Arquivo de etiquetas: Sindicatos

Opinião: “O salário médio, cerca de 950/1000 euros, é o mínimo para se sobreviver”

“O Governo e os sindicatos na sua maioria estão agora a debater o salário mínimo, mas eu considero urgente abrir uma discussão pública em Portugal sobre o salário médio, porque na realidade o salário médio, cerca de 950/1000 euros, é o mínimo para se sobreviver; e o mínimo – 635 euros – é de facto o salário miserável. É urgente passarmos da discussão da “mais pobreza ou menos pobreza” para falarmos de qualidade de vida, do direito a viver dignamente do trabalho, sem chegar ao fim do mês com mês e sem dinheiro. Sem poder ter vida própria, acesso à cultura, ir ao cinema ou ao teatro, ir de férias – a maioria dos portugueses, na indústria, nos serviços, e mesmo nas profissões qualificadas, hoje trabalha para pagar contas essenciais – é aliás aqui que reside a baixa produtividade do país, nos salários baixíssimos. Que são também a causa da sangria da emigração que não é voluntária, mas economicamente forçada. Salários abaixo do limiar da sobrevivência – 653 euros; ou no limiar dela, 1000 euros”.

Raquel Varela

At https://www.facebook.com/

Artigo de opinião: “O Chega quer proibir o sindicalismo”

Raquel Varela 36397388_10212151214190668_1506337673151774720_nFui ler o Programa do Chega – propõe a generalização dos despedimentos sem justa causa, e a proibição do sindicalismo, o fim do SNS e da escola pública, está tudo em baixo em link. Depois de enganados pelo PS e pelo PSD, desiludidos pelo PCP e o BE, ou adormecidos pelo PAN, desistindo da humanidade, os portugueses têm este Ventura como um “tipo que diz umas verdades”. Tive a paciência de ler tudo – agradeço a parte cómica em que Ventura defende vender as escolas aos professores…ou dar – caso não possuam poupança para as comprarem…

Salazar era o braço direito do grupo CUF, Mello etc, gente que toda a vida falou de empreendedorismo e viveu na sombra do Estado, enriqueceram única e exclusivamente à custa de baixos salários em Portugal, e trabalho compulsivo nas colónias. Esse tipo de trabalho era garantido com a proibição de sindicatos decretada por Salazar. Salazar estava ameaçado de uma revolução social – a partir da Espanha revolucionária – quando apoiou o líder fascista Rolão Preto, um cão de guarda que ficava com a tarefa de chefiar uma milícia, os camisas azuis, cuja função era – oficial e oficiosamente – perseguir revolucionários ou gente que defendia os direitos do trabalho. Quando Rolão Preto fez o serviço Salazar mandou prendê-lo. Hitler fez o mesmo com as SA, a milícia de homens musculados. Primeiro usou-os para matar dirigentes políticos de esquerda, a seguir mandou matar e prender os membros das SA. Para que pudesse pôr o Estado ao serviço das empresas privadas como a Bayer, Thyssen etc, agora usando o trabalho escravo (campos de concentração) sem a oposição dos lideres revolucionários. Cumprido o serviço sujo pelas SA cadeia com eles, que as empresas têm mais que fazer, é o lucro pá e a culpa era dos comunistas – mata-se e tudo fica impecável, um país sério. Milhares de desempregados, trabalhadores puseram-se, desesperados, ao serviço dos Rolão Preto e das SA, para depois acabarem dizimados, presos, torturados pelos amos que serviram, os seus donos, que os manipularam com a suposta sinceridade da violência e de dizer “umas verdades”.

O programa do Chega tem 16 linhas sobre saúde – prevê a total privatização da saúde e da educação -, e 1 linha – não estou a brincar – é 1 linha, não é 1 página, sobre trabalho. O que diz lá? Proibir o tempo de dedicação dos dirigentes sindicais, mesmo que 1 hora por mês. Todo o tempo, ou seja, trata-se de proibir o sindicalismo em Portugal de facto. Sobre salários miseráveis, condições de trabalho miseráveis, burnout, assédio moral, má alimentação, habitação, tudo relacionado com os baixos salários, zero, está lá escrito zero. Mais à frente noutra secção pode ler-se a defesa dos despedimentos por qualquer razão, sem justa causa. Sobre trabalho há uma linha – proibir os trabalhares de se organizarem. Quem vai ser o Rolão Preto deste Ventura, que enriquecerá á conta do Estado onde, agora na Assembleia, já se instalou?

Aqui vos deixo o link, página 51 – é preciso sublinhar que os media entrevistam este Senhor como se de um político democrata se tratasse.

PS escusam de me vir com a conversa da esquerda que não actua – é verdade, a nossa esquerda é deprimente, e o que dizer de um Partido dos animais, numa altura em que as pessoas sofrem mais do que muitos animais, e o que dizer do mais importante, do PS e do PSD que, no poder, deixaram este Estado de coisas – quem isso não admite não poderá encontrar soluções. Mas mais deprimente é vir um Partido como o Chega defender a flexibilização total dos despedimentos – e em cima disso defender a proibição de os contestar. Isto é capitalismo selvagem mais ditadura, é o come e cala, numa palavra é isso o Chega. Se com os partidos actuais tantos portugueses – justamente- se sentem enganados, que dizer deste advogado bem falante Ventura que os manipula como se fosse um senhor honesto a defender a pátria, e nada mais propõe a não ser a legalização da semi-escravatura que já grassa em tantos locais de trabalho onde de facto os trabalhadores já têm medo de se organizar?

Página 51
https://partidochega.pt/wp-content/uploads/2019/09/PROGRAMA_POLÍTICO_2019_CHEGA-2.pdf

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

Greve na Navigator em Vila Velha de Ródão

75625490_3106597136036637_2998472207283257344_n

A empresa negou sempre fazer o reenquadramento profissional aplicando o normativo em vigor, publicado em boletim de trabalho e emprego ou, através da OS 8/2010, assim como, negou sempre qualquer pagamento de retroativos. Terminou desdizendo-se. Fez atualizações nos salários fora do quadro do plano de carreiras e com retroatividade apenas a 1 de janeiro de 2019 e já com processos em tribunal. Lamentável.

Ao SINDETELCO não fica outra alternativa que não seja o recurso à Greve.

At https://www.facebook.com/

Vem aí a “maior” Festa do país – “Avante”

Avante_2019_x

A Festa do «Avante!» é a maior e mais bonita iniciativa político-cultural feita algum dia no nosso País, uma obra colectiva alicerçada e edificada pelos valores da generosidade, do empenhamento militante, da solidariedade e convívio fraterno em que o trabalho e a arte brotam como fonte de realização humana.

Uma Festa que é um espaço privilegiado para a cultura e a criação artística. Aqui, com esforço mas com grande fraternidade, criamos condições para que artistas e criadores de todas as formas de expressão encontrem lugar e espaço para apresentar aos visitantes da Festa os resultados do seu trabalho e do seu modo de olhar o Mundo.

Data de Fundação: 1976

At https://www.facebook.com/

Artigo de opinião: “O fígado de Pardal Henriques”

Raquel 10464109_10202306149190196_3394916574196011546_nJá conheço o tamanho do fígado de Pardal Henriques, as suas entranhas com detalhe forense, a consistência dos rins. Jamais votaria nele, mas o que assistimos contra ele envergonha-nos a todos. O papel do jornalismo nesta greve um dia será alvo de uma longa tese, explicando como o jornalismo abdicou de ser um contrapoder, e por isso abdicou de ser democrático. E se tornou dependente do Estado, a “voz” do Estado – já ouvimos mais vezes Marcelo e Costa sobre a greve dos que os próprios camionistas ou a Antram – a rigor só são ultrapassados pelo povo comum que nada tem a dizer nas filas da gasolina a não ser que querem pôr gasolina… Foram já recolhidos cerca de 1500 testemunhos destes, “eu estou aqui à espera para meter gasóleo”. É ridículo. E isto quando a larga maioria dos comentadores dos media não conhece as origens da greve, confundem valores, e desconhecem os CCT em negociação, é confrangedor ler a ignorância sobre a greve e as relações laborais que têm sido publicadas em artigos. Confunde-se inclusive valor real com valor nominal do salário e apela-se a ilegalidades dignas de um país sul americano na década de 50.

Não voto em Pardal Henriques, se for candidato, porque não acredito em salvação individual da pátria. É pela mesma razão que, pese embora os sorrisos e abraços, nunca apoiaria Marcelo. Aliás, vendo o papelão do BE e do PCP neste Governo de “racha sindicalistas” creio que resta aos trabalhadores portugueses uma solução a la Reino Unido – os sindicatos se juntarem e fazerem uma lista eleitoral, com um programa definido democraticamente pelas suas bases, fora dos partidos existentes. A Geringonça tornou-se um Governo semi-autoritário contra os trabalhadores, com um carácter onde os traços bonapartistas do regime se acentuam. Só por cegueira clubistica não se vê isto. Mas voltemos a Pardal Henriques e ao assassinato de caráter de quem tem sido alvo.

Primeiro foi o carro, como a coisa era demasiado patética, mudou-se o disco. Foram então perscrutar a vida dele desde que nasceu, e descobriam que levou uma empresa à falência. Como?! Nós não vivemos no país em que os Governos e a Banca levaram 10 milhões de portugueses à falência?! Mas há ainda mais. Agora anuncia-se, com escândalo, que será candidato. Quase morri a rir. O BE e o PCP tiveram vários deputados porta vozes de lutas laborais. E este é o Portugal onde metade dos deputados do PS e do PSD são advogados de grandes empresas e lutam todos os dias para manter na Assembleia da República esse estatuto misto. Ou promíscuo, como preferirem. Em que de dia falam do povo, e dos serviços públicos, e à noite servem os patrões do povo, e os serviços privados. Pior, colocam o Estado, pago por quem trabalha, ao serviço destes interesses e chamam-lhe “interesse nacional”. Suspendem a lei da greve confundindo emergência médica com remuneração dos accionistas, alargando os serviços mínimos ao lucro máximo do “regular funcionamento da economia”.

Eu não teria escolhido Pardal Henriques para porta voz. Acho que os motoristas deviam falar por si, com a gramática que conhecem, dizendo de coração o que pensam. Deviam sim sempre ter ajuda de advogados e outros especialistas, como têm todos os bons sindicatos. Acredito que haja inexperiência, num sindicato novo, e não tenho razão para ser contra ou a favor de um advogado, que não conheço. Se tivessem falado por si próprios, os motoristas tinham evitado alguns equívocos, creio.

Mas esse não é o debate central. O grande debate sobre o porta-voz desta greve não é um advogado que se tornou porta-voz de um sindicato. É um Governo que se tornou porta voz de uma Associação Empresarial Privada chamada Antram e das Petrolíferas. Empresas que vieram explicar que só têm lucro mantendo salários e horários miseráveis. A isto o Governo chamou o “interesse nacional”. Como se todos nós, e os motoristas, não fossemos também portugueses com outros interesses que não os da Antram e da Galp. E não pagássemos muito mais impostos do que a Antram ou a Galp para manter o Governo e o Estado a funcionar.

Sim, o acintoso porta-voz desta greve não se chama Pardal, chama-se Governo, e Marcelo Rebelo de Sousa. Que se ofereceram para fazer um papel de agência de comunicação da Antram. Os media ficaram passivos a ser porta-vozes das instituições do Estado, ao ponto de ontem terem cortado a palavra no telejornal quando os motoristas anunciavam a solidariedade de vários sindicatos, entre eles dos portos e aeroportos onde foram decretados os 100% de serviços mínimos. É sobre tudo isto que temos que reflectir com urgência. E sobre isto porque queremos uma comunicação social séria, contra poder, contraditória, informativa e, por isso, ao serviço da democracia.

Raquel Varela

At https://m.facebook.com/

Artigo de opinião: “CAMÕES: O que está vivo n’Os Lusíadas”

Antonio Valdemar author_photo_457Camões não se pode reduzir aos jogos partidários e aos expedientes da retórica política, aos aproveitamentos de governos e governantes de vários regimes para justificação de exacerbações nacionalistas.

Deparamos, passo a passo, n’Os Lusíadas, um sentido crítico, uma perspetiva humanista e uma visão ampla e diversificada em torno das grandes questões políticas, sociais e filosóficas. Ao pronunciar-se acerca da máquina do mundo, do argumento perentório da existência de Deus não hesita interrogar: «é Deus? mas quem é Deus, ninguém o entende/ que a tanto o engenho humano não se estende?» Faz apelos contínuos para a urgência da liberdade e a reposição da justiça, a fim de construir uma sociedade assente nos princípios da honra e nos valores da solidariedade.

Sucessivas gerações de eruditos portugueses e estrangeiros continuam a recapitular hipóteses formuladas desde os mais antigos biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o arbitrário Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito.

Perduram as controvérsias acerca do local e dia do nascimento, da identificação dos pais; dos estudos na Universidade de Coimbra, do serviço militar em Ceuta, do que ocorreu na passagem na Índia e em Macau; da residência em Constância; do valor da tença atribuída e da sua equivalência em dinheiro atual; do dia da morte, da sepultura em Lisboa e, ainda, da autenticidade dos ossos trasladados para o túmulo nos Jerónimos. Estes e outros aspetos continuam por esclarecer e, na maior parte dos casos, repletos de lendas e fantasiosas conjeturas.

Todavia, a leitura d’Os Lusíadas, das líricas, dos sonetos, dos autos e das cartas colocam-nos perante reflexões e advertências profundas. O homem, o Camões de carne e osso, – tal como o retrataram os que o conheceram – manifestou-se com frontalidade e independência. Não recorreu – como era habitual na época – a um prefaciador para o panegírico tradicional na apresentação d’Os Lusíadas, nem se esquivou a enfrentar poderosos, a contrariar opiniões dominantes, a insurgir-se contra a grave situação que o País vivia.

A Inquisição estava instalada desde 1536. A censura encontrava-se em pleno funcionamento. Os livros eram submetidos à leitura prévia e só poderiam ser impressos e postos a circular depois da autorização do Santo Ofício. Assim aconteceu, em 1572, com Os Lusíadas. Estudiosos camonianos – Sousa Viterbo e Aquilino Ribeiro, por exemplo – formularam hipóteses acerca do que terá sido truncado no manuscrito e, também, acerca das possíveis intervenções do censor ao fabricar versos, para condescender na publicação de outros.

Num tempo de perplexidade e angústia, Camões reforçou a identidade coletiva e defendeu a autonomia política de Portugal. Quando voltamos a estar confrontados com problemas de extrema complexidade, Os Lusíadas representam uma fonte de energia para transpor a impaciência e o fatalismo. Camões celebrou as memórias gloriosas de Portugal e de portugueses, mas sem virar as costas à crise política e à degradação humana, em tantos aspetos, com analogias com a época em que vivemos.

Numerosas passagens d’Os Lusíadas aplicam-se à atual realidade portuguesa; a uma classe política, sedenta de poder e de elogios públicos, sem dignidade e sem carácter e sem qualquer projeto voltado para o futuro: nenhum ambicioso, que quisesse/subir a grandes cargos, cantarei, /só por poder com torpes exercícios/usar mais largamente dos seus vícios.

Deplora os fatores de insegurança e a precaridade dos vínculos laborais: nenhum que use de seu poder bastante/para servir a seu desejo feio/a despir e roubar o pobre povo! Manifesta apreensão por tudo quanto gera o desespero, multiplica a violência, aumenta a criminalidade e intensifica a apagada e vil tristeza.

E a crise na saúde? E as listas de espera nos hospitais que aumentam de forma vertiginosa e assustadora? Faz recordar Camões ao deplorar a morte nos hospitais em pobres leitos/os que ao rei e à lei servem de muros.

E a crise na justiça? O sistema judicial que não funciona, as reformas essenciais por fazer, por estudar e por decidir? A obrigação de restabelecer a normalidade para impedir a generalização do caos. A recomendação de Camões continua oportuna: quem faz injúria vil e sem razão/ com forças e poder em que está posto, /não vence, que a vitória verdadeira/é saber ter justiça, nua e inteira.

E a crise moral? A venalidade, o suborno e a corrupção aos mais diversos níveis? Camões revoltou-se contra as honras e dinheiro que a ventura forjou. Para concluir que não lava o muito dinheiro/ a nódoa da desonra.

Por tudo isto e muito mais seguiu de perto as grandes inquietações e os problemas do seu tempo e de todos os tempos. Enfrentou o fantasma do medo: a vida que se perde e que periga/que, quando ao medo infame não se rende/ então se menos dura, mais se estende. Resistiu aos profetas da desgraça que anunciam sempre o pior como se estivéssemos sempre às portas do fim do mundo.

António Valdemar

At Viajando com Livros

Opinião: “Berardo e o Estado”

raquel-varela_1_corAinda sobre Berardo e o Estado cumpre-me contar três histórias que conheço de quem paga estas contas. Além, claro, dos contribuintes como nós que pagamos serviços públicos que não funcionam.

A L. foi dar aulas para o Oriente, filha de pais humildes, ficaram desempregados para cortar custos depois de 2008, cortes que foram para pagar a Banca. De lá manda dinheiro para os pais. Ficámos com menos um quadro no país.

O M. da Madeira, estivador, perdeu a casa porque para lutar contra os salários baixos sindicalizou-se no SEAL- Sindicato dos Estivadores, e como retaliação foram-lhe retiradas horas extraordinárias.

E a Lídia O. que deu a cara publicamente contra a falência da Moviflor, também perdeu a casa, o emprego. Não perdeu a dignidade e ajudou a fundar uma Associação, A Casa, de defesa dos direitos dos trabalhadores.

O que é importante aqui -, além de dar voz aos exemplos de dignidade humana por oposição ao lixo moral que representa o sector financeiro -, é que não foi Berardo que desenhou o sistema legal que permitiu isto – foi o Estado. E o Estado não somos todos nós. Não nos escondamos no senso comum, que repete que o poder económico domina os Estados. Não é verdade. O poder político tem sempre a última palavra. E deu-a a Berardo. Que conservou a sua casa, a sua Associação, a sua colecção, a sua quinta, impune. Em 11 anos desde a crise nunca ninguém entrou com uma bateria de polícias e inspectores na sua casa. Mas o mesmo Estado levou uma semana a entrar na Ordem dos Enfermeiros e vasculhar as contas – abrindo um precedente gravíssimo para todos os sindicatos e ordens, com o claro propósito de amedrontar quem ousa lutar por si e pelos serviços públicos.

Raquel Varela

At https://www.facebook.com/