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Artigo de opinião: “Reflexão sobre o toiro bravo”

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Esta reflexão que aqui vos deixo, não é mais do que um grito de alerta em defesa de um animal, o toiro bravo, que amo com todas as minhas forças e energia intelectual e, tristemente, vejo esquecido e atacado, resultado de uma ignorância que apedreja a história e a cultura portuguesa. Mas como incorrigível optimista que sou, sempre com a esperança que, aqueles que governam este país, o entendam, o percebam como um verdadeiro guardião da biodiversidade.

O momento que a tauromaquia vive é a todos os títulos dramático e para muitos profissionais insustentável. Devemos compreender de forma clara ao que é que nos enfrentamos, que tempos vivemos e o que está em jogo. A globalização, que na essência me parece ter muitos aspectos positivos, matou ou feriu gravemente a cultura de identidade de cada país ou cada região. É doentio, do ponto de vista do humanismo, impor como progresso uma proibição ao outro, um repúdio aos toiros, à caça, à pesca, à relação homem/animal. A globalização na cultura, é uma realização plena e completa de uma tendência que pretende uma única forma de sentir e perceber a vida. Planificar uma sociedade de religião ou não religião única, ou de moral única, ideologicamente homogéneas é uma atrocidade para a própria Cultura. Porque as culturas de cada lugar dão sentido às gentes, à história, à sociedade, às formas de relações humanas de cada lugar.

Mas, reconhecida que está a sensibilidade actual da sociedade para com os animais, há que compatibilizar e harmonizar o modo de pensar contemporâneo com a Tauromaquia. E aqui temos um argumento de peso, uma razão vital. Não me canso de dizer que o futuro do toureio estará a salvo quando a nossa realidade ecológica imprescindível seja conhecida, compreendida, aceitada e positivada pela sociedade portuguesa. As novas gerações internacionais sensibilizaram-se com um trabalho de sustentabilidade do planeta que a tauromaquia encerra e transporta dentro de si. Mas que se desconhece. Esta é a nossa arma secreta e por muito que nos surpreenda, ninguém a conhece. Hoje não nos reconhecem como ecologistas, mas sim como mal tratadores de animais.

No caso do toiro bravo a aspiração ecologista de que todo o animal habite o espaço próprio que exige a sua natureza, cumpre-se sobradamente e podemos afirmar que o seu status é único no mundo, muito superior ao das reservas africanas de animais selvagens, uma vez que o ganadero de bravo complementa a sua alimentação em épocas de seca extrema e controla regularmente o seu estado sanitário em cumprimento das escrupulosas disposições europeias. A sua perigosidade converte-o em guardião dos bosques, neutralizando a incursão de caçadores e recolectores furtivos, pirómanos e turistas urbanos, dando, no entanto, hospitalidade e segurança a bandos de aves migratórias e outras espécies silvestres muitas delas em perigo de extinção. Portanto, temos uma defesa de uma biodiversidade sempre actual e desejada.

As ganadarias de bravo contribuem na luta contra a alteração climática porque os montados são sequestradores de CO2 e fontes produtoras de oxigénio. A criação do toiro bravo supõe ainda uma barreira contra os incêndios porque a constante vigilância dos animais e as características de acesso às explorações dificultam a deflagração e expansão dos mesmos. E também evitam o furtivismo e limitam o acesso ao maior predador: o homem.

Como afirma Carlos Ruíz Villasuso. pode acontecer que o toureio não se mantenha pela arte do toureio, mas sim pela arte da ecologia. Que ninguém pense que pela cultura, pelo culto chegaremos a um futuro melhor. O culto é o oculto. A cultura hoje significa tão pouco nesta sociedade que, se Manolete nos parece um personagem mítico saído de um quadro de El Greco, para a maioria social nova e manipulada que não sabe sequer quem foi El Greco, Manolete é só um tipo que matava animais. Ninguém já lê Lorca, seguem os passos de uma tal Greta. Vamos por aí, joguemos esse jogo social, porque aí ganhamos por goleada.

A arte de bem tourear, como a cultura, é para paladares sensíveis, mas minoritários, sim muito sensíveis. É uma arte culta. O toureio, no actual panorama social e político, não se irá manter pelo homem, mas sim pelo animal: o toiro. Parafraseando Ramón García Aragón, o toiro bravo é uma força da natureza e sinónimo de liberdade. Não é um animal de companhia nem um peluche. É uma criatura impetuosa, forte e indómita que vive e morre segundo seu instinto natural. É sinónimo de liberdade, de horizontes e espaços abertos; natureza em estado puro. Além do paraíso em que vive, goza de privilégios que nenhum outro animal tem. O homem do campo vigia-o e cuida-o durante toda a sua existência. Ninguém ama mais o toiro bravo do que aquele que o viu nascer e o cuida. Cada toiro tem nome próprio e uma história familiar ao longo de gerações, não se trata de 500 ou 600 kgs de carne para o matadouro. Não é quantidade, é qualidade.

A ganadaria brava e o mundo rural em geral sofrem actualmente uma agressão brutal baseada numa falsidade e manipulação ao serviço de interesses espúrios e ditatoriais. Para eles, este animal e o paraíso natural onde vive nada importa em realidade. Utilizam-no somente para outros fins porque não o conhecem nem o amam. A ganadaria brava não pode acabar num túnel escuro de um matadouro, seria um final sórdido e humilhante, o sentido da sua vida é a lide que lhe dá uma dimensão heróica. O toiro bravo é arte e, portanto, também é cultura e é liberdade. A sua destruição é um massacre cultural e ecológico.

Devemos, portanto, anteciparmos-nos à possível jogada de bastidores políticos, cuja habilidade para mudar os direitos constitucionais a seu gosto, alguns políticos de uma escassa minoria parlamentar já demonstraram grande apetência. Por isto mesmo, os nossos direitos devem basear-se, mais para além de uma lei que existe, mas que incrivelmente não se aplica, não nos defende e que pode ser manipulável, deve basear-se dizia, numa realidade de um ecossistema, o ecossistema do toiro bravo, que tem uma relevância de primeira ordem a nível histórico, antropológico, cultural, social, turístico, económico, artístico e de meio ambiente em Portugal.

Repudio e renego a sociedade sem alma dos animalistas. Uma sociedade sem alma onde o bem não admite outro bem que não seja a sua ideia de bem. A ideia do bem-estar único é Hitler, Stalin, sim. Deles. De Bin Laden e Maduro. Sim. A ideia de que me hão de impor um modelo de sociedade único como única lei e moral e única verdade recorda-me o malfadado sectarismo histórico que perseguiu a inteligência do humanismo. Que perseguiu a liberdade de pensamento. O sectarismo intolerante dos partidos políticos portugueses que defendem o animalismo e ambicionam impor a sua lei, deve ser travado com toda a determinação pela maioria democrática e tolerante.

Assisto estupefacto às ameaças de perseguição e regulação administrativa que sofre a festa dos toiros e todos aqueles que não encaixam na moral única desta nova raça de inquisidores que possuem a sua própria cruz gamada. Temos sempre que colocar o humanismo à frente do animalismo; ainda há pouco, escutando o cardeal Tolentino de Mendonça, uma das mentes mais brilhantes de Portugal, no discurso do 10 de Junho, ele afirmava “… a comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar as pessoas no centro…”

O facto de ser aficionado à festa dos toiros, nunca ofuscou a minha curiosidade sobre as questões éticas ligadas à relação homem/animal na tauromaquia e de considerá-las extremamente importantes. Seria de todo imprudente, que aqueles que conhecem a corrida não se preocupassem do estatuto ético do animal e deixassem o terreno desta reflexão, àqueles que a não conhecem. Em realidade, para se emitir uma opinião fundamentada sobre qualquer questão, neste caso um espectáculo, é necessário entendermos esse mesmo espectáculo. Os que à priori se negam ao seu entendimento, evocando um excesso de sensibilidade, podem presumir do que quiserem menos de entendimento. Poderão presumir se quiserem, de uma sensibilidade instintiva, primária, rudimentar, no fundo reflexa como a de um animal qualquer e reflectem mais depressa um déficit de sensibilidade do que, como afirmam, um excesso de sensibilidade.

Nas cidades já não existe a palavra ganadero e a de agricultor é uma relíquia! E tudo porque a paixão foi desterrada das nossas vidas. O homem cada vez mais, é um aspirante a ser um ninguém. Só com paixão se pode vencer o medo a fracassar. A paixão não é rentável, mas é algo extraordinário! Séneca, o mais estoico dos filósofos, disse que um homem sem paixão está tão perto da estupidez que só lhe falta abrir a boca para nela cair. Esta forma de nos mentirem para nos proteger. Este modo de domesticar a vida e a morte. Essa forma de ocultar a paixão não vá acontecer, que seja boa e peçamos bis. A mesma forma de nos subtraírem a dor. Porque dói.

Esta é uma sociedade onde não têm lugar os poetas, a literatura, a pintura, o génio, o carácter, o talento, o medo e o valor. Um homem de literatura como Miguel Delibes disse que “a Cultura nasce nas vilas e aldeias e destrói-se nas cidades”. Décadas antes um genial Garcia Lorca tinha afirmado que “as vilas e aldeias são livros. As cidades, jornais mentirosos”. Manter a Festa dos Toiros é, entre outras coisas, uma forma de conter a fuga das gentes das aldeias tão abandonadas de vida e de fé em si mesmos. Numa aldeia, o povo possui uma cultura nobre, humana e incorrupta. Numa época onde o correcto é a fronteira dos êxitos só posso “mandar às urtigas” o correcto. O atávico deve manter-se sempre para que o ser humano não seja uma invenção da sua intenção de endeusar-se, de ser protector de um mundo que nós mesmos estamos destruindo impondo-o ao ser humano tecnologicamente abúlico, ditando normas do que deve ou não existir para ser um ser humano; e nisso cai a obsessão de acabar com o toiro bravo.

O homem empenha-se em repudiar tudo o que o perturba. Estamos a insistir em prescindir de tudo aquilo que resulta embaraçoso para uma moral inflexível e única, rígida e granítica. Uma sociedade que se desembaraça daquilo que a agita, converte-se num rebanho de borregos. Nunca vi uma sociedade que tolera tudo o que lhe mandam fazer e tão intolerante com aquilo que os que mandam dizem para não tolerar. Nunca vi uma comunicação social tão vendida e alinhada à nova ordem mundial. Viver sob o tecto sombrio do aceitado é não aceitar que somos capazes de ter inteligência e criatividade. Liberdade. Todas as artes, liturgias ou criações são imperfeitas porque a perfeição só existe na mentira. A perfeição é a mais abominável das imposturas, é o fim do ser humano. Um toiro bravo e um toureiro, uma arena com o seu público, são o mundo imperfeito, selvagem por ser sensível, puro por ser verdadeiro, porque na arena tudo é verdade, morre-se de verdade, não se representa. Não é o animal toiro que desajusta a sociedade, é o animal homem que a deixa perplexa: a morte que pode acontecer numa arena. Tão irracional?! Que os assusta. Pois é precisamente isso que engrandece a Festa dos toiros, é precisamente isso que esta sociedade doente não entende.

O toureio é pura actividade apaixonada sem explicação razoável ou cartesiana ou lógica ou matemática. O toureio não oculta o que esta sociedade oculta porque não domina, porque lhe dá medo: a vida e a morte. A paixão pode matar, mas seguramente faz viver. E isso, a esta sociedade, dá-lhe pânico.

Meus amigos, escondermos-nos não tem afinidade nem com o toureio, nem com os aficionados, nem com os jornalistas. Pepe Alameda escreveu que o toureio não é uma graciosa fuga, mas sim entrega apaixonada. E é bom que as pessoas tomem consciência que isto do toureio não mancha nem suja e é muito digno e mais culto e sensível que muitas das artes bem subsidiadas pelo estado. E não esqueçam que os inimigos do toureio jamais viveram ou viverão nem do seu talento, nem da sua valentia, mas sim do nosso medo atávico e histórico.

Poderão proibir-nos as flores, mas não deterão a primavera!

Galeana, Junho de 2020

Joaquim Grave

(fotografia de Francisco Romeiras, na herdade da Adema – Palha)

At https://sol.sapo.pt/

Artigo de opinião: “De Vilamoura ao Ameixial, uma viagem pelo imaginário serrano!”

Antonio Covas 834924Alimento a esperança de que os mais jovens, mais do que turistas ocasionais, sejam também viajantes, mas, sobretudo, agentes inovadores em projetos de interesse comunitário.

Eu costumo dizer que os territórios não são pobres, estão pobres, num determinado período histórico da sua existência. Além disso, na sociedade do conhecimento, os nossos principais problemas são problemas ou défices de conhecimento.

Acresce que, na sociedade do século XXI, estamos bem-dotados de conhecimento, cultura e criatividade que podem ajudar a mitigar, adaptar e transformar um território, por mais remoto e agreste que ele seja.

É, assim, também, no interior do concelho de Loulé. Em escassas dezenas de quilómetros passamos do universo cosmopolita de Vilamoura, cheio de glamour e pastiche, para o universo remoto e invisível do velho mundo, pleno de histórias e memórias que o tempo apagou.

Esta viagem pelo interior do concelho de Loulé é uma metáfora ao imaginário da serra do Caldeirão e serve apenas para ilustrar a minha ideia de que há uma complementaridade virtuosa entre o litoral e o interior, desde que, obviamente, nos mobilizemos politicamente para resolver o problema.

O sistema operativo do Caldeirão

O Algarve foi quase sempre, como sabemos, lido e praticado na horizontal, seja na linha de costa, na EN 125, na A22 ou na EN 124. Vamos, desta vez, procurar lê-lo na vertical. Façamos, então, uma viagem imaginária e imaginemos que:

1) O concelho de Loulé assume politicamente que a justiça ambiental e a justiça social estão gravemente postas em causa na economia rural do barrocal-serra e, em particular, na serra do Caldeirão; o município assume este desafio como um imperativo categórico, não apenas no campo da mudança climática e da ecologia fundamental, mas, também, nos campos da economia rural e da solidariedade social;

2) A freguesia do Ameixial é eleita como a sede de um ecossistema operativo inovador para a Serra do Caldeirão; trata-se de um projeto de investigação-ação envolvendo, numa primeira fase, o município de Loulé e, numa segunda fase, os municípios do Caldeirão e os principais atores regionais que, para o efeito, subscreverão uma candidatura comum no quadro do programa de recuperação que se desenha neste momento e tendo como pano de fundo um projeto regional sobre a economia da dieta mediterrânica;

3) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um centro operacional de silvicultura preventiva; trata-se não apenas de um centro de limpeza de matos e matas para prevenir os fogos florestais, mas, também, de uma unidade de apoio à elaboração do cadastro florestal e à produção de biomassa;

4) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um centro de ecologia funcional para a biodiversidade e os serviços de ecossistema; trata-se de reabilitar linhas de água e vegetação ripícola, endemismos locais, proteção da fauna e flora serranas, restauração dos ecossistemas e dos serviços de ecossistema (em especial, a compostagem para a produção de solo);

5) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um espaço de coworking empresarial alimentado por um programa de estágios profissionais; trata-se de uma pequena incubadora para iniciativas empresariais que visem o desenvolvimento económico e social do barrocal serra, em especial, nas áreas agro-silvo-pastoris;

6) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um complexo pedagógico, recreativo e terapêutico; trata-se de um complexo com campo de férias e trabalho, residências científicas e artísticas e locais para apoio ao viajante e peregrino das caminhadas e dos percursos de natureza;

7) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, igualmente, um centro de artes e ofícios tradicionais, que é, também, um centro de reutilização de recursos da economia circular e um posto de observação privilegiado das artes da paisagem e arquitetura de amenidades paisagísticas;

8) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, igualmente, um serviço ambulatório de apoio domiciliário em matéria de alimentação, saúde e segurança, pelos diversos lugares dispersos na serra;

9) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, também, um centro de acolhimento de animais abandonados, mas, também, de apoio à fauna em risco e que tem o seu habitat na serra do Caldeirão;

10) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, finalmente, um centro de animação turística; trata-se de rever os percursos de natureza do Caldeirão e os seus postos de observação privilegiados e organizar visitas guiadas, em especial, a rota que une os seus cumes mais altos acima dos 500m.

A economia serrana e a dieta mediterrânica

Tudo o que dissemos acerca do sistema operativo do Ameixial e do Caldeirão necessita de uma fonte de alimentação, ou seja, de uma economia de rede e visitação minimamente organizada.

Imaginemos, então, uma economia serrana composta pelas seguintes atividades: a produção de pequenos ruminantes, a cabra algarvia em primeiro lugar, o mel e a transumância das abelhas, o medronho e os frutos silvestres, o pomar tradicional de sequeiro, o figo da índia, os citrinos, as flores ornamentais e comestíveis, as ervas aromáticas e medicinais, os cogumelos, a caça e os produtos da caça, a cortiça e os produtos do montado, a lenha e o carvão, a limpeza dos matos e das matas, o turismo micológico, a oliveira e o azeite, a compostagem, a biomassa e a microgeração de energia, a provisão de serviços ecossistémicos, os festivais das caminhadas, a gastronomia tradicional, a nova dieta mediterrânica. Mas, também, os produtos transformados, o marketing digital e a produção de conteúdos publicitários e pedagógicos associada ao comércio direto e online de todos estes bens e serviços.

Imaginemos, então, que somos capazes de ligar todas estas atividades, que temos um ator-rede com talento suficiente para articular conhecimento, cultura e criatividade e, assim, gerar novas cadeias de valor, de tal modo que o Ameixial e o Caldeirão se tornem parte integrante dessas cadeias de valor e sinais distintivos tão relevantes como Vilamoura ou Vale do Lobo, os sítios da Fonte Benemola e Rocha da Pena, as minas de água e as levadas, as aldeias típicas do barrocal, as estelas e a escrita do sudoeste, os vales e os hortejos tradicionais, para citar apenas as principais.

Retomo aqui o que já escrevi em outra ocasião. Tomemos, por exemplo, as artes tradicionais do barrocal-serra e pensemos no que poderia ser realizado com algumas pequenas inovações tecnológicas e artísticas introduzidas nestas atividades de tal modo que, a partir delas, se pudesse estruturar um mosaico produtivo e uma economia inteligente de rede e visitação turística.

A partir daqui, poderíamos compor uma pequena economia de aglomeração e visitação e, com um sistema de incentivos adequado, atrair para o barrocal serra os neorurais em busca de uma oportunidade.

As artes tradicionais e a economia da dieta mediterrânica

1. As artes do pastoreio da cabra algarvia
2. As artes da queijaria tradicional algarvia;
3. As artes da tirada da cortiça;
4. As artes do varejo e apanha da azeitona;
5. As artes do varejo e apanha do PTS,
6. As artes da apicultura e da melaria,
7. As artes da pisa a pé das uvas;
8. As artes da destilação do medronho;
9. As artes da apanha do figo da índia;
10. As artes da apanha produtos micológicos
11. As artes associadas à poda e ao enxerto;
12. As artes da cosmética tradicional;
13. As artes associadas às ervas aromáticas;
14. As artes associadas às ervas medicinais;
15. As artes da cestaria e da olaria;
16. As artes associadas às flores comestíveis;
17. As artes associadas à pesca artesanal;
18. As artes associadas à caça e à cinegética;
19. As artes da confeitaria e doçaria locais,
20. As artes da culinária tradicional;

A economia da dieta mediterrânica tem de ser equacionada em redor de cadeias de valor, tangíveis e intangíveis, mais do que em torno de produtos específicos e reunir em doses equivalentes conhecimento, cultura e criatividade, quanto baste. Este é o momento do digital, da ecologia e do combate às alterações climáticas, por isso deve ser prestada uma atenção muito especial à biodiversidade, restauração de ecossistemas e a agroecologia.

Deixo aqui alguns exemplos de cadeias de valor que precisam de ser trabalhadas com muita imaginação no terreno, mas, também, pelo marketing digital, seja através de visitas guiadas, jornadas científicas, festivais de caminhadas, programas pedagógicos para os mais jovens e programas terapêuticos para os mais idosos:

– Um dia na floresta da serra algarvia: a apanha dos frutos silvestres e a destilação do medronho conjugado com o turismo micológico e os percursos de natureza e a gastronomia serrana da dieta mediterrânica;

– Um dia nas aldeias da serra algarvia: a colheita das ervas aromáticas e medicinais, a sua preparação e destilação, conjugado com a visita ao apiário e visitas guiadas ao património vivo e museológico das aldeias; à noite a gastronomia mediterrânica e os serões de música e teatro na aldeia;

– Uma jornada científica e cultural no barrocal serra algarvio: visitas guiadas para a observação dos endemismos florísticos e faunísticos do barrocal e serra algarvios, conjugado com percursos de natureza, as paisagens literárias, a gastronomia mediterrânica e os serões culturais de aldeia; importa lembrar que a inventariação e o plano de salvaguarda da dieta mediterrânica obrigarão a criar uma linha de investigação nesta área em particular;

– Um dia na caça: a preparação e a participação numa caçada, a culinária dos produtos da caça, sessões sobre a natureza e a vida selvagem e o turismo cinegético;

– Um dia na rota da cortiça: a tirada da cortiça e a sua transformação industrial, as artes artísticas e decorativas associadas à cortiça, os produtos e a gastronomia do montado, a apanha de flores comestíveis, as sessões científicas, culturais e recreativas associadas à multifuncionalidade do montado;

– Um dia no pastoreio: pastorear um rebanho de cabras de raça autóctone, recolher o leite e produzir o queijo artesanal, provar a gastronomia da dieta mediterrânica, assistir às sessões culturais e recreativas associadas ao sistema agro-silvo-pastoril;

– Um dia no pomar tradicional de sequeiro do barrocal serra algarvio: a apanha do figo, da amêndoa e da alfarroba, a sua preparação e transformação, o artesanato da doçaria tradicional, workshops sobre a doçaria tradicional, a gastronomia da dieta mediterrânica, sessões sobre artesanato local;

– Um dia na vinha e na adega: o conhecimento das boas práticas de produção na vinha, a pisa da uva, o processo de vinificação, a reciclagem de resíduos, os produtos derivados, as provas de vinho e o enoturismo, a gastronomia da dieta mediterrânica associada, sessões culturais, técnicas e científicas ligadas à vinha e ao vinho;

– Um dia no olival e no lagar: o conhecimento das boas práticas de produção no olival, a apanha da azeitona, o processo de transformação no lagar, a reciclagem de resíduos, os produtos derivados, as provas de azeite e o olivoturismo, a gastronomia da dieta mediterrânica associada, sessões culturais, técnicas e científicas ligadas ao olival e ao azeite.

Estes programas curtos podem, ainda, estar associados com programas especiais para o turismo sénior e o turismo para grupos de mobilidade reduzida e ser articulados, por exemplo, com residências artísticas e produção criativa e cultural (semanas criativas e culturais) e, ainda, com programas de educação física de manutenção e tratamento adaptados a grupos especiais e programas recreativos de eventos e espetáculos noturnos de fados, de teatro, de música de câmara, de canto e poesia, de cinema e documentário, campeonatos de jogos de mesa, concursos vários, etc.

Notas Finais

Em tempo de pandemia deveríamos rever os nossos conceitos de economia do turismo e economia rural e olhar para a totalidade de um território de uma forma mais justa e equitativa.

Não se trata, obviamente, de turistificar a serra do Caldeirão, trata-se de ser magnânimo com o interior esquecido e abandonado e tirar partido do grande volume de turistas que visita a linha de praia e sol do concelho de Loulé.

Depois da pandemia temos de pensar menos em termos de “negócio turístico” puro e duro e mais em termos de cadeia de valor de uma região inteira. Voltar ao “velho normal”, frágil em termos de justiça ambiental e justiça social, não seria uma prova de inteligência.

Há cerca de dez anos, o município de Loulé patrocinou um projeto inovador em espaço rural com bastante sucesso na freguesia de Querença designado “Projeto Querença”. Em boa hora, a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (FMVG) acolheu esse projeto sob a direção esclarecida do Eng. Luís Guerreiro, entretanto falecido.

A minha sugestão ao município de Loulé é que convide a FMVG, a Junta de Freguesia do Ameixial, a Cooperativa QRER sediada em Querença e vocacionada para este tipo de ações e em conjunto desenhem um projeto para os próximos anos, no âmbito do programa de recuperação europeu e do próximo quadro comunitário de apoio para 2021-2027. Seria, também, uma forma singela de prestarmos uma homenagem devida ao Eng. Luís Guerreiro.

Como disse no início, trata-se de uma viagem imaginária pela serra do Caldeirão. Todavia, eu alimento a esperança de que os mais jovens, mais do que turistas ocasionais, sejam também viajantes, mas, sobretudo, agentes inovadores em projetos de interesse comunitário. É nossa obrigação criar as condições mínimas necessárias para que tal aconteça.

Aos amantes da natureza e aos neorurais da agroecologia serrana, o Ameixial e a Serra do Caldeirão aguardam pela vossa visita.

António Covas

At https://www.sulinformacao.pt/

Catarina Eufémia, 26 anos!

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19.5.1954 – Catarina Eufémia, camponesa alentejana, é assassinada a tiro pela GNR, durante uma manifestação de trabalhadores rurais por aumento de salário. As camponesas, reivindicavam o aumento da jorna de 16 para 23 escudos. Assassinada pelo regime, grávida e com uma criança de oito meses ao colo, Catarina tornar-se-ia num dos principais rostos da luta anti-fascista! – Jorge Miranda, at https://m.facebook.com/.

Artigo de opinião: “Será que não aprendemos nada?”

António Tereno - BarrancosTerminado 2019, com tudo o que teve de bom, ou de mau, não será tempo de reflectir, analisar situações menos boas para a tauromaquia, como o sistemático adiar de decisões firmes que deveriam ter sido tomadas em defesa desta Cultura que nos continua a apaixonar, e que muitas vezes tão descuidada por nós é?

Parece-me que muito do que neste espaço dissemos, e das propostas que apresentámos, caiu em saco roto! Não houve coragem para “pegar o toiro pelos cornos”, de dizer alto e bom som o que queríamos, que futuro desejaríamos para o mundo dos toiros, se calhar perdemo-nos pelo caminho. Mas será que assim vamos a algum lado?

Após o imbróglio da situação vivida na Direcção da RTP, com afirmações de determinados responsáveis a defender o corte nas transmissões de corridas de toiros de forma prepotente, como se voltássemos a uma ditadura encapotada. Ditadura de opinião com claro menosprezo das regras democráticas através da apropriação de um importante órgão de comunicação social como a televisão pública, neste caso manobrada por homens de mão do animalismo. Sempre com o beneplácito da ministra da “incultura antitaurina”, a mesma que eu através de Carta Aberta, datada de 1-11-2018, pedi que se demitisse por ter ofendido a Tauromaquia no seu todo – claro apadrinhada pelo Primeiro-Ministro que tendo-se aproveitado desta cultura e da sua projecção em determinada altura, agora que já está no poder a renega. E que vivam os princípios morais!

Agora é proposta uma nova direcção presidida pelo jornalista António José Teixeira, que esperamos respeite todos os que gostam de ver corridas na televisão pública.

Tristemente, voltamos ao Index (instituído em 1559, no Concilio de Trento) da Inquisição de triste memória, á censura nua e crua?

Agora toca-nos a “fava” do aumento do IVA das touradas para 23%, o inevitável e cínico retorno da proposta, agora subtilmente integrada no OE 2020 a ser discutido e aprovado na Assembleia da República, com o apoio dos que mais combatem tudo o que lhes cheira a taurino.

Num País em que o Governo privilegia a injecção continua de milhões de euros (entre 22 a 24 ME) nos Bancos, em detrimento das melhorias na saúde, nas forças de segurança, na educação, nos salários e pensões miseráveis que nos colocam na cauda da Europa, está tudo dito! Será que o aumento do IVA dos espectáculos tauromáquicos vai ser a tábua de salvação do famigerado OE, ou será apenas o pôr-se de cócoras ante o animalismo?

Valham-nos as desassombradas afirmações do advogado e fiscalista Tiago Caiado Guerreiro, nas recentes Jornadas Parlamentares do PSD sobre a dita medida que consta da proposta do Orçamento de Estado: “As corridas de toiros são algo com mais de dois mil anos e que está representado na nossa História. Como é que se pode acabar ou através desta medida perseguir as touradas? Podemos não gostar delas mas não se destrói assim a cultura. Não há direito.”

Mostra-nos também o maquiavelismo com que o Governo encara a nossa realidade taurina, e como “manda ás malvas”, esta forma de expressão cultural, sem qualquer pudor, e apesar de estar consagrada na nossa Carta Magna, a Constituição Portuguesa. Uma vez mais ficámos a dormir!

Deveríamos ter visto todos no Canal TOROS, o excelente e pedagógico debate moderado pelo jornalista Rúben Amón e que contou com a participação do matador de toiros Luís Francisco Esplá, o Presidente da Federação de Peñas Taurinas da Catalunha Paco March, e o escritor e filósofo francês François Zumbiehl. Com tais intervenientes o debate foi esclarecedor, teve a qualidade que hoje falta nos nossos debates/colóquios, definiu a realidade taurina como se vive em Espanha, França, Portugal e América Latina e o importante papel dos municípios franceses na preservação da tauromaquia citando como exemplos a diversidade politica dos Maires de Arles (comunista) e Béziers (extrema direita), ambos defendem a mesma Festa e reivindicam a afirmação de identidade cultural do sul de França. Formas de ver e sentir a tauromaquia, a população destas zonas tem um sentimento de pertença, a Festa é algo seu e participa activamente.

Mais, alguém disse que a tauromaquia é cultura popular e deveria viver alheia ás ideologias políticas. Todos participam, todos sentem e vivem a corrida, porque ela faz parte da vida da cidade!

Aqui ao lado, em Espanha, a capital e referência do toureio apeado, com a formação do novo governo do socialista Pedro Sánchez, e com o líder do Unidas Podemos Pablo Iglesias com Vice-Presidente, devemos preocupar-nos seriamente pelo que se avizinha, tendo em conta que este político é um animalista confesso e opositor a tudo o que seja tradição popular!

Os ventos que correm não são bons, em todo o mundo taurino sucedem-se os ataques organizados e violentos contra a nossa forma de estar e viver esta arte ligada aos toiros. Quero ser optimista, mas estaremos devidamente organizados para responder aos mesmos? Tenho sérias dúvidas, e apenas responder não basta.

É preciso tomar a iniciativa, ou será que ainda não aprendemos nada?

António Sereno

At https://toureio.pt/

Opinião: “Discursos políticos”

Joaquim Costa 58379999_784290528610838_5721773925860376576_nEstou a pensar nos discursos dos políticos que vamos ouvindo e vendo todos os dias nos vários órgãos de comunicação. Sou um velho militante do PS, mas este meu desabafo não tem nada a ver com a força politica que sempre defendi desde o 25 de Abril, pois nunca vivi da politica, embora tenha desempenhado alguns cargos ligados a câmaras como todos aqueles que me conhecem sabem. É com alguma tristeza que causa o discurso de alguns políticos, isto é, mais bem dito, oportunistas, que revelam, pela sua expressão física, pelo tom de vós agressivo, que revelam a raiva que lhes vai na mente. Notasse muito bem quando a pessoa fala e expressa o que lhe vai na mente e que luta pelo bem comum, ou quando fala cheio de raiva, com ataques agressivos aos seus opositores, atacando com mentiras, com argumentos sem sentido, ofendendo aqueles que falam verdades de factos verdadeiros. Rui Rio parece que esta num circo, fala de coisas sem sentido, sempre com ar cínico e agressivo, talvez porque sabe que vai perder, o que mostra que não tem condições para o cargo de primeiro ministro, depois temos senhora do CDS, que causa pena e nojo, só agressões, conversa sem senti do que revela desconhecimento, basta ver o que fez quando ministra da agricultura, só plantou eucaliptos, depois temos os outros partidos com assento na AR às vezes um pouco azedo mas dentro do aceitável, depois temos os novos partidos que, pelo menos alguns não vale apenas comentar, todos sabemos o que procuram. Finalmente temos o Homem com provas dadas que se chama António Costa, pessoa que já mostrou as suas capacidades em varias missões que desempenhou, pessoa para quem a honra, a dignidade contam cuja intenção é trabalhar para melhorar a vida de todos os portugueses, cuja a acusação que lhe fazem é que sabe unir as pessoas, mas isto revela uma das suas capacidades, não é um defeito é uma virtude. Por tudo isto, se queremos um Portugal melhor temos de votar PS.

Joaquim Costa

Ex-presidente da Concelhia de Nisa do PS

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Artigo de opinião: “Elvas vs Badajoz”

Diogo lvg3uetS_400x400.jpgCerca de 1890, mais coisa menos coisa, Badajoz tinha mais 3 mil habitantes do que Elvas. Hoje, em 2019, Elvas tem cerca de 18 mil habitantes e Badajoz tem 150 mil habitantes.

Duas realidades bem diferentes, lado a lado, separadas apenas pela fronteira entre os dois países. Duas apostas totalmente diferentes de políticas públicas e de visão de território. Duas cidades do interior. Aliás, Badajoz é hoje uma potência em crescimento. De investimentos realizados, lá até se sonha com uma futura Disneyland.

No fundo, temos do lado de lá da fronteira, uma terra que está mais longe de Madrid do que de Lisboa. Uma terra longe, bem longe do litoral. Mas é o espelho de opções políticas e económicas acertadas, por comparação com um interior de Portugal isolado e abandonado. Medi bem as palavras. Portugal tem um interior abandonado. Tirando os resistentes que por lá vivem, que por lá investem e que por lá ainda resistem, Portugal é hoje um país assimétrico e sem visão de território. Um país pequeno, que somos, contudo macrocéfalo e desnivelado para o litoral. Com esta dimensão e com um abandono total de uma visão integrada para o território, que lhe permita reduzir a perigosa assimetria, que desde os anos 60 do século passado se construiu. Se está a ler este artigo pergunto. Já foi a Portalegre? A Fronteira? À Covilhã? A Boticas? É extraordinário, apesar de tudo, o trabalho de muitos dos nossos autarcas. E até de empresários. Como é fantástico que, em Boticas, por exemplo, exista uma empresa de concepção de redes de pesca, que garante emprego e forte dinamismo económico. Bons, mas, infelizmente, raros exemplos.

Todavia vamos ser claros, para que não restem dúvidas, por melhor que seja o trabalho das Câmaras Municipais e de algumas empresas, isso não chega. Não há desenvolvimento sem verbas, sem estratégia, sem planeamento e sem visão de conjunto ao nível nacional. Conceitos caros e raros neste país que tudo faz em cima do joelho. Que vive sem reformas de fundo, sem horizontes e que, apesar de estarmos em plena campanha eleitoral, pouco se discute do que realmente importa ao interior, apesar das soluções avulsas como baixar IRC das empresas no interior ou Vistos Gold para estas zonas. São propostas bondosas? São. Claro que são. O leilão fiscal é sempre atractivo. Mas não chega. Não basta. É curto. Precisamos de mais, de um planeamento a longo prazo, com compromissos na sociedade portuguesa, por forma a que “territórios de baixa densidade” deixe de ser um eufemismo para descrever aquilo de que o país urbano, concentrado nas grandes cidades do litoral, se esqueceu e só se lembra a cada tragédia que acontece, como os fogos florestais, mas rapidamente perde de vista. Precisamos de quem pense o território de facto e não como mera esmola ou distribuição de fundos, a abordagem tem de ser integral e não uma mera lista desgarrada de medidas, senão como criar ou potenciar sinergias e gerir processos interdependentes, como são os que ligam território, economia e demografia. Podemos ser ainda mais claros? As CIM e CCDR são boas intenções, mas diminutas para a natureza do problema. Precisam de mais escrutínio e de mais poder. Precisam de ter uma visão regional e não podem ser uma mera burocracia do Estado Central para um dado território administrativo, criado à boleia das regras comunitárias de distribuição de fundos. Somos, de facto, um país desequilibrado. E este desequilíbrio precisa de ser enfrentado de frente. Alguém tem coragem de assumir, de facto, políticas de coesão territorial? É por falta de coragem e vontade que existem casos tão díspares como Elvas e Badajoz. Duas cidades vizinhas, mas que contam com Governos centrais e lógicas regionais totalmente diferentes. Era isto que também gostava de ver debatido, de forma séria, numa campanha eleitoral em Portugal.

Diogo Agostinho

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Opinião: “O fantasma de Salazar e o Reitor da Universidade de Coimbra”

Raquel 10464109_10202306149190196_3394916574196011546_nO Reitor da Universidade de Coimbra não decidiu excluir a carne de vaca. Decidiu que quem tem menos dinheiro vai deixar de comer carne de vaca. As cantinas são os locais onde os filhos das classes pobres e médias empobrecidas comem. Quem tem dinheiro vai continuar a comer carne, do lombo. Os filhos de quem pode, como os meus, irão comer carne do lombo, de qualidade, bio. No norte da Europa já se serve carne bio em algumas universidades por onde ando. Em Portugal acaba-se com a carne. A periferia não é verde, é inexistente. Na verdade a medida do reitor é análoga à generalização dos parquímetros, uma privatização do espaço público. Quem tem dinheiro continua a ter acesso à cidade por carro. Estas medidas não são ecológicas, são classistas. Ecologia era transportes públicos das zonas pobres para o centro. Ecologia era subsidiar na Escola Agrária da Universidade produção de agricultura biológica e fornecer nas cantinas para que pelo menos algumas vezes pudessem comer proteína de qualidade. Ecologia era um Reitor defender a agricultura sustentável ser cada vez mais subsidiada. Assim o reitor o que fez foi reduzir a despesa da Universidade de Coimbra que agora vai oferecer frango de aviário, um mutante que nem frango devia chamar-se. Também vai ficar bem nas contas gerais da Universidade servir na cantina (paga com os nossos impostos) soja geneticamente modificada – é a transição energética.

A “transição” está a relevar-se uma forma de privar ainda mais os mais pobres de tudo, irão pagar mais impostos verdes, estão privados da cidade “verde”, num subúrbio cinzento, vestem fibras horrorosas enquanto fabricam algodão natural de design inovador em fábricas super poluentes, e agora podem esperar esta moderna versão Jonet de “não de pode comer bifes todos os dias”. Tudo para o bem deles, como se sabe se os ricos não cuidassem dos pobres eles jamais saberiam o que fazer. Agora por exemplo, imagine-se!, querem comer bifes que fazem tão mal à saude e ao planeta…

Vou poupar-vos ao óbvio. A poluição é grave mas o mundo não está a acabar. É preciso medidas sérias, e não hipocrisia disfarçada de ciência. Comer carne em idades jovens, quando se estuda, é essencial ao cérebro. Nos colégios onde se formam elites dirigentes do mundo posso garantir-vos que a carne é biológica e do lombo. Comer muita carne faz mal, não comer nenhuma faz muito mal. Outro dado: um dos maiores estudos de saúde do mundo provou que a segurança no emprego e a autonomia podem aumentar 18 anos a esperança média de vida e o medo fazer cair a mesma 18 anos, pela produção de cortisol. Nada faz tão mal à espécie humana hoje como o medo da sobrevivência, condição em que vão estar a grande maioria dos jovens estudantes da Universidade de Coimbra quando entrarem no mercado de trabalho. Coisa que não preocupa o reitor. O fim do planeta para o Reitor é uma garantia, é o dilúvio bíblico que exige medidas radicais. Já o facto de que os que estudam na Universidade virem a ter empregos em que não chegam ao fim do mês, bom isso já não é bem uma certeza, nem diz respeito a um Reitor, que cuida do Planeta.

Que o PAN, que representa o ultra liberalismo verde, seja a favor comprende-se. O silêncio dos outros partidos, com algo tão fundamental quanto o que se serve de alimentação numa instituição pública, por nós financiada, é inexplicável.

Para compreender o mundo, e a atitude de um Reitor, é preciso saber teoria do valor. E o valor da teoria. Marx explicava que a tendência do capitalismo era para tornar vegetarianas as classes trabalhadoras, desde logo diminuindo a parcela de proteína a que têm acesso na reprodução da força de trabalho, vulgo salário. Os chineses perceberam bem isso – ali, nas fábricas, come-se arroz. E mais nada. Ainda vou assistir à glorificação do Estado Novo em plena Universidade de Coimbra, o fantasma do Salazar a rondar as salas escuras, de ilusão esverdeada – carne faz mal, melhor só no Natal.

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/