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Eutanásia: “video apagado pelo Facebook, já com mais de meio milhão de visualizações”

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Opinião: “O Meu Sporting”

Mário Machado 32530673_220703091854566_636522167676174336_n

Não é segredo para ninguém que sou do Sporting, e que tenho por este Clube uma paixão que é tudo menos racional, até pelas atitudes e comportamentos que já tive ao longo da vida, sempre que esse Grande Amor se manifesta.

Sou sócio desde 1976, sendo toda a minha família sportinguista, desde o tempo dos meus avós. Hoje, com muito orgulho, e quatro gerações passadas, também os meus filhos são Verde e Branco.

Ainda sou do tempo que ia ver os jogos de Hóquei em Patins, Andebol entre outros no Pavilhão, com o meu pai, mãe, avós e primos. Lembro-me como se fosse hoje, do eco brutal, de toda uma massa associativa em delírio nas bancadas.

Lembro-me também de ir ao Estádio de Alvalade com o meu pai para a Bancada Central, e levar a almofada já caída em desuso, uma buzina que era também a haste da bandeira que orgulhosamente carregava desde a nossa casa no Paço do Lumiar.

Aos domingos de manhã, enquanto a minha mãe fazia o almoço, demorava horas por sinal, eu e o meu pai íamos ver “os miúdos”, expressão carinhosa com que o meu pai se referia às camadas mais jovens. 

Foi no tempo que tínhamos um Clube e não uma empresa. Uma massa associativa fervorosa e não accionistas calculistas, e em que nós, os sócios, éramos os donos do Clube.

Tudo isso acabou!

Sobre o pretexto de termos que nos modernizar, de estarmos preparados para o futuro, e para o Sec XXI passámos a ser uma SAD. (Triste, em Inglês).
E o que mudou?
Quase tudo!

Os grupos económicos/financeiros tomaram de assalto o Clube, e mais preocupados em realizar mais-valias, nunca perceberam ou quiseram entender toda uma dinâmica que envolvia um Clube como o nosso, ou seja : -Que estamos a borrifar para o dinheiro e queremos é ganhar! 

Assim, os melhores jogadores, a que chamam hoje “activos”, foram sendo vendidos mal o seu preço de mercado subia, e nunca se conseguiu fazer uma Equipa.

Preferia ver o SCP entrar em incumprimento com todos os Credores agiotas, e ser remetido para uma Divisão inferior, devido a castigos e sanções por incumprimento, recomeçando tudo de novo, do que ver o meu Clube de Coração a lutar pelo segundo ou terceiro lugar, com o único objectivo de receber o dinheiro das competições europeias. 

Em muito pouco tempo, teríamos o nosso Clube de volta, a ganhar e a lutar por títulos em todas as modalidades! Não deveria ser de outra maneira.

Qualquer projecto que apareça no Sporting, que não afronte directamente os Credores usuários, que não acabe com os “notáveis”, que tão silenciosamente e ardilosamente nunca demonstram oposição, somente e apenas quando o Rei está morto, ou em vias…Não terá sucesso.

Continuaremos assim condenados ao fracasso, a sofrer horrivelmente, a enviar uns para o hospital e outros para as prisões e os DDT (donos disto tudo), continuam alegremente a viverem as suas grandes vidas.

O Sporting precisa de uma Revolução, e essa Guerra Relâmpago só se pode fazer com quem não depende do Capital, nem de Burgueses, mas sim de si próprio e dos que o acompanham.
Conheço tantos, que fariam tanto mais, por muito menos.

Quero também salientar que ainda não tenho uma opinião formada acerca de BDC, mas quando vejo os que o rodeiam, chego à triste conclusão, que por mais boa vontade que tenha, e acredito que sim, é humanamente impossível, a este Homem fazer a Revolução que se exige! E parece-me que ele teria muita vontade disso.

Vou tentar de ora em diante, concentrar-me um pouco mais no nosso Sporting, e no que poder e estiver ao meu alcance, para que com o meu humilde mas revolucionário contributo possamos todos juntos mudar o seu status quo.

SPORTING SEMPRE!
Lisboa, 16 de Maio de 2018

Mário Machado

At https://www.facebook.com

Artigo de opinião: “Os lesados de Sócrates”

Rui Calafate 26486_104731429549928_3658939_nVemos uma associação de lesados do Sócrates aos quais convinha confrontar com os encómios e louvores que então teceram na sua jornada ascensional até ao poder.

No livro “Música para Camaleões”, que contém 16 contos de Truman Capote, existe um deles que nos traz “Mr. Jones”. Uma personagem que não saía do seu quarto, em Brooklyn, mas que recebia pessoas. Não era traficante de droga, nem cartomante, as pessoas vinham apenas para conversar com ele. E em troca das suas palavras e conselhos, as mesmas, gratas, davam-lhe algum dinheiro. Capote, que morava ao lado, nunca conversou com ele. Apenas viu aquela figura marcante, de rosto pálido, com um sinal de nascença na bochecha esquerda. Era cego e também aleijado, quase incapaz de se deslocar. Um dia, porém, Mr. Jones desapareceu. Dez anos mais tarde, em Moscovo, com 18 graus negativos, numa carruagem do metro, Capote vê o Mr. Jones. Não lhe consegue dirigir palavra porque este se levanta, “firmando-se num par de pernas robustas e sadias, se pôs de pé e saiu da carruagem em passada larga”. Parece que ao fim de alguns anos de processos judiciais, diversos dirigentes do PS e figuras que lhe foram próximas só nos últimos dias viram em José Sócrates um Mr. Jones.

A dúvida que perpassa por todos é porquê só agora este afastamento de personalidades gradas ou com visibilidade no partido? Havia um silêncio estratégico como se o que é da Justiça ficasse apenas na Justiça, evitando assim enlamear o PS e uma série de homens e mulheres que fizeram parte dos seus Governos, mantendo um legado político que continua a ser marcante para uma enorme ala do PS. E relembro que António Costa por sms enviado a todos os militantes antes de ser eleito como líder do partido escreveu o seguinte: “Caras e caros camaradas, estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates. Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS, que é essencial preservar, envolvendo o partido na apreciação de um processo que, como é próprio de um Estado de Direito, só à Justiça cabe conduzir com plena independência, que respeitamos. Ao PS cabe concentrar-se na sua acção de mobilizar Portugal na afirmação da alternativa ao governo e à sua política. Um abraço afectuoso do António Costa”.

Uma tomada de posição correcta, perfeitamente perceptível e compreensível e, acima de tudo, realista face ao momento vivido que podia afectar a imagem do PS. Logo, esta mudança de agulhas dos últimos dias, e como se de um comité se tratasse porque parecia que as reacções eram encadeadas, levaram as próprias bases socialistas a não entenderem bem o que se passa. Por um motivo: o PS não é ingrato e comparado com outros tem na sua matriz essencial ser fraterno e solidário com os seus. José Sócrates é actualmente um homem só, não tem apoios, perdeu influência mediática, mas só há uma aldeia gaulesa que resiste a este cenário: exactamente, as bases do PS, que não esquecem as suas vitórias, a primeira maioria absoluta e sobretudo o seu primeiro Governo.

Há muitos anos rolava na televisão uma campanha publicitária, nos meses antes do Verão, sensibilizando as pessoas para não abandonarem os seus animais quando iam de férias. José Sócrates, o famoso animal feroz, hoje, está ferido e abandonado, quase moribundo. E não é bonito o espectáculo de ver muitos que o elogiaram, lhe teceram loas, jornalistas servis, empresários pusilânimes, políticos que lhe devem tudo e muitos que conviveram com ele de perto e que parece que só agora acordaram, o que a meu ver é ignóbil, a espezinharem alguém que ungiram como “menino de ouro”. Parece uma inaudita associação de lesados do Sócrates aos quais convinha confrontar, pois parece que a memória é algo ténue, com os encómios e louvores que teceram na sua jornada ascensional até ao poder e depois durante o seu exercício. Mas há uma pergunta para o próximo Congresso do PS que vale um milhão de dólares: qual será a reacção das bases socialistas, se alguém subir ao palco e pedir uma saudação “para o nosso camarada José Sócrates”? Aí veremos se uma coisa são os dirigentes e outra os socialistas anónimos. Se Sócrates foi expurgado definitivamente ou se, recebendo aplausos, mantém esse bálsamo de resistência.

Rui Calafate

At https://eco.pt

Artigo de opinião: “A tragédia de Sócrates”

Fernanda Cancio 600.5422fc9b30042374d7a5551a“Isto ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político”, diz Sócrates. “É uma injustiça.” E tem toda a razão. Ultrapassou mesmo todos os limites.

Vamos tentar uma coisa muito difícil: vamos esquecer que José Sócrates está acusado de uma série de crimes particularmente graves. Vamos esquecer o processo judicial e seus procedimentos, o aproveitamento político-partidário da questão, o comportamento de alguns media. Assentemos apenas em que, depois de ter sido primeiro-ministro sete anos e estabelecido residência em Paris durante algum tempo, de serem levantadas dúvidas sobre como conseguia sustentar-se e de o próprio assegurar denodada e indignadamente que o fazia graças a um empréstimo bancário e à ajuda da mãe, se soube que afinal as suas despesas eram suportadas por um amigo empresário – e em molhos de notas, à sorrelfa.

Vamos ignorar tudo menos isto: um ex PM que tratava como insulto qualquer pergunta ou dúvida sobre a proveniência dos fundos que lhe permitiam viver desafogadamente; que recusou receber pela sua prestação como comentador na RTP de 2013 a 2014; que ostentou, na saída do governo, a rejeição da subvenção vitalícia a que tinha direito por ser deputado eleito desde 1987 (e que agora está a receber), não teve afinal, desde que abandonou o governo até janeiro de 2013, quando se anunciou consultor da Octapharma, outros meios de subsistência senão o dinheiro do amigo (à generosidade do qual terá continuado a apelar mesmo quando auferia um ordenado de mais de 12 mil euros brutos por mês). Ou seja, fingiu ante toda a gente que tinha fortuna de família, rejeitando até rendimentos a que tinha direito como alguém que deles não necessitava. Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir.

Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo). Ao fazê-lo, não podia ignorar que estava não só a abusar da boa-fé dessas pessoas como a expô-las ao perigo de, se um dia se descobrisse a verdade, serem consideradas suas cúmplices e alvo do odioso expectável. Não podia ignorar que o partido que liderara, os governos a que presidira, até as políticas e ideias pelas quais pugnara, seriam conspurcados, como por lama tóxica, pela desonra face a tal revelação.

Este comportamento, que o próprio admitiu na primeira entrevista que deu a partir da prisão, sem, frise-se, pelo engano e mentira fazer qualquer ato de contrição, dar qualquer satisfação – e qual seria possível ou passível de satisfazer, diga-se – chegaria para clarificar a absoluta ausência de respeito pela verdade, pelas pessoas e por isso a que se dá o nome de bem comum de que padece José Sócrates.

E chegaria, devia chegar, para que qualquer pessoa, seja ou não do seu partido, reconheça que esta total deslealdade e falta de seriedade é suficiente para fazer um juízo ético e político sobre a sua conduta. Não é preciso falar de responsabilidades criminais, mesmo se a conduta descrita implica questionar por que carga de água um empresário pagaria, durante tanto tempo e sem aparente limite, as despesas de um amigo que tivera tais responsabilidades políticas, e por que motivo, se se trata de algo que o próprio vê tão sem problemas, isso foi cuidadosamente escondido não só do país como dos próximos.

Fazer publicamente esse juízo ético, no clima de caça às bruxas que se instalou após a revelação das mentiras de José Sócrates e das acusações de que é alvo, não é fácil. Quem sinta esse impulso, se for pessoa de bem, não pode deixar de ter pudor em bater em quem está por terra e temer ser confundido com a turba que clama por linchamento.

E para o seu partido — um partido no qual Sócrates foi tão importante, até por ter sido o primeiro líder a conquistar uma maioria absoluta, e no qual tem ainda apoiantes que pelos vistos não se sentiram traídos com as suas mentiras nem acham nada de errado em um dirigente partidário e ex governante viver secretamente às custas de um empresário — não era fácil declarar o óbvio. A saber, que independentemente de qualquer responsabilidade criminal alguém que age assim tem de ser persona non grata.

O PS esperou muito para o fazer e na verdade nem o fez bem. A sequência de declarações de dirigentes foi confusa e falou de suspeitas criminais – que estão por provar — em vez de se centrar no iniludível: a assunção do próprio de que andou deliberadamente a enganar toda a gente. Confusas ou não, porém, as declarações levaram o ex-líder a finalmente libertar o partido do terrível peso da sua presença simbólica.

Mas, claro, José Sócrates sai vitimizando-se, falando de “embaraço mútuo” e ameaçando, segundo o Expresso, “vingar-se” – aventa mesmo “um amigo” que poderá “usar escutas a que teve acesso como arguido”. Chocante, porém não surpreendente. De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa; reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.

At https://www.dn.pt

Opinião: “A clarificação devida”

SocratesComeço pelo princípio: sou amigo de Manuel Pinho, pessoa que considero e estimo.

Segundo: tenho ouvido o que se diz sobre a sua relação com o Banco Espírito Santo durante o período em que foi ministro do meu governo e sobre isso tenho a dizer que a minha primeira exigência é que o Ministério Publico prove o que diz. Não, não pactuo com a operação em curso de inverter o ónus da prova como, de forma geral, os jornalistas e os ativistas disfarçados de comentadores têm feito: o primeiro dever de um Estado decente é provar as gravíssimas alegações que faz seja contra quem for, ainda que estas tenham sido, como habitualmente, feitas através da comunicação social.

Um terceiro ponto tem a ver com a afirmação de que há nesta questão uma dimensão política e uma dimensão jurídica. Aceitemos, por razão de simplicidade de raciocínio, a separação deste duplo juízo, o político e o judicial, que terão padrões e critérios diferentes. Todavia, embora separados por categorias diferentes, parece-me evidente que ambos se encontram num ponto: é preciso que as alegações feitas sejam verdadeiras. Não me parece então possível aceitar que os diversos personagens da vida pública passem por cima deste ponto, fazendo o que há de mais repugnante na vida social: acusar e julgar sem provas, sem ouvir os acusados e sem fazer o menor esforço para saber se é verdade o que é dito. E, mais, só para recordar o que devia ser óbvio: não é o próprio que tem de se defender ou de provar que é honesto ou inocente; é quem acusa que tem o dever de provar o que diz. Estranhos tempos estes em que lembrar o princípio estrutural do direito moderno, a presunção de inocência, se confunde com a defesa seja de quem for.

Em quarto lugar, desejo afirmar que tenho Manuel Pinho por um homem honesto e incapaz de uma coisa dessas, tal como é descrita – receber um vencimento privado enquanto exercia funções públicas. Por essa razão recuso-me sequer a discutir hipóteses que para mim são inadmissíveis, sem que o Estado, que o afirma, prove o que está a dizer.

Compreendo e partilho o desejo dos seus amigos e colegas de governo de que Manuel Pinho negue imediatamente as alegações. Não me parece que ele ignore as responsabilidades que também tem connosco. Todavia, não sobreponho o meu desejo de esclarecimento imediato ao seu direito de se defender de tão graves imputações quando achar que o deve fazer. Por mais que isto custe a quem é seu amigo e foi seu colega, é o que a decência impõe.

O último ponto é acerca da ignóbil intrujice que acompanha a notícia: a ideia de que o nome de Manuel Pinho para fazer parte do Governo me terá sido sugerido pelo Dr. Ricardo Salgado. Esta mentira tem sido há muito tempo disseminada pelo Ministério Público e convenientemente divulgada por jornalistas, que nenhum esforço fazem para verificar a sua veracidade.

Desde logo, posso afirmar que a primeira vez que me encontrei com o Dr. Ricardo Salgado desde que fui eleito líder do PS foi no dia 13 outubro de 2006, conforme registado na secretaria da Residência Oficial do Primeiro Ministro. Esse encontro, que ocorreu mais de dois anos depois de ser eleito no PS, deu-se a seu pedido e realizou-se no meu gabinete. Antes desse encontro tenho uma vaga memória de o ter recebido quando era Ministro do Ambiente, no já distante ano de 2001. Desde essa altura até ao dia que mencionei nunca me encontrei com ele, não conversei com ele, nem tenho sequer memória de me ter cruzado com ele. Nunca fiz parte do seu grupo de amigos ou dos seus círculos sociais.

Depois, há mais: a escolha que fiz de Manuel Pinho como porta-voz do PS para a área da economia, e mais tarde para o Governo, aconteceu naturalmente na decorrência da colaboração que este há muito prestava, na condição de independente, ao PS, como conselheiro económico do então líder Ferro Rodrigues. Foi aí, nessa condição de membro do chamado grupo económico da Lapa (por reunir regularmente no Hotel da Lapa) que o conheci e que desenvolvemos um trabalho comum que viria a culminar no convite que lhe fiz. Muitas pessoas dentro e fora do PS conhecem esta história, que desmente por completo a ficção da indicação por outros, com quem não tinha nenhum contacto.

Lamento, mas mais uma vez não acertaram: não foi Ricardo Salgado que me recomendou nenhum nome. Escolhi Manuel Pinho, pelas suas qualidades e competências, que, aliás, demonstrou enquanto foi ministro da economia, onde fez um excelente lugar. Referência, esta, que, embora não seja isso que agora está em causa, tenho gosto em fazer.

P.S.
Já depois de escrever este artigo, ouvi Carlos César. Durante quatro anos defendi-me das acusações falsas e absurdas que me foram feitas: a falsidade da propriedade do dinheiro da Suíça, a falsidade sobre a propriedade do apartamento em Paris, a falsidade sobre a PT, a falsidade sobre a Parque Escolar, a falsidade sobre o TGV, a falsidade sobre a relação de proximidade a Ricardo Salgado. Durante quatro anos suportei todos os abusos: a encenação televisiva da detenção para interrogatório; a prisão para investigar; os prazos de inquérito violados sucessivamente como se estes não representassem um direito subjetivo que não está à disposição do Estado; a campanha de difamação urdida pelas próprias autoridades com sistemáticas violações do segredo de justiça; o juiz expondo na televisão a sua parcialidade com alusões velhacas; a divulgação na televisão de interrogatórios judiciais com a cumplicidade dos responsáveis do inquérito.

Durante estes quatro anos não ouvi por parte da direção do PS uma palavra de condenação destes abusos. Mas sou agora forçado a ouvir o que não posso deixar de interpretar como uma condenação sem julgamento.

Desde sempre, encontrei nos militantes do PS um apoio e um companheirismo que não esquecerei. Mas a injustiça que agora a direção do PS comete comigo, juntando-se à direita política na tentativa de criminalizar uma governação, ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político. Considero, por isso, ter chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo. Enderecei hoje uma carta ao Partido Socialista pedindo a minha desfiliação do Partido. Pronto, a decisão está tomada. Bem vistas as coisas, este post scriptum é congruente com o que acima escrevi.

José Sócrates

At https://www.facebook.com/jsocratescpintosousa

Artigo de opinião: “Eu sou mais populista do que tu…”

Pedro Marques Lopes JA55Na sequência da política de reposição de rendimentos, os ladrilhadores, com vínculo laboral ao Estado, verão repostos os 5% que tinham sido cortados aos seus salários.

Não, não são os ladrilhadores que terão os seus vencimentos repostos, são os membros dos gabinetes políticos. Alguém acredita que se levantaria alguma polémica se tivessem sido de facto os ladrilhadores ou outros profissionais quaisquer a ver as suas retribuições repostas? Veríamos o CDS e o BE a verberar contra a oportunidade da medida? Claro que não. O CDS e o BE, que parecem apostados em concorrer ao título de melhor partido populista, sabem bem qual a palavra-chave: “políticos”. Se se acrescentar cortes aos salários de quem quer que tenha alguma relação com o poder político, ou incompatibilidade com qualquer outra atividade ou diminuição de alguma regalia, é certo e sabido que teremos gente a bater palmas. Se são os próprios políticos a dizer que são malandros, como não ser verdade?

Desengane-se quem pensa que esta atitude dos dois partidos corresponde a uma hierarquia de prioridades entre profissionais mais ou menos necessitados ou com mais direito a revisão salarial, de progressão nas carreiras ou do que quer que seja. O que está em causa é simplesmente um explorar de sentimentos que eles e outros membros da classe política foram semeando. No fundo, o que nos estão a dizer é que a atividade política é uma espécie de mal, que os membros de gabinetes políticos não passam de uns boys, que devem ser olhados, na melhor das hipóteses, como cidadãos de segunda categoria.

A mensagem é clara, estes trabalhadores não são, de facto, trabalhadores como os outros. Têm menos direitos porque, muito simplesmente, ajudam quem tem de tomar decisões sobre questões que dizem respeito a toda a comunidade.

Se a visão do BE, do CDS e de outros prevalecer, quem quererá ocupar estes lugares? Quem estará disposto a ser olhado como uma espécie de malandro? Cada vez menos gente, claro está. Melhor, quem não encontrar outro emprego, quem tiver menores habilitações, quem for pior profissional. Assim, teremos pessoas menos capazes a ajudar os políticos e, bem entendido, teremos piores decisões. Mas que importa se com esse discurso se tiver mais uns votinhos? Que importa ter pior gente e piores decisões se isso der mais popularidade?

Agora imagine-se o que seria se a proposta também incluísse os políticos e gestores públicos. Uma medida, diga-se, que tarda em ser aplicada, mas que desconfio não será tomada nos anos mais próximos – se chegar sequer a acontecer. Se está a ser o que está a ser com meros ajudantes, caía o Carmo e a Trindade se fosse com os decisores. E, claro, os primeiros a fomentar as campanhas populistas contra os políticos seriam os mesmos políticos, os mesmos que não perdem uma oportunidade de se desprestigiar e de contribuir para que os melhores e mais bem preparados fujam de assumir responsabilidades públicas. Muitas vezes parece que há uma estratégia pensada para afastar os bons profissionais da atividade política, ou que há quem queira que só os ricos, os que não precisam de salário para viver, possam dedicar-se ao bem comum.

Queixamo-nos da cada vez pior qualidade do pessoal político, mas queremos gente cada vez menos preparada a representar-nos e a tomar decisões importantes que dizem respeito à comunidade.

Como em tudo, em democracia os cidadãos têm a palavra final. Se a ideia é piorar a qualidade dos políticos e, nessa medida, da democracia, estão a fazer um bom trabalho. Eles e partidos como o BE e o CDS.

Trincheiras e acordos

Os que acham que a atividade política é uma espécie de guerra de trincheiras, e que os vários partidos e atores políticos não devem sequer dialogar, não gostaram dos acordos assinados nesta semana entre o PS e o PSD.

As análises centraram-se em quem ganhou mais ou menos e em quem ia obter mais ou menos dividendos eleitorais. Não as desprezo, mas antes dessas consequências convém verificar o que alguns, com indisfarçável desprezo, chamaram de sinal político.

Sim, é um sinal político, um excelente sinal. É uma indicação de que existe abertura de espírito para ouvir o outro lado, que se compreende que no cerne da democracia há o entendimento de que as soluções negociadas são sempre melhores do que as impostas, mesmo que achemos que a nossa visão dos problemas é a certa e a nossa solução a melhor.

Fora do mundo que políticos, jornalistas e comentadores frequentam, e que, não poucas vezes, é infelizmente distante do dia-a-dia das pessoas, existem problemas que precisam de ser resolvidos, questões verdadeiramente importantes que dependem de consensos entre partidos ou de, pelo menos, plataformas alargadas de entendimento. Pensar que as pessoas estão mais interessadas em que os partidos explorem o que os divide e não o que os une, ou seja, o bem da comunidade, é ter uma visão completamente distorcida do que as pessoas querem da política e dos políticos.

Mais do que os possíveis ganhos pontuais de um partido ou de outro, os acordos assinados pelo PS e pelo PSD ajudam à dignificação da política e dos políticos. A imagem de que se é capaz de sair das posições iniciais para benefício de todos faz mais pelo prestígio dos políticos do que um pacote inteiro de medidas sobre incompatibilidades e de supostas medidas para impor comportamentos à classe política. E se nós precisamos de fazer crescer a confiança nos nossos representantes…

Pedro Marques Lopes

At https://www.dn.pt

Artigo de opinião: “Os seis pecados capitais da esquerda identitária pós-moderna”

Esquerda identitarios

Um artigo de Eric Fassin publicado no Libération do 6 de setembro de 2010 “Xenófobos, os franceses, não é assim tão certo Monsieur Sarkozy”, apelando à esquerda para se recompor perante a «xenofobia de Estado», dando mostras de audácia e de imaginação perante a campanha da direita, e rompendo com a sua culpada passividade anterior, perante ideias como «o limite de tolerância», oferece-nos a oportunidade de analisarmos como funciona a ideologia da esquerda identitária pós-moderna à qual pertence este sociólogo. Se à partida o seu texto expõe uma intenção generosa e numa abordagem simpática (acabar com a xenofobia de Estado, por muito vago que seja esse conceito), as suas conclusões políticas inscrevem-se no mais subserviente reformismo. Para ilustrar o nosso argumento, fomos ler outros textos do mesmo autor. Se alguma leitora ou leitor quiser comunicar-nos as suas reflexões para enriquecer este artigo (e encontrar um sétimo pecado capital…), estas serão bem-vindas.

O primeiro elemento comum a todos os identitários de esquerda é o apelo à compaixão, compaixão que é alvo de uma manipulação política.

Para a esquerda identitária pós-moderna, não se trata de apostar na revolta contra as injustiças, na vontade de deitar abaixo o sistema capitalista e destruir seus fundamentos, mas de um “sobressalto moral”, como escreve Eric Fassin, invocando as reacções do Papa e de alguns dirigentes da direita. Não, tem que se canalizar essa revolta até uma compaixão caridosa e “cidadã” a favor das “vítimas” das múltiplas “fobias” denunciadas por Fassin e seus amigos: xenofobia, islamofobia, judeofobia, homofobia, etc. As palavras acabadas em “ismo” (racismo, anti-semitismo, etc.) não ganham nada em ser transformadas em palavras acabadas em “fobia” porque passamos assim, sem nos darmos conta, do registo político ao registo psicológico, sendo a fobia mais um medo irracional, eterno, do que uma ideologia que se pode esmiuçar e desmontar, e contra a qual podemos combater colectivamente. A fobia faz parte, antes de mais, do imaginário individual, pessoal. Existe evidentemente uma dimensão psicológica associada a esses fenómenos mas a moda das “fobias” traduz bem mais uma capitulação perante a ideologia dominante que tende a psicologizar as questões e as relações sociais, mais do que afinar as análises políticas.

Mas esta escolha compassiva do pós-modernismo identitário de esquerda é lógica. Na continuidade dos movimentos do pós 68 que salientavam a libertação imediata dos desejos dos indivíduos contra todas as dominações, “a malta tornou-se efectivamente política”, mas de uma maneira inesperada e perfeitamente reaccionária. E a esquerda identitária pós-moderna caiu na armadilha, pensando romper com o dogmatismo marxista (portanto, bem real), com os velhos esquemas obsoletos da luta de classes, etc.

É essa a ideologia que inspira simultaneamente os reality shows e a comunicação política dos grandes partidos, tanto de esquerda como de direita, que encenam os problemas sociais apresentando-os como “individuais”: as mulheres maltratadas ou estupradas; as crianças martirizadas pelos seus pais; as esposas ou companheiras de homens que não as respeitam nem as sabem apreciar, ou que não assumem nenhuma tarefa doméstica, etc.; os imigrantes e seus filhos que sofrem discriminações, arriscam ser expulsos e vivem na angústia e na precariedade; os operários e as operárias despedidos que são expostos em palestras na televisão perante homens políticos paralisados; os sem domicílio fixo que não conseguem arranjar comida – até o nome “Restos du Coeur”[1] é significativo do muito cristão “A votre bon coeur Messieurs Dames”(Grato pela generosidade); de tudo isto até à política assistencialista de Martine Aubry, debatemo-nos em discursos humanitários consensuais e inofensivos para o sistema capitalista.

Os produtores de reality shows e os homens políticos de esquerda pregam, ambos, o “respeito” pelas “diferenças” e pelas “identidades”, sendo as identidades os inúmeros nichos que se têm que rentabilizar ao máximo, por motivos eleitorais ou comerciais.

A principal diferença entre os produtores de reality shows e os profissionais da comunicação política é que aqueles consideram que pertence à vítima a responsabilidade de tomar conta de si mesma (cf. O programa “Super Nanny” e a culpabilização dos pais) ou então esperar o gesto de um caridoso benfeitor ou vizinho bondoso (cf. “Les maçons du coeur” cujo título volta a glorificar as virtudes do famoso órgão fornecedor de compaixão).

Os partidários sociais-democratas da política assistencialista admoestam menos os pobres pelos seus comportamentos do que os apresentadores de televisão (embora a Segolène Royal ou o Manuel Valls sejam entusiásticos adeptos da política securitária e das casas de correcção para proletários selvagens); eles preferem louvar as coisas bem feitas do Estado Previdência ou a adesão a associações, a redes que visam difundir e mobilizar toda a compaixão necessária para “sacudir as coisas”… ou seja, claramente, colmatar penosamente as cada vez maiores brechas de miséria social e económica.

As vítimas prolongadas da miséria social ou psicológica confessam-se no pequeno ecrã; produzem-se programas de televisão e fabricam-se livros em tempo recorde à volta dos seus casos; circulam imagens chocantes (numa entrevista publicada no Libération, um participante da manifestação do 4 de setembro de 2010 contra a “xenofobia de Estado” conta ter decidido vir para a rua depois de ter visionado o vídeo de uma mulher Rom[2] grávida e maltratada pela polícia. Não se trata de menosprezar a indignação suscitada por esse facto ignóbil, mas de sublinhar o impacto da emoção, em detrimento do conhecimento – neste caso do conhecimento das politicas migratórias, que sempre foram hostis aos Rom, e às “pessoas itinerantes” francesas, bem antes da enésima viragem securitária do governo Sarkozy-Fillon exagerada pela esquerda moral).

Dentro do mesmo registo, o apelo “Não à política do cepo!” (eis mais uma metáfora da compaixão e da piedade pelas vítimas!) lançado pela Liga dos Direitos Humanos, mas recuperada e sustentada de maneira acrítica pela esquerda e pela extrema esquerda que expressava bem essa ideologia compassiva pelos “pobres” imigrantes “vítimas” da “xenofobia de Estado” e do “racismo”.

O segundo pilar da ideologia da esquerda identitária é a aproximação de todas as discriminações ao racismo e se for possível ao anti-semitismo genocidário[3], às práticas dos Estados fascistas ou para-fascistas, etc.

O antifascismo pós-moderno é, antes de tudo, compassivo, infrapolítico. Os campos de concentração, os campos de extermínio, a Gestapo, a Milícia, Hitler, Pinochet, Franco, Salazar, Videla, etc., são de facto “horríveis”, “ignóbeis”, “bárbaros”, “desumanos”, tudo aquilo que quiserem, mas não são só isso. A sua dominação, as suas ditaduras, não relevam apenas do uso político das pulsões de ódio e das frustrações sociais duma parte dos dominados, ou para utilizar um termo na moda entre os filósofos de esquerda e os psis, do “ressentimento” dos explorados. Têm uma função política e social, uma racionalidade económica, social e política que temos que destacar, se não queremos ficar confinados a explicações psicológicas ou “essencialistas” do tipo “é da natureza humana…”. E para isso, é preciso deixar o registo da indignação moral e da simples solidariedade sentimental com as vítimas. Mas a esquerda identitária não quer ver o vínculo entre fascismo, nazismo e capitalismo, tal como aliás não dispõe de instrumentos para compreender o estalinismo, em que uma das componentes essenciais sempre foi a defesa da identidade por detrás de um verniz pseudo internacionalista.

O terceiro credo da Esquerda identitária é o respeito pelas leis, pela Constituição e pela democracia burguesa.

É assim que Eric Fassin toma como exemplo as boas leis que souberam reprimir a homofobia e dar aos homossexuais o seu lugar na sociedade francesa. “É a lição do PACS: depois de Lionel Jospin ter acabado por assumir a lei vetada pela esquerda, foi Nicolas Sarkozy quem então, desde o verão de 1999, rejeitando as exageradas jogadas homofóbicas do seu campo, se comprometeu no terreno da tolerância para não o abandonar à esquerda. Os direitos dos homossexuais tornaram-se o cerne da disputa”. As suas considerações mostram bem que, ao contrário de todos os raciocínios na moda dos anos 70 e de certos argumentos feministas e libertários, ainda hoje, o combate à homofobia não ameaça radicalmente a dominação do Capital e do Estado (capitalismo, patriarcado e “hetero-normatividade” – isso é, dominação dos heterossexuais sobre os homossexuais, os trans-género, etc., ao impor normas, por exemplo – sendo supostamente indissociáveis). Que é um combate interclassista, e que, como todos os combates, beneficia sobretudo os burgueses e os pequenos burgueses homossexuais, e muito pouco os operários, os empregados e os trabalhadores imigrantes homossexuais vítimas de discriminação no trabalho e onde habitam.

Esse respeito pela legalidade burguesa, Fassin já o tinha exprimido, assinando, em 17 de dezembro de 2003, um texto sobre o hijab, com outros intelectuais, texto que proclamava “enquanto se recusar a dar aos descendentes dos povos que colonizou a igualdade prometida pela sua Constituição, pelas suas leis internas tanto como pelas suas obrigações internacionais, a França terá problemas”. Ou, na introdução a “A Inversão da questão homossexual”: “Sem dúvida concordamos todos em considerar que as escolhas económicas ou políticas relevam da negociação política. Mas terá que se considerar que as questões sexuais, sejam elas de género ou de orientação sexual, de casamento ou de família, de filiação ou de reprodução, escapam à deliberação democrática?”

“Deliberação democrática”, “obrigações internacionais”, “negociação política”, “Constituição”, “leis internas”, estamos pois a lidar com um democrata burguês.

O quarto credo da esquerda identitária é o respeito das identidades nacionais e por consequência também, de bom ou mau grado, dos Estados nacionais que defendem essas identidades nacionais.

Já que a esquerda identitária não pode atacar frontalmente o mito da Nação, ela é obrigada a separar e a opor, de maneira artificial, os bons nacionalismos progressistas do Sul aos maus nacionalismos (imperialistas, colonialistas, pós-colonialistas) do Norte.

É por exemplo o que diz muito explicitamente Houria Bouteldja, membro dos Indigènes de la République, numa intervenção num debate sobre identidade nacional (http://www.youtube.com/watch?v=FH2lD3Obe_Y ) ou na sua entrevista à revista Hérodote, e que encontramos também no livro de Sdri Khiari «Politique de la racaille»[4].

Não é portanto surpreendente que um identitário como Eric Fassin creia que a esquerda possa tomar a iniciativa no plano da imigração e, assim, obrigar a direita a recuar na sua campanha xenófoba, criar mesmo uma dinâmica eleitoral que fizesse progredir um limite de intolerância à xenofobia e ao racismo, “por que a esquerda não poderia por si mesma retomar a direcção no que diz respeito à imigração ? A evidência do problema da imigração poderia assim desfazer-se logo, sob o efeito de uma nova crença no limite de intolerância”, escreve ele no seu artigo.

Essa proposta mostra a incapacidade de Fassin e sobretudo da esquerda identitária de compreender a função do Estado nacional, e especificamente do estado republicano francês. A «xenofobia de Estado» que Fassin denuncia, com certeza com a maior sinceridade, é constitutiva do nascimento e do desenvolvimento da República Francesa, não só nas suas longínquas colónias mas também no seu território, não só perante os imigrantes das colónias mas também perante imigrantes europeus (dos alemães aos polacos, passando pelos italianos, os portugueses e os espanhóis) – e, se quiséssemos carregar mais um bocado, poderíamos até dizer, como Houria Bouteldja, na sua entrevista acima citada, que o Estado-nacional-republicano francês também esmagou os particularismos locais… Não serve para nada portanto invocar os manás da República (sobretudo os da Terceira, da Quarta e da Quinta!) para combater a xenofobia.

O quinto credo da esquerda identitária é a negação da luta de classes.

Uma identidade que não existe aos olhos da esquerda identitária é a identidade operária ou proletária (a não ser num remoto e vago passado, folclórico, mas que nem é digno do seu famoso “respeito”). Como o ódio aos trabalhadores (“operário-fobia”?) é um sentimento raramente expresso, na actualidade, de forma aberta, nos principais Media e que, não suscitaria guerra, compaixão dos pequenos burgueses e dos Media de esquerda (que só se interessam pelos problemas das “classes médias”), os identitários de esquerda negam ou ignoram a existência dos combates de classe, no passado mas sobretudo nos dias que correm. Esses combates só os podem assustar porque mobilizam (ou mobilizaram), não vítimas que mendigam “reparações” ou “indemnizações de despedimento”, desculpas (do Papa ou de um Primeiro Ministro ou Presidente da República qualquer) ou mais respeito das instituições burguesas, mas os homens e as mulheres que querem derrubar e aniquilar a ordem existente, não apenas consolar-se com algumas conquistas ou alguns direitos, sem tocar na dominação de classe da burguesia e do seu Estado. Esses combates assentam, não só em afrontamentos físicos, mas também em afrontamentos ideológicos que hoje em dia apavoram todos os intelectuais, inimigos do “sectarismo”, do “dogmatismo”, do “esquematismo”.

Assim se entendem os consensos moles a que chegam sempre os militantes de esquerda e de extrema esquerda quando agem juntos, esse menor denominador comum político que mais não é que a ideologia humanitária da esquerda identitária.

O sexto credo da esquerda identitária é um grande respeito pelas religiões, portanto uma incapacidade em afrontar o obscurantismo religioso e as tentativas das igrejas de ganharem mais poder na sociedade.

Esse aspecto não está referido na tribuna livre de Eric Fassin publicada no Libération, mas faz parte do património político dos identitários de esquerda, como testemunham as suas posições favoráveis à “laicidade aberta” e ao multiculturalismo dentro de todas as suas discussões sobre os “signos religiosos ostensivos”, o vestir o hijab e a burka, etc. Não se encontra nunca neles uma crítica radical à religião.

É assim que, no Le nouvel observateur de 6 de maio de 2010, Fassin consegue mais uma vez semear a confusão quando denuncia os ataques crápulas do ministro da Imigração: “Hortefeux pondera retirar a nacionalidade ao marido duma mulher que veste o niqab acusando-o de poligamia. Ora, quando Paul Bocuse se gabou das suas três mulheres (tem uma para o pequeno almoço, uma para o chá, outra para jantar”), quem se indignou? Há que ser francês de gema para poder ser polígamo?”

Partindo duma crítica justa aos delírios de Hortefeux a propósito da identidade nacional, Fassin chega a uma comparação absurda, ridícula, que coloca no mesmo patamar a poligamia islâmica, imposta pela charia, e reconhecida pelos tribunais dos Estados muçulmanos, e a pluralidade de parceiras dum homem, dentro dum quadro que não é regulamentado por nenhuma lei, fosse ela de inspiração religiosa ou laica. O facto de ter várias amantes pode assentar numa relação de dominação (financeira, se ele as sustenta!) ou outra, mas pelo menos essa relação não tem nenhum fundamento jurídico ou legal.

Estabelecendo essa comparação, Fassin justifica, sem dar por isso, a dominação masculina sobre as mulheres (aqui muçulmanas), dominação que a esquerda identitária pós-moderna tanto se esforça por denunciar com trémulos na voz.

Mas a ideologia identitária pós-moderna pouco faz de todas essas contradições quando consegue conquistar algum espaço mediático e político.

Terça-feira 7 de setembro de 2010, por Yves

Y.C.,
“Nem pátria nem fronteiras”,

[1] Cantinas sociais mas cuja tradução à letra seria « restaurantes do coração ».
[2] De etnia cigana.
[3] “ Por outro lado, a experiência das discriminações não fica sem efeito nas vítimas: contribui para a sua constituição enquanto sujeitos. Nos anos 30, muitos se reconheceram como judeus sob o efeito do anti-semitismo”, escreve Eric Fassin, num artigo com o título espantoso: “Raça objectiva vs. (contra) raça subjetiva”. A referência ao anti-semitismo é frequentemente, para os identitários de esquerda, mas também para muitos intelectuais de todas sensibilidades, uma maneira de contrabandear a sua ideologia, bloqueando todo tipo de objeção eventual com a referência ao judeocídio.
[4] Tradução “Política da escumalha”

At http://www.acasaonline.pt

À comunicação social: “a SIC e os interrogatórios”

Socrates interrog

Ainda não se tinha visto tudo. Ontem a SIC emitiu uma reportagem com as gravações dos interrogatórios judiciais ao Sr. Engenheiro José Sócrates. Esta reportagem representa o culminar de uma longa parceria e cumplicidade entre a estação de televisão e as autoridades a quem o processo está entregue. Para sermos mais concretos, entre a SIC, o procurador e o juiz de instrução, a quem a estação tem traçado os mais elogiosos perfis.

O espetáculo é singular e chocante. Ele significa uma progressiva e assustadora tabloidização da nossa justiça. No essencial, está agora claro que vale tudo: qualquer cidadão ficou a saber que as filmagens dos interrogatórios que o Ministério Público promove estão no mercado. Eles aparecerão nos telejornais em função do interesse comercial, das audiências. A dignidade da justiça, com o incompreensível silêncio institucional, está assim finalmente subjugada ao interesse venal do espetáculo: utilizaremos tudo o que nos permitir ganhar dinheiro.

Todavia, o resultado não foi o que esperavam – o tiro saiu pela culatra. Os interrogatórios vêm demostrar aquilo que temos repetidamente afirmado: a acusação não tem qualquer fundamento em factos e muito menos em provas. Chega a ser confrangedora a incapacidade dos procuradores em sustentar o que levianamente afirmam. Na verdade, os interrogatórios só confirmam a vacuidade da acusação.

Ao denunciar e condenar publicamente o que aconteceu, a defesa do Sr. Engenheiro José Sócrates cumpre o seu dever social e profissional. Mas iremos além: não deixaremos também de agir judicialmente em defesa dos nossos direitos que são, afinal, os direitos que o Estado deveria garantir a todos os cidadãos portugueses.

Lisboa, 17 de abril de 2018

O advogado

At https://www.facebook.comJosé Sócrates Carvalho Pinto de Sousa