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Opinião: “Como te atreves, José Manuel Fernandes?”

luis osorioJosé Manuel Fernandes, líder do projeto Observador, atacou esta manhã Greta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que tem liderado o combate mediático contra as alterações climáticas. Fê-lo de uma forma indignada. Estava até incomodado porque a miúda tinha sido irrealista, radical e, pasme-se, malcriada. Estar ali, entre os poderosos do mundo, ainda por cima como convidada das Nações Unidas, e insultar os líderes políticos não é coisa que pudesse ser admissível ou tolerável.

Vamos lá a ver. José Manuel Fernandes aos 15 anos era militante maoísta. Participava apaixonadamente num dos partidos revolucionários de extrema-esquerda, um “ml” qualquer. Defendia o regime albanês de Enver Hoxha e a revolução cultural de Mao Tsetung. E estava disponível, como os seus camaradas do MRPP e de todas as outras fações, para uma revolução que rebentasse de cima/abaixo os alicerces do Estado Novo e o conservadorismo do Partido Comunismo. Na adolescência, José Manuel Fernandes era um radical. Malcomportado. E certamente irrealista.

Tinha 16 anos. Já não se deve lembrar. Porque o seu discurso paternalista acerca da juventude é uma desgraça. E falar assim de uma miúda que tem contribuído para uma viragem da opinião pública sobre as alterações climáticas é irresponsável e narcísico. Um cinismo que fica bem entre intelectuais e uma certa elite, mas que não é admissível. E que choca com a sua própria realidade. Uma pessoa pode mudar. Pode e deve, acrescentaria – também eu militei na juventude no PSR. Mas não pode esquecer-se do que é ter 16 anos. Do que é sentir a injustiça e agir. Do que é querer mudar o mundo e assumir os riscos. Do que é ser radical por ser a única forma de se ser ouvido. Do que é ser malcriado por não se aceitar as convenções e a hipocrisia.

Não estou a dizer que concordo com as premissas. Afinal, eu não sou Greta. Mas adoraria que ela fosse irmã dos meus quatro filhos. Teria um orgulho enorme numa mulher que assume um combate decisivo e arrisca a vida numa batalha pelo futuro. o futuro de todos nós. O dos filhos e netos de José Manuel Fernandes também.

Um dia escrevi um pequeno postal aos meus filhos que depois publiquei em “Amor”, um livro de pensamentos. Lembrei-me dele ao ver Greta ontem a interpelar os políticos

“A juventude não é juventude se não vivermos como se fossemos morrer amanhã. Não é juventude se não encontrarmos o nosso próprio destino, se não afrontarmos os que acham ser donos do caminho. Não é juventude se não arriscarmos, se não abrirmos a janela e respirarmos fundo de tanto acreditar que é possível o que quisermos que seja possível. Não é juventude se não começarmos a tratar por tu o silêncio e a solidão e se não tivermos medo de falhar. Se não nos apaixonarmos, se não chorarmos de raiva, angústia, se não gritarmos. A vida é a vida. A juventude não é juventude se a tratarmos como se fosse uma série de 30 ou 50 minutos com intervalos. Na vida os episódios não duram esse tempo, a juventude não é juventude se cada minuto não for vivido com intensidade, dure o que durar. E sem intervalos publicitários. A juventude não é juventude se tivermos a televisão ligada. Entendem, meus filhos?”.

Luis Osório

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Opinião: “O fantasma de Salazar e o Reitor da Universidade de Coimbra”

Raquel 10464109_10202306149190196_3394916574196011546_nO Reitor da Universidade de Coimbra não decidiu excluir a carne de vaca. Decidiu que quem tem menos dinheiro vai deixar de comer carne de vaca. As cantinas são os locais onde os filhos das classes pobres e médias empobrecidas comem. Quem tem dinheiro vai continuar a comer carne, do lombo. Os filhos de quem pode, como os meus, irão comer carne do lombo, de qualidade, bio. No norte da Europa já se serve carne bio em algumas universidades por onde ando. Em Portugal acaba-se com a carne. A periferia não é verde, é inexistente. Na verdade a medida do reitor é análoga à generalização dos parquímetros, uma privatização do espaço público. Quem tem dinheiro continua a ter acesso à cidade por carro. Estas medidas não são ecológicas, são classistas. Ecologia era transportes públicos das zonas pobres para o centro. Ecologia era subsidiar na Escola Agrária da Universidade produção de agricultura biológica e fornecer nas cantinas para que pelo menos algumas vezes pudessem comer proteína de qualidade. Ecologia era um Reitor defender a agricultura sustentável ser cada vez mais subsidiada. Assim o reitor o que fez foi reduzir a despesa da Universidade de Coimbra que agora vai oferecer frango de aviário, um mutante que nem frango devia chamar-se. Também vai ficar bem nas contas gerais da Universidade servir na cantina (paga com os nossos impostos) soja geneticamente modificada – é a transição energética.

A “transição” está a relevar-se uma forma de privar ainda mais os mais pobres de tudo, irão pagar mais impostos verdes, estão privados da cidade “verde”, num subúrbio cinzento, vestem fibras horrorosas enquanto fabricam algodão natural de design inovador em fábricas super poluentes, e agora podem esperar esta moderna versão Jonet de “não de pode comer bifes todos os dias”. Tudo para o bem deles, como se sabe se os ricos não cuidassem dos pobres eles jamais saberiam o que fazer. Agora por exemplo, imagine-se!, querem comer bifes que fazem tão mal à saude e ao planeta…

Vou poupar-vos ao óbvio. A poluição é grave mas o mundo não está a acabar. É preciso medidas sérias, e não hipocrisia disfarçada de ciência. Comer carne em idades jovens, quando se estuda, é essencial ao cérebro. Nos colégios onde se formam elites dirigentes do mundo posso garantir-vos que a carne é biológica e do lombo. Comer muita carne faz mal, não comer nenhuma faz muito mal. Outro dado: um dos maiores estudos de saúde do mundo provou que a segurança no emprego e a autonomia podem aumentar 18 anos a esperança média de vida e o medo fazer cair a mesma 18 anos, pela produção de cortisol. Nada faz tão mal à espécie humana hoje como o medo da sobrevivência, condição em que vão estar a grande maioria dos jovens estudantes da Universidade de Coimbra quando entrarem no mercado de trabalho. Coisa que não preocupa o reitor. O fim do planeta para o Reitor é uma garantia, é o dilúvio bíblico que exige medidas radicais. Já o facto de que os que estudam na Universidade virem a ter empregos em que não chegam ao fim do mês, bom isso já não é bem uma certeza, nem diz respeito a um Reitor, que cuida do Planeta.

Que o PAN, que representa o ultra liberalismo verde, seja a favor comprende-se. O silêncio dos outros partidos, com algo tão fundamental quanto o que se serve de alimentação numa instituição pública, por nós financiada, é inexplicável.

Para compreender o mundo, e a atitude de um Reitor, é preciso saber teoria do valor. E o valor da teoria. Marx explicava que a tendência do capitalismo era para tornar vegetarianas as classes trabalhadoras, desde logo diminuindo a parcela de proteína a que têm acesso na reprodução da força de trabalho, vulgo salário. Os chineses perceberam bem isso – ali, nas fábricas, come-se arroz. E mais nada. Ainda vou assistir à glorificação do Estado Novo em plena Universidade de Coimbra, o fantasma do Salazar a rondar as salas escuras, de ilusão esverdeada – carne faz mal, melhor só no Natal.

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

Artigo de opinião: “É hora de desobedecer”

Matilde Alvim.jpgEm jogo estão os recursos naturais, o equilíbrio de forças, a sobrevivência e a justiça. Então, como nos podemos resignar e conformarmo-nos com um sistema que abre caminho, a toda a velocidade, em direcção ao ecocídio e à catástrofe climática?

Desobedecer, sim.

Perante o cenário de um futuro caótico e depois de décadas de tentativas praticamente falhadas, só nos resta a desobediência. De forma pacífica, sempre, mas não menos perspicaz.

Parece quase óbvio. Se estivéssemos, num futuro distante, a olhar para trás na História e a ver esta fresta de tempo que estamos a viver, interrogar-nos-íamos sobre o porquê de não termos feito nada. É quase instintivo: em jogo estão os recursos naturais, o equilíbrio de forças, a sobrevivência e a justiça. Então, como nos podemos resignar e conformarmo-nos com um sistema que abre caminho, a toda a velocidade, em direcção ao ecocídio e à catástrofe climática?

A desobediência civil é o acto consciente de um ou mais cidadãos desobedecerem à lei, num acto de protesto político que demonstra desacordo e inconformidade com a ordem estabelecida, existindo várias formas de o concretizar pacificamente. Já Thoreau, no século XIX, usou a desobediência civil como um meio para contestar a guerra americana contra o México, recusando-se a pagar impostos (que financiavam essa mesma guerra). No fundo, a premissa passa por questionar se a lei equivale mesmo à moral, e qual a legitimidade que os cidadãos comuns têm em desobedecer às estruturas superiores quando estas entram em conflito com a sua ética. Como diria Thoreau, o cidadão não pode nunca resignar a sua consciência à legislação, abandonando-a e deixando-a a cargo do poder político. Para além do mais, é até responsável quando apoia os agressores e a injustiça, mesmo sendo este apoio a simples resignação e obediência à lei.

A verdade é que cerca de 100 empresas são responsáveis por cerca de 71% da emissão de gases com efeitos de estufa (GEE) e, enquanto as emissões anuais sobem para recordes históricos, as minas de carvão e as petrolíferas continuam tranquilamente a sua exploração, isentas e impunes de qualquer responsabilização e até, em alguns casos, apoiadas por estados. Talvez a parte mais absurda é que esta situação é, sem dúvida, a ordem dada como normal e até aceitável.

O movimento ecologista surgiu nos anos 70. As emissões globais de GEE aumentaram 75% desde esses anos até 2004, segundo dados do estudo da Netherlands Environmental Assessment Agency.

E agora? Agora, depois de décadas a tentar chamar a atenção para o problema usando o protesto legal, é hora de recorrermos à insubordinação pacífica contra o sistema que permitiu não só que a crise climática se criasse, como a alimentou conscientemente. Serão legítimos os bloqueios a minas de carvão, os acampamentos em prospecções de gás e as obstruções de vias públicas? Sim, sem dúvida. Com certeza não será legítima a destruição do planeta de todos em prol dos interesses de alguns. Aceitar esta situação é compactuar com ela e ser, em parte, responsável e cúmplice da sua continuação e da loucura da crise climática.

A verdade é que a maioria dos cidadãos comuns condena a destruição ávida dos ecossistemas, a exploração frenética dos recursos e o contorno sistemático às normas e leis ambientais em nome dos interesses corporativos, é só verificar a enorme onda de solidariedade após os incêndios na Amazónia. Mas mesmo que estas atrocidades ambientais, inseridas num sistema que as banaliza, vão contra a vontade e a ética dos cidadãos, muito poucos têm a coragem de se insubordinar.

E parece tão óbvio, tão simples, quando olhamos para os livros de História e nos perguntamos o porquê de poucos terem tido a coragem de se revoltar contra a escravidão ou desobedecido ao nacional-socialismo. E vai parecer cristalino quando, por fim, encararmos o futuro que nos espera se não agirmos, olharmos para trás e perguntarmos a nós próprios: porque é que ninguém se insurgiu?

E é tão óbvio: ou é agora ou é nunca. É hora de reunir a nossa coragem.

Matilde Alvim

Estudante e activista pela justiça climática na Greve Climática Estudantil

At https://www.publico.pt/