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Artigo de opinião: “Web Summit: Gente agitadinha que me dá sono”

Luís Osório1.
Faltam poucas horas para se iniciar mais uma edição da Web Summit. Ao que parece todos os bilhetes (caros e baratos) foram vendidos. Muitas centenas de empreendedores de todo o mundo chegarão a Lisboa com ideias, cartões de visita e ambição. E muitas centenas de portugueses lá estarão também.

2.
Encontramos na Web Summit gente interessante, ideias novas e originais caminhos. Mas a Web Summit não celebra, ao contrário do que se pensa e diz, um mundo novo, o que celebra é o mais velho pecado humano: o da ambição. Fechar negócios, ser visto, entregar o cartão às pessoas certas.

3.
E ser aos olhos dos outros o que os outros esperam que se seja. Afirmativo, otimista, comunicador, global e vendedor (na maior parte dos casos de banha da cobra). Uma feira de gente adaptada a este tempo e que, na maior parte dos casos, se está a borrifar para o mundo. O que os atrai são os casos de sucesso, pessoas comuns transformadas em bilionários, o que os comove é a boa vida, o sucesso, as cotações de bolsa, os IPO’s.

Web Summit

4.
O que celebramos na Web Summit é também a tragédia de um tempo em que os problemas reais de milhões de pessoas são secundarizados face ao progresso do virtual e do advento de novos génios parecidos uns com os outros. Muito engraçados. Muito vivos. Muito egocêntricos. Muito cosmopolitas. Muito bem-postos, cheirosos e persuasivos. Muito high tech, muito crowdfunding, muito pitch, muito fablab, muito hub, muito kickstarter, muito tec labs, yield e zeal. E muito networking, o mais importante de tudo.

5.
Muito bom para Portugal ter a Web Summit. Mas não me peçam para glorificar um mundo que é feito do que parece. Gente muito agitadinha que me dá sono e vontade de não conhecer mais ninguém.

Luís Osório

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Opinião: “Meter o Mundo a falar”

Eduardo 12088014_10153775235257268_781859617163773055_nGreta tem Síndrome de Asperger. Uma condição do espectro do autismo que afecta as capacidades de comunicação e relacionamento. Greta meteu o Mundo a falar de algo importante. Mas o que vejo é as pessoas a odiar a miúda com todas as forças, a dedicar-lhe insultos indiscritiveis só por falar de forma esquisita. É uma miúda porra! Sou antes de tudo um pai e um homem. Não posso aceitar.

Fala de uma forma diferente? Parece agressiva? Soa a falsa? Talvez. Talvez seja por ser asperga, talvez não. Mas não anda a tentar imitar as Kardashian, a pedir bilhetes para o Justin Bieber, ou chorar porque não tem o último I-Phone. Tem causas, se me permitem, mais elevadas. Se a motivação é nobre ou interesseira, não sei, não sou bruxo. Preferia que fosse nobre. Contudo o que ela diz está certo. A essência é louvável.

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Não me importava que Greta, com as suas causas, o seu autismo considerado histérico, a sua preocupação com o futuro, fosse minha filha. Era um orgulho. Mas peço a todos, mesmo que não gostem dela, não concordem, mesmo que não defendam uma solução idêntica para o problema, que não a insultem só porque é moda. Se não concordam, então defendam a vossa visão das coisas. Podem e devem fazê-lo. Até porque essa discussão é fundamental. Chamem-me optimista mas acho que podemos fazer qualquer coisa. Tem é de ser para ontem.
#nature

Eduardo Madeira

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Opinião: “A propósito do aquecimento global”

Antonio Galopim 47283315_1965290887110757_4041598512259923968_nNo momento presente, em que anda muita gente a “dizer coisas”, sobre o aquecimento do planeta o degelo dos glaciares e a subida do nível do mar, em que uns agridem, outros defendem a jovem sueca Greta Thunberg, a verdade, goste-se ou não, ela é o rosto de um movimento, estou em crer imparável, que já mobilizou os adolescentes (e não só) à escala mundial.
A começar, devo dizer que poio e acredito em toda esta dinâmica de juventude à escala mundial, desejando que ela envolva igualmente a luta bem mais necessária e urgente contra a destruição das florestas, a poluição do ar, das águas marinhas e fluviais, dos solos e a destruição galopante dos recursos naturais. Se quisermos reflectir, séria e profundamente, nesta mais do que real ameaça global, a sociedade dita de desenvolvimento vai ter, a partir de agora, de se mentalizar para, a curto prazo, mudar a forma de consumir, de agredir e de conspurcar a Natureza, em suma, a forma de viver.

Relativamente a este processo, que se me afigura demasiadamente politizado, é minha convicção que a actividade antrópica, com influência no clima, não se sobrepõe, em especial, às do Sol e do vulcanismo. Penso pois que, mesmo sem a poluição atmosférica, da nossa responsabilidade, nomeadamente a relativa às emissões de dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa (que existe e é um facto comprovado), o Planeta irá aquecer nos próximos milhares de anos e registar fenómenos atmosféricos como os que nos tem vindo a mostrar (chuvadas e cheias catastróficas, furacões, tornados e outros), associados a inevitável subida do nível do mar.

Vale, pois, a pena reflectir sobre o que tem sido o sobe e desce da temperatura do planeta, à escala global, e o consequente sobe e desce do nível geral da superfície do mar nos derradeiros milhares de anos. Nos últimos dois milhões de anos da história da Terra foram registadas seis grandes glaciações intercaladas por períodos de aquecimento global, ditos interglaciários, no pico dos quais os níveis do mar subiram muito acima do nível actual. A mais recente destas seis glaciações, ocorrida entre há 80 000 e 10 000 anos, conhecida por Wurm, na Europa, e por Wisconsin, na América do Norte, não será certamente a última, e nós estamos a viver um período de aquecimento interglaciário, entre esta e a previsível próxima glaciação, daqui a uns bons milhares de anos. Assim sendo, com ou sem gases com efeito de estufa de origem antrópica, libertados para a atmosfera, a temperatura global vai elevar-se e, em consequência do inevitável degelo, o nível do mar vai subir e muito
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Há cerca de 18 000 mil anos, no Paleolítico, já as mais antigas gravuras rupestres se disseminavam pelas paredes rochosas do Vale do Côa, atingia-se o máximo de rigor e de extensão da última glaciação do Quaternário, a atrás referida Würm. Restringindo-nos ao hemisfério Norte, a calote glaciária em torno do Pólo, espessa de dois a três milhares de metros, alastrava até latitudes que, na Europa, atingiam o norte da Alemanha, deixando toda a Escandinávia submersa numa imensa capa de gelo, capa que cobria igualmente grande parte da Sibéria, todo o Canadá e a Gronelândia. No Pólo Sul a respectiva calote extravasou, e muito, os limites do continente antárctico, alastrando sobre o oceano em redor e cobrindo a parte meridional da América do Sul.
No Atlântico Norte, a frente polar, ou seja, o encontro entre as águas polares, com icebergs à deriva, e as águas temperadas, situava-se à latitude da nossa costa norte, entre Aveiro e o Porto. O nível do mar estaria, ao tempo, uns 140 metros abaixo do actual, pondo a descoberto uma vasta superfície, hoje submersa, levemente inclinada para o largo e que corresponde à actual plataforma continental. Da linha de costa de então descia-se rapidamente para os grandes fundos oceânicos, com 4 a 5 mil metros de profundidade. A temperatura média das nossas águas rondaria, então, os 4ºC.
As Serras da Estrela e de Gerês, à semelhança de outras montanhas no país vizinho, tinham os cimos permanentemente cobertos de gelo, desenvolvendo processos de erosão próprios dessa situação climática, cujos efeitos ainda se podem observar em importantes testemunhos, com destaque para o vale glaciário do Zêzere.
relevos menos proeminentes, mais a sul e menos afastados do litoral como, por exemplo, as serras calcárias do Sicó, Aires, Candeeiros e Montejunto, encontram-se ainda, da mesma época, vestígios bem conservados e evidentes de acções periglaciárias. Desses vestígios sobressaem certas coberturas de cascalheiras soltas, brechóides, sem matriz argilosa, essencialmente formadas por fragmentos de calcário muito achatados e angulosos, em virtude da sua fracturação pelo frio, que deslizaram ao longo das vertentes geladas, destituídas de vegetação e de solo, e se acumularam na base desses declives. A conhecida pincha de Minde teve a sua origem nesta altura e através deste processo.

A partir de então verificou-se uma importante melhoria climática e consequente degelo. A temperatura sofreu uma elevação gradual e as grandes calotes geladas começaram a fundir e a retrair-se, debitando nos oceanos toda a imensa água até então aprisionada. Em consequência, o nível geral das águas iniciou a última grande subida e mais uma invasão das terras pelo mar, conhecida por transgressão flandriana. Praticamente, todos os rios portugueses, do Minho ao Guadiana, terminam em estuários, que não são mais do que vales fluviais escavados durante esta última glaciação e posteriormente invadidos pelo mar, no decurso desta transgressão.
Pelos estudos realizados na nossa plataforma continental sabemos que, há uns 12 000 anos atrás e na continuação do degelo global, o nível do mar coincidia com uma linha aí bem marcada, à profundidade de 40 metros. Uns mil anos mais tarde, a tendência geral de aquecimento generalizado foi perturbada por uma crise de arrefecimento à escala mundial.

Uma explicação para esta interrupção, relativamente brusca, no processo de aquecimento global que se vinha a verificar há alguns milhares de anos, pode encontrar-se na presunção de que, durante a glaciação, se formaram lagos enormíssimos no continente norte-americano, mantidos por grandes barreiras de gelo, que teriam recebido águas de cerca de oito mil anos de degelo nessa área da calote gelada. Admite-se que, tendo descongelado as barreiras que sustinham esses lagos, toda a água doce aprisionada desaguou no Atlântico Norte, desencadeando a brusca congelação da superfície do mar e a consequente mudança climática com reflexos à escala global. Saiba-se que água doce congela a uma temperatura mais elevada do que a água salgada do mar.

Na sequência, os glaciares não só interromperam o degelo, como reinvadiram as áreas entretanto postas a descoberto. Em resultado desta nova retenção das águas, o nível do mar desceu de um valor estimado em 20 metros e assim permaneceu durante cerca de mil anos. A frente polar, que recuara até latitudes mais setentrionais, avançou de novo e atingiu o paralelo da Galiza, pelo que as temperaturas das nossas águas voltaram a descer, rondando os 10ºC. No final deste episódio de inversão climática, a que se dá o nome de Dryas recente, há 10 000 anos, a transgressão retomou o seu curso. O clima tornou-se mais quente e mais chuvoso, entrando-se no que designamos por pós-glaciário. Há 6 a 7 mil anos, a temperatura média, na nossa latitude, atingia cerca de 3 ºC acima dos valores normais no presente. Foi o recomeço da subida generalizada do nível do mar, que se vinha a verificar desde o início do degelo, à razão de cerca de 2 cm por ano, em valor médio, embora a ritmo não constante e com algumas oscilações. Este episódio, conhecido por Óptimo Climático, coincidiu, em parte, com o Mesolítico português, estando bem exemplificado nos magníficos concheiros de Muge, no Ribatejo.

O nível marinho actual começou a ser atingido há cerca de 5000 anos, em pleno Megalítico ibérico, iniciando-se, então, o que é corrente referir como Período Climático Subatlântico, marcado por relativa humidade. A partir de então verificaram-se pequenas oscilações na temperatura, marcadas por moderadas e curtas crises de frio, com correspondentes recuos do mar, designados por Baixo Nível Romano, há 2000 anos, Baixo Nível Medievo, em plena Idade Média (séculos XIII e XIV) e Pequena Idade do Gelo, nos séculos XVI a XVIII, bem assinalada na Europa do Norte pelo congelamento de rios e lagos, situações relacionadas com a ocorrência de grandes cheias primaveris, resultantes do degelo nas montanhas, bem testemunhadas em pinturas da época. Posteriormente a esta crise de frio a temperatura do planeta subiu e vai, muito provavelmente continuar a subir, para os níveis actuais, mesmo sem a ajuda das emissões antropogénicas do agora tão falado dióxido de carbono e dos outros gases com efeito de estufa.

A tarefa não é fácil e, repetindo o que disse no início, se quisermos reflectir, séria e profundamente, nesta mais do que real ameaça global, a sociedade dita de desenvolvimento vai ter, a partir de agora, de se mentalizar para, a curto prazo, mudar a forma viver e de consumir, deixando de agredir e de conspurcar a Natureza.

António Galopim de Carvalho

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Opinião: “Como te atreves, José Manuel Fernandes?”

luis osorioJosé Manuel Fernandes, líder do projeto Observador, atacou esta manhã Greta Thunberg, a jovem sueca de 16 anos que tem liderado o combate mediático contra as alterações climáticas. Fê-lo de uma forma indignada. Estava até incomodado porque a miúda tinha sido irrealista, radical e, pasme-se, malcriada. Estar ali, entre os poderosos do mundo, ainda por cima como convidada das Nações Unidas, e insultar os líderes políticos não é coisa que pudesse ser admissível ou tolerável.

Vamos lá a ver. José Manuel Fernandes aos 15 anos era militante maoísta. Participava apaixonadamente num dos partidos revolucionários de extrema-esquerda, um “ml” qualquer. Defendia o regime albanês de Enver Hoxha e a revolução cultural de Mao Tsetung. E estava disponível, como os seus camaradas do MRPP e de todas as outras fações, para uma revolução que rebentasse de cima/abaixo os alicerces do Estado Novo e o conservadorismo do Partido Comunismo. Na adolescência, José Manuel Fernandes era um radical. Malcomportado. E certamente irrealista.

Tinha 16 anos. Já não se deve lembrar. Porque o seu discurso paternalista acerca da juventude é uma desgraça. E falar assim de uma miúda que tem contribuído para uma viragem da opinião pública sobre as alterações climáticas é irresponsável e narcísico. Um cinismo que fica bem entre intelectuais e uma certa elite, mas que não é admissível. E que choca com a sua própria realidade. Uma pessoa pode mudar. Pode e deve, acrescentaria – também eu militei na juventude no PSR. Mas não pode esquecer-se do que é ter 16 anos. Do que é sentir a injustiça e agir. Do que é querer mudar o mundo e assumir os riscos. Do que é ser radical por ser a única forma de se ser ouvido. Do que é ser malcriado por não se aceitar as convenções e a hipocrisia.

Não estou a dizer que concordo com as premissas. Afinal, eu não sou Greta. Mas adoraria que ela fosse irmã dos meus quatro filhos. Teria um orgulho enorme numa mulher que assume um combate decisivo e arrisca a vida numa batalha pelo futuro. o futuro de todos nós. O dos filhos e netos de José Manuel Fernandes também.

Um dia escrevi um pequeno postal aos meus filhos que depois publiquei em “Amor”, um livro de pensamentos. Lembrei-me dele ao ver Greta ontem a interpelar os políticos

“A juventude não é juventude se não vivermos como se fossemos morrer amanhã. Não é juventude se não encontrarmos o nosso próprio destino, se não afrontarmos os que acham ser donos do caminho. Não é juventude se não arriscarmos, se não abrirmos a janela e respirarmos fundo de tanto acreditar que é possível o que quisermos que seja possível. Não é juventude se não começarmos a tratar por tu o silêncio e a solidão e se não tivermos medo de falhar. Se não nos apaixonarmos, se não chorarmos de raiva, angústia, se não gritarmos. A vida é a vida. A juventude não é juventude se a tratarmos como se fosse uma série de 30 ou 50 minutos com intervalos. Na vida os episódios não duram esse tempo, a juventude não é juventude se cada minuto não for vivido com intensidade, dure o que durar. E sem intervalos publicitários. A juventude não é juventude se tivermos a televisão ligada. Entendem, meus filhos?”.

Luis Osório

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Opinião: “Racismo e estupidez”

Ana AmorimDeixem-me ver se entendo: quando me mascarei de índia e pintei a cara, em criança, estava a ser racista? Quando uma amiga, há uns anos, pintou a cara de branco cal para se disfarçar de gueixa, estava a ser racista?
E o primeiro-ministro do Canadá onde anda com a cabeça, para assumir tal coisa como racismo e retratar-se, arrependido, como se tivesse cometido um crime? Mas não há por aí quem lhes explique que racista é quem acha que pintar a cara da sua cor é desrespeito? Racista é quem se expõe ao ridículo de uma acusação tão patética.

Mas parece que se tornou normal…
Anda meio mundo a sucumbir à estupidez, só pode. Se um grita “isto é racismo!”, milhares (milhões?) de vozes o seguem, gritando o mesmo. Mesmo que não seja. Mesmo que bastasse pensarem três segundos (sim, três segundos chegava) para perceberem que estão a cometer um erro crasso simplesmente por não pensarem.
Começo a suspeitar que o tremendo desenvolvimento das últimas décadas, em vez de nos proporcionar a evolução pessoal (por termos toda a informação do mundo no bolso de trás ou onde quer que pousemos o telemóvel), nos está a carcomer o cérebro, neurónio por neurónio, até já não sobrarem pessoas lúcidas, imparcialmente informadas, e capazes de processar conceitos e acontecimentos à luz da simples razão humana.
A parvoíce prolifera com assustadora rapidez.
A preguiça mental está a tomar conta de tantas mentes que mais parece uma praga bíblica à solta!
Ou começamos a ter muito cuidado para não perdermos de vez a capacidade de pensar por nós mesmos ou caminharemos a passo firme para o matadouro global daquilo que fazia de nós especiais: a mente, os sentimentos, o intelecto…

Vivemos tempos de perigosas, devastadoras e instantâneas influências sociais; vivemos tempos de tiques de puritanismo que ameaçam o próprio tecido de que a sociedade é feita… e andam a querer esterilizar de tal maneira a existência e os comportamentos humanos, que qualquer dia deixaremos de ter anticorpos para combater o que quer que seja!
Pedirmos às pessoas que pensem, antes de embarcar nos navios da viral estupidez, não é má educação; é uma necessidade urgente.
Pensem, por favor, porque quando todos deixarmos de o fazer, a humanidade terá caído.

Ana Amorim Dias

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Opinião: “O fantasma de Salazar e o Reitor da Universidade de Coimbra”

Raquel 10464109_10202306149190196_3394916574196011546_nO Reitor da Universidade de Coimbra não decidiu excluir a carne de vaca. Decidiu que quem tem menos dinheiro vai deixar de comer carne de vaca. As cantinas são os locais onde os filhos das classes pobres e médias empobrecidas comem. Quem tem dinheiro vai continuar a comer carne, do lombo. Os filhos de quem pode, como os meus, irão comer carne do lombo, de qualidade, bio. No norte da Europa já se serve carne bio em algumas universidades por onde ando. Em Portugal acaba-se com a carne. A periferia não é verde, é inexistente. Na verdade a medida do reitor é análoga à generalização dos parquímetros, uma privatização do espaço público. Quem tem dinheiro continua a ter acesso à cidade por carro. Estas medidas não são ecológicas, são classistas. Ecologia era transportes públicos das zonas pobres para o centro. Ecologia era subsidiar na Escola Agrária da Universidade produção de agricultura biológica e fornecer nas cantinas para que pelo menos algumas vezes pudessem comer proteína de qualidade. Ecologia era um Reitor defender a agricultura sustentável ser cada vez mais subsidiada. Assim o reitor o que fez foi reduzir a despesa da Universidade de Coimbra que agora vai oferecer frango de aviário, um mutante que nem frango devia chamar-se. Também vai ficar bem nas contas gerais da Universidade servir na cantina (paga com os nossos impostos) soja geneticamente modificada – é a transição energética.

A “transição” está a relevar-se uma forma de privar ainda mais os mais pobres de tudo, irão pagar mais impostos verdes, estão privados da cidade “verde”, num subúrbio cinzento, vestem fibras horrorosas enquanto fabricam algodão natural de design inovador em fábricas super poluentes, e agora podem esperar esta moderna versão Jonet de “não de pode comer bifes todos os dias”. Tudo para o bem deles, como se sabe se os ricos não cuidassem dos pobres eles jamais saberiam o que fazer. Agora por exemplo, imagine-se!, querem comer bifes que fazem tão mal à saude e ao planeta…

Vou poupar-vos ao óbvio. A poluição é grave mas o mundo não está a acabar. É preciso medidas sérias, e não hipocrisia disfarçada de ciência. Comer carne em idades jovens, quando se estuda, é essencial ao cérebro. Nos colégios onde se formam elites dirigentes do mundo posso garantir-vos que a carne é biológica e do lombo. Comer muita carne faz mal, não comer nenhuma faz muito mal. Outro dado: um dos maiores estudos de saúde do mundo provou que a segurança no emprego e a autonomia podem aumentar 18 anos a esperança média de vida e o medo fazer cair a mesma 18 anos, pela produção de cortisol. Nada faz tão mal à espécie humana hoje como o medo da sobrevivência, condição em que vão estar a grande maioria dos jovens estudantes da Universidade de Coimbra quando entrarem no mercado de trabalho. Coisa que não preocupa o reitor. O fim do planeta para o Reitor é uma garantia, é o dilúvio bíblico que exige medidas radicais. Já o facto de que os que estudam na Universidade virem a ter empregos em que não chegam ao fim do mês, bom isso já não é bem uma certeza, nem diz respeito a um Reitor, que cuida do Planeta.

Que o PAN, que representa o ultra liberalismo verde, seja a favor comprende-se. O silêncio dos outros partidos, com algo tão fundamental quanto o que se serve de alimentação numa instituição pública, por nós financiada, é inexplicável.

Para compreender o mundo, e a atitude de um Reitor, é preciso saber teoria do valor. E o valor da teoria. Marx explicava que a tendência do capitalismo era para tornar vegetarianas as classes trabalhadoras, desde logo diminuindo a parcela de proteína a que têm acesso na reprodução da força de trabalho, vulgo salário. Os chineses perceberam bem isso – ali, nas fábricas, come-se arroz. E mais nada. Ainda vou assistir à glorificação do Estado Novo em plena Universidade de Coimbra, o fantasma do Salazar a rondar as salas escuras, de ilusão esverdeada – carne faz mal, melhor só no Natal.

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

Artigo de opinião: “É hora de desobedecer”

Matilde Alvim.jpgEm jogo estão os recursos naturais, o equilíbrio de forças, a sobrevivência e a justiça. Então, como nos podemos resignar e conformarmo-nos com um sistema que abre caminho, a toda a velocidade, em direcção ao ecocídio e à catástrofe climática?

Desobedecer, sim.

Perante o cenário de um futuro caótico e depois de décadas de tentativas praticamente falhadas, só nos resta a desobediência. De forma pacífica, sempre, mas não menos perspicaz.

Parece quase óbvio. Se estivéssemos, num futuro distante, a olhar para trás na História e a ver esta fresta de tempo que estamos a viver, interrogar-nos-íamos sobre o porquê de não termos feito nada. É quase instintivo: em jogo estão os recursos naturais, o equilíbrio de forças, a sobrevivência e a justiça. Então, como nos podemos resignar e conformarmo-nos com um sistema que abre caminho, a toda a velocidade, em direcção ao ecocídio e à catástrofe climática?

A desobediência civil é o acto consciente de um ou mais cidadãos desobedecerem à lei, num acto de protesto político que demonstra desacordo e inconformidade com a ordem estabelecida, existindo várias formas de o concretizar pacificamente. Já Thoreau, no século XIX, usou a desobediência civil como um meio para contestar a guerra americana contra o México, recusando-se a pagar impostos (que financiavam essa mesma guerra). No fundo, a premissa passa por questionar se a lei equivale mesmo à moral, e qual a legitimidade que os cidadãos comuns têm em desobedecer às estruturas superiores quando estas entram em conflito com a sua ética. Como diria Thoreau, o cidadão não pode nunca resignar a sua consciência à legislação, abandonando-a e deixando-a a cargo do poder político. Para além do mais, é até responsável quando apoia os agressores e a injustiça, mesmo sendo este apoio a simples resignação e obediência à lei.

A verdade é que cerca de 100 empresas são responsáveis por cerca de 71% da emissão de gases com efeitos de estufa (GEE) e, enquanto as emissões anuais sobem para recordes históricos, as minas de carvão e as petrolíferas continuam tranquilamente a sua exploração, isentas e impunes de qualquer responsabilização e até, em alguns casos, apoiadas por estados. Talvez a parte mais absurda é que esta situação é, sem dúvida, a ordem dada como normal e até aceitável.

O movimento ecologista surgiu nos anos 70. As emissões globais de GEE aumentaram 75% desde esses anos até 2004, segundo dados do estudo da Netherlands Environmental Assessment Agency.

E agora? Agora, depois de décadas a tentar chamar a atenção para o problema usando o protesto legal, é hora de recorrermos à insubordinação pacífica contra o sistema que permitiu não só que a crise climática se criasse, como a alimentou conscientemente. Serão legítimos os bloqueios a minas de carvão, os acampamentos em prospecções de gás e as obstruções de vias públicas? Sim, sem dúvida. Com certeza não será legítima a destruição do planeta de todos em prol dos interesses de alguns. Aceitar esta situação é compactuar com ela e ser, em parte, responsável e cúmplice da sua continuação e da loucura da crise climática.

A verdade é que a maioria dos cidadãos comuns condena a destruição ávida dos ecossistemas, a exploração frenética dos recursos e o contorno sistemático às normas e leis ambientais em nome dos interesses corporativos, é só verificar a enorme onda de solidariedade após os incêndios na Amazónia. Mas mesmo que estas atrocidades ambientais, inseridas num sistema que as banaliza, vão contra a vontade e a ética dos cidadãos, muito poucos têm a coragem de se insubordinar.

E parece tão óbvio, tão simples, quando olhamos para os livros de História e nos perguntamos o porquê de poucos terem tido a coragem de se revoltar contra a escravidão ou desobedecido ao nacional-socialismo. E vai parecer cristalino quando, por fim, encararmos o futuro que nos espera se não agirmos, olharmos para trás e perguntarmos a nós próprios: porque é que ninguém se insurgiu?

E é tão óbvio: ou é agora ou é nunca. É hora de reunir a nossa coragem.

Matilde Alvim

Estudante e activista pela justiça climática na Greve Climática Estudantil

At https://www.publico.pt/