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Artigo de opinião: “Fechem o país”

Raquel Varela 36397388_10212151214190668_1506337673151774720_nOntem fui pedir o passe social, aqui no meu bairro privilegiado da Linha. Ando de comboio várias vezes por mês, ao contrário do líder do CDS, que andou uma vez na vida. Há anos que há “supressão de comboios”. Portanto, se vou para reuniões ou aulas com horário marcado vou de carro, não tenho opção. Mesmo assim insisto no passe, eis que chego, e sou informada, às 4 da tarde, que agora a bilheteira fecha às 3 da tarde, “falta de pessoal”. Mas, este não era o país que tinha funcionários públicos a mais?

Nada que se compare, ainda, com o nosso casamento no ano passado, chegámos pelas 4 da tarde à Fontes Pereira de Melo, registos centrais, não foi a Ansiães. Um negro, Securitas, cara de mau, diz-me que não há já senhas, vejo na máquina que casamentos e registos está cortado, com o x vermelho, mas divórcios aberto. Perguntei-lhe se não dava para tirar a dos divórcios e subir e tentarmos a nossa a sorte. Um riso de dentes brancos, riso cheio, dá uma grande gargalhada: “A Sra ao menos não vem aqui gritar comigo, tem bom humor, todos gritam, a Sra não casou e já quer divorciar” – seguem-se mais gargalhadas. Ele era da Guiné, ficámos a conversar sobre Amílcar Cabral, nossa afinidade de afectos.

Começámos ontem a inscrever os nossos filhos no Portal das Matrículas, estamos há 4 dias a tentar, não funciona, vai abaixo, ligamos para a Direcção Geral de Educação e a Sra que nos atende confessa que o “sistema não é bom”. O cartão de cidadão esperámos 3 meses e foi por “especial favor”, disse-nos a funcionária, triste. E o passe social, já me disse o Sr da CP, conheço-o há 20 anos, gente boa, uma vez cuidou até de um aluno meu estrangeiro, que estava perdido, está visivelmente deprimido com o que vê, encolhe os ombros a toda a hora. “Olhe, Dona Raquel, pode ser 10 dias, mas pode ser 30, se quer rápido vá ao Cais do Sodré”. Das finanças não há notícia de restituição do IRS porque, embora já tenha explicado o erro, que não é meu, não há funcionário para validar. Olha, Centeno, põe por favor esta cativação do meu IRS a render juros da divida pública, pode ser aqueles juros onde o Berardo tem títulos via as propriedades que tem no Canadá. Tudo deve dar lucro. Ontem por exemplo coloquei gasolina em vez de gasóleo e logo apareceu um senhor que por especial favor me despejou o depósito por 90 euros. Lembrei-me de ti Centeno, tudo rende neste mundo, e é tudo para nosso bem, estás a salvar-nos. Ontem o Sr até me disse “faço por gosto, nunca deixei ninguém desenrascado”, sacou logo de um cartão, para a próxima se a Sra precisar. Olha Centeno, leva este para a Europa, vai ser de boa ajuda.

Ah, entretanto fui ao Cais do Sodré, eram 3 da tarde e já não havia senhas – só gente indignada, em todas as línguas, a gritar com funcionários em colapso. Morri de pena, dos que gritavam, dos que ouviam gritos, e pena de mim, da inação a que chegámos. Fui-me embora, vou de carro, é o salve-se quem puder.

Hoje 4 maternidades fechadas, até Setembro, não era para emigrarem e pagar ao FMI, fechando as vagas para especialistas, criando um mercado privado? São centenas de médicos à espera e não lhes abrem vagas? Mas temos Centeno na Europa! Não é um orgulho? Mas…, espera, este não ia ser o Governo da “reposição de rendimentos”? Que bons alunos nós, ai que vem lá direita, um perigo. E a maternidade de Portimão, sim, não é Marmelal, é a maternidade da segunda cidade do Algarve, ora, ora, vão parir a 60 km, paciência, há risco sistémico se não pagamos…Desculpem, pagamos o quê, a quem? Sois vós como eu portugueses que pagam impostos, como nunca pagámos, e nos dizem que devemos, mas a quem? Essa dívida, cuja factura por “risco de perturbação da ordem pública” nunca nos foi dada mas pagamos cada cêntimo com o colapso dos serviços, até da vida, foi afinal contraída por quem, quando e para quê? A ordem pública, senhores, está em colapso. E o pior está para vir enquanto não percebermos que é a senha do divórcio, a ruptura com este estado a que o Estado chegou, que vai evitar conflitos gigantescos. Ninguém sabe a dimensão apocalíptica da próxima crise, nem o tsunami social que este ressentimento com a injustiça vai causar. Pensem.

Conseguimos casar no ano passado porque o meu marido é uma delícia, eu disse logo amo-te para a vida mas 10 horas de fila não sou capaz, ele é um cavalheiro à moda antiga, riu-se, e foi para lá às 6 da manhã, altura em que a fila já tinha mais de 100 pessoas, uns para casar, outros para divorciar, a vida não pode parar. Eram 12:30 quando me ligou e disse só “estão 4 à frente” – ufa, corri para lá, fomos atendidos, querem tirar uma fotografia?, não obrigada, queremos mesmo fugir daqui. A vida não são selfies. Vamos celebrar mais tarde com quem amamos, com paz, se ficarmos por aqui, neste caos, vamos precisar da senha do divórcio. Ah! À hora que vos escrevo ainda não tenho o passe social. Vejam pelo lado positivo – pelo menos não vou a caminho de uma cidade a 60 km para parir. E ainda vou ter um dia de folga – dado pelo PS em campanha eleitoral – para levar os miúdos à escola. Escola onde ainda não os consegui inscrever. Já perdemos, nós doutorados, 4 dias no Portal, em vão. Não imagino como estão os pais em Ansiães.

Compreendo que o PS e o PSD queiram fazer um pacto de regime, não compreendo é como o PCP e o BE assistem a isto indignados, mas catatónicos. A ideia de que a vida política está toda no Parlamento é um erro de palmatória. Discursos no Parlamento não têm servido de nada. O grave é que temos um movimento, que os partidos ainda dirigem, político, sindical e social morto. Sem acção alguma. Os custos destes pequenos partidos não reagirem socialmente e perderem votos são altos, é certo. Mas apoiando isto o risco de perderem o país é certo, e mais alto.

Não estou em pré-campanha, nunca apoiei este Governo, nem o vou apoiar. Também não apoiei o outro. Aguardo pacientemente que os portugueses mais decentes, conscientes, ágeis, astutos, que têm princípios, e são responsáveis voltem a assumir socialmente um papel na história. Até lá não posso fazer muito a não ser escrever e retratar o país real. Doa a quem doer.

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

Artigo de opinião: “Afinal, pode haver vida para lá do PIB”

Rui Tavares Guedes zskbL3GMA conclusão a que Jacinda Ardern chegou, na Nova Zelândia, devia ser um exemplo para o mundo: o crescimento do PIB não conduz, só por si, a um país melhor.

Porque é que temos a tendência de olhar para a realidade e achar que as coisas estão sempre piores do que aquilo que, na realidade, estão? Porque é que ganhamos o hábito de prestar mais atenção aos indicadores negativos do que aos positivos? Há várias explicações para que isto suceda. Pode ser fruto da reação dos nossos instintos de sobrevivência, sempre prontos para nos alertarem para os perigos. Mas também pode ser a consequência lógica de quem se habituou a olhar apenas para alguns factos, deixando muitos outros fora de foco e ausentes da sua visão final sobre a realidade. Numa época em que estamos cada vez mais inundados de informação, aumentámos a nossa capacidade de nos sobressaltarmos com factos e acontecimentos, mas perdemos o discernimento para apurar tendências. Valorizamos a última estatística, mas não perdemos tempo a analisar as séries longas.

Muito do afastamento que atualmente se sente entre políticos e eleitores pode ser explicado, se calhar, pelas formas diferentes como cada um olha para a realidade. No debate político, dependente dos indicadores económicos, os diagnósticos terminam sempre da mesma forma: se o PIB cresce, então o país, qualquer que ele seja, está no bom caminho.

E o debate prossegue apenas a tentar apurar quantas mais décimas podiam ou não acrescentar-se a esse crescimento económico.

Uma das grandes causas do descontentamento que grassa em todas as democracias ocidentais reside, precisamente, no facto de as pessoas ouvirem que o PIB cresce, mas sentirem que a qualidade das suas vidas diminui. Pior ainda: à medida que o PIB cresce também tem aumentado a desigualdade e, com ela, a sensação de injustiça social e os focos de conflito.

A boa notícia é que há quem também se preocupe com isto e, mais importante, arrisque fazer diferente. É o caso de Jacinda Ardern, a jovem primeira-ministra trabalhista da Nova Zelândia que, do outro lado do mundo, à frente de um Governo que também funciona como uma espécie de Geringonça (em coligação com um partido verde e um partido nacionalista), tenta inovar no modo de fazer política, não só com um discurso e uma postura baseados na solidariedade, mas também ao ser o primeiro Governo de uma democracia ocidental a apresentar um Orçamento em que se privilegia o bem-estar da população e não o crescimento económico.

Há razões para o fazer. Quando chegou ao Governo, há cerca de dois anos, Jacinda Ardern percebeu depressa que a frieza dos números da economia não era similar com muitos outros indicadores que encontrava na sociedade. Apesar de acumular, há vários anos, um crescimento forte do PIB, a Nova Zelândia registava, em contrapartida, algumas das maiores taxas de suicídio, de sem-abrigo, de violência familiar e de pobreza infantil do planeta. E a desigualdade social continuava a aumentar, demonstrando que o crescimento do PIB não era redistribuído por toda a população.

A conclusão a que Jacinda Ardern chegou devia ser um exemplo para o mundo: o crescimento do PIB não conduz, só por si, a um país melhor. Isso consegue-se, sim, através de outros indicadores, como os que promovem a qualidade de vida e o bem-estar dos cidadãos. No primeiro Orçamento de Bem-Estar que o seu Governo apresentou, na semana passada, no parlamento, foram criadas cinco áreas principais de atuação, fortemente financiadas, e cuja avaliação passa a ter a importância que, anteriormente, era dada ao PIB: saúde mental, pobreza infantil, promoção profissional dos povos indígenas, inovação digital e transição para uma economia sustentável.

Os críticos dizem que se trata de uma manobra de marketing, mas, mesmo que também o seja, continua a merecer os elogios, pois revela uma tentativa de fazer política de forma diferente. Com a preocupação centrada em quem mais merece: as pessoas.

Rui Tavares Guedes

At http://visao.sapo.pt/