos trabalhadores? E Catarina Martins, que num gesto político significativo, fez uma comunicação nas redes sociais e não foi à Alameda, ao contrário de Jerónimo de Sousa, quer instituir o “unanimismo”? As palavras têm peso mas a memória também: quem lutou pela “unicidade sindical” e o “unanimismo” foi PCP e a CGTP nos tempos do PREC, para ter o monopólio do mundo laboral.

Luís Marques Mendes resumiu bem o problema no comentário de ontem à noite na SIC: a autorização para as celebrações “mina a autoridade política” – e o Governo não se pode queixar se as pessoas começarem a prevaricar. Mais do que isso, passa a ideia de que o Executivo tem medo da CGTP porque se aproximam tempos difíceis, e a paz social será importante durante a crise económica.

Na verdade, a a posição da Inter – liderada agora pela militante comunista Isabel Camarinha – é filha dos argumentos do PCP, que tem apontado mais para o “medo” e o “alarmismo” do que para a necessidade de medidas excecionais (como o estado de emergência ou de calamidade) para conter os riscos da pandemia na saúde pública. Jorge Cordeiro, um dos principais dirigentes comunistas, escreveu um artigo no “Avante!” a semana passada que mostra como o PCP continua a olhar para o mundo por um funil, à luz de uma fé dogmática que distorce o mundo sempre no mesmo sentido. Fica esta passagem: “Em nome do necessário distanciamento e das medidas de prudência de cada um consigo próprio e para com os outros, o que aí está à escala de massas é a profusão a partir de agigantamento do medo, para lá do racional, da criação de um clima geral de intimidação social dirigido para e suportado na exacerbação do individual” – tudo aproveitado pelo capital monopolista para anular a luta coletiva. Aqui não há vida para além da luta de classes (outra coisa são os abusos das empresas que devem ser punidos).

Como era de esperar, a decisão do Governo gerou ondas de choque, sobretudo com a ajuda da própria ministra da Saúde que, na ânsia de justificar a aprovação dos comícios da CGTP, deu a entender este sábado, numa entrevista a Rodrigo Guedes de Carvalho, na SIC, que o 13 de Maio também se podia celebrar em Fátima,desde que fossem “respeitadas as regras sanitárias”. As declarações inesperadas de Marta Temido geraram surpresa no Santuário, mas a governante havia de esclarecer ontem, com a polémica já instalada, o que tinha ficado em dúvida: “O que o Ministério da Saúde pretendeu explicitar é que há uma diferença entre peregrinos e celebrantes” e que as peregrinações continuavam proibidas.

A própria igreja, que não quis comentar a homilia de um padre que fez críticas à ‘geringonça’ – “manda no país” – em plena missa, por causa do 1º de Maio, manteve a decisão de não levar gente para Fátima por ser “um perigo para a saúde pública”, afirmou o cardeal D. António Marto. O “Público” avança hoje que o primeiro-ministro falou com o bispo sobre a realização de cerimonias só com a presença de eclesiásticos e alguns fiéis.

O responsável pela Proteção Civil de Santarém foi mais longe e recomendou “juizinho” com o 13 de Maio.

No dia em que começa o lento desconfinamento no país, pode ver aqui o ponto da situação do surto em Portugal em gráficos e mapas: 25.282 infetados e 1043 mortos, a variação mais baixa desde o início do surto. E pode informar-se ainda sobre a situação no resto do mundo.

Vítor Matos

At https://expresso.pt/

Mensagem: “Uma Páscoa Diferente”

Antonino Bispo de Portalegre e Castelo Branco D Antonino DiasEstamos a viver o Mistério Pascal de forma diferente, sem manifestações externas, sem fogaréus nem foguetes, com lágrimas e muito sofrimento, em isolamento social. Se menos ao gosto dos homens, que ela possa ser mais vivida ao jeito de Deus, e em família.

Jesus veio para que nós tivéssemos vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Ao assumir a condição humana e morrer na cruz, Jesus restituiu ao homem a dignidade que perdera, libertou-o da escravidão do pecado e abriu-lhe as portas para uma vida nova. Assumiu e suportou as tragédias da humanidade, a cruz de todos os homens, de todos os tempos e lugares. Permanecendo longe ou indiferentes, pode acontecer que fiquemos confusos perante as tragédias humanas e perguntar: “Deus, onde estás?”. A experiência da fé, porém, diz-nos que Ele está perto, ressuscitou, está vivo, venceu a morte, estende-nos a mão e faz-nos um desafio: «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). E siga-me, isto é, partilhe comigo o mesmo caminho, mesmo que o mundo não compreenda e ache ser uma derrota. E aponta o modo de o fazer: “Então Jesus, levantou-Se da mesa, tirou o manto, pegou numa toalha e atou-a à cintura. Deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que tinha à cintura (…) sentou-Se de novo e perguntou: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me “o Mestre” e “o Senhor”, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 13-14). Que o testemunho e a vitória de Cristo seja o nosso caminho, que Cristo Ressuscitado viva realmente dentro do coração de cada um e transforme a sua vida na Vida plena que Ele nos veio oferecer!

Se a todos, dentro dos condicionalismos atuais, desejamos uma Santa Páscoa, se pensamos naqueles que nestes tempos de pandemia sofrem a doença ou a perda dos seus familiares, pensamos sobretudo naqueles que, com humildade, coragem e determinação, colocam a toalha à cinta e lavam os pés às dores do mundo, que são muitas e diversas: profissionais de saúde e seus colaboradores, governantes que sentem a responsabilidade de decidir, agentes da proteção civil e da ordem pública, responsáveis, colaboradores, voluntários e clientes das estruturas sociais e das estruturas que garantem o funcionamento da sociedade em todas as áreas e serviços e prestam apoio às pessoas necessitadas. Ao mesmo tempo que lhes manifestamos a nossa gratidão pelo seu testemunho em espírito de serviço, rezamos para que todos gozem de saúde e encontrem na Cruz de Cristo a força e o conforto necessários nos momentos mais difíceis da sua vida e missão.

Feliz Páscoa!

Não deixemos morrer a esperança!

Ele está vivo e atento, não nos abandona!

Antonino Dias

Bispo de Portalegre-Castelo Branco

Artigo de opinião: “A justiça criminosa”

ClaraPor uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia que se sabe que nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços do enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogues, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Bragaparques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muito alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não substancia. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha. E aquele médico do Hospital de Santa Maria suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusavam, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. Este é o maior fracasso da democracia portuguesa e contra isto o PS e o PSD que fizeram? Assinaram um iníquo pacto de justiça.

Clara Ferreira Alves

22/10/2007

At https://expresso.pt/

Opinião: “A propósito do aquecimento global”

Antonio Galopim 47283315_1965290887110757_4041598512259923968_nNo momento presente, em que anda muita gente a “dizer coisas”, sobre o aquecimento do planeta o degelo dos glaciares e a subida do nível do mar, em que uns agridem, outros defendem a jovem sueca Greta Thunberg, a verdade, goste-se ou não, ela é o rosto de um movimento, estou em crer imparável, que já mobilizou os adolescentes (e não só) à escala mundial.
A começar, devo dizer que poio e acredito em toda esta dinâmica de juventude à escala mundial, desejando que ela envolva igualmente a luta bem mais necessária e urgente contra a destruição das florestas, a poluição do ar, das águas marinhas e fluviais, dos solos e a destruição galopante dos recursos naturais. Se quisermos reflectir, séria e profundamente, nesta mais do que real ameaça global, a sociedade dita de desenvolvimento vai ter, a partir de agora, de se mentalizar para, a curto prazo, mudar a forma de consumir, de agredir e de conspurcar a Natureza, em suma, a forma de viver.

Relativamente a este processo, que se me afigura demasiadamente politizado, é minha convicção que a actividade antrópica, com influência no clima, não se sobrepõe, em especial, às do Sol e do vulcanismo. Penso pois que, mesmo sem a poluição atmosférica, da nossa responsabilidade, nomeadamente a relativa às emissões de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa (que existe e é um facto comprovado), o Planeta irá aquecer nos próximos milhares de anos e registar fenómenos atmosféricos como os que nos tem vindo a mostrar (chuvadas e cheias catastróficas, furacões, tornados e outros), associados a inevitável subida do nível do mar.

Vale, pois, a pena reflectir sobre o que tem sido o sobe e desce da temperatura do planeta, à escala global, e o consequente sobe e desce do nível geral da superfície do mar nos derradeiros milhares de anos. Nos últimos dois milhões de anos da história da Terra foram registadas seis grandes glaciações intercaladas por períodos de aquecimento global, ditos interglaciários, no pico dos quais os níveis do mar subiram muito acima do nível actual. A mais recente destas seis glaciações, ocorrida entre há 80 000 e 10 000 anos, conhecida por Wurm, na Europa, e por Wisconsin, na América do Norte, não será certamente a última, e nós estamos a viver um período de aquecimento interglaciário, entre esta e a previsível próxima glaciação, daqui a uns bons milhares de anos. Assim sendo, com ou sem gases com efeito de estufa de origem antrópica, libertados para a atmosfera, a temperatura global vai elevar-se e, em consequência do inevitável degelo, o nível do mar vai subir e muito
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Há cerca de 18 000 mil anos, no Paleolítico, já as mais antigas gravuras rupestres se disseminavam pelas paredes rochosas do Vale do Côa, atingia-se o máximo de rigor e de extensão da última glaciação do Quaternário, a atrás referida Würm. Restringindo-nos ao hemisfério Norte, a calote glaciária em torno do Pólo, espessa de dois a três milhares de metros, alastrava até latitudes que, na Europa, atingiam o norte da Alemanha, deixando toda a Escandinávia submersa numa imensa capa de gelo, capa que cobria igualmente grande parte da Sibéria, todo o Canadá e a Gronelândia. No Pólo Sul a respectiva calote extravasou, e muito, os limites do continente antárctico, alastrando sobre o oceano em redor e cobrindo a parte meridional da América do Sul.
No Atlântico Norte, a frente polar, ou seja, o encontro entre as águas polares, com icebergs à deriva, e as águas temperadas, situava-se à latitude da nossa costa norte, entre Aveiro e o Porto. O nível do mar estaria, ao tempo, uns 140 metros abaixo do actual, pondo a descoberto uma vasta superfície, hoje submersa, levemente inclinada para o largo e que corresponde à actual plataforma continental. Da linha de costa de então descia-se rapidamente para os grandes fundos oceânicos, com 4 a 5 mil metros de profundidade. A temperatura média das nossas águas rondaria, então, os 4ºC.
As Serras da Estrela e de Gerês, à semelhança de outras montanhas no país vizinho, tinham os cimos permanentemente cobertos de gelo, desenvolvendo processos de erosão próprios dessa situação climática, cujos efeitos ainda se podem observar em importantes testemunhos, com destaque para o vale glaciário do Zêzere.
relevos menos proeminentes, mais a sul e menos afastados do litoral como, por exemplo, as serras calcárias do Sicó, Aires, Candeeiros e Montejunto, encontram-se ainda, da mesma época, vestígios bem conservados e evidentes de acções periglaciárias. Desses vestígios sobressaem certas coberturas de cascalheiras soltas, brechóides, sem matriz argilosa, essencialmente formadas por fragmentos de calcário muito achatados e angulosos, em virtude da sua fracturação pelo frio, que deslizaram ao longo das vertentes geladas, destituídas de vegetação e de solo, e se acumularam na base desses declives. A conhecida pincha de Minde teve a sua origem nesta altura e através deste processo.

A partir de então verificou-se uma importante melhoria climática e consequente degelo. A temperatura sofreu uma elevação gradual e as grandes calotes geladas começaram a fundir e a retrair-se, debitando nos oceanos toda a imensa água até então aprisionada. Em consequência, o nível geral das águas iniciou a última grande subida e mais uma invasão das terras pelo mar, conhecida por transgressão flandriana. Praticamente, todos os rios portugueses, do Minho ao Guadiana, terminam em estuários, que não são mais do que vales fluviais escavados durante esta última glaciação e posteriormente invadidos pelo mar, no decurso desta transgressão.
Pelos estudos realizados na nossa plataforma continental sabemos que, há uns 12 000 anos atrás e na continuação do degelo global, o nível do mar coincidia com uma linha aí bem marcada, à profundidade de 40 metros. Uns mil anos mais tarde, a tendência geral de aquecimento generalizado foi perturbada por uma crise de arrefecimento à escala mundial.

Uma explicação para esta interrupção, relativamente brusca, no processo de aquecimento global que se vinha a verificar há alguns milhares de anos, pode encontrar-se na presunção de que, durante a glaciação, se formaram lagos enormíssimos no continente norte-americano, mantidos por grandes barreiras de gelo, que teriam recebido águas de cerca de oito mil anos de degelo nessa área da calote gelada. Admite-se que, tendo descongelado as barreiras que sustinham esses lagos, toda a água doce aprisionada desaguou no Atlântico Norte, desencadeando a brusca congelação da superfície do mar e a consequente mudança climática com reflexos à escala global. Saiba-se que água doce congela a uma temperatura mais elevada do que a água salgada do mar.

Na sequência, os glaciares não só interromperam o degelo, como reinvadiram as áreas entretanto postas a descoberto. Em resultado desta nova retenção das águas, o nível do mar desceu de um valor estimado em 20 metros e assim permaneceu durante cerca de mil anos. A frente polar, que recuara até latitudes mais setentrionais, avançou de novo e atingiu o paralelo da Galiza, pelo que as temperaturas das nossas águas voltaram a descer, rondando os 10ºC. No final deste episódio de inversão climática, a que se dá o nome de Dryas recente, há 10 000 anos, a transgressão retomou o seu curso. O clima tornou-se mais quente e mais chuvoso, entrando-se no que designamos por pós-glaciário. Há 6 a 7 mil anos, a temperatura média, na nossa latitude, atingia cerca de 3 ºC acima dos valores normais no presente. Foi o recomeço da subida generalizada do nível do mar, que se vinha a verificar desde o início do degelo, à razão de cerca de 2 cm por ano, em valor médio, embora a ritmo não constante e com algumas oscilações. Este episódio, conhecido por Óptimo Climático, coincidiu, em parte, com o Mesolítico português, estando bem exemplificado nos magníficos concheiros de Muge, no Ribatejo.

O nível marinho actual começou a ser atingido há cerca de 5000 anos, em pleno Megalítico ibérico, iniciando-se, então, o que é corrente referir como Período Climático Subatlântico, marcado por relativa humidade. A partir de então verificaram-se pequenas oscilações na temperatura, marcadas por moderadas e curtas crises de frio, com correspondentes recuos do mar, designados por Baixo Nível Romano, há 2000 anos, Baixo Nível Medievo, em plena Idade Média (séculos XIII e XIV) e Pequena Idade do Gelo, nos séculos XVI a XVIII, bem assinalada na Europa do Norte pelo congelamento de rios e lagos, situações relacionadas com a ocorrência de grandes cheias primaveris, resultantes do degelo nas montanhas, bem testemunhadas em pinturas da época. Posteriormente a esta crise de frio a temperatura do planeta subiu e vai, muito provavelmente continuar a subir, para os níveis actuais, mesmo sem a ajuda das emissões antropogénicas do agora tão falado dióxido de carbono e dos outros gases com efeito de estufa.

A tarefa não é fácil e, repetindo o que disse no início, se quisermos reflectir, séria e profundamente, nesta mais do que real ameaça global, a sociedade dita de desenvolvimento vai ter, a partir de agora, de se mentalizar para, a curto prazo, mudar a forma viver e de consumir, deixando de agredir e de conspurcar a Natureza.

António Galopim de Carvalho

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