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Dia da Tauromaquia no Campo Pequeno a 23/Fev

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O Campo Pequeno vai abrir as portas no dia 23 de fevereiro para celebrar a cultura tauromáquica. Assinala-se a primeira edição do Dia da Tauromaquia, com um programa recheado de iniciativas para toda a família, aficionadas ou não, numa demonstração de respeito e liberdade cultural. O objetivo deste evento, organizado pela PróToiro, através da marca Touradas, é dar a conhecer uma Cultura tão importante para o País.

A praça vai apresentar-se com uma decoração única que visa homenagear os toureiros e forcados portugueses, além de uma exposição com muitos dos trajes utilizados pelas maiores figuras do toureio nacional.

A menos de um mês do evento, o programa já está definido e assegura a divulgação das várias vertentes desta forma de arte tão portuguesa. Além das demonstrações de forcados, e do Toureio a Cavalo e a Pé, destacam-se as mostras de Recortadores e da Capeia Arraiana – manifestação cultural do concelho do Sabugal, classificada como Património Cultural Imaterial de Portugal, pela respetiva convenção da UNESCO.

A abertura de portas será às 10h00, com as atividades a começarem às 11h00.Os mais pequenos terão à sua disposição jogos infantis, uma praça insuflável, tourinhas, capotes e muletas para brincarem e duas sessões do teatrinho ‘As Touradas explicadas às crianças’. Além disso, vão ainda poder conhecer e brincar com a mascote da marca Touradas que vai fazer a sua estreia.

O dia arranca com o Batismo Equestre, a presença dos artesãos das Artes e Ofícios Taurinos e a Exposição Trajes de Toureio. Entre as 11h00 as 12h00, a arena será ocupada com demonstrações de toureio com tourinhacomentadas por Maurício do Vale. No toureio a cavalo estarão em praça os cavaleiros amadores António Telles filho e Duarte Fernandes. No toureio a pé, o novilheiro Rui Jardim e demonstração de pegas a cargo dos Forcados Amadores de Lisboa.

Entre as 12h00 e as 13h00, a arena abre-se para que todos possam participar numa Aula de Toureio de Salão e Pegas com tourinha. Os professores virão das Escolas de Toureio portuguesas. Para as pegas serão os Forcados de Lisboa. Se sempre quis aprender a tourear ou pegar, esta é uma grande oportunidade.

Entre as 12h30 e as 13h30, decorre uma Aula sobre História da Tauromaquia Portuguesa, no Salão Nobre, para todos aqueles que querem descobrir o percurso da nossa tauromaquia ao longo do tempo.

Das 14h30 às 15h15, os pegadores do Sabugal vão pegar ao forcão para uma demonstração de Capeia Arraiana, enfrentando um toiro de Toiro Veiga Teixeira. Segue-se, das 15h15 às 15h45, uma demonstração dos Recortadores da Arte Lusa, também perante um Toiro Veiga Teixeira.

Das 16h00 às 16h20, o Cavaleiro Tauromáquico Gilberto Filipe, Campeão Mundial de Equitação de Trabalho irá fazer uma Demonstração Equestre, acompanhada com um fadista.

A partir das 16h00 começará a animação exterior, com o Flamenco de Joaquin Moreno e sevilhanas. Também a partir dessa hora, as Escolas de Toureio vão exibir o seu toureio de salão no exterior da porta principal da praça.

A abertura das portas para o Festival taurino será às 16h30. O festival Taurino começa às 17h30, com um cartel de luxo composto pelos cavaleiros AntónioTelles, Rui Salvador, Luís Rouxinol, Rui Fernandes, Filipe Gonçalves, João Moura jr, João Telles e Francisco Palha que vão lidar em duo. Os matadores são António João Ferreira, Nuno Casquinha e Manuel Dias Gomes. Pega uma seleção de forcados da ANGF. As duplas de cavaleiros serão uma surpresa a descobrir.

As atividades são na generalidade gratuitas. O acesso às demonstrações de Recortadores, Capeia e Equitação só se podem fazer com a apresentação do bilhete para o Festival Taurino, sendo assim gratuitas. Os bilhetes, a custos reduzidos, variam entre os 7,5 e os 35 euros e podem ser adquiridos na internet, através da Ticketline, e na agência ABEP nos Restauradores. Os portadores do Cartão Aficionado podem ainda usufruir de um desconto de 10por cento, caso optem com comprar os ingressos nas bilheteiras da praça. A adesão grátis ao cartão pode ser feita em www.touradas.pt.

Depois do Festival Taurino a arena volta a abrir-se a todos para um Meet&Greet com os Artistas, onde todos poderão conversar com os seus ídolos e pedir um autógrafo. O dia termina com uma After Party, numa discoteca de Lisboa a revelar muito em breve.

Este é um dia único e inédito para viver a sua paixão ou descobrir uma nova. Compra já o teu bilhete.

At http://www.touradas.pt/

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Artigo de opinião: “Joaquim Bastinhas”

pedro pintodsc_0109Nunca pensei que no dia que voltaria a escrever seria sobre ti, particularmente neste contexto. Meu Amigo Bastinhas, gostava tanto de poder voltar a escrever todas as linhas que te dediquei nos diversos órgãos de comunicação social onde estive; as vezes que te chamei “único”“toureiro do povo”“com Bastinhas veio a praça abaixo”“a alegria contagiante de Joaquim Bastinhas”“Bastinhas causou furor” e tantas, tantas coisas mais…

Hoje escrevo-te com as lágrimas a correrem-me pelo rosto, nem sei que escrever, falta-me alguma coisa; a amizade é uma coisa que não se vê, mas sente-se; faltou-me aquele telefonema na noite de Natal, que todos os anos dávamos; hoje falta-me aquele conselho amigo que sempre davas quando iniciava qualquer projecto e foram tantos, quando dizias “essa é boa, vou eu e o meu Marcos” ou quando “não te metas nisso que vais perder dinheiro” e eu teimoso, às vezes não seguia o teu conselho e batia com a cara e tu dizias-me “vês quem tinha razão?”. Tinhas tu, tinhas sempre, por isso pensei e meti na cabeça que eras eterno (para mim serás sempre)!

Podia ficar aqui a escrever todas as histórias que tivemos juntos (e foram tantas), todas as partidas que pregaste, todos os teus triunfos, todos aqueles Verões quentes que passei na tua Herdade e as corridas que tive o prazer e gosto de te acompanhar (na altura que se toureavam 60 numa época). Fizeste-me crescer como homem e como pessoa, nos últimos anos andámos mais afastados, mas ambos sabíamos que se fosse preciso, estávamos ali!

Estavas anunciado para Ponte de Lima, quando três ou quatro dias antes foste “colhido” por aquela maldita máquina; ligaste-me depois a agradecer ter-te substituído pelo Marcos, não tinhas de o fazer, era o substituto natural, mas isso eras tu, sempre uma palavra, sempre um gesto, por isso te tornaste único!

Amigo, de ti fico com as grandes recordações, o teu sorriso inigualável, aquele abraço que demos no hotel na Figueira da Foz, na noite que reapareceste e ambos nos emocionámos, eu naquele dia não podia faltar e não faltei!

Existem três fases na tauromaquia, a Antes de BastinhasDurante Bastinhas e Depois de Bastinhas e isto tem fácil explicação, na altura que não havia internets e outros afins, o norte do país só conhecia Bastinhas, pelo seu carácter e personalidade próprios, pela alegria e simpatia, pelos pares de bandarilhas; Bastinhas foi único e deixa um vazio imenso na nossa tauromaquia!

Marcos, esse vazio será ocupado por ti! Serás tu que tens de ter Força, muita Força, para continuares o que tão bem tens feito e honrar aquilo que o teu pai mais gostava, ver-te tourear! Lembro-me quando toureaste como amador na Amareleja (a primeira vez que ele não te pôde acompanhar, pois toureava em Tomar) e eu relatei-lhe toda a tua actuação (grande) pelo telemóvel, ele vibrou como se estivesse lá! E no final dizia-me “mas ele esteve mesmo assim, foi mesmo assim bom?”

Marcos, percebo que de repente penses que o mundo te caiu em cima, mas sei que vais crescer ainda mais com as dificuldades, vais crescer ainda mais como homem, vais ser um apoio super importante para a tua mãe (e vice-versa), tens uma grande mulher a teu lado (Dália) e nos teus filhos vais ganhar a restante Força para seguires em frente! Os teus amigos estarão ao teu lado e o teu irmão Ivan também! Da minha parte procurarei estar sempre!

Lena, por trás de um Grande Homem está sempre uma Grande Mulher; sabe bem o que sinto agora e sei bem o que está a sentir; perdeu um Grande Marido e eu um Grande Amigo! Tinha as suas coisas, mas quando era necessário ele sempre estava lá! Aqueles minutos que nos abraçámos a chorar no dia das cerimónias fúnebres pareceram uma eternidade. Sei que sente um vazio e uma dor imensa, mas ele lá no lugar que Deus o guardou, estará sempre a olhar por si! Muita Força minha Amiga!

Comendador Rui Nabeiro, o Senhor também perdeu um grande amigo, foi uma grande “cornada” que a vida lhe pregou (a todos nós), maior que todas as outras que lhe tentaram dar durante a sua longa e bonita vida, muito Força caro Amigo!

Ivan, tu és a Força, a mesma que tiveste quando quiseste ser forcado e uma vez em Milfontes foste seis ou sete vezes à cara de um toiro e o teu avô Sebastião dizia-me “Pedro Pinto não deixe lá ir mais o meu Ivan”, mas tu não desististe! Terás de ter Força para ajudar a tua mãe e o teu irmão! Sei que a tens!

Não consigo escrever mais, só choro (no final vou sorrir porque sei que ao pé de ti nunca ninguém andava triste, nem tu gostavas), porque perdi um Amigo, daqueles a sério, poderia estar aqui a contar mais mil e uma histórias, mas guardo-as para mim, com carinho e admiração, para mim serás sempre Eterno Bastinhas!

Pedro Pinto

At https://farpasblogue.blogspot.com/

Opinião: “A tourada da “Cultura” prossegue em S. Bento e no PS”

Jose Mateus 10462492_10202103566171075_273036253786044150_nAntónio Costa não tem sorte com os seus ministros da Cultura. Primeiro foi o João Soares que não teve tempo de mostrar o bom ministro que seria pois prometeu um par de estalos a uma cara onde sujaria as mãos. Depois, apareceu um inexistente, caído não se sabe de onde. E, agora, arranjou uma dama que gosta de arranjar “touradas” e de perder votos.

A “tourada” criada pela ministra da Cultura prossegue em S. Bento em grande estilo. Era óbvio que o radicalismo ‘culturalmente correcto’ da ministra ia criar o caos político dentro do PS. Costa diz-se “surpreendido”. Não tem razões para isso.

Se há alguém que bem conhece o PS é António Costa e, portanto, facilmente sabia no que iria dar a “loucura”, tipo esquerda identitária e tribalista, um somatório aleatório de minorias, da LGTB aos anti-touradas e outros anti-qualquer-coisa.

Pela primeira vez, o Primeiro-Ministro tem o Grupo Parlamentar do seu PS a assumir uma afronta contra ele e uma decisão política avalizada por ele… Bonita tourada… Bonito serviço, a um ano de eleições.

O jornal i registou o facto:

“O grupo parlamentar do PS decidiu hoje que vai apresentar uma proposta para que o IVA das touradas baixe para os 6% como está previsto para outros espetáculos culturais. “Estou surpreendido, lamento, se fosse deputado votaria contra”, disse Costa, “apanhado de surpresa”.

“As touradas abriram uma polémica entre António Costa e os deputados do PS. O primeiro-ministro admitiu que existe uma “divergência” com o grupo parlamentar.

“Carlos César garantiu que “há uma maioria expressiva de deputados no sentido de incluir a tauromaquia juntamente com as outras valências culturais que diminuirão a sua taxa para 6%, caso dos espetáculos de dança, de teatro e de música nos termos que são constantes na proposta do Governo”.

“Perante esta decisão dos deputados do PS, António Costa garantiu que foi apanhado de surpresa pela decisão dos deputados socialistas e considerou que esta não é uma matéria de consciência.

“É manifesto que há uma divergência entre o grupo parlamentar e o Governo”, afirmou Costa.”

Pois há divergência. Mas ainda bem. Os deputados do PS acabam de fazer duas coisas raras e muito significativas: 1. Mostram que existem, que o PS existe e que tem ligação ao eleitorado e ainda que o seu grupo parlamentar não se reduz a uma câmara de eco. 2. Com este assomo de personalidade, talvez os deputados do PS tenham salvo a maioria absoluta que Costa persegue e que a inteligente da sua ministra da Cultura insiste em aniquilar.

Nos EUA, a dama Clinton chamava “deploráveis” aos eleitores, enquanto por cá, a dama da Cultura lhes chama “bárbaros”. Em termos estritamente políticos, elas é que são deploráveis e bárbaras. E perdedoras, claro.

Esta tourada engendrada pela ministra da Cultura é uma deplorável barbaridade política. Se, apesar disso, Costa conseguir uma maioria absoluta será ao grupo parlamentar do PS que a deverá.

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Costa e PS Perdem Pontos

A ministra criou a “tourada” em final de Outubro, uma semana depois, os trabalhos de campo de uma sondagem revelam que o PS perdeu mais de um ponto percentual, ficou mais longe da maioria absoluta, e Costa baixou na sua popularidade…

Ontem, a ministra dizia-se não fragilizada nem angustiada… Talvez que a sua cultura, além da incompatibilidade com a tourada, tenha também um conflito com a estatística ou a sua fé não lhe permita acreditar em sondagens. Vá-se lá saber… O que se sabe, é que, na relação com o eleitorado e com a Democracia, esta “superioridade cultural” da ministra (a lembrar a “superioridade moral” de Cunhal…) é intolerável, incompatível e uma barbaridade política.

José Mateus

At https://www.facebook.com/

Artigo de opinião: “Mil vezes ser touro bravo”

Sergio Sousa Pinto 894508314ceba662c8de93231f987ccf_400x400As guerras culturais dizem-nos muito menos sobre a cultura do que sobre a guerra. Revelam, nas condições do tempo, a impossibilidade de diálogo, bem conhecida da História, em que uma das partes pretende submeter a outra em nome de uma qualquer superioridade que não admite transacção. As guerras culturais são cruzadas, como o é a causa da “civilização” contra a tourada portuguesa. Não se trata de cultura, uma vez que pouco se fala dela. Fala-se, sim, de resplandecentes posições de princípio, alinhadas com um estádio superior de civilização, que não extingue pura e simplesmente a posição contrária – a tourada e o mundo dos touros – por mero receio da reacção dos bárbaros, uma horda imprevisível. Não há, também, vestígios de tolerância, uma das mais admiráveis conquistas dos povos civilizados: os representantes da civilização superior não suprimem as manifestações culturais bárbaras pro mero pragmatismo, na melhor das hipóteses por condescendência ou prudência reformista; nunca por aceitarem conviver com uma prática de qual discordam, que é a própria definição de tolerância. A guerra cultural é uma guerra de agressão, uma vez que não há simetria entre as partes; uns reclamam o direito de continuarem uma prática ancestral, sem fazerem proselitismo dos valores e das emoções que lhe dão significado; outros, que podiam viver felizes à margem de um universo cultural que lhes causa repulsa, pretendem apropriar-se da lei para perseguir – por enquanto simbolicamente no IVA -, e eventualmente proibir, uma festa cuja sobrevivência ofende a sua particular noção de civilização.

Que a mentalidade descrita prevaleça no BE não é surpresa. Na mundividência do esquerdismo a História é uma acumulação de irracionalidade e opressão, da qual nada se aproveita, nem mesmo o Homem, que deve ser um Homem novo, higienizado da sua natureza e da sua cultura, e assim compatibilizado com a sociedade perfeita, terminal e total.

Que o PS aceite o sectarismo, as simplificações, a santimónia e, no fundo, a eterna aversão à liberdade que são secreções de ideologias mortas, é algo que não tem explicação.

A intolerância contemporânea apresenta-se banhada em beatitude, “o estado permanente de perfeita satisfação e plenitude somente alcançado pelo sábio”, explica o dicionário. Debater para quê? Compreender o quê? Gostavas que te enfiassem farpas no lombo? Para regozijo de uma multidão depravada? O caso está arrumado. O sábio urbano, cujo sentimentalismo varia na proporção inversa da sua cultura, falou.

Talvez a torada esteja condenada. Mais de dois mil anos de tradição de cavalos de combate, tradição equestre nascida do cavalo ibérico, único na agilidade e coragem, que espantou Xenofonte e Estrabão, que combateu os romanos e ao lado deles, nos grandes recontros da antiguidade; cavalaria sem formações rígidas, assente no duelo individual, como na arena. O touro bravo, raça híbrida de extrema agressividade, apareceu naturalmente, favorecido pelas transumâncias, nas planícies semiáridas da península; foi caçado à semelhança dos ursos, veados e javalis, antes de ser adotado pelo homem ibérico, e criado como o mais nobre dos adversários, digno de sobreviver para enfrentar o Homem até ao fim dos tempos, simulando e celebrando, com o cavalo de combate, a tradição milenar do guerreiro ibérico. Tudo isto vale zero, diz o sábio urbano educado pela internet, que tem um cão em cativeiro no sétimo andar, chamado Gaspar e que vai à rua urinar com um impermeável escocês, derreado pela displasia da anca. E talvez valha. Nunca saberemos a opinião do Gaspar, mas podemos adivinhar. Mil vezes ser touro bravo.

Sérgio Sousa Pinto

At https://expresso.sapo.pt/

Opinião: “A Tourada de Marilyn Monroe”

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Sempre gostei de touradas, sou um aficionado, no que estou muito bem acompanhado por bons amigos, como o Elisio ou o João e muitos outros. O encontro do homem com o touro bravo (não confundir com bois…) no redondel da praça é hoje a encenação simbólica da milenar luta pelo controlo da clareira da floresta entre os dois únicos bichos que disputavam esse controlo. É o espectáculo simbólico de um confronto de milénios entre a inteligência e a força bruta. Este confronto, aliás, produziu e modelou muito do que é a substância do conceito de estratégia “em português”, num afrontamento do fraco ao forte em que o fraco ou ganha ou morre… E não morreu! Mas isto são especulações conceptuais para desenvolver num outro quadro. Neste post, o que está em causa é a beleza (não a força e a sabedoria…) da “tourada” na versão da Marilyn Monroe. Aprecie-se, então, a arte de Marilyn…

At Facebook / José Mateus

Luís Duque e seus trunfos: A terra, as leis e os touros

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PRÓLOGO

O Rei Dom Luís, quando tinha alguma dúvida sobre questões de leis, mandava chamar em sua presença José Maria da Graça Mota e Moura, influente jurista da Corte, pertencente à família dos viscondes de Vale de Sobreira, aristocracia rural do Alto Alentejo. O bisneto, Luís Vieira, é, aos 88 anos, uma figura muito estimada em Nisa, conhecida pelo seu sportinguismo ferrenho e amor à terra. Mas a filha, Maria da Graça, não se casou com um alentejano, mas, sim, com Francisco, um advogado nascido em Lisboa com descendentes minhotos (Covas, concelho de Vila Nova de Cerveira), também estes ligados à agricultura. Assim se juntaram os Duque do Norte e os Vieira do Sul. Nesta combinação de leis e terra nasceu, em Elvas (19/10/57), Luís José Vieira Duque, o segundo filho de uma longa prole:

Francisco, Luís (o próprio), Zé Paulo, Graça, Manuel, Fernando, Pedro e Isabel, por ordem de chegada ao Mundo.

INFÂNCIA

O pequeno Luís não teve tempo de aprender a gostar do Alentejo, pois, com dois anos, já estava a caminho de Penafiel, a primeira etapa de uma longa caminhada por terras como Paredes de Coura, Ponte de Lima, Coruche e Lisboa, enfim, para onde quer que o pai fosse chamado a exercer a sua profissão, de comarca em comarca, dado que era juiz (foi também procurador da República). Mas Luís cedo percebeu que o amor à terra corria-lhe nas veias e o período de férias era sempre aguardado com grande entusiasmo, pois significava uma visita a Nisa e a companhia do avô Luís, com quem criou uma enorme cumplicidade.

As crianças foram crescendo à roda de uma mãe extremosa, cozinheira de primeira qualidade, uma mão de fada para doçarias (e Luís era um grande comilão, o que lhe deu uma compleição roliça), e à sombra de um pai atencioso mas exigente, fiel a uma educação clássica com pouca margem para rebeldias. Assim manteve a família unida nas crises. No entanto, Luís cedo mostrou uma personalidade demasiado extrovertida e brincalhona para ficar contida num padrão de conduta severo. Tornou-se o centro das atenções de toda a família com as brincadeiras que inventava. Nas festas, imitava tocar viola, bateria e outros instrumentos musicais, mas, na realidade, só viria a tentar aprender o uso da guitarra portuguesa, passatempo que deixou para trás por falta de disponibilidade. Mas o fado é um gosto que ainda hoje cultiva.

Com Zé Paulo, o irmão que o segue cronologicamente, nunca conseguiu criar muita intimidade, devido a feitios diferentes, e foi Manuel, com quatro anos a menos, quem ganhou a sua simpatia, pelo que muitas vezes o juntava ao seu grupo de amigos. E é o próprio Manuel quem conta uma história representativa da capacidade de engenho e imaginação do irmão.

Tinha Luís 13 anos quando chamou os manos e manas mais novos e anunciou: “Vou abrir um banco. Vocês entregam-me o vosso dinheiro e eu devolvo-o com juros.” Desconfiados, ainda foram perguntar ao pai como funcionava um banco, sem, no entanto, denunciarem a ideia do irmão. Aquele confirmou a história dos juros e, mais confiantes, lá entregaram as pequenas economias.

Três meses depois, o clã foi pedir contas ao banqueiro. “Tenho algo a anunciar”, disse solenemente, “o banco faliu”.

O feitio contagiante de Luís fez com que muitas das suas brincadeiras, mesmo as de mau gosto, fossem esquecidas ou perdoadas (costumava emprestar dinheiro aos irmãozitos, nunca o negava, mas ficava com um objecto pessoal como garantia), e até aos castigos do pai conseguia escapar, com a sua grande capacidade comunicativa, que viria a ser refinada, muitos anos mais tarde, sob a influência de Krus Abecasis, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, um homem que o ensinou a chegar mais depressa às pessoas. Mas não nos adientemos.

JUVENTUDE

A sua casa começou a ficar demasiada pequena para as traquinices. Certa noite, o avô Luís Vieira recebeu um telefonema do neto, que estava numa residencial em Castelo de Vide e não tinha como regressar a Nisa. O ancião, que nutria carinho especial pelo jovem, agora com 16 anos, lá o foi “salvar”, mas apenas para o encontrar a dormir no quarto. “Então, dizes para te vir buscar e ainda não estás pronto?” Resposta: “´Vou só vestir-me enquanto o avô paga a conta, está bem?”

Quando a família Duque se mudou para Coruche, deparou-se-lhe um problema: a falta de escolas para os dois filhos mais velhos. Por isso Luís concluiu os 6º e 7º anos no Liceu Camões, em Lisboa. O passo para a Universidade (Clássica) foi natural, assim como a sua escolha: Direito. Não por influência do pai, mas, sim, por uma tendência, seguida igualmente por Manuel (desistiu) e Fernando (licenciado). Em Lisboa reencontra um grande amigo de infância, Alexandre Mariano, actualmente veterinário em Aveiro e companheiro de farras nos tempos da Faculdade. Nomes como Santana Lopes.

Aliás, as farras já vinham de trás, pois Luís aproveitava a ausência dos pais, na casa de Coruche, para organizar umas festinhas com os amigos.

Não foi um aluno brilhante, mas aplicado e ciente de que estava ali para tirar um curso nos anos propostos. Teria-o conseguido se uma doença não o tivesse atirado para a cama durante algum tempo e depois a tropa não reclamasse a sua presença, estava ele no quarto ano. Ainda assim, o ano de atraso não o impediu de concluir a tarefa. Nesses, tempos, morou perto da Faculdade de Veterinária, frequentada pelo amigo Alexandre, e, embora se vivesse ainda a ressaca do 25 de Abril de 1974, Luís não era um grande entusiasta de movimentações estudantis. Entre uma imperial no Gambrinos ou na Portugália, um jantar no Solar dos Presuntos (então uma acessível tasca com mesas de pedra, que o dinheiro de estudantes era parco) e um pé de dança no Primorosa de Alvalade ou no Stones, o jovem Duque foi-se adaptando à vida alegre da cidade lisboeta. Conta Alexandre que, certa vez, o grupo de amigos comprou bilhete de comboio para Cascais, mas, ao entrarem na carruagem, resolveram tornar a viagem mais interessante e atiraram os bilhetes fora. Luís, com a sua capacidade de expressão, foi um dos que mais batalhou para dar a volta ao aborrecido cobrador e convencê-lo de que tinham adquirido e deitado fora os papelinhos. Conseguiu.

Mas, nas férias, tornava-se um homenzinho responsável e trabalhava para ganhar dinheiro. Como monitor em colónias de férias, por exemplo.

Sempre foi um bom gestor. Nunca perdeu dinheiro nos negócios. Essa capacidade começou a ser notada quando comprou o primeiro carro, a um tio, com o dinheiro ganho nas férias, um velho Chevrolet que até parado consumia gasolina. Rapidamente o vendeu e comprou um Renaut 6. Também adquiriu duas motorizadas para as vender com lucro. E mulheres? Conta quem o conheceu na altura de que era namoradeiro e até se safava bem, muito graças ao seu trato fino e simpático. E foi assim que conheceu a esposa, através de uns amigos. Mesmo depois de casado, já a morar em Valada, Ribatejo, era raro o dia em que não aparecia em casa dos pais para almoçar. A ligação à família sempre foi e é muito forte.

Início do julgamento de João Vieira Pinto, José Veiga, Luís Duque e Rui Meireles

FUTEBOL

O desporto sempre fez parte da vida de Luís Duque. Na faculdade, por exemplo, praticou râguebi. Chegou a participar numa corrida de fundo, ganhando uma medalha, e também gosta de ténis. O futebol sempre foi mais para ver. No mundo do desporto-rei encontrou muitos dos melhores amigos, como Alberto Silveira (foram vizinhos em Arroios ainda não se conheciam bem), Luís Filipe Soares Franco, Rui Gomes da Silva e Pessoa e Costa. Com alguns deles, reúne-se regularmente em jantaradas, muitas vezes num restaurante em Campolide, onde mostra a sua natureza extrovertida e a facilidade de diálogo, numa espécie de tertúlia em que os touros também são tema de conversa e a diferença clubística (Silveira, por exemplo, é benfiquista) serve para tornar a conversa mais interessante. Gosta de anedotas, até de alentejanos, mas nunca deixa de se admitir como um regionalista convicto. É muito amigo dos seus amigos, mas, dizem, tende a assumir certas posições que lhe trazem amargos de boca.

Foi com Nuno Krus Abecasis, presidente da câmara de Lisboa, de quem foi adjunto até ao final do seu mandato, em 1989, que Luís Duque aprendeu a utilizar a sua excelente capacidade de comunicação em benefício das suas causas. Quando assumiu a presidência da AFL optou por uma postura de combatente-activo e na memória ficou a sua ruidosa confrontação com Pinto da Costa, em 1994, quando deu conta da prepotência da AF Porto e acusou as associações e clubes nortenhos de quererem levar as estruturas do futebol português para o “abismo”.

Quando os clubes da AF Lisboa ameaçaram entrar em greve por causa dos subsídios das deslocações às ilhas, soube encontrar um consenso, através da forma resoluta como encarou a situação. E quando colocou a ideia na cabeça de concorrer às eleições da FPF em 1998, depois de uma tentativa abortada no sufrágio anterior, foi até ao fim, mesmo sabendo que as suas hipóteses eram nulas. Nem sequer contou com o apoio do seu Sporting, na altura em clara sintonia com o FC Porto, que apoiou Gilberto Madaíl. Mas José Roquette, mesmo preso pelo pacto com os portistas, não deixou, nos bastidores, de incentivar Luís Duque e este acabou por compreender a posição do presidente dos leões.

TOUROS

O chamamento da terra foi feito através da figura emblemática do avô Luís Vieira, de Nisa. E os touros, uma paixão com tradição na família (lado materno), surgiram naturalmente na sua vida. Foi ele quem apresentou o irmão Manuel, então com 17 anos, ao amigo Tomás Dentinho, para que aprendesse as lides das pegas de touros. Manuel viria a ser cabo dos forcados, uma espécie de capitão de equipa, na gíria futebolística, nos Aposentos da Moita. Era também o primeiro a segurar o bicho pelos cornos.

Apesar de gostar de touradas e de ser um bom cavaleiro (ainda hoje, sempre que pode, monta cavalos, sobretudo “Jade”, um macho da quinta de Miguel Cintra, filho de Sousa Cintra), Luís Duque nunca teve coração para as pegas. Bastavam-lhe as brincadeiras nas corridas de vara larga, com novilhos e vacas, durante as festas populares. Na única experiência mais a sério que teve, na praça de Nisa, com um touro “suplente”, foi parar ao hospital e de lá saiu com 12 pontos na cabeça. Um entusiasmo de juventude bastante diferente do que se passou há quatro anos: já na condição de administrador da Praça de Touros do Campo Pequeno, voltou a tentar uma pega de touro, numa garraiada académica, e acabou com uma perna partida.

Mas Luís Duque é perseverante e quando mete algo na cabeça vai até ao fim. Assim foi quando, na mesma qualidade de administrador daquele recinto lisboeta, resolveu trazer a Portugal os Ronaldos dos touros: os Miura. São os mais bravos do Mundo e, para que tudo corresse bem, Luís Duque rumou a Sevilha, à quinta de Zahiriche, para coordenar o transporte de seis desses terríveis animais. Lá conheceu o mítico Dom Eduardo Miura, que, conta Fernando Camacho, empresário tauromáquico que o acompanhou, a dada altura exclamou: “Você (Luís Duque) é o terceiro português a sentar-se à minha mesa.” A honra só havia cabido a Fernando Camacho e Palha Blanco.

E tão obstinado esteve com a vinda de Pedrito de Portugal a Lisboa que não descansou enquanto não consumou a ideia: trazer um matador de touros que estava a fazer grande sucesso em Espanha e que só havia pisado uma arena nacional como novilheiro, na Moita. Custou o maior “cachet” até aqui oferecido a um toureiro em Portugal, mas, em três sessões, o público encheu o Campo Pequeno. Mas a sua admiração vai para o cavaleiro João Moura, amigo pessoal.

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SPORTING

Luís Duque não é sportinguista desde pequenino, nem nunca passou por tal. Até aos 18 anos, o futebol não encontrou um espaço muito relevante na sua vida, apesar da tradição leonina da sua família, sobretudo o avô Luís Vieira e o tio Fernando, “doentes” pelo clube de Alvalade. Nem sequer tomava partido nas discussões entre os irmãos Manuel, benfiquista, e Fernando, sportinguista, que chegavam a terminar à estalada, assim como não deu grande importância à costela portista do mano Pedro (que ainda hoje se mantém).

Após a sua mudança para Lisboa, em 1972, e por influência dos amigos, alguns deles sócios do Benfica, rumou ao Estádio da Luz em várias ocasiões, pois, muitas vezes, não pagou bilhete, dado ser ainda miúdo e estar acompanhado por sócios. Mas Alvalade também foi um destino privilegiado, dado que o tio Fernando, sócio, o levava várias vezes. E foi assim que a costela leonina começou a solidificar-se, mas só após a sua saída da faculdade se tornou militante convicto, por influência do ministro da Justiça do Governo AD de Pinto Balsemão, Azevedo Soares, de quem era assessor e que o introduziria no CDS, assim como de Mário Garcia, então presidente da AFL e sportinguista e também João Rocha, presidente do clube de Alvalade. Respirou de alívio o avô que já vira dois netos “tresmalharem-se” para os rivais.

Luís Duque tornou-se sócio e, hoje, os quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas) também têm cartão. Aliás, os gémeos nasceram na mesma noite (29/09/82) de uma goleada ao Dínamo Zagreb (3-0), na última participação dos leões na Taça dos Campeões, o que obrigou a muitas movimentações nos corredores da maternidade, dado ter um ouvido nas notícias do futebol e os dois olhos na sala de parto.

Foi membro do Conselho Fiscal na presidência de Amado de Freitas, mas preferiu entrar no mundo do dirigismo desportivo através da AFL, primeiro como adjunto, depois como presidente, a partir de 1993. No entanto, continuou a trabalhar nos bastidores, sendo de sua responsabilidade (compartilhada com João Pessoa e Costa e Abrantes Mendes) o aparecimento de Sousa Cintra como candidato à liderança do clube. “Foi ele o culpado.

Desafiou-me…”, confirma Sousa Cintra, para cujo Grupo Empresarial Luís Duque ainda trabalha, na área do imobiliário.

Foi igualmente um dos responsáveis pelo “empurrão” a Santana Lopes, para que este assumisse a presidência do clube leonino e, na condição de presidente da AFL, saiu em defesa do seu clube aquando do “caso Sporting-Ovarense”, que envolveu o jogador Luís Manuel. A FPF moveu-lhe um processo de irradiação do futebol como dirigente, que acabou por não ser levado avante.

César de Oliveira

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