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Missionários com casa em Nisa têm novo Vice Superior Geral

Jose Antunes 3933O sacerdote português, nascido em Maxial do Campo, Castelo Branco, acompanhará de perto o padre Paulus Budi Kleden, eleito Superior Geral há dois dias, no 18º Capítulo Geral dos Missionários do Verbo Divino, que realiza até 14 de julho, em Nemi (Roma).

José Antunes da Silva foi ordenado presbítero em 1984.

De 1986 a 1989 viveu, segundo revela, os anos mais marcantes da sua vida. Foi em terras africanas, na missão de Kintampo, Gana.

Fez estudos superiores em Ciências da Religião, nos Estados Unidos, de 1990 a 1992.

De 1992 a 2003 dedicou-se à pastoral universitária, em Guimarães.

De 2003 a 2007 fez parte da comunidade de Fátima, tendo acompanhado mais de perto o trabalho com os leigos missionários e com maior dedicação à revista Contacto svd.

Em 2007 foi eleito Superior Provincial, cargo que desempenhou até 2012. Nesse ano participou no Capítulo Geral, em Roma, sendo eleito Conselheiro Geral, cargo que desempenha atualmente.

Os Missionários do Verbo Divino, presentes em Portugal desde a década de 40 do século XX, têm casas em Tortosendo, Fátima, Lisboa, Almodôvar, Nisa, Minde, Aveiro e Guimarães, onde chegaram em 1952.

At https://www.diariodominho.pt/

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Refugiados são recebidos condignamente em Portalegre

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Os refugiados acolhidos na cidade de Portalegre vão poder frequentar gratuitamente os equipamentos culturais, bem como as piscinas municipais.

A decisão foi aprovada na última reunião do elenco camarário e resulta de uma proposta apresentada pela Cáritas Diocesana de Portalegre.

Em declarações a esta estação emissora o presidente da Cáritas de Portalegre, Elicidio Bilé referiu que o objetivo é o de assegurar “uma rápida integração” dessas pessoas na comunidade e “dar a conhecer a história” da cidade que os acolheu. Elicidio Bilé adiantou que atualmente estão a viver em Portalegre, em casas da Segurança Social, mais de duas dezenas de refugiados, entre adultos e crianças, oriundos de países africanos e do Médio Oriente.

A Câmara de Portalegre aprovou também, que a partir de agora, os jovens que completam 18 anos de idade, este ano, têm acesso gratuito aos Museus do concelho. Aos jovens, nascidos no ano 2000, basta apresentarem o Cartão do Cidadão e têm a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a cultura que os rodeia. Promover aproximação dos cidadãos à Cultura e da Cultura aos cidadãos é o objetivo da iniciativa.

At http://www.radioportalegre.pt/

Rede Aldeias Históricas de Portugal sem dinâmica

Castelo MENDOBOA3-1024x683
A Rede de Aldeias Históricas de Portugal tem uma “fraca dinâmica” e sofre de “alguma estagnação”, conclui um estudo universitário, que nota também que os 60 milhões de euros em investimento não conseguiram estancar o despovoamento.

Mais de 20 anos depois da criação das Aldeias Históricas de Portugal e do investimento que começou a ser feito nos 12 locais situados na Beira Interior, o estado atual da rede é de “fraca dinâmica e até de alguma estagnação”, conclui a tese de doutoramento de Paula Reis, realizada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Para a investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade de Évora, há várias variáveis para esta estagnação, como um excesso de municipalização da rede, que foi apoderada “por interesses do poder local”, o que provocou, como consequência, um desinteresse de privados, que acabam por se afastar da estrutura.

No terreno, Paula Reis identificou também “uma ausência de cultura de parceria”, estando cada um a trabalhar por si, e a sobreposição de outras marcas, como as Aldeias do Xisto ou o Vale do Côa.

“Tentam ir a jogo a todas as marcas e depois não estão em nenhuma”, constatou.

As 12 aldeias integradas na rede são Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Nova, Linhares, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso.

O investimento inicial nestas aldeias (Belmonte e Trancoso foram apenas incluídas em 2003) foi “elevadíssimo na componente material”, nomeadamente nas infraestruturas básicas (canalização, água, luz), mas também em arranjos urbanísticos, recuperação de fachadas e criação de alguns hotéis e pequenas empresas, contou à agência Lusa a investigadora.

Com apoio de fundos comunitários, entre 1994 e 1999, foram investidos 26 milhões de euros e, entre 2000 e 2006, houve uma continuidade do investimento (já com Belmonte e Trancoso incluídos na rede) de 18 milhões de euros.

Com a mudança de quadros comunitários, o investimento passou a focar-se na componente imaterial, entre 2007 e 2013, em que estavam aprovados 100 milhões de euros até 2015, mas que foram “apenas executados 25 milhões de euros” – uma consequência da crise financeira que surgiu em 2008 e também do surgimento da associação da rede, cuja entrada se atrasou e que só ficou operacional em 2011.

Se, por um lado, houve uma melhoria significativa em termos de infraestruturas básicas nas aldeias abrangidas, a falta de investimento material entre 2007 e 2013 criou uma descontinuidade na requalificação das localidades.

“Causou um choque. As operações anteriores tinham lavado o rosto das habitações, que estavam desabitadas, com árvores a crescerem lá dentro, com o telhado a cair e paredes caídas. Hoje, estamos a voltar a essa fase”, sublinhou Paula Reis.

Atualmente, já se notam casas com telhados outra vez a cair e janelas com vidros partidos, face à quebra no investimento. Para além disso, face à especulação imobiliária nestas aldeias históricas, há casais jovens que são levados a escolher residência fora da aldeia, afirmou.

Segundo Paula Reis, a esta situação soma-se a ausência de serviços como farmácia, centro de saúde ou transportes públicos, que também não ajuda a estancar o despovoamento da maioria das aldeias.

O diagnóstico das 12 aldeias, com base em dados entre 2001 e 2011, deixa transparecer a situação de despovoamento: a percentagem de jovens recuou 3,69%, a população idosa aumentou 2,16%, há três aldeias que não registaram qualquer nascimento (Idanha-a-Velha, Castelo Rodrigo e Piódão) e, dos 7.885 edifícios recenseados, 24,5% necessitavam, em 2011, de reparações.

Em dez anos, as doze aldeias perderam, no total, 683 pessoas, havendo casos de grande recuo populacional como Castelo Mendo (-35%), Monsanto (-28,5%), Sortelha (-23,3%) ou Piódão (-20,5%).

Na tese de Paula Reis, são desenhadas várias estratégias para o futuro pelos diferentes atores que entrevistou – habitantes, neo-rurais, visitantes, municípios, associações, CCDRC, entre outros – e que foram validadas por um grupo de especialistas.

As estratégias apontam para a criação de uma estrutura de missão independente, em permanência no território, mobilização dos atores para o desenvolvimento de estratégias de animação do território, qualificação da oferta turística, alargamento dos canais de promoção da rede e criação de novos produtos e práticas com base nos recursos locais.

A investigadora espera agora que este trabalho possa servir de “auxílio para o desenho do próximo quadro comunitário” e influenciar a intervenção na rede.

At https://www.dn.pt/

Artigo de opinião: “Os seis pecados capitais da esquerda identitária pós-moderna”

Esquerda identitarios

Um artigo de Eric Fassin publicado no Libération do 6 de setembro de 2010 “Xenófobos, os franceses, não é assim tão certo Monsieur Sarkozy”, apelando à esquerda para se recompor perante a «xenofobia de Estado», dando mostras de audácia e de imaginação perante a campanha da direita, e rompendo com a sua culpada passividade anterior, perante ideias como «o limite de tolerância», oferece-nos a oportunidade de analisarmos como funciona a ideologia da esquerda identitária pós-moderna à qual pertence este sociólogo. Se à partida o seu texto expõe uma intenção generosa e numa abordagem simpática (acabar com a xenofobia de Estado, por muito vago que seja esse conceito), as suas conclusões políticas inscrevem-se no mais subserviente reformismo. Para ilustrar o nosso argumento, fomos ler outros textos do mesmo autor. Se alguma leitora ou leitor quiser comunicar-nos as suas reflexões para enriquecer este artigo (e encontrar um sétimo pecado capital…), estas serão bem-vindas.

O primeiro elemento comum a todos os identitários de esquerda é o apelo à compaixão, compaixão que é alvo de uma manipulação política.

Para a esquerda identitária pós-moderna, não se trata de apostar na revolta contra as injustiças, na vontade de deitar abaixo o sistema capitalista e destruir seus fundamentos, mas de um “sobressalto moral”, como escreve Eric Fassin, invocando as reacções do Papa e de alguns dirigentes da direita. Não, tem que se canalizar essa revolta até uma compaixão caridosa e “cidadã” a favor das “vítimas” das múltiplas “fobias” denunciadas por Fassin e seus amigos: xenofobia, islamofobia, judeofobia, homofobia, etc. As palavras acabadas em “ismo” (racismo, anti-semitismo, etc.) não ganham nada em ser transformadas em palavras acabadas em “fobia” porque passamos assim, sem nos darmos conta, do registo político ao registo psicológico, sendo a fobia mais um medo irracional, eterno, do que uma ideologia que se pode esmiuçar e desmontar, e contra a qual podemos combater colectivamente. A fobia faz parte, antes de mais, do imaginário individual, pessoal. Existe evidentemente uma dimensão psicológica associada a esses fenómenos mas a moda das “fobias” traduz bem mais uma capitulação perante a ideologia dominante que tende a psicologizar as questões e as relações sociais, mais do que afinar as análises políticas.

Mas esta escolha compassiva do pós-modernismo identitário de esquerda é lógica. Na continuidade dos movimentos do pós 68 que salientavam a libertação imediata dos desejos dos indivíduos contra todas as dominações, “a malta tornou-se efectivamente política”, mas de uma maneira inesperada e perfeitamente reaccionária. E a esquerda identitária pós-moderna caiu na armadilha, pensando romper com o dogmatismo marxista (portanto, bem real), com os velhos esquemas obsoletos da luta de classes, etc.

É essa a ideologia que inspira simultaneamente os reality shows e a comunicação política dos grandes partidos, tanto de esquerda como de direita, que encenam os problemas sociais apresentando-os como “individuais”: as mulheres maltratadas ou estupradas; as crianças martirizadas pelos seus pais; as esposas ou companheiras de homens que não as respeitam nem as sabem apreciar, ou que não assumem nenhuma tarefa doméstica, etc.; os imigrantes e seus filhos que sofrem discriminações, arriscam ser expulsos e vivem na angústia e na precariedade; os operários e as operárias despedidos que são expostos em palestras na televisão perante homens políticos paralisados; os sem domicílio fixo que não conseguem arranjar comida – até o nome “Restos du Coeur”[1] é significativo do muito cristão “A votre bon coeur Messieurs Dames”(Grato pela generosidade); de tudo isto até à política assistencialista de Martine Aubry, debatemo-nos em discursos humanitários consensuais e inofensivos para o sistema capitalista.

Os produtores de reality shows e os homens políticos de esquerda pregam, ambos, o “respeito” pelas “diferenças” e pelas “identidades”, sendo as identidades os inúmeros nichos que se têm que rentabilizar ao máximo, por motivos eleitorais ou comerciais.

A principal diferença entre os produtores de reality shows e os profissionais da comunicação política é que aqueles consideram que pertence à vítima a responsabilidade de tomar conta de si mesma (cf. O programa “Super Nanny” e a culpabilização dos pais) ou então esperar o gesto de um caridoso benfeitor ou vizinho bondoso (cf. “Les maçons du coeur” cujo título volta a glorificar as virtudes do famoso órgão fornecedor de compaixão).

Os partidários sociais-democratas da política assistencialista admoestam menos os pobres pelos seus comportamentos do que os apresentadores de televisão (embora a Segolène Royal ou o Manuel Valls sejam entusiásticos adeptos da política securitária e das casas de correcção para proletários selvagens); eles preferem louvar as coisas bem feitas do Estado Previdência ou a adesão a associações, a redes que visam difundir e mobilizar toda a compaixão necessária para “sacudir as coisas”… ou seja, claramente, colmatar penosamente as cada vez maiores brechas de miséria social e económica.

As vítimas prolongadas da miséria social ou psicológica confessam-se no pequeno ecrã; produzem-se programas de televisão e fabricam-se livros em tempo recorde à volta dos seus casos; circulam imagens chocantes (numa entrevista publicada no Libération, um participante da manifestação do 4 de setembro de 2010 contra a “xenofobia de Estado” conta ter decidido vir para a rua depois de ter visionado o vídeo de uma mulher Rom[2] grávida e maltratada pela polícia. Não se trata de menosprezar a indignação suscitada por esse facto ignóbil, mas de sublinhar o impacto da emoção, em detrimento do conhecimento – neste caso do conhecimento das politicas migratórias, que sempre foram hostis aos Rom, e às “pessoas itinerantes” francesas, bem antes da enésima viragem securitária do governo Sarkozy-Fillon exagerada pela esquerda moral).

Dentro do mesmo registo, o apelo “Não à política do cepo!” (eis mais uma metáfora da compaixão e da piedade pelas vítimas!) lançado pela Liga dos Direitos Humanos, mas recuperada e sustentada de maneira acrítica pela esquerda e pela extrema esquerda que expressava bem essa ideologia compassiva pelos “pobres” imigrantes “vítimas” da “xenofobia de Estado” e do “racismo”.

O segundo pilar da ideologia da esquerda identitária é a aproximação de todas as discriminações ao racismo e se for possível ao anti-semitismo genocidário[3], às práticas dos Estados fascistas ou para-fascistas, etc.

O antifascismo pós-moderno é, antes de tudo, compassivo, infrapolítico. Os campos de concentração, os campos de extermínio, a Gestapo, a Milícia, Hitler, Pinochet, Franco, Salazar, Videla, etc., são de facto “horríveis”, “ignóbeis”, “bárbaros”, “desumanos”, tudo aquilo que quiserem, mas não são só isso. A sua dominação, as suas ditaduras, não relevam apenas do uso político das pulsões de ódio e das frustrações sociais duma parte dos dominados, ou para utilizar um termo na moda entre os filósofos de esquerda e os psis, do “ressentimento” dos explorados. Têm uma função política e social, uma racionalidade económica, social e política que temos que destacar, se não queremos ficar confinados a explicações psicológicas ou “essencialistas” do tipo “é da natureza humana…”. E para isso, é preciso deixar o registo da indignação moral e da simples solidariedade sentimental com as vítimas. Mas a esquerda identitária não quer ver o vínculo entre fascismo, nazismo e capitalismo, tal como aliás não dispõe de instrumentos para compreender o estalinismo, em que uma das componentes essenciais sempre foi a defesa da identidade por detrás de um verniz pseudo internacionalista.

O terceiro credo da Esquerda identitária é o respeito pelas leis, pela Constituição e pela democracia burguesa.

É assim que Eric Fassin toma como exemplo as boas leis que souberam reprimir a homofobia e dar aos homossexuais o seu lugar na sociedade francesa. “É a lição do PACS: depois de Lionel Jospin ter acabado por assumir a lei vetada pela esquerda, foi Nicolas Sarkozy quem então, desde o verão de 1999, rejeitando as exageradas jogadas homofóbicas do seu campo, se comprometeu no terreno da tolerância para não o abandonar à esquerda. Os direitos dos homossexuais tornaram-se o cerne da disputa”. As suas considerações mostram bem que, ao contrário de todos os raciocínios na moda dos anos 70 e de certos argumentos feministas e libertários, ainda hoje, o combate à homofobia não ameaça radicalmente a dominação do Capital e do Estado (capitalismo, patriarcado e “hetero-normatividade” – isso é, dominação dos heterossexuais sobre os homossexuais, os trans-género, etc., ao impor normas, por exemplo – sendo supostamente indissociáveis). Que é um combate interclassista, e que, como todos os combates, beneficia sobretudo os burgueses e os pequenos burgueses homossexuais, e muito pouco os operários, os empregados e os trabalhadores imigrantes homossexuais vítimas de discriminação no trabalho e onde habitam.

Esse respeito pela legalidade burguesa, Fassin já o tinha exprimido, assinando, em 17 de dezembro de 2003, um texto sobre o hijab, com outros intelectuais, texto que proclamava “enquanto se recusar a dar aos descendentes dos povos que colonizou a igualdade prometida pela sua Constituição, pelas suas leis internas tanto como pelas suas obrigações internacionais, a França terá problemas”. Ou, na introdução a “A Inversão da questão homossexual”: “Sem dúvida concordamos todos em considerar que as escolhas económicas ou políticas relevam da negociação política. Mas terá que se considerar que as questões sexuais, sejam elas de género ou de orientação sexual, de casamento ou de família, de filiação ou de reprodução, escapam à deliberação democrática?”

“Deliberação democrática”, “obrigações internacionais”, “negociação política”, “Constituição”, “leis internas”, estamos pois a lidar com um democrata burguês.

O quarto credo da esquerda identitária é o respeito das identidades nacionais e por consequência também, de bom ou mau grado, dos Estados nacionais que defendem essas identidades nacionais.

Já que a esquerda identitária não pode atacar frontalmente o mito da Nação, ela é obrigada a separar e a opor, de maneira artificial, os bons nacionalismos progressistas do Sul aos maus nacionalismos (imperialistas, colonialistas, pós-colonialistas) do Norte.

É por exemplo o que diz muito explicitamente Houria Bouteldja, membro dos Indigènes de la République, numa intervenção num debate sobre identidade nacional (http://www.youtube.com/watch?v=FH2lD3Obe_Y ) ou na sua entrevista à revista Hérodote, e que encontramos também no livro de Sdri Khiari «Politique de la racaille»[4].

Não é portanto surpreendente que um identitário como Eric Fassin creia que a esquerda possa tomar a iniciativa no plano da imigração e, assim, obrigar a direita a recuar na sua campanha xenófoba, criar mesmo uma dinâmica eleitoral que fizesse progredir um limite de intolerância à xenofobia e ao racismo, “por que a esquerda não poderia por si mesma retomar a direcção no que diz respeito à imigração ? A evidência do problema da imigração poderia assim desfazer-se logo, sob o efeito de uma nova crença no limite de intolerância”, escreve ele no seu artigo.

Essa proposta mostra a incapacidade de Fassin e sobretudo da esquerda identitária de compreender a função do Estado nacional, e especificamente do estado republicano francês. A «xenofobia de Estado» que Fassin denuncia, com certeza com a maior sinceridade, é constitutiva do nascimento e do desenvolvimento da República Francesa, não só nas suas longínquas colónias mas também no seu território, não só perante os imigrantes das colónias mas também perante imigrantes europeus (dos alemães aos polacos, passando pelos italianos, os portugueses e os espanhóis) – e, se quiséssemos carregar mais um bocado, poderíamos até dizer, como Houria Bouteldja, na sua entrevista acima citada, que o Estado-nacional-republicano francês também esmagou os particularismos locais… Não serve para nada portanto invocar os manás da República (sobretudo os da Terceira, da Quarta e da Quinta!) para combater a xenofobia.

O quinto credo da esquerda identitária é a negação da luta de classes.

Uma identidade que não existe aos olhos da esquerda identitária é a identidade operária ou proletária (a não ser num remoto e vago passado, folclórico, mas que nem é digno do seu famoso “respeito”). Como o ódio aos trabalhadores (“operário-fobia”?) é um sentimento raramente expresso, na actualidade, de forma aberta, nos principais Media e que, não suscitaria guerra, compaixão dos pequenos burgueses e dos Media de esquerda (que só se interessam pelos problemas das “classes médias”), os identitários de esquerda negam ou ignoram a existência dos combates de classe, no passado mas sobretudo nos dias que correm. Esses combates só os podem assustar porque mobilizam (ou mobilizaram), não vítimas que mendigam “reparações” ou “indemnizações de despedimento”, desculpas (do Papa ou de um Primeiro Ministro ou Presidente da República qualquer) ou mais respeito das instituições burguesas, mas os homens e as mulheres que querem derrubar e aniquilar a ordem existente, não apenas consolar-se com algumas conquistas ou alguns direitos, sem tocar na dominação de classe da burguesia e do seu Estado. Esses combates assentam, não só em afrontamentos físicos, mas também em afrontamentos ideológicos que hoje em dia apavoram todos os intelectuais, inimigos do “sectarismo”, do “dogmatismo”, do “esquematismo”.

Assim se entendem os consensos moles a que chegam sempre os militantes de esquerda e de extrema esquerda quando agem juntos, esse menor denominador comum político que mais não é que a ideologia humanitária da esquerda identitária.

O sexto credo da esquerda identitária é um grande respeito pelas religiões, portanto uma incapacidade em afrontar o obscurantismo religioso e as tentativas das igrejas de ganharem mais poder na sociedade.

Esse aspecto não está referido na tribuna livre de Eric Fassin publicada no Libération, mas faz parte do património político dos identitários de esquerda, como testemunham as suas posições favoráveis à “laicidade aberta” e ao multiculturalismo dentro de todas as suas discussões sobre os “signos religiosos ostensivos”, o vestir o hijab e a burka, etc. Não se encontra nunca neles uma crítica radical à religião.

É assim que, no Le nouvel observateur de 6 de maio de 2010, Fassin consegue mais uma vez semear a confusão quando denuncia os ataques crápulas do ministro da Imigração: “Hortefeux pondera retirar a nacionalidade ao marido duma mulher que veste o niqab acusando-o de poligamia. Ora, quando Paul Bocuse se gabou das suas três mulheres (tem uma para o pequeno almoço, uma para o chá, outra para jantar”), quem se indignou? Há que ser francês de gema para poder ser polígamo?”

Partindo duma crítica justa aos delírios de Hortefeux a propósito da identidade nacional, Fassin chega a uma comparação absurda, ridícula, que coloca no mesmo patamar a poligamia islâmica, imposta pela charia, e reconhecida pelos tribunais dos Estados muçulmanos, e a pluralidade de parceiras dum homem, dentro dum quadro que não é regulamentado por nenhuma lei, fosse ela de inspiração religiosa ou laica. O facto de ter várias amantes pode assentar numa relação de dominação (financeira, se ele as sustenta!) ou outra, mas pelo menos essa relação não tem nenhum fundamento jurídico ou legal.

Estabelecendo essa comparação, Fassin justifica, sem dar por isso, a dominação masculina sobre as mulheres (aqui muçulmanas), dominação que a esquerda identitária pós-moderna tanto se esforça por denunciar com trémulos na voz.

Mas a ideologia identitária pós-moderna pouco faz de todas essas contradições quando consegue conquistar algum espaço mediático e político.

Terça-feira 7 de setembro de 2010, por Yves

Y.C.,
“Nem pátria nem fronteiras”,

[1] Cantinas sociais mas cuja tradução à letra seria « restaurantes do coração ».
[2] De etnia cigana.
[3] “ Por outro lado, a experiência das discriminações não fica sem efeito nas vítimas: contribui para a sua constituição enquanto sujeitos. Nos anos 30, muitos se reconheceram como judeus sob o efeito do anti-semitismo”, escreve Eric Fassin, num artigo com o título espantoso: “Raça objectiva vs. (contra) raça subjetiva”. A referência ao anti-semitismo é frequentemente, para os identitários de esquerda, mas também para muitos intelectuais de todas sensibilidades, uma maneira de contrabandear a sua ideologia, bloqueando todo tipo de objeção eventual com a referência ao judeocídio.
[4] Tradução “Política da escumalha”

At http://www.acasaonline.pt