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Artigo de opinião: “Olhe que sim, dr. Costa, a tauromaquia é cultura civilizacional”

Luis Capucha 1303434Se o primeiro-ministro crê que a questão das touradas é de civilização, então temos motivos para nos preocuparmos seriamente. Porque ele alinha com as seitas fundamentalistas que promovem a ideia de que não existem diferenças entre homens e animais sencientes não humanos.

O primeiro-ministro António Costa resolveu sair a terreno para defender a sua ministra da Cultura, um quadro da sua entourage (vulgo, uma girl), no caso do ataque à tauromaquia com pretexto da taxa do IVA. Parece esperar o fim da polémica após a sua intervenção numa arrogante resposta a Manuel Alegre. Mas só lançou gasolina para a fogueira.

Já circulam na Net as fotos do António Costa presidente da Câmara de Lisboa, satisfeito da vida a exultar com uma corrida de toiros no Campo Pequeno e a abraçar efusivamente o Cabo do Grupo de Forcados Amadores da Cidade em plena arena.

O que o fez mudar tanto de ideias em tão pouco tempo? O “negócio” com o PAN, que hoje todos aplaudiríamos se fosse destinado a aumentar o Orçamento para os canis e os gatis, mas que infelizmente instrumentaliza o governo para uma “canelada” política na tauromaquia, o que sempre dá mais visibilidade, tão necessária quando se aproximam eleições. Puro oportunismo político, portanto. A taxa do IVA é apenas um pretexto.

Arrogante é um adjectivo suave para classificar a atitude de um primeiro-ministro que julga poder pronunciar-se sobre uma questão que envolve o regime democrático e os valores civilizacionais (nada menos do que isto, é ele mesmo que o assume) no “sossego de uma viagem até Berlim”. É tudo o que tem para dar ao debate sobre a civilização? É deprimente!

O oportunismo político assente num cálculo errado a respeito das simpatias dos portugueses é mascarado, no artigo publicado no PÚBLICO hoje, dia 11 de Novembro, com argumentos alinhavados à pressa por António Costa no avião para Berlim para parecerem uma opinião, padrão de gosto e sensibilidade pessoal, atributos legítimos para exibição pelo cidadão António Costa, mas que não devem em caso algum guiar acção e o discurso de um primeiro-ministro. Tais argumentos rodam em torno de dois erros: em primeiro lugar, a costumeira e banalíssima mistificação da questão animal; em segundo lugar, o não menos comum preconceito no modo de olhar a alteridade e a identidade cultural de milhões de portugueses que gostam de toiros, a incapacidade para tentar perceber a sua perspectiva, e a intolerância face a mundovisões diferentes da sua.

Sobre a questão animal, há um tópico indiscutível: houve uma alteração ao Código Civil que torna os animais sencientes distintos, à face da Lei, das outras coisas. Lei essa que não os equipara aos seres humanos. Não há controvérsia sobre esse novo estatuto e a sua evocação por A. Costa só pode ser lida como poeira para os olhos.

Mas a ideia viciosa de que podemos equiparar os animais não humanos às pessoas emerge por todo o lado no artigo. É pura mistificação e, na essência, um apelo populista às pessoas que confundem a luta contra as touradas com a luta pela defesa do bem-estar animal. A luta pelo bem-estar animal é uma responsabilidade das pessoas de bem. A luta contra as touradas é uma luta contra a liberdade e a democracia cultural. É essa mistificação que o leva a evocar a pornografia como exemplo da diversidade dos espectáculos culturais e, logo, do modo como o Estado os deve tratar. O tratamento penalizador das touradas seria, pois, do mesmo tipo do combate à pornografia. Se isto não é um insulto reles, o que é? Mas a coisa é pior. A razão da discriminação das touradas é o modo como são tratados os animais que nela intervêm. E no caso da pornografia? Está a comparar as pessoas que são exploradas nas indústrias do sexo, a animais?

Se o primeiro-ministro crê que a questão das touradas é de civilização, então temos motivos para nos preocuparmos seriamente. Porque ele alinha com as seitas fundamentalistas que promovem a ideia de que não existem diferenças entre homens e animais sencientes não humanos.

Só há duas maneiras de promover a igualdade entre homens e animais: ou promovendo os animais à condição humana, o que tem acontecido no plano simbólico (desde La Fontaine às indústrias Disney), ou fazendo descer os homens à condição animal. O problema com a primeira via é que há pessoas que confundem as metáforas com a realidade, caindo na situação perversa de humanizar os animais, isto é, violentar a sua natureza, que não conhecem nem compreendem. O problema com a segunda é que representaria o fim de qualquer civilização, situação que a história já conheceu. Não me canso de lembrar que as primeiras leis de protecção dos animais foram produzidas pelo governo nazi, o mesmo que é responsável por uma das (se não a) mais violenta e trágica descida da humanidade a um estado de selvajaria.

Além disso, o texto do senhor primeiro-ministro é demagógico. É falso afirmar, no contexto português e face às controvérsias em curso no nosso país, que uma opção civilizacional não implica desqualificar os oponentes. Que oponentes? Os aficionados são oponentes da nossa civilização? É chocante essa afirmação na boca de uma girl do Primeiro, mas soa a obscenidade na boca dele próprio. E sim, Manuel Alegre tem razão: todos os populismos começam com a criação de uma clivagem entre um “nós”, os bons, e um “eles”, os maus, os perversos, os menosprezáveis, os inimigos. Contra os quais a sociedade deve ser avisada pelo Estado, como o é sobre o consumo de sal ou açúcar. Ridículo! Já viu bem onde se está a meter, António Costa?

O segundo vetor consiste na forma ultrajante, grosseira e agressiva como classifica, explícita ou implicitamente, os aficionados à Festa de Toiros. Diz A. Costa que é preciso “… respeitar as pessoas que, como eu, rejeitam a tourada como manifestação de uma cultura violenta ou de desfrute do sofrimento animal”. É o que sempre fizeram os aficionados. Mas, não estará a confundir “cultura violenta” com cultura de controlo da violência? Não são as touradas institucionais de hoje o resultado do “processo civilizacional” da relação milenar entre homens e toiros? Tem algum sinal, a mínima evidência, que lhe permita sustentar a ideia de que as comunidades taurinas são mais violentas do que aquelas com que convive nas mesmas sociedades? Já alguma vez procurou ouvir e respeitar o que dizem os aficionados sobre o modo como vivem o ritual da Corrida de Toiros e o que sentem perante a arte praticada enfrentando esse animal excepcional que é o Toiro de Lide? O que o anima na sua saga antitaurina é, senhor primeiro-ministro, o puro preconceito.

António Costa rejeita a tourada e acha chocante a sua transmissão televisiva (embora não pense proibi-la, para já). Mas não ficaria preocupado se ela se confinasse aos municípios que decidissem mantê-la. Há uma dupla hipocrisia na ideia. Por um lado, acha que os toiros podem ter tratamento diferenciado consoante os municípios. Por outro lado, porque já sabe que os municípios com actividades taurinas, a maioria deles de gestão socialista ou comunista, conseguiram impedir a descentralização nesse domínio. Mas seja consequente. Proponha-lhes a “municipalização” da regulação dos espectáculos tauromáquicos, mas com total liberdade, isto é, após a anulação da lei que proíbe as corridas integrais (isto é, com toiros de morte), as que respeitam verdadeiramente o toiro e a verdade que a tauromaquia encerra. Tem coragem para isso, ou teme que a Festa ganhe no nosso país a pujança que tem em França?

Em conclusão, senhor primeiro-ministro, não resolveu o problema da sua girl, apenas se colocou a si próprio em equação. A questão que agora se colocam todos os aficionados, de direita, de centro e de esquerda, é se uma pessoa que pensa como o sr. servirá mesmo para primeiro-ministro dos portugueses? Não ficaria a aliança das esquerdas melhor servida com um primeiro-ministro que fizesse o que diz (ser avesso a grandes mutações civilizacionais) e se mostrasse menos dado a compromissos com partidos veganos que contestam todas as bases da nossa civilização?

Luís Capucha

Sociólogo, docente no ISCTE-IUL e Investigador no CIES-IUL; presidente da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal

At https://www.publico.pt/

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Artigo de opinião: “Crónica do processo de benfiquização em curso”

Frederico-Varandas-1

“O que garanto é que defenderei o Sporting. E isso significa, muitas vezes, estar calado” Varandas, Frederico – 13-10-2018

A política sempre tentou colar-se ao desporto e em particular ao futebol, mas a verdade é que era um fenómeno mais de autarcas de pequenas localidades, que tentavam tirar dividendos políticos nas suas terras. Isto foi assim até ao dia em que nas legislativas de 2002 um presidente de um clube – Manuel Vilarinho –  apelou ao voto num partido (PSD), enquanto presidente desse clube e não enquanto cidadão, com a liberdade de opinião que todos temos. Não tardou a vir o “pagamento” do apoio a esse partido, fosse para a construção do estádio, fosse aceitando ações da SAD, que não estava cotada, como dação em pagamento de dívidas fiscais que a atirariam para os escalões secundários.

Não demorou muito até que o presidente seguinte desse mesmo clube – Luís Filipe Vieira – fosse buscar João Gabriel para diretor de comunicação. João Gabriel que vinha também da política, onde foi assessor de Jorge Sampaio. A João Gabriel sucedeu Luís Bernardo, que vinha também da política, onde foi assessor de José Sócrates, e por lá se mantém.

Algumas táticas que estávamos habituados a ver só na política, como as campanhas negativas contra os adversários, o “deixar” as notícias saírem por um órgão de comunicação social escolhido e privilegiado (TVI, Abola) começaram a ser cada vez mais evidentes no desporto.

Mas também é verdade que, ao mesmo tempo que os diretores de comunicação foram ganhando protagonismo, foram retirando da “linha da frente” o presidente Luís Filipe Vieira, até pela falta de competências comunicacionais que esse presidente apresenta.

Curiosamente, ou talvez não, atualmente no Sporting está-se a dar uma benfiquização, pois para além de a comunicação estar a ser dirigida por uma renomada empresa de comunicação, a LPM, habituada a diversas campanhas políticas, também temos um presidente com fracas competências comunicacionais.

A chamada “pescadinha de rabo na boca” vai acontecer, ou seja, quanto mais protegem Frederico Varandas da exposição pública, menos treinado para enfrentar os jornalistas e os Sportinguistas estará, e como não treina, mais os seus assessores de comunicação se sentirão tentados a “protege-lo”.

No entanto, há situações em que Frederico Varandas tem mesmo de falar, faz parte do seu trabalho. Mas, veja-se o quão infelizes foram as suas declarações à saída de uma reunião da Liga. Declarações essas de alguém que fala em #Unir: “Há muitas pessoas que estão habituadas ao Sporting ser um circo, um produto televisivo de chacota, mas esse tempo acabou. Será também uma tristeza para alguns, mas o empréstimo obrigacionista é uma realidade e o refinanciamento será feito em novembro, como prometido.”

Quem são as “muitas pessoas”? Quem ficará numa “tristeza” pelo empréstimo obrigacionista ser feito? Eram para José Maria Ricciardi estas palavras? Eram para os Sportinguistas em geral?

Erro básico da comunicação, palavras vagas, sem destinatário, descontextualizadas do local e do assunto que o levou ali.

Frederico Varandas falou, mas nada disse, continuando calado em relação ao ataque feito pelo rival aos blogs Mister do Café e O Artista do Dia. O New York Times fala do assunto aqui, mas o presidente do Sporting cala-se? Expliquem-me de que forma é que Frederico Varandas estando calado, está a defender os bloggers leoninos, pergunto eu?

Assim, quando Frederico Varandas diz que “defenderei o Sporting. E isso significa, muitas vezes, estar calado”, mais não está a fazer do que esconder um seu ponto fraco, pois estando calado não defende o Sporting, nem os Sportinguistas, em nada.

Em minha opinião, Frederico Varandas ao estar calado, apenas se está a defender a si próprio da opinião pública, e principalmente dos Sportinguistas, e de estes verem o óbvio. No caso de Frederico Varandas, estar calado não é estratégia, mas sim uma necessidade, tal como no rival já viram isso há muitos anos, e é por isso que o Sporting está num processo de benfiquização em curso.

Um abraço de Leão.

Nuno Sousa

Sócio 9.575-0 desde agosto de 1981

At https://www.bancodesuplentes.com/

Artigo de opinião: “Ponte de Sor”

Ricardo RioPonte de Sor é sobretudo a imagem de um Portugal que sonha mais alto e faz acontecer.

Ponte de Sor é uma novel cidade do distrito de Portalegre, a 150 quilómetros de Lisboa, cujo nome se deve à ponte romana que atravessava o Rio Sor desde o ano 115 d. C..

Assim a caracterizou sumariamente o Professor José Hermano Saraiva num dos seus Horizontes da Memória, em que não deixou também de aludir ao facto de esta localidade ser dos maiores centros de produção de cortiça do País, situação que se mantém na actualidade.

Importa este enquadramento sumário porque, para muitos, Ponte de Sor apenas será associada às malfeitorias dos filhos de Embaixadores do Médio Oriente nos seus tempos livres.

Para outros, Ponte de Sor, é a guardiã da história do malfadado processo dos Kamovs da Everjects, onde se encontram parados em instalações seladas pela ANPC para apoio às investigações e diferendos judiciais em curso.

Para outros ainda, a localidade é indissociável dos feitos do Eléctrico Futebol Clube, a colectividade que vem marcando presença em anos recentes na Liga Profissional de Basquetebol e que este ano subiu também a sua equipa de futsal ao escalão máximo da modalidade.

Mas, o que quase todos desconhecerão é que este concelho com quase 17 000 habitantes tem vindo a cumprir uma trajectória consistente de conquista de espaço na interacção com a indústria aeronáutica, quer na captação de empresas multinacionais, quer no apoio a projectos nacionais de elevadíssimo potencial (como é o caso da Tekever), quer até na incubação de empresas inovadoras. Ao mesmo tempo, é hoje um espaço de referência na formação de pilotos, atraindo várias centenas de alunos internacionais todos os anos, em ligação às empresas de referência no sector.

Mas, neste espaço, Ponte de Sor é sobretudo a imagem de um Portugal que sonha mais alto e faz acontecer, longe das luzes da ribalta dos protagonistas de sempre.

Ricardo Rio

Presidente da Câmara Municipal de Braga

At http://www.cmjornal.pt/

Artigo de opinião: “Pare de chamar os outros de fascistas. Você nem sabe o que essa palavra quer dizer.”

mussolini

Fascismo é provavelmente um dos conceitos mais repetidos e pouco compreendidos da história dos dicionários políticos. Veja você mesmo. Quantas vezes você ouviu essa expressão nos últimos meses? Eu poderia apostar que não seria possível listar nos dedos de uma mão. E isso para não falar da possibilidade que você mesmo tenha sido acusado disso. Eu vivo lendo isso por aqui. Quando não como crítica aos textos que escrevo, como resposta aos comentários dos próprios leitores. Todos devidamente catalogados como fascistas. A questão é: alguém saberia realmente explicar o que exatamente é o fascismo? Ou será que todo mundo repete essa palavra sem ter a mais remota noção do que ela significa?

De fato, parece inegável que o termo alcançou o século atual servindo para basicamente qualquer coisa.

Fulano é fascista porque sai para protestar contra o governo com uma camiseta com as cores do país. Beltrano joga no mesmo time dele porque torce o nariz para as ideias de esquerda. Sicrano também segue esse negócio porque vota num cara que eu não curto.

Esse é o grande problema aqui: pouca gente sabe exatamente o que diz quando usa essa expressão. Fascismo é dos termos mais imprecisos popularizados na política. Segundo o Dictionnaire historique des fascismes et du nazisme “não existe nenhuma definição universalmente aceita do fenômeno fascista, nenhum consenso, por menor que seja, quando à sua abrangência, às suas origens ideológicas ou às modalidades de ação que o caracterizam”. Stanley G. Payne, um dos mais reconhecidos historiadores do fascismo no mundo, foi outro a atestar esse fenômeno. Ele diz que o “fascismo permanece sendo, provavelmente, o mais vago dos termos políticos mais importantes”. E não conta nenhuma novidade. Já em 1946, George Orwell condenava o fascismo a uma palavra “quase inteiramente sem sentido” e que “qualquer inglês aceitaria ‘valentão’ como sinônimo” dela.

Por certo, fascismo acabou se tornando uma espécie de insulto político a qualquer figura opositora aos ideais de esquerda. Assim, de forma vaga, da maneira mais banal possível. Você pode perfeitamente virar um fascista apenas por não corroborar os discursos de um político de um determinado partido mais progressista, daquele coletivo revolucionário da sua universidade ou de algumas das pautas mais caras a essa turma toda. Pra muita gente, ou você abraça toda estética, e os jargões, e a luta de um grupo ideológico muito particular, ou você está condenado a desempenhar para sempre o papel de fascista.

A questão é que isso tudo evidentemente não faz o menor sentido. E ainda assim a ideia é facilmente disseminada. Basta reparar nas manchetes. Nos noticiários ela não cansa de marcar presença. Sergio Moro, por exemplo, é um clássico fascista. E não apenas ele, a Lava Jato é irredutivelmente um braço do fascismoJosé SerraFascistaAlckmin também. Cássio Cunha Lima idem. Aécio Neves? Fortaleceu a “direita fascista”. O MBL também. Todos fascistas. Mil vezes fascistas.

Ainda que vago, no entanto, mesmo sem um aparato ideológico abrangente ou pensadores influentes, há alguns elementos escancarados a respeito da natureza do fascismo. Todos, e isso faz total sentido, ignorados por aqueles que mais utilizam essa expressão. Abaixo, 4 coisas que você precisa saber antes de sair por aí acusando os outros usando esse nome em vão.

#1. É antiliberal

Grave bem. Essa é a primeira coisa que você precisa saber antes de sair por aí acusando alguém usando essa expressão: o maior inimigo do fascismo é o liberalismo. Essa era a opinião de Mussolini, o grande líder totalitário italiano.

“O fascismo é definitivamente e absolutamente oposto às doutrinas do liberalismo, tanto na esfera econômica quanto na política.”

Para ele, o liberalismo era uma espécie de “religião desconhecida” que precisava ser combatida. Mussolini era desses que acreditava que o século dezenove havia sido o grande reinado do liberalismo no mundo e que o século vinte seria o “século de fascismo”. Não por acaso, ele resumiu toda doutrina fascista numa regra muito clara, que virou quase um bordão de tão precisa:

Para ele, o liberalismo era uma espécie de “religião desconhecida” que precisava ser combatida. Mussolini era desses que acreditava que o século dezenove havia sido o grande reinado do liberalismo no mundo e que o século vinte seria o “século de fascismo”. Não por acaso, ele resumiu toda doutrina fascista numa regra muito clara, que virou quase um bordão de tão precisa:

“Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado.”

Reparou? Essa é a essência do tal Estado totalitário: é tudo nele e nada fora dele. Ou seja, o fascismo é a ideia que todas as ações humanas devem satisfações a uma organização central. O Estado deve dirigir uma economia corporativista, controlando cada movimento do mercado, ao mesmo tempo em que impõe claros limites às liberdades individuais. Em resumo, esse é o exato oposto do que defendeu toda literatura liberal ao longo dos últimos trezentos anos. Isso também é muito próximo daquilo que os socialistas instituíram em diferentes regimes ao redor do mundo no último século.

Moeller van den Bruck, o ideólogo nazista que serviu como forte influência para o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, captou o sentimento da juventude alemã antes da ascensão de Hitler. Era genuinamente antiliberal.

“O liberalismo é uma filosofia de vida à qual a juventude alemã volta hoje as costas com nojo, cólera e um desprezo especial, pois não há nada mais exótico, mais repugnante e mais contrário à sua filosofia. A juventude alemã dos nossos dias reconhece no liberalismo o arqui-inimigo.”

Para ele, a ascensão do fascismo nos mais diversos cantos da Europa era facilmente explicada:

“Todas as forças antiliberais estão se unindo contra tudo que é liberal.”

No artigo “A redescoberta do liberalismo”, o alemão Eduard Heimann, um dos líderes do socialismo religioso alemão, era outro a destacar o ódio dos fascistas pelos liberais:

“Hitler jamais pretendeu representar o verdadeiro liberalismo. O liberalismo tem a honra de ser a doutrina mais odiada por Hitler.”

Passado tanto tempo, é exatamente por isso que soa tão estúpido quando liberais são acusados de fascistas. Na verdade é o contrário. O fascismo é uma espécie de religião do Estado. É a crença que o Estado deve assumir totalmente a responsabilidade por cada aspecto da vida humana em detrimento do individualismo. O Estado deve gerir o nosso bem-estar e cuidar da nossa saúde. E não apenas isso. Deve também impor uma uniformidade de pensamento – leia-se: instaurar uma ditadura do pensamento único, onde as expressões não são livres, construídas a partir da boa vontade de uma liderança política.

Na prática, a construção de uma sociedade fascista é inteiramente calcada pelo antiliberalismo.

#2. É trabalhista

Poucos regimes foram tão revolucionários na defesa dos direitos trabalhistas quanto o fascismo. Não por acaso, a nossa própria legislação na área, criada no auge do Estado Novo, por Getúlio Vargas, tem como base um documento italiano do final da década de vinte, a Carta del Lavoro, onde o Partido Nacional Fascista definiu os fundamentos das relações de trabalho. Até hoje, aliás, todas essas determinações não apenas permanecem organizando a vida econômica do país em corporações, com sindicatos patronais e trabalhadores tutelados pelo Estado, como são defendidas em grande parte por militantes de esquerda.

E a CLT não foi o único documento a seguir esse princípio. A própria Constituição Federal de 1937 tem no artigo 138 uma tradução idêntica à declaração III da Carta del Lavoro. E o que ela prevê? A unicidade sindical sob tutela do Estado, as contribuições compulsórias e os contratos coletivos de trabalho, mecanismos que de forma intacta sobreviveram à Constituição de 1988.

Foi dessa maneira que o fascismo mudou a cara do trabalhismo no último século – abraçando o sindicalismo revolucionário e dando ao Estado o papel de tutor das relações laborais, fiscalizando patrões, empregados e determinado cada aspecto da vida do trabalho. Quer dizer, nunca houve no fascismo italiano o interesse em abolir completamente a propriedade privada, como definia a utopia soviética. Os fascistas ousavam dominá-la através de corporações intimamente ligadas ao Estado. Em 1935, os sindicatos fascistas tinham mais de 4 milhões de filiados. Nada parecido havia sido testemunhado proporcionalmente em nenhum outro canto do mundo até então. A Itália era um grande feudo sindicalista.

Do outro lado do Atlântico, essa é a base do trabalhismo tupiniquim: uma cópia escrachada do fascismo italiano. Não apenas no que diz respeito à perpetuação de uma cultura sindical (e nunca é demais lembrar que há mais de 15 mil sindicatos no Brasil), como no fato dessas corporações serem tão próximas ao Estado (de abril de 2008 a abril de 2015, o governo federal repassou mais de R$ 1 bilhão para as centrais sindicais).

Boa parte dos nossos sindicalistas, não obstante, com o dedo em riste acusam seus opositores de fascistas. Nada mais contraditório.

#3. É populista

Há algo inegável a respeito das ideologias: fascistas e populistas de esquerda nasceram como uma espécie de irmãos Karamazov dos dicionários políticos. E não sem motivo.

Em geral, tanto o primeiro grupo quanto o segundo construiu suas plataformas ideológicas no último século a partir do aumento do gasto público, da criação de políticas econômicas equivocadas justificadas para atender as massas, da propagação da ideia que o livre mercado é um mal a ser combatido, da figura centrada num grande líder carismático, do uso das estruturas do Estado para a construção da propaganda oficial, do combate à globalização como proteção à economia nacional, da crença no partido como um instrumento inquestionável de criação de prosperidade e justiça social, da luta contra um inimigo em comum (os norte americanos, o comércio internacional, os judeus), da construção de um discurso que una o grande líder ao “povo” e condene todas as figuras contrárias ao partido como “antipovo”, da perseguição à propriedade privada, da manipulação dos números oficiais, da descrença em escândalos de corrupção do governo.

Isso tudo está em Getúlio, Hitler ou Mussolini. Mas também está em Chávez, Perón e Fidel.

Há evidentes diferenças entre fascistas e populistas de esquerda, certamente. Ainda assim, não é um equívoco apostar que há mais coisas que os aproxima do que os afasta.

#4. É autoritário

Sabe aquela imagem estereotipada do grande líder totalitário concentrando todo poder possível nas mãos para dar cabo ao seu plano psicopata de destruir completamente o mundo? Sinto dizer, mas longe dos desenhos animados e dos pastelões de Hollywood, ela é falsa. Em geral, a mesma noção altruísta que teoricamente move políticos dos mais diversos credos ideológicos também inspira diferentes líderes totalitários: todas as suas ações políticas são justificadas a partir de uma hipotética luta pela transformação do mundo vigente, do combate às mazelas históricas, da crença que as suas ideias são naturalmente superiores e benéficas ao maior número de pessoas.

E é justamente graças a esse entendimento que seu plano político é infalível na construção de uma sociedade mais justa e estável, e que seus opositores representam uma ameaça ao bem estar geral da população, que líderes totalitários e seus simpatizantes usualmente criam algumas das ditaduras mais perversas que a humanidade já testemunhou – dentre as quais uma muito peculiar, ainda tão em voga nos dias atuais: a do pensamento único.

Via de regra, todos aqueles que buscam construir o paraíso na terra concentrando poder, acabam produzindo catástrofes infernais.

E se tirania atinge seu ápice na instauração da nova identidade política, com muita repressão policial, ela alcança forte poderio também no campo das ideias. Acreditando defender um mundo moralmente superior, fascistas – assim como seus irmãos bastardos, os populistas de esquerda – condenam aquilo que entendem como pensamento dominante (essencialmente capitalista e individualista) para dar lugar a um novo reino da opinião e das condutas pessoais, construídas sobre o mito da juventude como artífice da história, da total dedicação à comunidade, da camaradagem e do espírito guerreiro e revolucionário. Em geral, fascistas e populistas de esquerda não apenas censuram todos aqueles que destoam de suas crenças, tratados literalmente como politicamente incorretos, como ameaçam fisicamente e moralmente seus opositores.

Dessa forma, a liberdade de expressão vira um mero conceito pequeno burguês: a própria palavra é um instrumento do coletivo, da maioria, do “povo”, e deve ser silenciada quando utilizada pelos não alinhados ao pensamento único. Não apenas os veículos de informação que denunciam descasos do partido são condenados ao descrédito – quando não à censura – como pensadores de oposição acabam tratados como arqui-inimigos dos trabalhadores e do bem comum. Sem escapatória, ou você repete o discurso coletivo, ou você morre abraçado ao riso da estupidez.

Assim, a essa altura do texto, é muito provável que muitos daqueles que você está acostumado a ver acusando os outros de fascistas, com expressões autoritárias, dedos em riste e soluções inquestionáveis para todos os problemas do mundo, quase sempre são eles mesmos os mais fervorosos praticantes do fascismo – um fascismo velado, cínico e demagogo, mas não menos autoritário. Escondidos sob o véu desse autoritarismo do bem, pretensiosamente inclusivo e justiceiro, os fascistas envergonhados dos dias atuais, como os do passado, são quase sempre os primeiros a acusar os outros daquilo que eles mesmos fazem, e justificam seus protestos, suas greves, seus boicotes e suas vaias, com toda uma insolência muito peculiar, à incendiária construção de um novo mundo, mais justo.

Isto posto, não nos resta dúvida que o fascismo atravessou o século e deixou de ser uma marca restrita aos líderes totalitários. Por isso, esqueça Hitler, Vargas ou Mussolini. Olhe ao seu redor. O fascismo é um instrumento da modernidade que concentra sua luta na construção de um mundo melhor através de ações estatais muito específicas e irredutíveis que moldam as particularidades humanas sob a égide do politicamente correto e do pensamento único.

Lembre-se disso na próxima vez que sair por aí acusando os outros usando esse nome. Você pode ser o fascista da vez. Você só não sabe disso ainda.

Rodrigo da Silva

At https://spotniks.com/

Opinião: “S. L. Benfica e as culpas”

Tiago 22140764_1445678002135536_7370517214857360244_nApós a breve leitura das capas de alguns jornais que tenho a coragem de NÃO comprar, acho que deviam ser todos presos. Os APITOS, OS CASHBALLS, AS TOUPEIRAS, OS MARQUESES, OS SALGADOS e todos os OUTROS grandes larápios da sociedade.

Mas como isto é um sítio sem rei nem roque e os jornaleiros do nosso cantinho á beira mar plantado não valem a ponta de um chavo, isto não passa de “estórias”. Quanto ao meu SLBENFICA aceitava já as culpas de tudo, pedia os 3 anos de suspensão de todas as competições e aguardava serenamente o tempo passar. Após o término da dita coisa já havia gente na miséria, outros EXTINTOS, outros com fome, a liga provavelmente já teria acabado e a federação com a consequentemente descida no ranking da FIFA (máfia) e da U€FA deixava de ser poleiro para os oliveiras,os pintos, os Sousas e as put@s que os deitaram ao mundo. 

Depois com calma começava tudo do início, com toda a certeza nessa altura reparavam quem realmente sustenta o futebol nacional, as agremiações de pequena e média dimensão, bem como a forma como o bem estar social se define no dia a dia(somos mais de 60% da população residente). Dito isto e sem menosprezar os mais pequenos que nós ( ou seja todo o resto) vão todos encher-se de moscas, porque quando houver alguém com eles no sitio a brincadeira acaba. Slbenfica tens tudo só não tens comparação… Maior que nós nem a vossa inveja… O Maior de Portugal desde 1904.

Tiago Neto

At https://www.facebook.com/

Inscrições para a 32.ª Baja Portalegre estão abertas

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Como é tradicional, cerca de dois meses antes da mais importante prova de Todo-o-Terreno de Portugal, o Automóvel Club de Portugal abre as inscrições e publica o Regulamento Particular da Baja Portalegre 500, que se disputa de 25 a 27 de outubro.

Os interessados em participar têm agora até 1 de outubro para se inscreverem a preço reduzido, com o encerramento definitivo das inscrições a ter lugar no dia 12 de outubro.

Pontuável para a Taça do Mundo de Ralis de Todo-o-Terreno da FIA e Campeonato de Portugal de TT, bem como para os Campeonatos Nacionais de Todo-o-Terreno Motos, Quads e SSV, a prova do ACP marca o final destas competições com os seus quase 600 km, dos quais 456,56 serão disputados contra o cronómetro, no que respeita aos Carros, e 423 no que respeita a Motos, Quads e SSV.

Tradição estabelecida nos últimos anos, a prova rainha dos campeonatos de TT nacionais volta a contar com a cerimónia de partida nos Jardins do Tarro, no centro de Portalegre ao final de tarde, início da noite de quinta-feira.

Baja logo

Na sexta-feira, 26 de outubro, os Carros começam com os 5 km competitivos da Super Especial, logo a partir das 10h30, ao que se juntam os 98 km cronometrados da SS2 com a partida em Avis pelas 15h20. Entre as duas classificativas haverá lugar a um Reagrupamento em Ponte de Sor, onde os dez primeiros pilotos do Prólogo procederão à escolha das posições de partida. No sábado, mais dois setores seletivos, um de manhã e outro de tarde, com 160 e 195 km de extensão, respetivamente.

No que toca às Motos, Quads e SSV, a sexta-feira também será composta por duas tiradas cronometradas. A primeira, logo pela manhã, contará com 5 km de distância, enquanto a SS2 terá, como acontece nos Carros, 98 km. Já no sábado os participantes terão pela frente um único setor seletivo a percorrer em linha ao longo de 320 km.

Tudo isto num percurso que apresentará várias novidades que vão desde o regresso a caminhos há muito não percorridos, a outros completamente novos num traçado que passará pelos municípios de Abrantes, Alter do Chão, Avis, Chamusca, Coruche, Crato, Fronteira, Gavião, Monforte, Nisa, Ponte de Sor, Sousel e Portalegre.

Tal como em outros anos, a prova contará também com a Mini Baja, competição reservada a jovens motards com idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos.

O centro nevrálgico da prova será nas instalações da NERPOR, onde se localiza a Assistência, Parque Fechado, Secretariado e Gabinete de Imprensa e onde terão lugar também as cerimónias de pódio e entrega de prémios no sábado.

As Inscrições devem ser feitas online em: http://provasdesportivas.acp.pt/

Os Regulamentos podem ser consultados na secção Documentos Oficiais, em Concorrentes, ou diretamente através dos links que se seguem:

Carros

Motos, Quads, SSV

Mini Baja

Os interessados em participar devem também consultar a Info 1.

At http://www.bajaportalegre500.com/

Opinião: “A Tourada de Marilyn Monroe”

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Sempre gostei de touradas, sou um aficionado, no que estou muito bem acompanhado por bons amigos, como o Elisio ou o João e muitos outros. O encontro do homem com o touro bravo (não confundir com bois…) no redondel da praça é hoje a encenação simbólica da milenar luta pelo controlo da clareira da floresta entre os dois únicos bichos que disputavam esse controlo. É o espectáculo simbólico de um confronto de milénios entre a inteligência e a força bruta. Este confronto, aliás, produziu e modelou muito do que é a substância do conceito de estratégia “em português”, num afrontamento do fraco ao forte em que o fraco ou ganha ou morre… E não morreu! Mas isto são especulações conceptuais para desenvolver num outro quadro. Neste post, o que está em causa é a beleza (não a força e a sabedoria…) da “tourada” na versão da Marilyn Monroe. Aprecie-se, então, a arte de Marilyn…

At Facebook / José Mateus