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Conselhos Raianos em Bragança

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No próximo dia 23 de novembro, a partir das 15h00 no Auditório da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança, vamos realizar mais um Conselho Raiano, desta feita subordinado ao tema: “Comunicação Social, Desenvolvimento e Cooperação Transfronteiriça” que vai contar com as presenças de jornalistas de um e do outro lado da fronteira, com o Provedor do Telespetador da RTP, Jorge Wemans, com o Director General de Acción Exterior, Carlos Aguilar Vázquez, do Governo de Castela e Leão e com a Secretária de Estado da Valorização do Interior, Isabel Cristina Ferreira, do Governo de Portugal. Com o intuito de lançar um debate ibérico sobre o novo paradigma de conservação ambiental, o Conselho contará ainda com o Consejero de Medio Rural do Governo de Astúrias, Alejandro Jesús Calvo, que fará a apresentação do livro de Jaime Izquierdo “La Conservación Cultural de la Naturaleza”, traduzido para português numa edição da RIONOR e da Editora Lema d’Origem.

            O direito a habitar os territórios raianos com dignidade, a luta contra o despovoamento, a coesão territorial e o equilíbrio e respeito entre campo e cidade, entre litoral e fronteira, são reptos que dizem respeito a todos quantos habitam os países ibéricos e somente serão concretizados com a congregação de esforços das diferentes forças vivas, onde se incluem, como é óbvio,  os media. Assim, com os saberes dos profissionais que trabalham no terreno e com a discussão aprofundada destas problemáticas cremos ser possível elencar os problemas e apontar as soluções. Estamos conscientes que sem um novo olhar dos media para estas questões, os territórios de fronteira prosseguirão com um despovoamento cada vez maior e com a destruição de todo o seu património cultural e ambiental.

            A RIONOR, como tem sucedido desde 2017, organizou mais estas jornadas em colaboração com o Instituto Politécnico de Bragança e o Centro Ciência Viva, tendo ainda o apoio da Junta de Castela e Leão, da União Europeia, da Câmara Municipal de Bragança e dos Ayuntamientos de Alcañices e de Trabazos.

Associação Rionor

Instituto Politécnico de Bragança, IPB

CCV de Bragança

Artigo de opinião: “O Chega quer proibir o sindicalismo”

Raquel Varela 36397388_10212151214190668_1506337673151774720_nFui ler o Programa do Chega – propõe a generalização dos despedimentos sem justa causa, e a proibição do sindicalismo, o fim do SNS e da escola pública, está tudo em baixo em link. Depois de enganados pelo PS e pelo PSD, desiludidos pelo PCP e o BE, ou adormecidos pelo PAN, desistindo da humanidade, os portugueses têm este Ventura como um “tipo que diz umas verdades”. Tive a paciência de ler tudo – agradeço a parte cómica em que Ventura defende vender as escolas aos professores…ou dar – caso não possuam poupança para as comprarem…

Salazar era o braço direito do grupo CUF, Mello etc, gente que toda a vida falou de empreendedorismo e viveu na sombra do Estado, enriqueceram única e exclusivamente à custa de baixos salários em Portugal, e trabalho compulsivo nas colónias. Esse tipo de trabalho era garantido com a proibição de sindicatos decretada por Salazar. Salazar estava ameaçado de uma revolução social – a partir da Espanha revolucionária – quando apoiou o líder fascista Rolão Preto, um cão de guarda que ficava com a tarefa de chefiar uma milícia, os camisas azuis, cuja função era – oficial e oficiosamente – perseguir revolucionários ou gente que defendia os direitos do trabalho. Quando Rolão Preto fez o serviço Salazar mandou prendê-lo. Hitler fez o mesmo com as SA, a milícia de homens musculados. Primeiro usou-os para matar dirigentes políticos de esquerda, a seguir mandou matar e prender os membros das SA. Para que pudesse pôr o Estado ao serviço das empresas privadas como a Bayer, Thyssen etc, agora usando o trabalho escravo (campos de concentração) sem a oposição dos lideres revolucionários. Cumprido o serviço sujo pelas SA cadeia com eles, que as empresas têm mais que fazer, é o lucro pá e a culpa era dos comunistas – mata-se e tudo fica impecável, um país sério. Milhares de desempregados, trabalhadores puseram-se, desesperados, ao serviço dos Rolão Preto e das SA, para depois acabarem dizimados, presos, torturados pelos amos que serviram, os seus donos, que os manipularam com a suposta sinceridade da violência e de dizer “umas verdades”.

O programa do Chega tem 16 linhas sobre saúde – prevê a total privatização da saúde e da educação -, e 1 linha – não estou a brincar – é 1 linha, não é 1 página, sobre trabalho. O que diz lá? Proibir o tempo de dedicação dos dirigentes sindicais, mesmo que 1 hora por mês. Todo o tempo, ou seja, trata-se de proibir o sindicalismo em Portugal de facto. Sobre salários miseráveis, condições de trabalho miseráveis, burnout, assédio moral, má alimentação, habitação, tudo relacionado com os baixos salários, zero, está lá escrito zero. Mais à frente noutra secção pode ler-se a defesa dos despedimentos por qualquer razão, sem justa causa. Sobre trabalho há uma linha – proibir os trabalhares de se organizarem. Quem vai ser o Rolão Preto deste Ventura, que enriquecerá á conta do Estado onde, agora na Assembleia, já se instalou?

Aqui vos deixo o link, página 51 – é preciso sublinhar que os media entrevistam este Senhor como se de um político democrata se tratasse.

PS escusam de me vir com a conversa da esquerda que não actua – é verdade, a nossa esquerda é deprimente, e o que dizer de um Partido dos animais, numa altura em que as pessoas sofrem mais do que muitos animais, e o que dizer do mais importante, do PS e do PSD que, no poder, deixaram este Estado de coisas – quem isso não admite não poderá encontrar soluções. Mas mais deprimente é vir um Partido como o Chega defender a flexibilização total dos despedimentos – e em cima disso defender a proibição de os contestar. Isto é capitalismo selvagem mais ditadura, é o come e cala, numa palavra é isso o Chega. Se com os partidos actuais tantos portugueses – justamente- se sentem enganados, que dizer deste advogado bem falante Ventura que os manipula como se fosse um senhor honesto a defender a pátria, e nada mais propõe a não ser a legalização da semi-escravatura que já grassa em tantos locais de trabalho onde de facto os trabalhadores já têm medo de se organizar?

Página 51
https://partidochega.pt/wp-content/uploads/2019/09/PROGRAMA_POLÍTICO_2019_CHEGA-2.pdf

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

Artigo de opinião: “Ouvir Pacheco Pereira é sempre uma tourada”

rodrigo-alves-taxaRidículo, patético e sobretudo ignorante. Assim caracterizo o triste episódio anti touradas ontem à noite realizado por Pacheco Pereira no jornal da noite da TVI, querendo começar este artigo que será necessariamente muito mais longo que os que costumo escrever, fazendo um conjunto de considerações.

A primeira para com honestidade intelectual afirmar publicamente que sempre tive alguma simpatia pelo perfil de Pacheco Pereira. Sempre lhe atribuí aquela dose de irreverência e coragem que permite aos que a têm, falar dos assuntos de que outros fogem a sete pés. Nesse sentido choca-me que um homem manifestamente inteligente e na maioria das vezes educado e polido, se tenha ontem transformado, ainda que por momentos, num verdadeiro grunho. A postura que ontem apresentou Pacheco Pereira é digna de um bronco, coisa que ele não é nem nunca foi. Portanto a primeira consideração é de lamento. Pacheco Pereira tem todo o direito em não gostar de touradas. O direito que já não tem é querer impedir-me a mim de vê-las se gosto.

A segunda consideração inicial, que até se articula com a anterior, é para dizer que nesta questão da tauromaquia, o gostar ou não gostar é secundário para efeitos de observação sociológica. O gosto só se encontra na base da discussão porque naturalmente se há touradas é porque as pessoas a elas vão, e se vão é porque gostam. No entanto, no seu âmago, a questão não assenta no domínio do gosto, mas no espectro do respeito pelo outro.

Aqui chegados, a terceira consideração inicial assenta numa grande confusão principiológica que inquina por completo a discussão sobre a tauromaquia desde o seu início, urgindo por isso esclarecê-la. É que tal como Pacheco Pereira, começo a ficar com falta de paciência para certas coisas. E sobretudo quando isso me acontece sou mais azedo num só dedo que Pacheco Pereira nos dez que tem nas mãos.

Caríssimo, pode dar as voltas que quiser ao texto. Um animal não é, seja no que for, um ser igual ou sequer equivalente ao ser humano. Não há qualquer equivalência entre ambas as espécies. Um animal não tem deveres. Ao não ter deveres, não tem direitos. Não tendo direitos, a tauromaquia não viola qualquer princípio, valor ético ou moral, pela simples razão de que aos animais e para com eles, não se aplicam quaisquer exigências intelectuais que entre nós devem ser fio condutor de rectidão social.

Se eu cravar três bandarilhas numa qualquer pessoa, isso é tortura. Se eu colocar três bandarilhas num toiro, não é tortura absolutamente nenhuma pela simples razão de que não há uma equivalência criminal entre ambas as condutas. Aliás, como tem obrigação de saber, o toiro de lide, e não de morte como erradamente o caracterizou, nem sequer está dentro da categoria dos animais de estimação ou companhia, perante os quais eu admito termos uma postura diferente, pela simples razão de que com eles se criam laços de proximidade e afeição muito superiores ao animal aqui citado que não passa na verdade de uma besta.

A menos que que queira experimentar afagar os cornos a um toiro. Boa sorte com isso. Enquanto tenta eu vou continuando o meu artigo.

Ridículo – O primeiro adjectivo que escolhi para caracterizar o que ontem ouvi sobre as touradas, deve-se ao que senti ao ver um homem que entre outras facetas, por ter sido toda a vida um homem de Estado e por isso sempre ter dito defender a democracia, parecer agora esquecê-la por pura embirração ideológica.

A democracia assenta na pluralidade. Assenta também por isso no princípio de que não poderá apenas ser permitido aquilo que eu gosto, aquilo que comigo se identifica e aquilo que por mim é compreendido.  Pacheco Pereiro esqueceu-se desde logo, portanto, que um dos pilares da democracia é a igualdade, e que essa igualdade se manifesta antes de qualquer outra coisa no respeito pela diferença.

Igualmente ridículo foi ver Pacheco Pereira procurar negar que a tauromaquia não tem qualquer raiz de natureza cultural, tendo tanto quanto percebi alvitrado que nem sequer representava grande parte da cultura rural. Ou seja, além de não gostar de touradas, Pacheco Pereira parece querer ser agora o definidor do critério da cultura nacional. Lá saberá o que pretende, eu cá por mim aconselhava-o a ter mais juízo que as suas vastas barbas brancas deviam ser sinónimo de que já devia ter idade para tê-lo.

Eu sou Ribatejano, nasci em plena ruralidade com muito orgulho e com o mesmo orgulho me definirei sempre como rural. A cultura da minha terra bem como do meu distrito é eminentemente taurina, sempre vivi perto de toureiros, forcados, ganadeiros, praças de toiros, campinos, cavalos e toiros. Em criança, bati o record de número de corridas toureadas por ano quando em cima do meu cavalo de pau, o “México”, (em homenagem ao melhor cavalo do toureiro que nessa altura mais gostava de ver tourear) bandarilhava com destreza os vasos das flores da minha mãe. Fui uma criança feliz. E sou sobretudo um homem feliz.

Considero-me além disso um homem bem formado, e nada e em nada inferior ou superior a quem possa ter uma cultura diferente da minha mesmo que não a perceba. Considero-me sobretudo bem formado porque mesmo que não a perceba não a quero eliminar. Muito menos que os outros sejam iguais a mim.

 Então agora vem o Pacheco Pereira armado em pateta explicar-me a mim o que é a minha cultura? Ridículo

Mas não me fico por aqui.

Outra circunstância ridícula, é o argumento tantas vezes invocado de que várias tradições acabam. Que o coliseu romano também acabou. Primeiro há que clarificar que as tradições acabam, quando delas já não há quem goste, as represente ou execute. Em segundo lugar e muito rapidamente, há que clarificar que uma tourada é em tudo diferente dos gladiadores e do coliseu de Roma. É diferente porque no primeiro caso o homem vai de livre vontade enfrentar um animal. Já no coliseu de Roma era um homem que obrigava outro homem a ir lutar com um animal que o poderia matar. E mesmo assim, se não fosse lutar com ele, morreria na mesma.

É capaz de ser um bocadinho diferente.

Claro que tanto num caso como noutro nem o toiro nem o leão do coliseu lá iam parar por sua livre vontade. Mas isso é natural porque o gozo e fruição da vontade é uma demonstração do livre arbítrio, domínio de que só dispõe tal como o concebemos, o ser humano.

Igualmente ridículo, foi Pacheco Pereira na forma como logo no inicio do debate, perante uma questão que lhe foi dirigida sobre se era aceitável que o Estado proibisse alguém de ir a uma corrida de toiros antes de completar dezasseis anos, vir referir que não seria admissível, na medida em que o admissível era desde logo acabar com as touradas.

Portanto, ficámos todos a saber que o mesmo homem que durante anos se sentou no parlamento nacional e europeu, auferindo um ordenado que era pago por todos os portugueses, onde se incluem os toureiros e os aficionados, assumiu publica e claramente que se estava a marimbar sequer para a discussão do tema e para os seus defensores. Era acabar e quem goste que se cale. Meu caro amigo, pode esperar sentado. Não vai ter tarefa fácil. Eu próprio me encarregarei de lhe tornar essa tarefa bem difícil.

Enfim, o show continuou, e depois de todas estas ridicularias de conteúdo houve também um notório ridículo de forma, na medida em que Pacheco Pereira mais parecia um qualquer reacionário descompensado e não o homem ponderado que sempre achei que fosse. Mas aí, todos temos dias e noites infelizes. Talvez a conta do jantar de Pacheco Pereira tenha sido cara ou a ementa lhe estivesse a causar azia.

Passo agora ao patético:

Ora bem, na vida é perfeitamente aceitável, diria mesmo que desejável, que todos nós tenhamos discordâncias. Agora argumentar as nossas discordâncias, assentando-as em falácias, argumentos desleais, imprecisões ou jogos de sombras é que é uma verdadeira patetice. Pacheco Pereira foi para ali falar de touradas sem que tivesse um único argumento sólido que sustentasse a sua posição. Já antes mencionei alguns, mas vou agora mencionar outros.

A primeira patetice foi dizer que a forma como tratamos os animas diz muito da maneira como tratamos as pessoas. O que eu gostava de perguntar a Pacheco Pereira, é se considera que uma qualquer pessoa por ser aficionada é por equivalência um ofensor nato dos seus semelhantes.

Eu sou muitíssimo aficionado. Considera-me, por sê-lo, menos integro que qualquer outra pessoa que não seja?

 É que sabe Pacheco Pereira, distintamente de si, entendo que a forma como muitos destes pseudo modernos seres humanos se preocupam com os animas, o que é, é uma demonstração bem clara da maneira como hoje se encaram as pessoas. São de segundo plano. O animal deve ser protegido. O ser humano logo se vê. Veja bem que até temos partidos com assento parlamentar que defendendo que eutanasiar um animal é um crime hediondo, dizem depois que fazê-lo num ser humano é um acto de bondade.

Diz muito da nossa sociedade. Esperava mais de si.

Outra patetice foi o meu caro amigo vir afirmar que a tourada é um espetáculo público. A tourada não é um espetáculo público Pacheco Pereira. É um espetáculo de público, o que é bem distinto. É organizado por empresas privadas, abrangidas pela legislação que a elas se aplica e, portanto, é feita no exercício de uma actividade com normas e preceitos legais, a que só vai quem quer, pagando o seu bilhete de livre e espontânea vontade para lá se dirigir. Pura deslealdade argumentativa.

Já que falo de lei, outra grande patetice por si explanada durante toda a sua intervenção foi por e simplesmente omitir a força da nossa ordem constitucional na qual em vários artigos se preceitua claramente a legalidade da tauromaquia. A menos que o meu caro amigo não respeite a constituição ou defenda que se faça outra. No primeiro caso é preocupante, se se aplicar o segundo, é legítimo.

Mas a haver uma alteração, esta não pode ser feita sem ouvir o povo. Até que aconteça, continuar-se-á a cumprir a actual. Portanto, a tauromaquia é uma manifestação cultural perfeitamente legal em todos os seus parâmetros, não podendo daí ser proibida ou limitada por decreto. Mas como eu sou boa pessoa, e sobretudo porque sei que o meu caro amigo não é jurista, aconselhava-lhe, nem que fosse por mera curiosidade, a leitura de alguns artigos da constituição.

Pode começar ali pelo princípio da igualdade para aprender o que é, depois passar para os direitos liberdades e garantias para ter uma breve noção de como tudo isto se articula e terminar dando uma passagem ali pela zona dos direitos sociais económicos e culturais. Se no fim da leitura ficar com dúvidas eu dou-lhe umas aulas de Direito Constitucional. E posso dar-lhe também uma de Introdução ao Direito para perceber juridicamente o que é o costume.

Veja bem que estou a dizer que lhe dou umas aulas. Não lhas cobro. Afinal um aficionado pode ser uma pessoa de bem.

Outra patetice:

A dada altura Sousa Tavares disse e bem que se o toiro de lide não fosse toureado por e simplesmente deixava de existir. Ora o Pacheco Pereira, pateticamente, transmitiu que pouco lhe importava o destino dos toiros se a sua existência assentasse no fim tourada. Portanto o caro amigo está tão, mas tão preocupado com um animal, que prefere que ele não exista, a existir para um fim com o qual não concorde.

Grande lógica. Como lhe chamaria um antigo professor meu, é a lógica da batata. Ou seja, desculpem-me todos o termo, uma lógica de merda.

Pelo reino das patetices podia continuar, dizendo que é patético haver partidos que querem colocar como idade mínima para assistir a uma tourada os dezasseis anos porque antes disso a pessoa não tem o carácter suficientemente desenvolvido para saber o que quer e não quer, mas em detrimento, defendem que muito antes disso já se tem a capacidade suficiente para decidir sobre a mudança de sexo; que patético é dizer que o sangue de uma tourada choca, mas que já não choca o sangue que se vê nos filmes, em determinados jogos ou mesmo em alguns desportos.

Não o vou fazer e passo ao último adjectivo; o ignorante.

O ignorante é aquele que não tendo conhecimento suficiente sobre determinada matéria, dela ignora a sua essência. Ora quando se é ignorante sobre algum assunto, manda a cautela que nos calemos sob pena de fazermos figura de parvos. É que a primeira circunstância é uma inevitabilidade. A segunda já é uma escolha.

Porque é que digo que Pacheco Pereira é um ignorante? Eu explico.

 A primeira grande ignorância foi ouvi-lo dizer que a tauromaquia é uma cultura machista. Ora certamente Pacheco Pereira desconhece que numa qualquer bancada de praça de toiros se encontram centenas e centenas de mulheres das mais variadas idades. Só se Pacheco Pereira ignora que elas lá estejam, e isso sim já é uma demonstração, não do machismo da tauromaquia, mas do seu próprio machismo pessoal.

Não obstante, foi igualmente ignorante, porque ou não sabe ou propositadamente procurou omitir, que na actualidade há pelo menos, assim que me lembre de repente, seis cavaleiras tauromáquicas no activo. E já que gosta de colecionar papéis, faça uma busca sobre cartelaria taurina e verá que já aí pelas décadas de 50, 60 e 70, existiam mulheres cavaleiras e até toureiras a pé.

Se não encontrar eu mostro-lhe.

Claro que o mundo taurino de então era machista. Como foi durante séculos o mundo político, académico, social e todos os outros. Tudo teve a sua evolução e a mulher chega à tauromaquia como chegou a qualquer outra área de actividade da sociedade. Mais tarde que os homens.

Amigo Pacheco, mais tento na língua se faz favor que ninguém tem que ser obrigado a aturá-lo, sim?

Outra ignorância foi ouvi-lo dizer que a cultura tauromáquica, dentro desta sua visão machista, era uma cultura em que o homem se gostava de armar em valente perante o toiro, eventualmente digo eu, para mostrar aos seus pares e às senhoras que é muito viril e valente. Portanto ser valente é agora sinónimo de ser machista. Eu sempre vi a valentia como uma característica sem sexo. A valentia e a cobardia. Eventualmente enganei-me.

Desta forma não compreendo esta argumentação e muito menos de que maneira ajuda a mesma a debater seriamente o tema. Ou melhor, compreendo. Esta argumentação é própria de quem por mero capricho pessoal e ideológico que sobrepor a sua opinião à dos outros nem que para isso tenha de aplicar toda e qualquer artimanha dialética por ausência de qualquer nível de razão.

Como isto já vai longo, e antes mesmo de terminar com uma preocupação e um desafio, deixo aquela que vi como a última e mais grosseira demonstração de ignorância da sua parte. Oh caro amigo, em Portugal não há toiros de morte desde o reinado de D. Maria II, exceptuando o caso de Barrancos, numa decisão maioritariamente assente no tal costume como fonte de direito que já lhe aconselhei que estudasse. Toiros de morte é em Espanha.

Então o caro amigo vem discutir um tema quando nem sequer o saber caraterizar e delimitar correctamente?

 Não sei que lhe diga.

Olhe por aqui me fico. Mas tal como disse, faço-o manifestando uma preocupação e fazendo um desafio. A preocupação é porque acho que algum trauma deve o meu amigo ter tido ou com as touradas, ou com algum toiro, ou mesmo com algum agente da tauromaquia, com qualquer coisa. Só assim percebo a sua descompensação e completo desrespeito pelos muitos milhares de aficionados portugueses.  Veja lá, se o poder ajudar a ultrapassar isso, diga-me, por favor.

O desafio que lhe lanço, e porque manifestamente ainda que tenha tentado, Sousa Tavares não lhe soube dar as respostas mais correctas porque tal como disse, deve ter visto aí umas seis corridas na vida, desafio-o para numa qualquer televisão, rádio, restaurante, café, sala de reuniões ou qualquer outro local, vir debater comigo, ponto por ponto, a tauromaquia. Até porque certamente muitos acharão que pessoalmente não lhe diria tudo isto que hoje aqui escrevi, e eu gostava de lho dizer de viva voz.

 Estou à sua inteira disponibilidade, no local e formato que a si mais adequado lhe parecer.

Olhe, em linguagem taurina, obviamente apelando ao seu sentido de humor e metaforicamente falando, coloco-me de praça a praça e dou-lhe a primazia da investida.

Rodrigo Alves Taxa

At https://ionline.sapo.pt/

Artigo de opinião: “Os palhaços e os filhos da puta”

Santana 10537103_346138475537062_4431220928287954909_nRamada Curto foi um advogado e jornalista bastante popular do meio teatral e jornalístico lisboeta da primeira metade do século XX, tendo intervindo nalguns dos processos-crime mais célebres do seu tempo.

Uma das suas histórias judiciais que ficaram célebres teve a ver com a defesa de um arguido acusado de chamar “filho da puta” ao ofendido, expressão que, na altura, era considerada altamente ofensiva. Nas suas alegações, Ramada Curto começou por chamar a atenção do juiz para o facto de, muitas vezes, se utilizar essa expressão em termos elogiosos (“Ganda filho da puta, é o melhor de todos”) ou carinhosos (“Dá cá um abraço, meu grande filho da puta!”), tendo concluído as suas alegações da seguinte forma: “E até aposto que, neste momento, V. Ex.ª está a pensar o seguinte: “Olhem lá do que este filho da puta não se havia de ter lembrado só para safar o seu cliente!…”.

Chegada a hora de sentença, o juiz vira-se para o réu e diz: “O senhor vai absolvido, mas bem pode agradecer ao filho da puta do seu advogado”.

Isto vem a propósito de recente afirmação de Miguel Sousa Tavares, que fez a capa do Jornal de Negócios, de que nós já teríamos um palhaço que se chamava Cavaco Silva. O que tu foste dizer?!… Em Portugal, os nossos políticos são todos muito susceptíveis e o povo muito reverente. Em Portugal, um político pode arruinar uma autarquia ou um país, enriquecer os amigos e a família e lançar o povo na miséria, destruir lares, famílias e vidas, que não lhe acontece nada. Mas, se alguém chama “palhaço” a um político, tem logo o procurador e a polícia à perna.

Eu até compreendo que certos políticos não gostem que lhes chamem “palhaços”, porque, efectivamente, os únicos e verdadeiros palhaços nesta história não são os eleitos mas quem os elegeu. Com efeito, por muito que nos custe reconhecer, os palhaços somos nós, o povo eleitor, que, durante os últimos vinte anos, temos eleito e sido governados pelos ofendidos da história de Ramada Curto.

Santana-Maia Leonardo

28-05-2013

At https://www.publico.pt/

Opinião: “Sondagens e resultados”

joanaamaraldiasoficial_62090486_2053394904966968_953275700898553678_nSe há lição que fica das eleições regionais na Madeira é que as sondagens falham. Já se sabia mas volta a confirmar-se: falham muito.
A previsão de resultados da sondagem da Católica (RTP) divergiu em 21 pontos dos resultados eleitorais. Já a Eurosondagem (DN/TSF) falhou em 17,2 pontos. A melhor foi a da Intercampus (JM) e, ainda assim, com um desvio de 12,2 pontos.

Portanto, os sucessivos programas na comunicação social que vomitam horas e horas de perdigotos sobre sondagens a partir das quais fantasiam cenários prováveis e coligações possíveis, que se enrolam em politiquices em vez de debaterem Política, são mesmo ralé preguiçosa, burra e totalmente inútil. Panem et circenses.

Joana Amaral Dias

At https://www.facebook.com/

Opinião: “Como te atreves, José Manuel Fernandes?”

luis osorioJosé Manuel Fernandes, líder do projeto Observador, atacou esta manhã Greta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que tem liderado o combate mediático contra as alterações climáticas. Fê-lo de uma forma indignada. Estava até incomodado porque a miúda tinha sido irrealista, radical e, pasme-se, malcriada. Estar ali, entre os poderosos do mundo, ainda por cima como convidada das Nações Unidas, e insultar os líderes políticos não é coisa que pudesse ser admissível ou tolerável.

Vamos lá a ver. José Manuel Fernandes aos 15 anos era militante maoísta. Participava apaixonadamente num dos partidos revolucionários de extrema-esquerda, um “ml” qualquer. Defendia o regime albanês de Enver Hoxha e a revolução cultural de Mao Tsetung. E estava disponível, como os seus camaradas do MRPP e de todas as outras fações, para uma revolução que rebentasse de cima/abaixo os alicerces do Estado Novo e o conservadorismo do Partido Comunismo. Na adolescência, José Manuel Fernandes era um radical. Malcomportado. E certamente irrealista.

Tinha 16 anos. Já não se deve lembrar. Porque o seu discurso paternalista acerca da juventude é uma desgraça. E falar assim de uma miúda que tem contribuído para uma viragem da opinião pública sobre as alterações climáticas é irresponsável e narcísico. Um cinismo que fica bem entre intelectuais e uma certa elite, mas que não é admissível. E que choca com a sua própria realidade. Uma pessoa pode mudar. Pode e deve, acrescentaria – também eu militei na juventude no PSR. Mas não pode esquecer-se do que é ter 16 anos. Do que é sentir a injustiça e agir. Do que é querer mudar o mundo e assumir os riscos. Do que é ser radical por ser a única forma de se ser ouvido. Do que é ser malcriado por não se aceitar as convenções e a hipocrisia.

Não estou a dizer que concordo com as premissas. Afinal, eu não sou Greta. Mas adoraria que ela fosse irmã dos meus quatro filhos. Teria um orgulho enorme numa mulher que assume um combate decisivo e arrisca a vida numa batalha pelo futuro. o futuro de todos nós. O dos filhos e netos de José Manuel Fernandes também.

Um dia escrevi um pequeno postal aos meus filhos que depois publiquei em “Amor”, um livro de pensamentos. Lembrei-me dele ao ver Greta ontem a interpelar os políticos

“A juventude não é juventude se não vivermos como se fossemos morrer amanhã. Não é juventude se não encontrarmos o nosso próprio destino, se não afrontarmos os que acham ser donos do caminho. Não é juventude se não arriscarmos, se não abrirmos a janela e respirarmos fundo de tanto acreditar que é possível o que quisermos que seja possível. Não é juventude se não começarmos a tratar por tu o silêncio e a solidão e se não tivermos medo de falhar. Se não nos apaixonarmos, se não chorarmos de raiva, angústia, se não gritarmos. A vida é a vida. A juventude não é juventude se a tratarmos como se fosse uma série de 30 ou 50 minutos com intervalos. Na vida os episódios não duram esse tempo, a juventude não é juventude se cada minuto não for vivido com intensidade, dure o que durar. E sem intervalos publicitários. A juventude não é juventude se tivermos a televisão ligada. Entendem, meus filhos?”.

Luis Osório

At https://www.facebook.com/

Summer CEmp regressa ao Alentejo

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Quando, a 1 de Março de 2017, o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, lançou o Livro Branco Sobre o Futuro da Europa para indicar cenários possíveis para o futuro da União, desafiou os 511 milhões de europeus a refletir sobre estas possibilidades e a escolher a Europa que querem amanhã.

Um debate honesto e consciente sobre a Europa só é possível através da consciência e do conhecimento do que é a União Europeia e do que é que ela representa para nós, que influência tem no nosso dia-a-dia.Debater com esta extensão implica chegar às pessoas que têm vontade de falar da Europa, implica ir às zonas geograficamente periféricas onde tantas vezes a Europa parece não chegar.

Foi por isso que, em 2017, a Comissão Europeia em Portugal desafiou 40 jovens universitários e 40 oradores de mão cheia para debaterem a Europa durante quatro dias, em Monsanto. Foi também por isso que não desistimos da ideia e, em 2018, levámos mais cinco dezenas de jovens a Marvão.

Sofia Colares Alves

O Summer CEmp é um seminário intensivo e interativo com formatos práticos de aprendizagem como conversas improváveis e exercícios práticos para entender melhor o projeto Europeu. Nasce da necessidade de envolver os futuros líderes de opinião no debate sobre a União Europeia. Em quatro dias, um grupo diverso de 40 jovens universitários dialoga direta e informalmente com um leque de protagonistas da atualidade política e mediática sobre os possíveis cenários de futuro da Europa. É uma iniciativa da Representação da Comissão Europeia em Portugal e organizado com o apoio da Câmara Municipal de Monsaraz.

Quando? A 3ª edição do Summer CEmp acontece de 27 a 30 de agosto de 2019.

Onde? Em Monsaraz, distrito de Évora. Num cenário rural e inspirador, o debate sobre a União Europeia faz-se com uma forte interação com a população local e com o património cultural e natural.

Agenda: O eixo central do programa é composto por conversas inesperadas com cerca de 40 oradores de alto nível – políticos, jornalistas, empresários, académicos, atletas e artistas – e uma variedade de atividades práticas aproveitando os recursos do grupo e da vila.

Para quem? Para 40 estudantes universitários portugueses, entre os 18 e os 30 anos, de todos os pontos do País. Dando-se prioridade a formação na área das relações internacionais, ciência política, comunicação e jornalismo, podem candidatar-se estudantes de qualquer curso. Será selecionado um grupo heterogéneo de jovens dinâmicos que têm em comum uma grande motivação para discutir a Europa. A participação dos jovens é gratuita e a seleção é feita por concurso, com base no seu perfil e motivação.

At https://ec.europa.eu/portugal/

Opinião: “O preço do Brasil por ter um boçal no poder”

Telmo 15400405_1376760399001220_626770123602206139_nTchau, acordo comercial com a União Europeia! O imbecil Boçalnaro conseguiu, em tempo recorde, transformar o Brasil num país vilão internacional, carbonizando a imagem do país no mundo.

Pelo Twitter, o presidente francês, Emmanoel Macron, não moderou as palavras: “Nossa casa queima. Literalmente. A Amazónia, o pulmão do nosso planeta que produz 20% do nosso oxigénio, está em chamas. É uma crise internacional. Aos membros do G7, vejo vocês em dois dias para falarmos sobre esta emergência“.

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Daqui a dois dias começa, na francesa Biarritz, a cúpula que reúne, além da França, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Itália, Japão e Reino Unido e um representante da União Europeia. Será que Bolsonaro vai pedir a Donald Trump que defenda o Brasil da condenação internacional pelos danos ambientais? Acho difícil, não concordam?

Falta pouco – ou talvez já nem falte nada – para que se proponham sanções internacionais ao Brasil boçalnarista. Seria, de facto, inaceitável que isso fosse feito se os brasileiros estivessem a defender o seu território e sua soberania, não o direito de “tacar fogo” na floresta amazónica. Não pensem que a reprimenda mundial vá despertar patriotismo: como a “causa” é péssima, o que traz é vergonha.

Anos e anos de esforço de Lula e Dilma para transformar o país num interlocutor das nações mais poderosas, para melhorar a sua inserção do sistema de trocas internacionais, para ser uma voz respeitada, que aspirava até a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU para, em poucos meses, virarmos um pária internacional, um motivo de escárnio para o mundo.

O estúpido, inculto e imbecil Boçalnaro, conseguiu uma proeza. Mobilizou a opinião pública mundial contra o Brasil num grau e numa velocidade inacreditáveis. É mesmo provável que o número de queimadas e a área desmatada no país tenha crescido com seu discurso de tirar a fiscalização ambiental “do cangote” de fazendeiros, garimpeiros e madeireiros. E, ainda mais, com o clima de terror que ele impôs aos servidores dos órgãos fiscalizadores, vários deles já punidos com transferências para longe de seus locais de trabalho.

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Tudo o que está a ocorrer, por pior que seja, porém, não chega nem perto da repercussão que a idiotia presidencial conseguiu dar ao tema.

1 – Um vídeo da Reuters tem meio milhão de acessos, dizendo que “onda enorme [de queimadas] veio depois de Boçalnaro tomar posse em janeiro”.
https://twitter.com/Reuters/status/1164226909745500161

2 – O The New York Times diz que ” o desmatamento da Amazônia aumentou rapidamente desde que Boçalnaro, eleito em outubro, tomou posse e seu governo cortou os esforços para enfrentar actividades ilegais na floresta tropical”.
https://www.nytimes.com/…/…/americas/amazon-rainforest.html…

3 – A inglesa BBC (1) também divulga vídeos, assim como a rede de televisão norte-americana NBC (2), o francês Le Monde faz o mesmo, dizendo que Bolsonaro é uma ameaça à Amazónia.
(1) https://twitter.com/BBCWorld/status/1164295357750284288
(2) https://twitter.com/NBCNews/status/1164227161345024000

4 – A Al Jazeera (1) diz que o país vive em black-out durante o dia pela fumarada e até os vizinhos argentinos, no meio de uma crise, destacam o tema: “Incêndios na Amazónia atingem nível recorde e Jair Boçalnaro aponta contra ONGs“ (2)
(1) https://twitter.com/AJEnglish/status/1164117055353827328
(2) https://www.clarin.com/…/incendios-amazonas-alcanzan-nivel-…

Os prejuízos que os incêndios e o desmatamento da Amazónia trazem são imensos, mas vão muito além de árvores e animais queimados. Tornaram o Brasil e seu governo “malditos” no mundo, ao contrário dos tempos em que outros governos atraíam a solidariedade da opinião pública mundial.

Não é verdadeira a “máxima” de que um país não tem amigos, tem interesses. Amizade é a primeira porta para os negócios e o imbecil brucutu Boçalnaro está a transformar o Brasil num país que, em lugar de encantar, horroriza o mundo.

Telmo Vaz Pereira

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Opinião: “Que tal criar, nos arredores de Santa Comba, a ‘Cidade de Ontem’?”

Francisco Seixas da Costa 44557871_10215435787621374_8204709156926521344_n“Ao ler que a Santos Júnior, polícia-mor de um dos períodos mais sinistros da ditadura, foi atribuído o nome de uma rua em Coja (se fosse em Corja, não me admirava), dei comigo a pensar se, de facto, não seria justo, para cultivo de uma certa memória afetiva, ser criada, algures no nosso país, uma cidade que tivesse o nome de Ontem. Para aí irem viver poderiam ser convidados, em prioridade, todos quantos, nas redes sociais e nas caixas de comentários dos sites e jornais, permanecem fiéis a um saudoso passado em que, pelos vistos, se sentiam tão felizes. Mas muitos outros seriam elegíveis, como se intui em colunas de jornais e até em certas tribunas políticas residuais. Em Ontem, o Diário da Manhã e o Novidades dariam, ao alvorecer, as notícias a que os seus cidadãos tinham direito – mas nem mais uma, ou, então, “factos alternativos”, como fazem as relações públicas de Trump! E iríamos vê-los felizes, cara ao sol, sentados na esplanada do Café do Aljube, com vistas para a Praça do Tarrafal (no centro da praça, em dias de calor haveria um lugar a que chamariam “frigideira”), à qual se acederia pela grande Avenida Oliveira Salazar, de sentido único, que, lá bem ao fundo, conduzia ao Beco Américo Tomaz (com Z). No Centro Social Silva Pais, não muito distante, ouvir-se-ia a Emissora Nacional que os “senhores óvintes” quisessem, obrigatoriamente abrindo com “Uma Casa Portuguesa” (“a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente”). Na Alameda Barbieri Cardoso, ficaria a Livraria Lápis Azul, que só venderia livros rigorosamente conformes aos cânones do antigo e benquisto regime, sendo de todo excluídos aqueles em que as palavras “liberdade”, “democracia” e “povo” pudessem surgir. Em Ontem, Pide seria o nome de uma associação de beneficência, com o Centro de Artes “Estátua”, recuperando a tradição de uma instituição com uma benéfica ação que tão deturpada tem sido – embora, felizmente, já haja por estes dias um grupo dedicado de rapazes da historiografia que começa a tentar mudar tais erróneas perceções. O fotógrafo oficial da cidade de Ontem, um tal Rosa Casaco, faria os retratos à maneira, de preferência um “photomathon” com frente e duas laterais, numa moda estética lamentavelmente caída em desuso. E, por falar em “casaco”, iria ser com certeza um sucesso o alfaite o local, o conhecido “Vira Casacas”, que tanto trabalho tinha tido no 25 de abril.

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Perguntará o leitor: E a Justiça? E a Saúde? Quem assistiria nesses domínios os habitantes de Ontem? A Justiça, ora essa!, estaria a cargo dessas vestais do direito que eram os juízes dos Tribunais Plenários! E a Saúde, essa não poderia ficar em melhores mãos do que de esses dignos seguidores de Hipócrates que eram os médicos do Tarrafal, de Peniche e de Caxias. Mas não se fala da Educação? Não, porque em Ontem ela não seria necessária, orgulhosa do analfabetismo sadio que outrora imperava. E, sejamos óbvios, os que fossem educados só por engano é que iram viver para Ontem. Resta a ordem pública? Nem por isso! Bastava ficar por lá o capitão Maltez (nunca percebi porque nunca foi promovido, ou, se calhar, foi, depois do 25 de abril e ninguém nos avisou) e nem uma agulha bulia na serena melancolia da paz dos cemitérios. Ah! E, em Ontem, haveria também uma Colónia de Férias (então eles passavam lá sem ter uma coloniazita…). Pela certa, finalmente, a cidade não enjeitaria uma geminação com Santa Comba ou com a angolana São Nicolau, porque há memórias que calam fundo – e calar é algo que Ontem saberia sempre fazer. Um ponto muito importante seria permitir que os cidadãos pudessem sair de Ontem sempre que lhes apetecesse. Não há, porém, a certeza de que isso, necessariamente, lhes agradasse, porque a liberdade é, no fundo, aquilo que eles menos apreciam. Enfim, Ontem é, talvez, o futuro que alguns desejariam. Por que não fazer-lhes a vontade? Será que para a criação desta urbe da saudade se arranja, finalmente, uma maioria decente na Assembleia da República?.”

(Reprodução de um post antigo. O futuro, quem sabe?, pode afinal ser Ontem)

Francisco Seixas da Costa

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