Arquivo de etiquetas: Religião

CIMAA aposta no turismo do Alto Alentejo

Anúncios

Artigo de opinião: “Os seis pecados capitais da esquerda identitária pós-moderna”

Esquerda identitarios

Um artigo de Eric Fassin publicado no Libération do 6 de setembro de 2010 “Xenófobos, os franceses, não é assim tão certo Monsieur Sarkozy”, apelando à esquerda para se recompor perante a «xenofobia de Estado», dando mostras de audácia e de imaginação perante a campanha da direita, e rompendo com a sua culpada passividade anterior, perante ideias como «o limite de tolerância», oferece-nos a oportunidade de analisarmos como funciona a ideologia da esquerda identitária pós-moderna à qual pertence este sociólogo. Se à partida o seu texto expõe uma intenção generosa e numa abordagem simpática (acabar com a xenofobia de Estado, por muito vago que seja esse conceito), as suas conclusões políticas inscrevem-se no mais subserviente reformismo. Para ilustrar o nosso argumento, fomos ler outros textos do mesmo autor. Se alguma leitora ou leitor quiser comunicar-nos as suas reflexões para enriquecer este artigo (e encontrar um sétimo pecado capital…), estas serão bem-vindas.

O primeiro elemento comum a todos os identitários de esquerda é o apelo à compaixão, compaixão que é alvo de uma manipulação política.

Para a esquerda identitária pós-moderna, não se trata de apostar na revolta contra as injustiças, na vontade de deitar abaixo o sistema capitalista e destruir seus fundamentos, mas de um “sobressalto moral”, como escreve Eric Fassin, invocando as reacções do Papa e de alguns dirigentes da direita. Não, tem que se canalizar essa revolta até uma compaixão caridosa e “cidadã” a favor das “vítimas” das múltiplas “fobias” denunciadas por Fassin e seus amigos: xenofobia, islamofobia, judeofobia, homofobia, etc. As palavras acabadas em “ismo” (racismo, anti-semitismo, etc.) não ganham nada em ser transformadas em palavras acabadas em “fobia” porque passamos assim, sem nos darmos conta, do registo político ao registo psicológico, sendo a fobia mais um medo irracional, eterno, do que uma ideologia que se pode esmiuçar e desmontar, e contra a qual podemos combater colectivamente. A fobia faz parte, antes de mais, do imaginário individual, pessoal. Existe evidentemente uma dimensão psicológica associada a esses fenómenos mas a moda das “fobias” traduz bem mais uma capitulação perante a ideologia dominante que tende a psicologizar as questões e as relações sociais, mais do que afinar as análises políticas.

Mas esta escolha compassiva do pós-modernismo identitário de esquerda é lógica. Na continuidade dos movimentos do pós 68 que salientavam a libertação imediata dos desejos dos indivíduos contra todas as dominações, “a malta tornou-se efectivamente política”, mas de uma maneira inesperada e perfeitamente reaccionária. E a esquerda identitária pós-moderna caiu na armadilha, pensando romper com o dogmatismo marxista (portanto, bem real), com os velhos esquemas obsoletos da luta de classes, etc.

É essa a ideologia que inspira simultaneamente os reality shows e a comunicação política dos grandes partidos, tanto de esquerda como de direita, que encenam os problemas sociais apresentando-os como “individuais”: as mulheres maltratadas ou estupradas; as crianças martirizadas pelos seus pais; as esposas ou companheiras de homens que não as respeitam nem as sabem apreciar, ou que não assumem nenhuma tarefa doméstica, etc.; os imigrantes e seus filhos que sofrem discriminações, arriscam ser expulsos e vivem na angústia e na precariedade; os operários e as operárias despedidos que são expostos em palestras na televisão perante homens políticos paralisados; os sem domicílio fixo que não conseguem arranjar comida – até o nome “Restos du Coeur”[1] é significativo do muito cristão “A votre bon coeur Messieurs Dames”(Grato pela generosidade); de tudo isto até à política assistencialista de Martine Aubry, debatemo-nos em discursos humanitários consensuais e inofensivos para o sistema capitalista.

Os produtores de reality shows e os homens políticos de esquerda pregam, ambos, o “respeito” pelas “diferenças” e pelas “identidades”, sendo as identidades os inúmeros nichos que se têm que rentabilizar ao máximo, por motivos eleitorais ou comerciais.

A principal diferença entre os produtores de reality shows e os profissionais da comunicação política é que aqueles consideram que pertence à vítima a responsabilidade de tomar conta de si mesma (cf. O programa “Super Nanny” e a culpabilização dos pais) ou então esperar o gesto de um caridoso benfeitor ou vizinho bondoso (cf. “Les maçons du coeur” cujo título volta a glorificar as virtudes do famoso órgão fornecedor de compaixão).

Os partidários sociais-democratas da política assistencialista admoestam menos os pobres pelos seus comportamentos do que os apresentadores de televisão (embora a Segolène Royal ou o Manuel Valls sejam entusiásticos adeptos da política securitária e das casas de correcção para proletários selvagens); eles preferem louvar as coisas bem feitas do Estado Previdência ou a adesão a associações, a redes que visam difundir e mobilizar toda a compaixão necessária para “sacudir as coisas”… ou seja, claramente, colmatar penosamente as cada vez maiores brechas de miséria social e económica.

As vítimas prolongadas da miséria social ou psicológica confessam-se no pequeno ecrã; produzem-se programas de televisão e fabricam-se livros em tempo recorde à volta dos seus casos; circulam imagens chocantes (numa entrevista publicada no Libération, um participante da manifestação do 4 de setembro de 2010 contra a “xenofobia de Estado” conta ter decidido vir para a rua depois de ter visionado o vídeo de uma mulher Rom[2] grávida e maltratada pela polícia. Não se trata de menosprezar a indignação suscitada por esse facto ignóbil, mas de sublinhar o impacto da emoção, em detrimento do conhecimento – neste caso do conhecimento das politicas migratórias, que sempre foram hostis aos Rom, e às “pessoas itinerantes” francesas, bem antes da enésima viragem securitária do governo Sarkozy-Fillon exagerada pela esquerda moral).

Dentro do mesmo registo, o apelo “Não à política do cepo!” (eis mais uma metáfora da compaixão e da piedade pelas vítimas!) lançado pela Liga dos Direitos Humanos, mas recuperada e sustentada de maneira acrítica pela esquerda e pela extrema esquerda que expressava bem essa ideologia compassiva pelos “pobres” imigrantes “vítimas” da “xenofobia de Estado” e do “racismo”.

O segundo pilar da ideologia da esquerda identitária é a aproximação de todas as discriminações ao racismo e se for possível ao anti-semitismo genocidário[3], às práticas dos Estados fascistas ou para-fascistas, etc.

O antifascismo pós-moderno é, antes de tudo, compassivo, infrapolítico. Os campos de concentração, os campos de extermínio, a Gestapo, a Milícia, Hitler, Pinochet, Franco, Salazar, Videla, etc., são de facto “horríveis”, “ignóbeis”, “bárbaros”, “desumanos”, tudo aquilo que quiserem, mas não são só isso. A sua dominação, as suas ditaduras, não relevam apenas do uso político das pulsões de ódio e das frustrações sociais duma parte dos dominados, ou para utilizar um termo na moda entre os filósofos de esquerda e os psis, do “ressentimento” dos explorados. Têm uma função política e social, uma racionalidade económica, social e política que temos que destacar, se não queremos ficar confinados a explicações psicológicas ou “essencialistas” do tipo “é da natureza humana…”. E para isso, é preciso deixar o registo da indignação moral e da simples solidariedade sentimental com as vítimas. Mas a esquerda identitária não quer ver o vínculo entre fascismo, nazismo e capitalismo, tal como aliás não dispõe de instrumentos para compreender o estalinismo, em que uma das componentes essenciais sempre foi a defesa da identidade por detrás de um verniz pseudo internacionalista.

O terceiro credo da Esquerda identitária é o respeito pelas leis, pela Constituição e pela democracia burguesa.

É assim que Eric Fassin toma como exemplo as boas leis que souberam reprimir a homofobia e dar aos homossexuais o seu lugar na sociedade francesa. “É a lição do PACS: depois de Lionel Jospin ter acabado por assumir a lei vetada pela esquerda, foi Nicolas Sarkozy quem então, desde o verão de 1999, rejeitando as exageradas jogadas homofóbicas do seu campo, se comprometeu no terreno da tolerância para não o abandonar à esquerda. Os direitos dos homossexuais tornaram-se o cerne da disputa”. As suas considerações mostram bem que, ao contrário de todos os raciocínios na moda dos anos 70 e de certos argumentos feministas e libertários, ainda hoje, o combate à homofobia não ameaça radicalmente a dominação do Capital e do Estado (capitalismo, patriarcado e “hetero-normatividade” – isso é, dominação dos heterossexuais sobre os homossexuais, os trans-género, etc., ao impor normas, por exemplo – sendo supostamente indissociáveis). Que é um combate interclassista, e que, como todos os combates, beneficia sobretudo os burgueses e os pequenos burgueses homossexuais, e muito pouco os operários, os empregados e os trabalhadores imigrantes homossexuais vítimas de discriminação no trabalho e onde habitam.

Esse respeito pela legalidade burguesa, Fassin já o tinha exprimido, assinando, em 17 de dezembro de 2003, um texto sobre o hijab, com outros intelectuais, texto que proclamava “enquanto se recusar a dar aos descendentes dos povos que colonizou a igualdade prometida pela sua Constituição, pelas suas leis internas tanto como pelas suas obrigações internacionais, a França terá problemas”. Ou, na introdução a “A Inversão da questão homossexual”: “Sem dúvida concordamos todos em considerar que as escolhas económicas ou políticas relevam da negociação política. Mas terá que se considerar que as questões sexuais, sejam elas de género ou de orientação sexual, de casamento ou de família, de filiação ou de reprodução, escapam à deliberação democrática?”

“Deliberação democrática”, “obrigações internacionais”, “negociação política”, “Constituição”, “leis internas”, estamos pois a lidar com um democrata burguês.

O quarto credo da esquerda identitária é o respeito das identidades nacionais e por consequência também, de bom ou mau grado, dos Estados nacionais que defendem essas identidades nacionais.

Já que a esquerda identitária não pode atacar frontalmente o mito da Nação, ela é obrigada a separar e a opor, de maneira artificial, os bons nacionalismos progressistas do Sul aos maus nacionalismos (imperialistas, colonialistas, pós-colonialistas) do Norte.

É por exemplo o que diz muito explicitamente Houria Bouteldja, membro dos Indigènes de la République, numa intervenção num debate sobre identidade nacional (http://www.youtube.com/watch?v=FH2lD3Obe_Y ) ou na sua entrevista à revista Hérodote, e que encontramos também no livro de Sdri Khiari «Politique de la racaille»[4].

Não é portanto surpreendente que um identitário como Eric Fassin creia que a esquerda possa tomar a iniciativa no plano da imigração e, assim, obrigar a direita a recuar na sua campanha xenófoba, criar mesmo uma dinâmica eleitoral que fizesse progredir um limite de intolerância à xenofobia e ao racismo, “por que a esquerda não poderia por si mesma retomar a direcção no que diz respeito à imigração ? A evidência do problema da imigração poderia assim desfazer-se logo, sob o efeito de uma nova crença no limite de intolerância”, escreve ele no seu artigo.

Essa proposta mostra a incapacidade de Fassin e sobretudo da esquerda identitária de compreender a função do Estado nacional, e especificamente do estado republicano francês. A «xenofobia de Estado» que Fassin denuncia, com certeza com a maior sinceridade, é constitutiva do nascimento e do desenvolvimento da República Francesa, não só nas suas longínquas colónias mas também no seu território, não só perante os imigrantes das colónias mas também perante imigrantes europeus (dos alemães aos polacos, passando pelos italianos, os portugueses e os espanhóis) – e, se quiséssemos carregar mais um bocado, poderíamos até dizer, como Houria Bouteldja, na sua entrevista acima citada, que o Estado-nacional-republicano francês também esmagou os particularismos locais… Não serve para nada portanto invocar os manás da República (sobretudo os da Terceira, da Quarta e da Quinta!) para combater a xenofobia.

O quinto credo da esquerda identitária é a negação da luta de classes.

Uma identidade que não existe aos olhos da esquerda identitária é a identidade operária ou proletária (a não ser num remoto e vago passado, folclórico, mas que nem é digno do seu famoso “respeito”). Como o ódio aos trabalhadores (“operário-fobia”?) é um sentimento raramente expresso, na actualidade, de forma aberta, nos principais Media e que, não suscitaria guerra, compaixão dos pequenos burgueses e dos Media de esquerda (que só se interessam pelos problemas das “classes médias”), os identitários de esquerda negam ou ignoram a existência dos combates de classe, no passado mas sobretudo nos dias que correm. Esses combates só os podem assustar porque mobilizam (ou mobilizaram), não vítimas que mendigam “reparações” ou “indemnizações de despedimento”, desculpas (do Papa ou de um Primeiro Ministro ou Presidente da República qualquer) ou mais respeito das instituições burguesas, mas os homens e as mulheres que querem derrubar e aniquilar a ordem existente, não apenas consolar-se com algumas conquistas ou alguns direitos, sem tocar na dominação de classe da burguesia e do seu Estado. Esses combates assentam, não só em afrontamentos físicos, mas também em afrontamentos ideológicos que hoje em dia apavoram todos os intelectuais, inimigos do “sectarismo”, do “dogmatismo”, do “esquematismo”.

Assim se entendem os consensos moles a que chegam sempre os militantes de esquerda e de extrema esquerda quando agem juntos, esse menor denominador comum político que mais não é que a ideologia humanitária da esquerda identitária.

O sexto credo da esquerda identitária é um grande respeito pelas religiões, portanto uma incapacidade em afrontar o obscurantismo religioso e as tentativas das igrejas de ganharem mais poder na sociedade.

Esse aspecto não está referido na tribuna livre de Eric Fassin publicada no Libération, mas faz parte do património político dos identitários de esquerda, como testemunham as suas posições favoráveis à “laicidade aberta” e ao multiculturalismo dentro de todas as suas discussões sobre os “signos religiosos ostensivos”, o vestir o hijab e a burka, etc. Não se encontra nunca neles uma crítica radical à religião.

É assim que, no Le nouvel observateur de 6 de maio de 2010, Fassin consegue mais uma vez semear a confusão quando denuncia os ataques crápulas do ministro da Imigração: “Hortefeux pondera retirar a nacionalidade ao marido duma mulher que veste o niqab acusando-o de poligamia. Ora, quando Paul Bocuse se gabou das suas três mulheres (tem uma para o pequeno almoço, uma para o chá, outra para jantar”), quem se indignou? Há que ser francês de gema para poder ser polígamo?”

Partindo duma crítica justa aos delírios de Hortefeux a propósito da identidade nacional, Fassin chega a uma comparação absurda, ridícula, que coloca no mesmo patamar a poligamia islâmica, imposta pela charia, e reconhecida pelos tribunais dos Estados muçulmanos, e a pluralidade de parceiras dum homem, dentro dum quadro que não é regulamentado por nenhuma lei, fosse ela de inspiração religiosa ou laica. O facto de ter várias amantes pode assentar numa relação de dominação (financeira, se ele as sustenta!) ou outra, mas pelo menos essa relação não tem nenhum fundamento jurídico ou legal.

Estabelecendo essa comparação, Fassin justifica, sem dar por isso, a dominação masculina sobre as mulheres (aqui muçulmanas), dominação que a esquerda identitária pós-moderna tanto se esforça por denunciar com trémulos na voz.

Mas a ideologia identitária pós-moderna pouco faz de todas essas contradições quando consegue conquistar algum espaço mediático e político.

Terça-feira 7 de setembro de 2010, por Yves

Y.C.,
“Nem pátria nem fronteiras”,

[1] Cantinas sociais mas cuja tradução à letra seria « restaurantes do coração ».
[2] De etnia cigana.
[3] “ Por outro lado, a experiência das discriminações não fica sem efeito nas vítimas: contribui para a sua constituição enquanto sujeitos. Nos anos 30, muitos se reconheceram como judeus sob o efeito do anti-semitismo”, escreve Eric Fassin, num artigo com o título espantoso: “Raça objectiva vs. (contra) raça subjetiva”. A referência ao anti-semitismo é frequentemente, para os identitários de esquerda, mas também para muitos intelectuais de todas sensibilidades, uma maneira de contrabandear a sua ideologia, bloqueando todo tipo de objeção eventual com a referência ao judeocídio.
[4] Tradução “Política da escumalha”

At http://www.acasaonline.pt

O Padre Constantino

padre_constantino
Nasceu e cresceu num lugar onde a Igreja sempre teve um papel preponderante, mas hoje, às manifestações religiosas o governo responde com balas.

Constantino Buapale Malu, ou padre Constantin, como se apresenta, é um dos três sacerdotes missionários, da Congregação do Verbo Divino, a exercer o seu ministério pastoral em Nisa, na Diocese de Portalegre e Castelo Branco. Partilha esta missão, in solidum, com os também missionários Joaquim Valente e Jomy Jonh. Nasceu em Mikalayi, na Província do Kasai-Ocidental, na República Democrática do Congo. Chegou a Portugal em 2004, com uma parte da licenciatura em filosofia na bagagem, tendo feito cá a parte da teologia, na Universidade Católica. Acabou os estudos em 2008 e foi ordenado diácono em 2009. Em 2 de maio de 2010 foi ordenado padre, em Kinshasa, na presença daa família. O trabalho missionário apontou-lhe novamente o caminho de Portugal, onde começou a trabalhar no distrito de Castelo Branco, no Tortosendo. Em 2013 foi destacado como pároco in solidum para a paróquia de Prior Velho, em Lisboa, e desde 2016 que foi nomeado para Nisa.

Ser missionário é ser cidadão do mundo, e, neste momento, a casa do padre Constantino é Nisa, mas o coração e a preocupação continuam na casa natal, onde o governo, para se manter no poder e não marcar eleições, começou por fazer braço de ferro com a oposição, mas acabou a perseguir a Igreja, entidade que sempre teve um papel preponderante naquele país, tendo inclusive sido chamada a mediar um acordo entre governo e oposição. O acordo fez-se, mas não saiu do papel, e agudizou-se com a morte do chefe da oposição. “A Igreja manifestou o seu desagrado, defendendo que o povo devia tomar a decisão nas suas mãos”, conta, lembrando que, nesse sentido, o conselho laico dos cristãos organizou três manifestações, em que morreram sempre muitas pessoas, mas na última, em janeiro, o cardeal do Congo (que faz parte do conselho papal) disse: Os medíocres saiam e deixem lugar àqueles que têm capacidade para governar o país”. Uma frase que teve o efeito de “uma explosão” e que já resultou na morte “de muitas pessoas, muitos padres, muitas freiras. Os militares vão às igrejas, com armas, e matam as pessoas. O terço e a bíblia são as armas dos cristãos nas manifestações às quais os miliares respondem com as armas de fogo”. Não concordar com o governo significa poder morrer. “A vida do povo congolês e a dimensão da ação da igreja despertou o interesse de muitas pessoas no mundo, incluindo da Igreja Universal, com o próprio Papa Francisco a fazer um apelo a todos os cristãos para rezarem pelo Congo”, recorda ao Reconquista. “Sou congolês, mas neste momento a minha casa é Nisa. No Congo sou uma visita”, reitera, considerando viver a sua atual pastoral num ambiente calmo, próprio dos territórios desertificados do interior, mas “a realidade da pastoral, as dificuldades, acabam por ser as mesmas em todas as paróquias. A nossa missão é encontrar soluções para superar essas dificuldades”. Contudo, estas dificuldades com que se cruza atualmente no Alto Alentejo, contrastam com as da República Democrática do Congo. “Portugal é um país democrático, que estabeleceu linhas de conduta entre o Estado e a Igreja e cada uma das partes respeita as suas prorrogativas, ao contrário do seu país. O Congo tem uma dimensão gigantesca. A guerra no leste do país, que envolve não só os rebeldes congoleses, como outros de países vizinhos, alastraram-se até ao centro”. E neste universo, “as crianças são as mais martirizadas”, uma realidade na província de Kasai Ocidental, motivada pela morte de um soba, em 2016, pois as suas milícias continuaram a luta e o governo acredita que as crianças e jovens são portadores de um “feitiço”, para matar os soldados. Então, “o Governo mandou matar inocentes, sobretudo as crianças, por acharem que eram os que tinham um poder natural sobre eles”. No ano passado visita a sua cidade e constatou que o ambiente é catastrófico. “Vi muitas crianças órfãs, muitas viúvas abandonadas, falta de comida, tanto que os Médicos Sem Fronteiras, além da saúde, ajudam as pessoas a encontrar o que comer e o que beber”. A situação não está bem, “pelo que o Papa pediu para todos rezarem pelo povo congolês. Mas também a nossa Diocese se interessou por esta situação e o donativo para ajudar a criar um Centro de Saúde para ajudar as crianças que já não têm ninguém para cuidar delas e sofrem de má nutrição é muito importante”. Pode ser apenas uma gota no ma de ajuda que se precisa, mas todas são bem vindas. “O desejo é que os cristãos vivam a caridade entre eles, mas não só, porque a caridade começou com a Igreja no segundo século, e esta é uma maneira também de contribuirmos, porque não sofremos na pele aquela atrocidade, mas sofremos no coração, daí o contributo como irmãos.

AJUDA Recorde-se que o bispo de Portalegre e Castelo Branco anunciou que, este ano, 75 por cento da renúncia quaresmal da Diocese será doada à Arquidiocese de Kananga, Província do Kasai Central, na República Democrática do Congo, e ao Fundo Social Diocesano, gerido pela Cáritas, para ajudar a construir um Centro de Saúde na Arquidiocese de Kananga. D. Antonino Dias explicou que o é, sobretudo, “socorrer as crianças roubadas às famílias” e que foram usadas como soldados ou que perderam os seus pais na guerra. O restante valor desta partilha solidária dos fiéis da Diocese, recorde-se, vai reverter para o Fundo Social Diocesano que é gerido pela Cáritas e que “prestou todo o seu apoio à reconstrução”, e a outros gastos inerentes, de 14 casas de primeira habitação que arderam nos incêndios do verão de 2017, na zona do Pinhal.

Quanto aos gestos solidários, são consubstanciados no dom da fé que “não espera recompensa para dar o passo, não exige retribuição para se comprometer. Ao dom recebido responde sempre com a entrega confiante. É motivação, confiança, liberdade e compromisso. Nunca obrigação”. O próprio Papa Francisco convocou, na primeira sexta-feira da Quaresma, uma jornada mundial de oração e jejum papel paz, tendo em mente a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul, comunidades que vivem em sobressalto, devido aos conflitos armados, mas que poucas vezes são notícia ou lembrados na Comunicação Social.

Lídia Barata

At http://www.reconquista.pt

Editorial: “Estar-se-ão nas tintas para tudo isto?”

Joao AlvesNo fim de semana passado, os serviços Municipais de Turismo contabilizaram mais de mil turistas na cidade de Elvas. Atraídos pela distinção da UNESCO, que nos proclamou Património Mundial, os visitantes procuram em especial os nossos monumentos e a nossa restauração.

Foram dois dias de sol, com temperaturas agradáveis, convidativos à descoberta do Forte da Graça, da Igreja de São Domingos ou das Domínicas. Também poderiam ter optado por visitar a Casa da Cultura ou a Sinagoga….Poderiam, se não estivesse tudo FECHADO.

Não deixará de ser curioso que quem se manifestou contra tudo isto foram os próprios militantes socialistas locais, através das redes sociais.

Com excepção da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, antiga Sé, estava tudo de portas trancadas numa cidade que quer viver do Turismo, que pretende manter vivo um Centro Histórico e que deveria tudo fazer para que os seus comerciantes não vissem os seus clientes rumar para outras paragens onde existe vida, como Badajoz, Estremoz ou Évora.

Claro que para isso era necessário mentalizar os nossos políticos governantes que nem todos vivemos do erário público, que há empresários que estão dias e dias sem facturar um euro e que nas câmaras municipais deveriam haver mais funcionários com ideias capazes e práticas bem mais produtivas. Infelizmente o que se vê é o contrário: alguns, bem poucos, profissionais de alta qualidade que são espezinhados, subalternizados e ultrapassados por alguns inaptos que deambulam para aparentar e dar graxa.

Talvez uma leitura atenta da rubrica “Testemunhos de Vida”, com Eurico Candeias (pág’s 10 e 11) os façam perceber o que realmente custa viver o dia-a-dia a muitos conterrâneos elvenses.

eurico candeias 14054119_997217187043230_6891065973603487309_n

João Alves e Almeida

At https://www.linhasdeelvas.pt/

Artigo de opinião: “Israel tem o direito de existir?”

Israel palestine-loss-of-land
Evolução do território do Estado de Israel na Palestina (até 2012). Fonte: Online maps, a partir de Al-Arabiya.
Imaginem que o Estado Israelita se estabelecia em Portugal, ocupava e colonizava o nosso território, expulsando a população portuguesa para gigantescos campos de concentração e terraplanando as suas vilas e aldeias centenárias.

Imaginem que se descobria que andámos este tempo todo a traduzir mal a conversa entre Deus e Abraão e que, em vez de «Prometo dar aos teus descendentes esta terra, desde o Egipto até ao rio Eufrates», se devia ler «do Alvito até ao Rio de Frades». Quem ache semelhante ideia demasiado disparatada para estar na Bíblia deve consultar de antemão o episódio em que Deus envia uma ursa para matar duas crianças que chamaram careca a um homem ou o momento em que Deus pede a Ezequiel para se deitar de lado durante 430 dias alimentando-se exclusivamente de pão cozido em fezes humanas. Adiante. Imaginem agora a não menos disparatada ideia do Estado Israelita se pretender mudar de malas e bagagens para Portugal, concretizando uma profecia da Idade do Bronze mediante a ocupação e colonização do nosso território, expulsando a população portuguesa para gigantescos campos de concentração e terraplanando as suas vilas e aldeias centenárias.

Esta imagem disparatada é um ponto de partida necessário para se poder discutir o Estado de Israel sem ser maquinalmente apodado de anti-semita. É a proverbial pescadinha de rabo na boca: o sionismo precisa do anti-semitismo vivo para justificar a existência de um Estado onde os judeus não sejam perseguidos e os crimes desse Estado encarregam-se de renovar a gangrena anti-semita. Desde a sua criação, em 1948, Israel representa a maior fonte de insegurança e conflitos na região, bloqueando ostensivamente todas as tentativas internacionais de construir uma solução de dois Estados. Para agravar o problema, podemos não ter a possibilidade de passar mais 60 anos a exigir uma solução de dois Estados porque, por este caminho, daqui a 60 anos pode já não haver palestinos na Palestina nem colonos em Israel.

Por detrás do violento projecto de segregação, expulsão e genocídio da população palestina que Israel persegue desde a sua fundação está uma estratégia a que os israelitas chamam «factos no terreno»: um Estado nascido sob o signo do colonialismo (na acepção mais tradicional da palavra, com colonos) torna-se politicamente irreversível ao fim de algumas décadas, por mais ilegal, injusta e brutal que tenha sido o processo de conquista e ocupação. Ninguém pondera, hoje em dia, que os EUA, a Austrália ou a Nova Zelândia deixem de existir por terem sido fundados sob o genocídio da população indígena. Da mesma forma, como se expulsam israelitas que nasceram, cresceram e toda a vida viveram numa terra a que, mesmo por alheia culpa a montante genealógico, chamam sua? Daqui a poucos anos, os colonatos ilegais que Israel constrói sobre as ruínas de aldeias destruídas serão «factos». Ao contrário dos EUA, da Austrália ou da Nova Zelândia, Israel não é ainda capaz de dizimar e assimilar a população indígena. Antes que tal aconteça, é preciso considerar todos os roteiros para a paz, mesmo que não sejam baseados numa solução de dois Estados.

Israel telemmglpict000141989614_trans_nvbqzqnjv4bqw6t5sdes5sk2dnp6ufuszxhxj-wz8zc8a-rddxuu8gk
Quatro pretextos e uma razão

Quando se interpela directamente um Estado e lhe se pede a raison d’être, cada um responde com um mito seminal diferente: um milagre aqui; um rei adormecido sob aquela montanha ali; um pacato piquenique com indígenas acolá, uma disseminação de fé além. A primeira e a mais importante justificação do Estado de Israel é religiosa: o direito a ocupar a terra proviria de uma lenda com 3500 anos segundo a qual Deus terá prometido a Palestina ao «povo escolhido». Aceitar este argumento é aceitar todas as outras guerras religiosas que pretendam invadir, ocupar e colonizar qualquer terra prometida por qualquer deus, o que se aplica, a título de exemplo, ao Estado Islâmico no al-Andaluz.

A segunda justificação é militar: Israel conquistou o território, exercendo, pela força, um controlo efectivo que, quer se goste ou não, é uma realidade.

A terceira é humanitária: na sequência do Holocausto, Israel seria o porto seguro de todos os judeus perseguidos há milhares de anos. Esta justificação, contudo, é uma contradição dos seus próprios termos: não se pode expiar uma catástrofe humanitária causando outra catástrofe humanitária nem se pode proteger um povo esmagando outro povo.

A quarta justificação é política: Israel seria a «única democracia do Médio Oriente», o que implicaria, no entanto, uma trabalhosa redefinição de democracia. Uma democracia não invade todos os países vizinhos nem destrói as casas de milhões dos seus cidadãos; uma democracia não tem leis que impedem uma minoria étnica de viver neste ou naquele lugar; não prende milhares de crianças todos os anos; não assassina legalmente 15 mil opositores políticos; não proíbe uma parte dos seus cidadãos de votar; uma democracia não limita ao mínimo de subsistência o número de calorias a que uma parte da população tem acesso; uma democracia não humilha diariamente a sua população com checkpoints militares; uma democracia não tem cidadãos de primeira e cidadãos de segunda; uma democracia não descrimina conforme a religião; uma democracia, sucintamente, não ocupa nem coloniza. Israel poderá ser tudo: etno-estado; herrenvolk (democracia para a maioria étnica, ditadura para a minoria); apartheid ou Estado colonial. Pode ser tudo menosum Estado democrático.

A quinta e última é a única remotamente aceitável: a criação de Israel na Palestina foi aprovada maioritariamente pelos representantes de todos os países do mundo e, no passado, até as organizações representativas do povo palestino dispuseram-se a reconhecer esse Estado. Porém, o Estado de Israel que a ONU criou não é o Estado de Israel que hoje existe. Como demonstram o mapa e as incontáveis condenações da ONU, Israel é hoje um Estado fora-da-lei. E um Estado inventado pela legalidade internacional só pode existir pela ilegalidade internacional. Se Israel se recusa a cumprir as resoluções da ONU, nomeadamente sobre as suas fronteiras, não tem direito a existir.

Solidariedade, do Alvito ao Rio Eufrates.

Não se trata de uma medida punitiva, mas simplesmente de uma saída de emergência para a paz. Ou seja, o problema pode ser intrínseco à própria existência do Estado de Israel. Uma pesquisa do termo «Israel» devolve títulos como: «Israel ameaça atacar Irão»; «ministra israelita entoa o cântico “vamos queimar a tua aldeia”»; «continuam as expedições punitivas em Gaza»; «Israel ataca posições na Síria»; «Colonatos ilegais “são para continuar”»…

A questão que se impõe não é tanto se um Estado religioso e racista como Israel tem ou não direito de existir mas se essa existência é compatível com a paz. Na África do Sul, a solução para o sangrento regime de apartheid não passou por dois Estados. Porque não podem todos os palestinianos, independentemente de serem judeus, árabes, cristãos, muçulmanos ou ateus, viver em paz num Estado democrático e multi-étnico chamado Palestina?

Hoje Israel é um Estado aberrante que só se mantém pela perpétua continuação da violência contra a Palestina e contra outros países da região, que só sobrevive ligado à máquina da assistência financeira, política e militar dos EUA e que só aparenta ser aceitável aos olhos do mundo porque a comunidade internacional assim permite. A continuidade da existência do Estado de Israel dependerá sempre destes três factores e ainda de outros dois, não menos importantes: a resistência do heróico povo palestino e a solidariedade de todos os povos do mundo.

Façamos a nossa parte sabendo que, se por algum capricho divino, o Génesis dissesse mesmo Alvito e Rio de Frades, poderíamos ao menos contar com a solidariedade do povo palestino.

António Santos

At https://www.abrilabril.pt