Arquivo de etiquetas: Mundo

Novas publicidades 2019

Anúncios

Artigo de opinião: “Joaquim Bastinhas”

pedro pintodsc_0109Nunca pensei que no dia que voltaria a escrever seria sobre ti, particularmente neste contexto. Meu Amigo Bastinhas, gostava tanto de poder voltar a escrever todas as linhas que te dediquei nos diversos órgãos de comunicação social onde estive; as vezes que te chamei “único”“toureiro do povo”“com Bastinhas veio a praça abaixo”“a alegria contagiante de Joaquim Bastinhas”“Bastinhas causou furor” e tantas, tantas coisas mais…

Hoje escrevo-te com as lágrimas a correrem-me pelo rosto, nem sei que escrever, falta-me alguma coisa; a amizade é uma coisa que não se vê, mas sente-se; faltou-me aquele telefonema na noite de Natal, que todos os anos dávamos; hoje falta-me aquele conselho amigo que sempre davas quando iniciava qualquer projecto e foram tantos, quando dizias “essa é boa, vou eu e o meu Marcos” ou quando “não te metas nisso que vais perder dinheiro” e eu teimoso, às vezes não seguia o teu conselho e batia com a cara e tu dizias-me “vês quem tinha razão?”. Tinhas tu, tinhas sempre, por isso pensei e meti na cabeça que eras eterno (para mim serás sempre)!

Podia ficar aqui a escrever todas as histórias que tivemos juntos (e foram tantas), todas as partidas que pregaste, todos os teus triunfos, todos aqueles Verões quentes que passei na tua Herdade e as corridas que tive o prazer e gosto de te acompanhar (na altura que se toureavam 60 numa época). Fizeste-me crescer como homem e como pessoa, nos últimos anos andámos mais afastados, mas ambos sabíamos que se fosse preciso, estávamos ali!

Estavas anunciado para Ponte de Lima, quando três ou quatro dias antes foste “colhido” por aquela maldita máquina; ligaste-me depois a agradecer ter-te substituído pelo Marcos, não tinhas de o fazer, era o substituto natural, mas isso eras tu, sempre uma palavra, sempre um gesto, por isso te tornaste único!

Amigo, de ti fico com as grandes recordações, o teu sorriso inigualável, aquele abraço que demos no hotel na Figueira da Foz, na noite que reapareceste e ambos nos emocionámos, eu naquele dia não podia faltar e não faltei!

Existem três fases na tauromaquia, a Antes de BastinhasDurante Bastinhas e Depois de Bastinhas e isto tem fácil explicação, na altura que não havia internets e outros afins, o norte do país só conhecia Bastinhas, pelo seu carácter e personalidade próprios, pela alegria e simpatia, pelos pares de bandarilhas; Bastinhas foi único e deixa um vazio imenso na nossa tauromaquia!

Marcos, esse vazio será ocupado por ti! Serás tu que tens de ter Força, muita Força, para continuares o que tão bem tens feito e honrar aquilo que o teu pai mais gostava, ver-te tourear! Lembro-me quando toureaste como amador na Amareleja (a primeira vez que ele não te pôde acompanhar, pois toureava em Tomar) e eu relatei-lhe toda a tua actuação (grande) pelo telemóvel, ele vibrou como se estivesse lá! E no final dizia-me “mas ele esteve mesmo assim, foi mesmo assim bom?”

Marcos, percebo que de repente penses que o mundo te caiu em cima, mas sei que vais crescer ainda mais com as dificuldades, vais crescer ainda mais como homem, vais ser um apoio super importante para a tua mãe (e vice-versa), tens uma grande mulher a teu lado (Dália) e nos teus filhos vais ganhar a restante Força para seguires em frente! Os teus amigos estarão ao teu lado e o teu irmão Ivan também! Da minha parte procurarei estar sempre!

Lena, por trás de um Grande Homem está sempre uma Grande Mulher; sabe bem o que sinto agora e sei bem o que está a sentir; perdeu um Grande Marido e eu um Grande Amigo! Tinha as suas coisas, mas quando era necessário ele sempre estava lá! Aqueles minutos que nos abraçámos a chorar no dia das cerimónias fúnebres pareceram uma eternidade. Sei que sente um vazio e uma dor imensa, mas ele lá no lugar que Deus o guardou, estará sempre a olhar por si! Muita Força minha Amiga!

Comendador Rui Nabeiro, o Senhor também perdeu um grande amigo, foi uma grande “cornada” que a vida lhe pregou (a todos nós), maior que todas as outras que lhe tentaram dar durante a sua longa e bonita vida, muito Força caro Amigo!

Ivan, tu és a Força, a mesma que tiveste quando quiseste ser forcado e uma vez em Milfontes foste seis ou sete vezes à cara de um toiro e o teu avô Sebastião dizia-me “Pedro Pinto não deixe lá ir mais o meu Ivan”, mas tu não desististe! Terás de ter Força para ajudar a tua mãe e o teu irmão! Sei que a tens!

Não consigo escrever mais, só choro (no final vou sorrir porque sei que ao pé de ti nunca ninguém andava triste, nem tu gostavas), porque perdi um Amigo, daqueles a sério, poderia estar aqui a contar mais mil e uma histórias, mas guardo-as para mim, com carinho e admiração, para mim serás sempre Eterno Bastinhas!

Pedro Pinto

At https://farpasblogue.blogspot.com/

1.º discurso de Bolsonaro, novo presidente do Brasil

Jair Bolsonaro faz agora seu segundo discurso como presidente da República, o primeiro à nação, no parlatório do Palácio do Planalto. Bolsonaro falou em “libertar o Brasil do socialismo”, “estabelecer a ordem”, defender a família, diminuir o “gigantismo” do estado, fazer reformas e fortalecer a meritocracia.

Ao final, ele mostrou uma bandeira brasileira – dada a ele pelo futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni – e repetiu o brado de que ela “nunca será vermelha”, lema anticomunista que faz referência à cor tradicionalmente utilizada pelos partidos políticos de esquerda. “A partir de hoje, vamos colocar em prática o projeto que a maioria do povo brasileiro democraticamente escolheu”.

vejapontocom

Opinião: “O que são fakenews?”

raquel-varela_1349828739Já ouviram algum amigo, um aluno, um deputado dizer «eu penso isto, é a minha opinião, logo tenho razão». Bom, isto é uma fakenews.

Vou contribuir com uma pequena explicação histórica e filosófica, que parece complicada, mas que é necessária. E, creio, fácil de compreender. De outra forma não compreendemos a pós-verdade ou as fakenews.

Sempre existiram mentiras. De indivíduos, colectivos e Estados. São tão antigas como a humanidade.Por isso todas as sociedades desenvolveram modelos de reprimir mentiras, da reprimenda a outras sanções mais graves.

Mas hoje nós temos um outro paradigma, mais perigoso. Em que não há mentira ou verdade, apenas opinião de cada um. Porquê? Somos essencialmente sociedades filhas das revoluções burguesas – como a revolução francesa – nas quais a burguesia lutou para acabar com a razão divina, ou seja, o irracionalismo, o poder do Rei e de Deus. E colocá-lo – ao poder – no Homem, em defesa da ciência, da educação, e por isso também do laicismo. Isso é o iluminismo, é um grande avanço do capitalismo face ao que existia anteriormente, o poder feudal e da Igreja. Mas o que temos hoje, na fase de decadência do capitalismo, é um retrocesso face ao iluminismo, é o pós modernismo. No capitalismo a defesa da razão seria sempre limitada porque o critério da verdade é o indivíduo e o mercado. O que deu origem inevitável – sublinho inevitável -ao relativismo pós-moderno. Não há capitalismo, hoje, nem vai haver, sem pós-modernismo.

Porquê inevitável? Porque no capitalismo o critério é o indivíduo e isso é sempre relativo, é uma espécie de obscurantismo solipsista. É isto que levou a que tantos alunos nossos sem ler, sem estudar, sem compreender opinem sobre o que não sabem com convicção na frente de todos. E que muitos governantes ou politólogos etc. assumam posições sem sustentação e disso não se envergonhem. Porque o critério não é a verdade mas a opinião de cada um, a um individuo corresponde uma opinião, mesmo que ela não tenha qualquer verificação em factos reais.

Ora a verdade não está em nós, como indivíduos. Ela tem que ser sujeita ao exterior, a provas, factos, verificação empírica.
A razão que hoje domina o neoliberalismo e o capitalismo é esta, a razão instrumental, cujo critério é o individuo. Quando o que precisamos é de razão critica, em que o que pensamos tem como confirmação ou negação, ou crítica, metodologias externas a nós de verificação da verdade. Por isso se querem resolver um qualquer problema social a primeira coisa que precisam não é de um técnico mas de um filósofo, cientista social crítico. Vejo aliás com curiosidade ver o sociólogo Boaventura Sousa Santos, o pai do pós-modernismo de esquerda em Portugal, defender hoje abertamente, sofisticado como ele é, a razão instrumental e não a razão crítica. É que a esquerda em grande medida aderiu também a esta visão de que não há verdade, ela é instrumental.

Por isso, em suma, para os pós-modernos, por exemplo no meu campo, da história, que hoje têm muito peso nas Universidades – mesmo quando não sabem ou não assumem – o interesse não é pelos factos, acontecimentos, mas pelos discursos, símbolos, memórias. São no oficio diário contra o iluminismo, os Annales e o marxismo, porque, no fundo, no limite não há verdade – cada um pensa o que quer – e estuda o que quer. Mesmo aquilo que não tem grande interesse ou urgência social. Ou seja, o problema da pós-verdade está muito longe de ser restrito ao jornalismo, contaminando grande parte da produção intelectual social contemporânea. É ele também que dá aso a que pessoas impeçam outros de fazer humor ou arte porque se dizem ofendidas – já que o critério não é o da liberdade em arte, exterior a nós, mas da subjectividade de cada um. Se se diz ofendido pode impor ao outro a censura – mas chama-lhe politicamente correcto.

Evidentemente que quer nos media, nas artes quer na Universidade ainda há muitos bons exemplos que resistem a isto.

Dito isto e sem fugir ao assunto: sem condições de trabalho dos jornalistas a montante, com razão critica ou instrumental, tão poucos vamos resolver a questão das fakenews. Eles precisam de tempo para verificar fontes, dados, metodologias.

Raquel Varela

At Facebook

Dia Internacional dos Voluntários

dia intern vol 2018É a 5 de dezembro que em todo o mundo (pelo menos nos países que vivem em democracia) se celebra o Dia Internacional dos Voluntários (ou melhor, Dia Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Económico e Social dos Povos), que se celebra desde 1985, fruto de resolução que as Nações Unidas tomaram no mesmo ano.

É comum as pessoas associarem o trabalho voluntário à ideia de que alguém em situação social ou económica tida como superior, se dispõe a ajudar pessoas ditas como inferiores, carentes e necessitadas de ajuda. É normal que haja gente que pensa assim. Até porque são inúmeras as situações em que a vertente paternalista, caridosa (no sentido incorreto do termo), assistencialista e subjugadora, está presente nesta atividade que afinal é de nobreza elevada. Também é comum os voluntários serem considerados agentes de perturbação do emprego, de impedimento do exercício de direitos que a outros pertencem ou usurpação de bens e serviços que se destinam a outros.

Mas o trabalho voluntário e cada ato voluntário, é algo bem mais profundo e sensível. Estender-se as mãos ao próximo, ao semelhante, é um ato que exige coragem e disposição para o compromisso, na doação de tempo e talento, generosamente, que pode e deve ser entendida como real solidariedade, aquela que não espera nada em troca. É um ato que exige que enfrentemos as nossas próprias fraquezas e limitações; e que demos passo em frente em relação ao outro, na promoção do seu bem-estar, da sua qualidade de vida e da sua felicidade.

É diante e conscientes das suas próprias fraquezas, que os cidadãos que se atrevem a ajudar, querem também eles se sentir melhores, curar as suas próprias feridas e superar as suas limitações, como quem, diante de uma grande onda, não recua, mas mergulha. A prática do voluntariado dá saúde e bem-estar. É bom para quem é ajudado e para quem ajuda.

Como diz a Lei 71/98, o “Voluntariado é o conjunto de ações de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada por pessoas, no âmbito de projetos, programas e outras formas de intervenção ao serviço dos indivíduos, das famílias e da comunidade desenvolvidos sem fins lucrativos por entidades públicas ou privadas.”

Que a efeméride seja mais uma vez e realmente, um alerta e um apelo (diga-se mesmo, desesperado), a quem quer e não pode; e a quem pode e não quer, ser agente do modo mais sublime do exercício da cidadania: a prática do voluntariado.

Pela democracia e por uma cidadania ativa e responsável… Sejamos Voluntários!

Entroncamento, 1 de dezembro de 2018

Banco Local de Voluntariado do Entroncamento

João António Pereira, presidente da Direção / Coordenador do BLVE

Nisa vence prémio de design em Madrid

Bienal 46525996_2291643704449503_6555562850520137728_n

Seis trabalhos portugueses de design foram premiados na 6.ª edição da Bienal Iberoamericana de Diseño (BID), cuja semana inaugural arrancou na segunda-feira em Madrid.

De acordo com a organização, as propostas foram distinguidas por um júri internacional, que atribuiu 20 prémios e 35 menções honrosas. Entre eles estão o projecto Sapatos Labor da marca Machado Shoes, de produção artesanal de sapatos e outros objectos em couro, de José Machado, que venceu o prémio design de moda, têxtil e complementos.

Na mesma categoria, a marca Kitty Olive foi distinguida com uma menção pelo projecto Kitty Olive colecção de malas, que resulta de pesquisa e trabalho regular com o artesanato e artesãos de Nisa, no distrito de Portalegre. Também Ana Escobar Teixeira recebeu uma menção na categoria de design industrial/produto com Projecto em Aberto.

Ao Estúdio Eduardo Aires, o júri decidiu atribuir as menções design industrial/produto e design para (por e com) a cultura na categoria de design gráfico e comunicação visual pelo projecto Moeda INCM [Imprensa Nacional Casa da Moeda] Comemorativa Idade do Ferro e do Vidro.

Por sua vez, o estúdio united by design foi distinguido com uma menção design digital, na categoria de design digital, pelo projecto Nomad, da responsabilidade de André Covas, Emídio Cardeira e Miguel Palmeiro. O Diogo Aguiar Studiorecebeu uma menção na categoria design de interiores com o projecto Pavilhão no Jardim de Serralves, assinado por Diogo Aguiar e Daniel Mudrak.

A semana inaugural da BID, que cumpre este ano o 10.º aniversário, termina na sexta-feira. Portugal participa com 21 trabalhos. A BID realiza-se de dois em dois anos na Central de Diseño de Matadero Madrid e “estabeleceu-se como o mais destacado ponto de encontro de profissionais e instituições de design da América Latina, Espanha e Portugal”. (…)

At https://www.publico.pt/

Artigo de opinião: “Olhe que sim, dr. Costa, a tauromaquia é cultura civilizacional”

Luis Capucha 1303434Se o primeiro-ministro crê que a questão das touradas é de civilização, então temos motivos para nos preocuparmos seriamente. Porque ele alinha com as seitas fundamentalistas que promovem a ideia de que não existem diferenças entre homens e animais sencientes não humanos.

O primeiro-ministro António Costa resolveu sair a terreno para defender a sua ministra da Cultura, um quadro da sua entourage (vulgo, uma girl), no caso do ataque à tauromaquia com pretexto da taxa do IVA. Parece esperar o fim da polémica após a sua intervenção numa arrogante resposta a Manuel Alegre. Mas só lançou gasolina para a fogueira.

Já circulam na Net as fotos do António Costa presidente da Câmara de Lisboa, satisfeito da vida a exultar com uma corrida de toiros no Campo Pequeno e a abraçar efusivamente o Cabo do Grupo de Forcados Amadores da Cidade em plena arena.

O que o fez mudar tanto de ideias em tão pouco tempo? O “negócio” com o PAN, que hoje todos aplaudiríamos se fosse destinado a aumentar o Orçamento para os canis e os gatis, mas que infelizmente instrumentaliza o governo para uma “canelada” política na tauromaquia, o que sempre dá mais visibilidade, tão necessária quando se aproximam eleições. Puro oportunismo político, portanto. A taxa do IVA é apenas um pretexto.

Arrogante é um adjectivo suave para classificar a atitude de um primeiro-ministro que julga poder pronunciar-se sobre uma questão que envolve o regime democrático e os valores civilizacionais (nada menos do que isto, é ele mesmo que o assume) no “sossego de uma viagem até Berlim”. É tudo o que tem para dar ao debate sobre a civilização? É deprimente!

O oportunismo político assente num cálculo errado a respeito das simpatias dos portugueses é mascarado, no artigo publicado no PÚBLICO hoje, dia 11 de Novembro, com argumentos alinhavados à pressa por António Costa no avião para Berlim para parecerem uma opinião, padrão de gosto e sensibilidade pessoal, atributos legítimos para exibição pelo cidadão António Costa, mas que não devem em caso algum guiar acção e o discurso de um primeiro-ministro. Tais argumentos rodam em torno de dois erros: em primeiro lugar, a costumeira e banalíssima mistificação da questão animal; em segundo lugar, o não menos comum preconceito no modo de olhar a alteridade e a identidade cultural de milhões de portugueses que gostam de toiros, a incapacidade para tentar perceber a sua perspectiva, e a intolerância face a mundovisões diferentes da sua.

Sobre a questão animal, há um tópico indiscutível: houve uma alteração ao Código Civil que torna os animais sencientes distintos, à face da Lei, das outras coisas. Lei essa que não os equipara aos seres humanos. Não há controvérsia sobre esse novo estatuto e a sua evocação por A. Costa só pode ser lida como poeira para os olhos.

Mas a ideia viciosa de que podemos equiparar os animais não humanos às pessoas emerge por todo o lado no artigo. É pura mistificação e, na essência, um apelo populista às pessoas que confundem a luta contra as touradas com a luta pela defesa do bem-estar animal. A luta pelo bem-estar animal é uma responsabilidade das pessoas de bem. A luta contra as touradas é uma luta contra a liberdade e a democracia cultural. É essa mistificação que o leva a evocar a pornografia como exemplo da diversidade dos espectáculos culturais e, logo, do modo como o Estado os deve tratar. O tratamento penalizador das touradas seria, pois, do mesmo tipo do combate à pornografia. Se isto não é um insulto reles, o que é? Mas a coisa é pior. A razão da discriminação das touradas é o modo como são tratados os animais que nela intervêm. E no caso da pornografia? Está a comparar as pessoas que são exploradas nas indústrias do sexo, a animais?

Se o primeiro-ministro crê que a questão das touradas é de civilização, então temos motivos para nos preocuparmos seriamente. Porque ele alinha com as seitas fundamentalistas que promovem a ideia de que não existem diferenças entre homens e animais sencientes não humanos.

Só há duas maneiras de promover a igualdade entre homens e animais: ou promovendo os animais à condição humana, o que tem acontecido no plano simbólico (desde La Fontaine às indústrias Disney), ou fazendo descer os homens à condição animal. O problema com a primeira via é que há pessoas que confundem as metáforas com a realidade, caindo na situação perversa de humanizar os animais, isto é, violentar a sua natureza, que não conhecem nem compreendem. O problema com a segunda é que representaria o fim de qualquer civilização, situação que a história já conheceu. Não me canso de lembrar que as primeiras leis de protecção dos animais foram produzidas pelo governo nazi, o mesmo que é responsável por uma das (se não a) mais violenta e trágica descida da humanidade a um estado de selvajaria.

Além disso, o texto do senhor primeiro-ministro é demagógico. É falso afirmar, no contexto português e face às controvérsias em curso no nosso país, que uma opção civilizacional não implica desqualificar os oponentes. Que oponentes? Os aficionados são oponentes da nossa civilização? É chocante essa afirmação na boca de uma girl do Primeiro, mas soa a obscenidade na boca dele próprio. E sim, Manuel Alegre tem razão: todos os populismos começam com a criação de uma clivagem entre um “nós”, os bons, e um “eles”, os maus, os perversos, os menosprezáveis, os inimigos. Contra os quais a sociedade deve ser avisada pelo Estado, como o é sobre o consumo de sal ou açúcar. Ridículo! Já viu bem onde se está a meter, António Costa?

O segundo vetor consiste na forma ultrajante, grosseira e agressiva como classifica, explícita ou implicitamente, os aficionados à Festa de Toiros. Diz A. Costa que é preciso “… respeitar as pessoas que, como eu, rejeitam a tourada como manifestação de uma cultura violenta ou de desfrute do sofrimento animal”. É o que sempre fizeram os aficionados. Mas, não estará a confundir “cultura violenta” com cultura de controlo da violência? Não são as touradas institucionais de hoje o resultado do “processo civilizacional” da relação milenar entre homens e toiros? Tem algum sinal, a mínima evidência, que lhe permita sustentar a ideia de que as comunidades taurinas são mais violentas do que aquelas com que convive nas mesmas sociedades? Já alguma vez procurou ouvir e respeitar o que dizem os aficionados sobre o modo como vivem o ritual da Corrida de Toiros e o que sentem perante a arte praticada enfrentando esse animal excepcional que é o Toiro de Lide? O que o anima na sua saga antitaurina é, senhor primeiro-ministro, o puro preconceito.

António Costa rejeita a tourada e acha chocante a sua transmissão televisiva (embora não pense proibi-la, para já). Mas não ficaria preocupado se ela se confinasse aos municípios que decidissem mantê-la. Há uma dupla hipocrisia na ideia. Por um lado, acha que os toiros podem ter tratamento diferenciado consoante os municípios. Por outro lado, porque já sabe que os municípios com actividades taurinas, a maioria deles de gestão socialista ou comunista, conseguiram impedir a descentralização nesse domínio. Mas seja consequente. Proponha-lhes a “municipalização” da regulação dos espectáculos tauromáquicos, mas com total liberdade, isto é, após a anulação da lei que proíbe as corridas integrais (isto é, com toiros de morte), as que respeitam verdadeiramente o toiro e a verdade que a tauromaquia encerra. Tem coragem para isso, ou teme que a Festa ganhe no nosso país a pujança que tem em França?

Em conclusão, senhor primeiro-ministro, não resolveu o problema da sua girl, apenas se colocou a si próprio em equação. A questão que agora se colocam todos os aficionados, de direita, de centro e de esquerda, é se uma pessoa que pensa como o sr. servirá mesmo para primeiro-ministro dos portugueses? Não ficaria a aliança das esquerdas melhor servida com um primeiro-ministro que fizesse o que diz (ser avesso a grandes mutações civilizacionais) e se mostrasse menos dado a compromissos com partidos veganos que contestam todas as bases da nossa civilização?

Luís Capucha

Sociólogo, docente no ISCTE-IUL e Investigador no CIES-IUL; presidente da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal

At https://www.publico.pt/

Artigo de opinião: “Crónica do processo de benfiquização em curso”

Frederico-Varandas-1

“O que garanto é que defenderei o Sporting. E isso significa, muitas vezes, estar calado” Varandas, Frederico – 13-10-2018

A política sempre tentou colar-se ao desporto e em particular ao futebol, mas a verdade é que era um fenómeno mais de autarcas de pequenas localidades, que tentavam tirar dividendos políticos nas suas terras. Isto foi assim até ao dia em que nas legislativas de 2002 um presidente de um clube – Manuel Vilarinho –  apelou ao voto num partido (PSD), enquanto presidente desse clube e não enquanto cidadão, com a liberdade de opinião que todos temos. Não tardou a vir o “pagamento” do apoio a esse partido, fosse para a construção do estádio, fosse aceitando ações da SAD, que não estava cotada, como dação em pagamento de dívidas fiscais que a atirariam para os escalões secundários.

Não demorou muito até que o presidente seguinte desse mesmo clube – Luís Filipe Vieira – fosse buscar João Gabriel para diretor de comunicação. João Gabriel que vinha também da política, onde foi assessor de Jorge Sampaio. A João Gabriel sucedeu Luís Bernardo, que vinha também da política, onde foi assessor de José Sócrates, e por lá se mantém.

Algumas táticas que estávamos habituados a ver só na política, como as campanhas negativas contra os adversários, o “deixar” as notícias saírem por um órgão de comunicação social escolhido e privilegiado (TVI, Abola) começaram a ser cada vez mais evidentes no desporto.

Mas também é verdade que, ao mesmo tempo que os diretores de comunicação foram ganhando protagonismo, foram retirando da “linha da frente” o presidente Luís Filipe Vieira, até pela falta de competências comunicacionais que esse presidente apresenta.

Curiosamente, ou talvez não, atualmente no Sporting está-se a dar uma benfiquização, pois para além de a comunicação estar a ser dirigida por uma renomada empresa de comunicação, a LPM, habituada a diversas campanhas políticas, também temos um presidente com fracas competências comunicacionais.

A chamada “pescadinha de rabo na boca” vai acontecer, ou seja, quanto mais protegem Frederico Varandas da exposição pública, menos treinado para enfrentar os jornalistas e os Sportinguistas estará, e como não treina, mais os seus assessores de comunicação se sentirão tentados a “protege-lo”.

No entanto, há situações em que Frederico Varandas tem mesmo de falar, faz parte do seu trabalho. Mas, veja-se o quão infelizes foram as suas declarações à saída de uma reunião da Liga. Declarações essas de alguém que fala em #Unir: “Há muitas pessoas que estão habituadas ao Sporting ser um circo, um produto televisivo de chacota, mas esse tempo acabou. Será também uma tristeza para alguns, mas o empréstimo obrigacionista é uma realidade e o refinanciamento será feito em novembro, como prometido.”

Quem são as “muitas pessoas”? Quem ficará numa “tristeza” pelo empréstimo obrigacionista ser feito? Eram para José Maria Ricciardi estas palavras? Eram para os Sportinguistas em geral?

Erro básico da comunicação, palavras vagas, sem destinatário, descontextualizadas do local e do assunto que o levou ali.

Frederico Varandas falou, mas nada disse, continuando calado em relação ao ataque feito pelo rival aos blogs Mister do Café e O Artista do Dia. O New York Times fala do assunto aqui, mas o presidente do Sporting cala-se? Expliquem-me de que forma é que Frederico Varandas estando calado, está a defender os bloggers leoninos, pergunto eu?

Assim, quando Frederico Varandas diz que “defenderei o Sporting. E isso significa, muitas vezes, estar calado”, mais não está a fazer do que esconder um seu ponto fraco, pois estando calado não defende o Sporting, nem os Sportinguistas, em nada.

Em minha opinião, Frederico Varandas ao estar calado, apenas se está a defender a si próprio da opinião pública, e principalmente dos Sportinguistas, e de estes verem o óbvio. No caso de Frederico Varandas, estar calado não é estratégia, mas sim uma necessidade, tal como no rival já viram isso há muitos anos, e é por isso que o Sporting está num processo de benfiquização em curso.

Um abraço de Leão.

Nuno Sousa

Sócio 9.575-0 desde agosto de 1981

At https://www.bancodesuplentes.com/

Artigo de opinião: “Ponte de Sor”

Ricardo RioPonte de Sor é sobretudo a imagem de um Portugal que sonha mais alto e faz acontecer.

Ponte de Sor é uma novel cidade do distrito de Portalegre, a 150 quilómetros de Lisboa, cujo nome se deve à ponte romana que atravessava o Rio Sor desde o ano 115 d. C..

Assim a caracterizou sumariamente o Professor José Hermano Saraiva num dos seus Horizontes da Memória, em que não deixou também de aludir ao facto de esta localidade ser dos maiores centros de produção de cortiça do País, situação que se mantém na actualidade.

Importa este enquadramento sumário porque, para muitos, Ponte de Sor apenas será associada às malfeitorias dos filhos de Embaixadores do Médio Oriente nos seus tempos livres.

Para outros, Ponte de Sor, é a guardiã da história do malfadado processo dos Kamovs da Everjects, onde se encontram parados em instalações seladas pela ANPC para apoio às investigações e diferendos judiciais em curso.

Para outros ainda, a localidade é indissociável dos feitos do Eléctrico Futebol Clube, a colectividade que vem marcando presença em anos recentes na Liga Profissional de Basquetebol e que este ano subiu também a sua equipa de futsal ao escalão máximo da modalidade.

Mas, o que quase todos desconhecerão é que este concelho com quase 17 000 habitantes tem vindo a cumprir uma trajectória consistente de conquista de espaço na interacção com a indústria aeronáutica, quer na captação de empresas multinacionais, quer no apoio a projectos nacionais de elevadíssimo potencial (como é o caso da Tekever), quer até na incubação de empresas inovadoras. Ao mesmo tempo, é hoje um espaço de referência na formação de pilotos, atraindo várias centenas de alunos internacionais todos os anos, em ligação às empresas de referência no sector.

Mas, neste espaço, Ponte de Sor é sobretudo a imagem de um Portugal que sonha mais alto e faz acontecer, longe das luzes da ribalta dos protagonistas de sempre.

Ricardo Rio

Presidente da Câmara Municipal de Braga

At http://www.cmjornal.pt/