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Artigo de opinião: “Peixinhos ignorantes e miseráveis”

Catarina TavaresA ignorância é uma página em branco que não admite discussão e teme o debate que fragiliza a sua autoridade; a autoridade que advém de nada saber. É assim, ponto. Por isso, ao longo da História as bibliotecas, os edifícios e as estátuas foram, e são, vítimas preferenciais da ignorância totalitária. Assim foi com os autos de fé e com os índexes que colocaram fora de lei o conhecimento, e assim é, ainda hoje, com a censura que cerceia o conhecimento e a criatividade em nome de religiões ou, de ideologias.

A ignorância tem uma lógica própria, uma lógica simples e aparentemente sem falhas: todos os Homens são mortais, Sócrates é homem logo é mortal. Mas ai!… Pode ser um erro crasso agir com base em pressupostos simplistas, mas no caso de António Vieira é ingratidão.

António Vieira não foi um colonialista, foi um homem do seu tempo, um visionário, e acima de tudo, um orador extraordinário. Ao contrário de muitos outros pregadores da sua época é, ainda hoje, um gosto lê-lo. Imagino o que seria ouvi-lo perorar do cimo do púlpito em apaixonado sermão… As palavras, cada palavra, pensadas à medida, as ideias arrumadas numa hierarquia perfeita. Um mestre da língua portuguesa, mais que isso, um padre que foi perseguido na sua época por se opor à escravatura e à corrupção. Não é só o seu português que é actual são muitas das suas ideias aliás, a Santa Inquisição perseguiu-o porque estava incomodada com as críticas que ele verbalizava relativamente igreja e aos poderosos. O sermão de Santo António aos Peixes, além de um clássico da literatura é uma crítica cerrada à sociedade da época com as suas vaidades, as corrupções, e os inquestionáveis poderes que subjugavam os “peixes” mais humildes.

O que diria António Vieira dos vândalos que grafitaram a sua estátua? Imagino-o, como no Sermão de S. António aos Peixes, a dizer : “…peixinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes” ou, talvez a perdoar num encolher de ombros. Afinal, o que é uma estátua esborratada para quem passou pelos cárceres da Inquisição?

Caminho enganoso deveras, já que muita da energia posta a destruir estátua(s) poderia ser canalizada para lutar conta a escravatura moderna já que 30 a 40 milões de pessoas são, hoje, vítimas da escravatura. Os mercados de escravos não são “coisa do antigamente” são uma realidade arrepiante dos nossos dias. Sabia que 25% dos escravos, de hoje, são crianças? Quantos dos produtos que estão nas prateleiras das nossas lojas resultam de trabalho escravo? Agricultura, minas, pescas, indústria têxtil, construção civil sectores que usam o trabalho forçado para colocar nas nossas prateleiras produtos a preços acessíveis e nós consumidores queremos ignorar, quase sempre, a dura realidade que se esconde por detrás dos produtos ditos “baratos”.

CRÓNICAS DISTO E DAQUILO
Catarina Tavares
Dirigente Sindical

At Semmais

Faleceu José Chambel Tomé

Chambel17

NOTA DE PESAR

A UGT Portalegre, através do seu Secretariado distrital e restantes Órgãos Sociais, vem por este meio manifestar o mais profundo sentimento de pesar pelo falecimento, durante a noite de hoje, do seu anterior Presidente, José Chambel Tomé, numa altura em que esta organização regional completa 10 anos.

Fundador da UGT Portalegre a 17 de Abril de 2010, foi seu Presidente durante dois mandatos, com eleição para um segundo mandato em 10 de Maio de 2014, de que decorre a inauguração da actual sede a 30 de Outubro de 2015, tendo desenvolvido as actividades na organização durante os mandatos nacionais dos Secretários Gerais João Proença e Carlos Silva.

Neste momento de dor, a UGT Portalegre solidariza-se com a sua esposa, filhos e netos, e restante família e amigos, a quem apresenta as mais sentidas condolências, e agradece todo o trabalho e dedicação prestados a esta organização ao longo destes anos.

O Presidente da UGT Portalegre

Marco António Barreto Lourenço de Oliveira

UGT preocupada com números do desemprego e `lay-off` em Portalegre

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De acordo com a UGT, estes números tiveram particular incidência em concelhos com mais de 500 desempregados, nomeadamente em Elvas, Portalegre, Ponte de Sor e Campo Maior.

A União Geral de Trabalhadores (UGT) de Portalegre manifestou-se hoje preocupada em relação aos números do desemprego e de ‘lay-off’ naquela região, na sequência da pandemia de covid-19.

Num comunicado enviado à agência Lusa, a UGT de Portalegre alerta que, desde o final do mês de janeiro até ao final de abril, se verificou um “aumento dramático” do desemprego, atingindo “praticamente 20%” na região.

De acordo com a UGT, estes números tiveram particular incidência em concelhos com mais de 500 desempregados, nomeadamente em Elvas, Portalegre, Ponte de Sor e Campo Maior.

“Comparativamente ao mês de março, já em pleno período de situação pandémica de covid-19, e em apenas um mês, o aumento do desemprego foi superior a 9%”, acrescenta.

Como exemplo “concreto e preocupante”, refere-se que no concelho de Portalegre se verificou um “aumento de 30,5%” da taxa de desemprego entre o final do mês de janeiro e o final do mês de abril, e de “19,3%” apenas desde o final do mês de março para o final do mês de abril.

Quanto às entidades empregadoras em situação de ‘lay-off’, a União indica que até ao final do mês de maio estavam nessa situação 742 empresas, o que representa 0,7% do total nacional.

Algarve e Alentejo foram as regiões do continente com maior aumento do número de desempregados por mil habitantes durante o mês de março em relação ao mesmo período do ano passado, divulgou em maio o Instituto Nacional de Estatística.

O confinamento social fez aumentar o desemprego logo em março, com 52.999 novos inscritos nos centros de emprego, o que representa um crescimento de 34% face ao mesmo mês de 2019, segundo o Barómetro do Observatório sobre Crises e Alternativas, que analisou os efeitos da crise causada pela covid-19 e divulgou as suas conclusões numa publicação eletrónica intitulada “Novo Desemprego: as fragilidades de uma opção produtiva”.

O estudo salienta que em março, o primeiro mês de confinamento social, se verificou um agravamento de 34% no número de novos desempregados inscritos, face ao mesmo mês de 2019. Essa evolução refletiu-se no nível do desemprego registado no final de março que subiu 3% face a março de 2019 e 8,9% face ao mês anterior.

Segundo o autor da análise, João Ramos de Almeida, os valores percentuais são diferentes porque se tratam de dois conceitos diferentes: o conceito de desemprego ao longo do mês diz quantos desempregados se inscreverem nesse mês, mostra o fluxo, enquanto o desemprego registado mede o nível do desemprego, do número de pessoas que estão disponíveis para trabalhar num dado mês (ao final desse mês) e que não foram ocupadas pelo Instituto de Emprego.


O número de desempregados disparou no distrito de Portalegre impulsionado pela pandemia da Covid-19.

De acordo com o presidente da UGT Portalegre, Marco Oliveira, como exemplo preocupante, no concelho de Portalegre, capital de distrito, verificou-se um aumento de 30,5% entre o final de janeiro e o final de abril, e de 19,3% apenas de final de março para o final de abril.

Marco Oliveira adiantou que o aumento do desemprego é transversal a todo o distrito de Portalegre, com particular incidência em Portalegre, Elvas, Ponte de Sor e Campo Maior.

Questionado sobre se defende um eventual prolongamento do lay-off até dezembro deste ano, o dirigente sindical disse ser favorável, salientando que “será sempre melhor do que estar a encerrar empresas e a mandar famílias para o desemprego”.

Marco Oliveira revelou que o número de empresas em situação de lay-off no Alto Alentejo, a 27 de maio era de 742, correspondendo a 0,7 por cento do total nacional.

At https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/ugt-preocupada-com-numeros-do-desemprego-e-lay-off-em-portalegre-595551?fbclid=IwAR1v323FHRz18_FmhH_ZYgLLK9UuWslYF6m6Ia22gknqlr1BDe9naVaWVsE, https://tvi24.iol.pt/aominuto/5e56645d0cf2071930699ff6/ugt-preocupada-com-numeros-do-desemprego-e-lay-off-em-portalegre/5ed4e0f80cf2c4d7ff3f21eb?fbclid=IwAR3njlkmts2JixEHRLOe3jq5XD61X0BM3WkdfLfUfySDX71vg1GcyNQQw4I, https://www.noticiasaominuto.com/economia/1499515/ugt-preocupada-com-numeros-do-desemprego-e-lay-off-em-portalegre?fbclid=IwAR0I7355uUpV131yJ3G0wtgDNKRQWLmOeBs0KTrVSgCIXTb0rihimYATTmo, https://tvguadiana.pt/2020/05/29/ugt-portalegre-transmite-preocupacao-em-relacao-aos-numeros-do-desemprego-e-de-layoff-no-distrito/?fbclid=IwAR36T13cDtunOqlwCHvHtpMpWSMxWKdPIjN00v-GLBsMnvBAKj-Nm_h-y1s, http://www.radioportalegre.pt/index.php/8-radio/13047-pandemia-da-covid-19-fez-disparar-numero-de-desempregados-no-distrito-de-portalegre.html

Artigo de opinião: “CGTP, a correia de transmissão de um sinal errado”

Vitor MatosBom dia!

Era óbvio que a realização do comício do 1º de Maio na Alameda ia ter efeitos secundários. A CGTP, velha “correia de transmissão” do PCP, passou a correia de retransmissão de uma polémica desnecessária onde a maior responsabilidade é do Governo (e do Presidente da República) por ter autorizado uma exceção que passou o sinal errado à população. Só não terá sido uma correia de retransmissão do vírus pela organização exemplar da Intersindical, elogiada aqui pelo ministro Eduardo Cabrita. Alvo de críticas previsíveis, a Intersindical que não é ingénua e sabia que ia estar sob fogo, emitiu ontem um comunicado que só se pode justificar por cegueira ideológica: “Há setores da nossa sociedade que procuram no surto epidémico a justificação para o regresso ao passado, para a reintrodução do totalitarismo, de mordaças e do unanimismo como única forma de pensar e estar.”

No contexto que estamos a viver, só por desonestidade intelectual se pode agitar o fantasma do fascismo por críticas legítimas numa democracia: discordar ou dizer à CGTP que não podia realizar o comício durante o excecionalíssimo estado de emergência por causa de uma pandemia que já matou mais de mil pessoas em Portugal, que devastou a Espanha (com o contributo de uma manifestação) e está a devastar o mundo, é voltar ao fascismo? Vamos excluir da equação as críticas da direita, ficamos só com as da esquerda. A UGT, que não foi para as ruas – Carlos SIlva fez críticas duras à CGTP no Expresso – e celebrou o 1º de Maio pelas redes sociais, quer reintroduzir o “totalitarismo”? A corrente do Bloco de Esquerda na própria CGTP que foi contra o comício na Alameda, é um grupo de saudosistas a defender uma “mordaça” na luta pelos direitos dos trabalhadores? E Catarina Martins, que num gesto político significativo, fez uma comunicação nas redes sociais e não foi à Alameda, ao contrário de Jerónimo de Sousa, quer instituir o “unanimismo”? As palavras têm peso mas a memória também: quem lutou pela “unicidade sindical” e o “unanimismo” foi PCP e a CGTP nos tempos do PREC, para ter o monopólio do mundo laboral.

Luís Marques Mendes resumiu bem o problema no comentário de ontem à noite na SIC: a autorização para as celebrações “mina a autoridade política” – e o Governo não se pode queixar se as pessoas começarem a prevaricar. Mais do que isso, passa a ideia de que o Executivo tem medo da CGTP porque se aproximam tempos difíceis, e a paz social será importante durante a crise económica.

Na verdade, a a posição da Inter – liderada agora pela militante comunista Isabel Camarinha – é filha dos argumentos do PCP, que tem apontado mais para o “medo” e o “alarmismo” do que para a necessidade de medidas excecionais (como o estado de emergência ou de calamidade) para conter os riscos da pandemia na saúde pública. Jorge Cordeiro, um dos principais dirigentes comunistas, escreveu um artigo no “Avante!” a semana passada que mostra como o PCP continua a olhar para o mundo por um funil, à luz de uma fé dogmática que distorce o mundo sempre no mesmo sentido. Fica esta passagem: “Em nome do necessário distanciamento e das medidas de prudência de cada um consigo próprio e para com os outros, o que aí está à escala de massas é a profusão a partir de agigantamento do medo, para lá do racional, da criação de um clima geral de intimidação social dirigido para e suportado na exacerbação do individual” – tudo aproveitado pelo capital monopolista para anular a luta coletiva. Aqui não há vida para além da luta de classes (outra coisa são os abusos das empresas que devem ser punidos).

Como era de esperar, a decisão do Governo gerou ondas de choque, sobretudo com a ajuda da própria ministra da Saúde que, na ânsia de justificar a aprovação dos comícios da CGTP, deu a entender este sábado, numa entrevista a Rodrigo Guedes de Carvalho, na SIC, que o 13 de Maio também se podia celebrar em Fátima,desde que fossem “respeitadas as regras sanitárias”. As declarações inesperadas de Marta Temido geraram surpresa no Santuário, mas a governante havia de esclarecer ontem, com a polémica já instalada, o que tinha ficado em dúvida: “O que o Ministério da Saúde pretendeu explicitar é que há uma diferença entre peregrinos e celebrantes” e que as peregrinações continuavam proibidas.

A própria igreja, que não quis comentar a homilia de um padre que fez críticas à ‘geringonça’ – “manda no país” – em plena missa, por causa do 1º de Maio, manteve a decisão de não levar gente para Fátima por ser “um perigo para a saúde pública”, afirmou o cardeal D. António Marto. O “Público” avança hoje que o primeiro-ministro falou com o bispo sobre a realização de cerimonias só com a presença de eclesiásticos e alguns fiéis.

O responsável pela Proteção Civil de Santarém foi mais longe e recomendou “juizinho” com o 13 de Maio.

No dia em que começa o lento desconfinamento no país, pode ver aqui o ponto da situação do surto em Portugal em gráficos e mapas: 25.282 infetados e 1043 mortos, a variação mais baixa desde o início do surto. E pode informar-se ainda sobre a situação no resto do mundo.

Vítor Matos

At https://expresso.pt/

Paulo Pedroso abandona o PS

Paulo PedrosoNo modelo de partido que está subjacente ao Partido Socialista e no modelo de sindicalismo que esteve subjacente à criação da UGT não estava prevista a mesma ligação umbilical entre partido e sindicatos que encontramos nos partidos trabalhistas, social-democratas escandinavos ou do centro da Europa, ou mesmo da Espanha dos primeiros anos da democracia.

A UGT, hegemonizada por socialistas, sempre assentou num entendimento entre sindicalistas do PS e do PSD, que vem do tempo da luta contra a unicidade sindical e teve outras correntes minoritárias (a democrata-cristã e mesmo quadros comunistas na direção de alguns dos seus mais importantes sindicatos em alguns momentos).

Dito isto,a declaração de Carlos Silva ao pôr entre os seus motivos para sair da liderança da UGT a falta de apoio do PS merece reflexão de quem se situe politicamente à esquerda.

Eu hoje sou um socialista democrático, preocupado com o futuro do sindicalismo e desvinculado da militância partidária e partilho com Carlos Silva o desencanto com o modo como esse partido trata, não a UGT, mas o sindicalismo em geral.

Nas últimas eleições, o programa eleitoral do PS em matéria de diálogo social era quase igual ao de qualquer partido democrata-cristão europeu, manifestando igual preocupação com o associativismo empresarial e o sindical e pugnando por um papel de árbitro descomprometido na concertação social, equidistante de empregadores e trabalhadores, que é contra o seu património genético e mesmo a sua declaração de princípios. É certo que logo a seguir às eleições o governo avançou com propostas de revalorização salarial na concertação que contrariam essa visão. Mas, se for a sério, é a manifestação de um voluntarismo governamental que prescinde dos sindicatos, uma fórmula que não costuma dar resultados duradouros, porque demasiado dependente dos ciclos políticos.

A escolha das listas de deputados, que relegou os sindicalistas socialistas para fora do Parlamento foi o corolário lógico de um desvio pro-business que é visível na posição do governo face à legislação laboral e no desequilíbrio dado na atenção a empresas e a trabalhadores.

Não sei se a falta de apoio de uma direção do PS, no quadro da autonomia do sindicalismo em relação aos partidos e da UGT em particular face ao PS, devia ser motivo suficiente para um Secretário-Geral da UGT ponderar sair. Mas concordo que o desinteresse do PS pelo sindicalismo que se agravou desde que António Costa é Secretário-Geral e Primeiro-Ministro é motivo para quem não quer a desinstitucionalização das relações laborais pensar que via socialista é esta que a direção do PS de António Costa adotou, mas que ainda está muito a tempo de corrigir, no partido e no governo, embora já não na representatividade parlamentar. Resta saber se o PS acha que tem aqui um problema e não há sinal nenhum de que ache.

Opinião: “Os socialistas, o futuro do trabalho e os desafios do sindicalismo”

Porfírio1. O nosso espaço político, do socialismo democrático, da social-democracia e do trabalhismo, nasceu ligado às classes trabalhadoras e à luta pela melhoria das suas condições de vida e contra a exploração da sua força de trabalho.
Em alguns casos, o partido era mesmo o partido dos sindicatos. Entretanto, historicamente, essa ligação umbilical, onde era orgânica, quebrou-se – como aconteceu no Reino Unido, onde esse deslaçamento orgânico foi visto como uma necessidade para o Labour fazer chegar a sua mensagem mais diretamente ao conjunto da população e, por conseguinte, chegar ao poder. Fora do nosso espaço político, essa relação entre sindicatos e partidos políticos foi tradicionalmente conflitual em alguns quadrantes. Por exemplo, sempre houve, mesmo em Portugal, um sindicalismo antipartidos e antipolítica (como o anarco-sindicalismo ou o sindicalismo revolucionário), que não deixa de espelhar uma mais geral conflitualidade (às vezes produtiva) entre socialistas democráticos e as correntes libertárias. O deslaçamento das relações entre partidos do socialismo democrático e sindicatos também foi afetado pela crise da ideia da luta de classes como mecanismo básico da dinâmica social, enfraquecendo a identificação de partidos da classe operária a favor de partidos autoidentificados como interclassistas – embora, há que reconhecer, isso possa ter levado alguns sectores a perder de vista a especificidade dos problemas próprios do mundo do trabalho subordinado.

2. Este contexto geral também é pertinente para Portugal, mas, no caso do nosso país, a questão sindical cruza-se de uma maneira específica com a questão política mais global. O PS é o espaço político privilegiado para uma reflexão sobre os novos desafios do mundo trabalho e do sindicalismo precisamente por termos no nosso património histórico a luta pela liberdade sindical como parte da liberdade inteira. A luta contra a unicidade sindical foi, após o 25 de Abril de 1974, o primeiro combate duro contra aqueles inimigos da democracia pluralista que se albergavam em partidos de esquerda e à sombra de uma ideia de revolução – e essa luta pela liberdade sindical foi liderada e levada à vitória pelo Partido Socialista. Quando travámos esse combate contra a unicidade sindical sabíamos que essa via de restrição da liberdade sindical fazia parte, no “socialismo real” a Leste, de um formato que esmagava todas as liberdades democráticas: aquilo a que chamavam liberdades burguesas ou “meramente formais”. E, consequentemente, os sindicalistas socialistas envolveram-se na prática do pluralismo sindical, com a criação da UGT. Isso não prejudicou o pluralismo dentro do partido, hoje plasmado na existência e na convivência de uma Tendência Sindical Socialista da UGT e de uma Corrente Sindical Socialista da CGTP, acolhendo socialistas com diferentes militâncias sindicais. E, comum aos sindicalistas socialistas de ambas as linhas, está o facto de que o PS não lhes dá orientações nem ter qualquer dirigismo em relação às suas opções sindicais.

3. De qualquer modo, é hoje inescapável que a história recente fez acumular tensões entre as estruturas partidárias e as estruturas sindicais: os anos da troika foram particularmente duros para os trabalhadores e o país ainda não retomou os indicadores sociais e económicos anteriores à crise de 2008, a Grande Recessão que só a direita portuguesa julga que se circunscreveu a Portugal. Essas marcas não foram ainda completamente recuperadas e pressionam a ação sindical e a ação governativa em tensão. Essa tensão é mais difícil de gerir quando o PS é o partido de governo e segue uma linha especialmente exigente no que tange à responsabilidade orçamental.

4. Reconhecido este enquadramento, e orgulhosos de sermos o único partido político português onde se pode fazer este debate aberto, temos de colocar o que aprendemos com a história ao serviço de uma resposta que temos de construir aos enormes desafios que enfrentam hoje os trabalhadores organizados e os socialistas. Penso, designadamente, na economia globalizada das plataformas digitais e na ameaça que ela representa de desregulação selvagem das relações laborais, contornando a própria soberania nacional e desafiando o Estado de Direito, ameaçando direitos fundamentais.
E penso, também, na fragmentação do espaço público, que afeta quer a representação parlamentar quer a representação sindical, com novas organizações por vezes mascaradas de sindicatos, mas com agendas políticas imediatistas, por vezes agressivamente antidemocráticas e desligadas de perspetivas de solidariedade social mais amplas. Essa fragmentação, acompanhada de radicalização, mostra-se, por vezes, capaz de desgastar o sindicalismo de concertação e de procura de acordos, alimentando estratégias de confronto e de rutura que enfraquecem as instituições democráticas e as instituições sindicais. O sindicalismo que procura melhorar as condições de vida dos trabalhadores através da negociação, e de acordos, tem dificuldades acrescidas neste ambiente político e social.

5. Neste quadro, o que se constata, por cá, é uma crise simultânea dos dois modelos tradicionais de relação entre partidos e sindicatos. O modelo de relação entre o partido dos comunistas e os sindicalistas comunistas, típico do “centralismo democrático”, viu um pico de tensão com o secretário-geral da FENPROF a criticar em público o PCP sobre a “crise da carreira docente”. É o “modelo do controlo” a sofrer tensões quando sindicatos tradicionais da CGTP se sentem pressionados por pequenos sindicatos populistas e respondem tomando para si a radicalização prometida pelos emergentes anti-institucionais, procurando, ao roubar o estilo, roubar o sucesso que o estilo esperava garantir. Com a dificuldade que tem um partido das instituições, como é o PCP, em alinhar nessa radicalização – especialmente quando é parceiro parlamentar da governação, como se assumia na altura. Já o “modelo de autonomia”, que caracteriza a relação entre os sindicalistas socialistas e o seu partido, também sofre tensões quando as responsabilidades governativas estão no mesmo campo político e separam os agentes partidariamente camaradas. Um mero indício dessa tensão é a ausência, na XIV legislatura, de qualquer sindicalista na bancada parlamentar do PS (que não cabe aqui analisar, mas se constata e é uma situação historicamente rara).
Ora, a crise simultânea destes dois modos de relação entre partidos e sindicatos é, somando, uma crise das próprias instituições de regulação social no sentido amplo, porque enferrujam as relações entre diferentes modos de representação política e social que só podem manter uma dinâmica positiva, de ganhos mútuos, se souberem ser ao mesmo tempo capazes de competição e capazes de cooperação.

6. Tudo isto que fica dito só serve para constatar uma dificuldade (como podemos continuar a ser, também, um partido de trabalhadores, sem deixar de ser um partido de liberdade) e para incentivar a que usemos o nosso modelo de relação entre partido e sindicalistas (uma relação de camaradagem ideológica, governada pela autonomia das partes) para ganhar forças para enfrentar o ariete da desregulação laboral global, a maior ameaça presente ao nosso projeto comum de emancipação dos trabalhadores. De todos os trabalhadores, mesmo daqueles que alguns dos nossos adversários pintam de “amarelos”. E é este o ponto de partida que ofereço a este debate.

Porfírio Silva

At https://maquinaespeculativa.blogspot.com/

Opinião: “O salário médio, cerca de 950/1000 euros, é o mínimo para se sobreviver”

“O Governo e os sindicatos na sua maioria estão agora a debater o salário mínimo, mas eu considero urgente abrir uma discussão pública em Portugal sobre o salário médio, porque na realidade o salário médio, cerca de 950/1000 euros, é o mínimo para se sobreviver; e o mínimo – 635 euros – é de facto o salário miserável. É urgente passarmos da discussão da “mais pobreza ou menos pobreza” para falarmos de qualidade de vida, do direito a viver dignamente do trabalho, sem chegar ao fim do mês com mês e sem dinheiro. Sem poder ter vida própria, acesso à cultura, ir ao cinema ou ao teatro, ir de férias – a maioria dos portugueses, na indústria, nos serviços, e mesmo nas profissões qualificadas, hoje trabalha para pagar contas essenciais – é aliás aqui que reside a baixa produtividade do país, nos salários baixíssimos. Que são também a causa da sangria da emigração que não é voluntária, mas economicamente forçada. Salários abaixo do limiar da sobrevivência – 653 euros; ou no limiar dela, 1000 euros”.

Raquel Varela

At https://www.facebook.com/