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Opinião: “Berardo e o Estado”

raquel-varela_1_corAinda sobre Berardo e o Estado cumpre-me contar três histórias que conheço de quem paga estas contas. Além, claro, dos contribuintes como nós que pagamos serviços públicos que não funcionam.

A L. foi dar aulas para o Oriente, filha de pais humildes, ficaram desempregados para cortar custos depois de 2008, cortes que foram para pagar a Banca. De lá manda dinheiro para os pais. Ficámos com menos um quadro no país.

O M. da Madeira, estivador, perdeu a casa porque para lutar contra os salários baixos sindicalizou-se no SEAL- Sindicato dos Estivadores, e como retaliação foram-lhe retiradas horas extraordinárias.

E a Lídia O. que deu a cara publicamente contra a falência da Moviflor, também perdeu a casa, o emprego. Não perdeu a dignidade e ajudou a fundar uma Associação, A Casa, de defesa dos direitos dos trabalhadores.

O que é importante aqui -, além de dar voz aos exemplos de dignidade humana por oposição ao lixo moral que representa o sector financeiro -, é que não foi Berardo que desenhou o sistema legal que permitiu isto – foi o Estado. E o Estado não somos todos nós. Não nos escondamos no senso comum, que repete que o poder económico domina os Estados. Não é verdade. O poder político tem sempre a última palavra. E deu-a a Berardo. Que conservou a sua casa, a sua Associação, a sua colecção, a sua quinta, impune. Em 11 anos desde a crise nunca ninguém entrou com uma bateria de polícias e inspectores na sua casa. Mas o mesmo Estado levou uma semana a entrar na Ordem dos Enfermeiros e vasculhar as contas – abrindo um precedente gravíssimo para todos os sindicatos e ordens, com o claro propósito de amedrontar quem ousa lutar por si e pelos serviços públicos.

Raquel Varela

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Opinião: “O 25 de Abril em Nisa”

Eduardo PiresDiscretamente, aproveitando estes dias de páscoa e feriado, estive por lá.

Não gostei de ver a exibição da frota à moda dos comunistas da velha CDU, em frente à biblioteca. Não gostei de ver o desfile de vaidades com máscara de vermelho no vestido, unhas e adereços a lembrar que o diabo veste Prada. Não gostei de ver uma mudança de percurso para se passar ao lado da super hiper mega canalização trazida das termas (vulgo Fonte da Chanfrada). Não gostei de ver os rostos carregados das principais figuras e seus guarda-costas, sempre à espera de ouvir gritar que podia estar uma bomba em qualquer esquina. Não gostei de ver uma péssima organização que só se preveniu para chuva ao pé do cravo e não soube pensar num plano B para as comemorações (apesar da previsão da meteorologia). Não gostei de ver que as associações foram mal tratadas (nenhum apreço no discurso oficial da edilidade para com os ensopados). Não gostei de ouvir a tristeza de discurso atabalhoado do senhor da assembleia municipal que com a sua “informalidade” nada diz. Não gostei da pobreza de discurso da presidente que diz que agora sim, mas esquece-se que antes dela havia vida e progresso. Hoje vive-se melhor que há 20 anos, e há 20 anos vivia-se melhor que há 40. Esquece-se agora a presidente dos NÃOS e dos NUNCAS que saem da sua boca e impedem o progresso do concelho, envaidece-se com investimento dos privados (mas apresenta só os “amigos”) mas não é capaz de fazer a ponta de um corno. Não gostei do discurso soft soft soft e apagado da jovem do PS que se enrolou num cravo fofinho e na palavra liberdade que em Nisa não significa nada nem tem a ver com o que tem sido a atuação do PS de Nisa.

Gostei dos enganos do apresentador pois o que aconteceu na cerimónia não está errado, foi diferente. Em boa hora deu destaque à intervenção da jovem do PSD que teve mesmo destaque sem mirones na mesa nobre a espetarem-se-lhe nas costas mas com a possibilidade de olhos nos olhos dizer o que disse, e muito bem, à presidente. Não me lembro do nome da jovem mas gostei da juventude dela, da calma e determinação com que falou. Gostei que a representante da CDU falasse como falou apesar de os desgraçados não serem vistos nem achados mas fazem mais do que podem num concelho onde a CDU nunca tinha sido realmente oposição.

Balanço geral: mau, muito mau, “mal vai à raposa quando ela anda aos grilos” e por aqui, minha senhora raposa, até os grilos já fugiram. A raposa de focinho aguçado anda a ver se se espanta para outros paragens. Pena … a segurança social bem lhe podia ter dado amparo mas nem para isso lá a querem. A malta que se aguente aí por Nisa. Volto à minha rotina, longe daí, mas decidi que irei acompanhando e comentando. Vejam se se organizam para 2021. A malta não merece isso. Saúde!

Eduardo Pires

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Opinião: “Aumento da idade da reforma”

Sobre a proposta de aumento da idade da reforma para os 69 anos pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (Grupo Jerónimo Martins), deixo aqui o meu comentário curto:

Não existe ciência neutra, existe ciência séria. O estudo pode estar bem ou mal realizado, mas não passa a estar mal feito porque é financiado por um grupo de supermercados.

Discordo totalmente do estudo não por as contas serem enviesadas (não conheço, nem tenho razões para achar que o foram, pelo contrário) mas porque os pressupostos metodológicos do estudo, que são públicos e conhecidos, são diametralmente opostos aos meus e de vários colegas com quem trabalho na área da sustentabilidade da segurança social:

1) o estudo parte pressuposto de que não podemos aumentar os salários. Isto é, com salários de 600 euros e esta demografia a segurança social é insustentável. Eu, o Eugénio Rosa, o Pedro Nogueira Ramos e muitos outros que fizemos estudos sobre a segurança social partimos de outros pressupostos – não há um problema demográfico, nem económico. Quem reformou-se com 2 mil euros está a ser pago por quem ganha 600 euros – é isto que torna a segurança social insustentável. Isto não é um problema demográfico, nem económico, é um problema de relações laborais. Grave.

2) A esperança média de vida aumentou até aqui porque havia condições favoráveis sociais e económicas. Essas estão em decadência, é muito provável que daqui a uma década de maus salários, ma alimentação e ma saúde a EMV vá cair. Estamos ainda a celebra a revolução dos cravos e os seus efeitos, só daqui a 2 décadas vamos ver os efeitos na esperança média de vida do neoliberalismo.

3) Mesmo não contabilizando este facto a esperança média de vida é muito diferente entre quem trabalha – quem trabalha por turnos por exemplo tem menos esperança média de vida, os homens têm menos do que as mulheres, etc, pelo que fazer médias para calcular a reforma é errado. Nem todos vivemos o mesmo.

4) A esperança média de vida com saúde em Portugal é 13 anos abaixo da EMV. Ou seja os portugueses quando se reformam, e mesmo antes, estão já doentes. Aliás o que este estudo vem dizer – e essa é a conclusão – é que nenhum português vai trabalhara até aos 69 anos, mas vão entrar de baixa médica e reforma antecipada – a metade do valor – muito antes dos 69 deixando de ser um «custo» para a empresa.

5) A produtividade por trabalhador é hoje 5 vezes superior ao que era quando foram criados os sistemas de segurança social há 40 anos. Ou seja, pode haver menos 5 pessoas a trabalhar (mais 5 pessoas a ir para a reforma) por cada um que trabalha quando comparado com há 40 anos. Deve-se portanto usar essa produtividade para – no mínimo – reduzir os lucros das empresas, reduzir o horário de trabalho, diminuir a idade da reforma para os 60 ou menos.

A minha conclusão é a seguinte. A Fundação FMS (financiada pelos supermercados Pingo Doce) é um espelho da burguesia ou elites, como prefiram, deste país. Perante a escassez de força de trabalho que vai previsivelmente aumentar os salários propõem que a Segurança Social assuma os custos das empresas (ou que importemos migrantes baratos para aumentar a concorrência no mercado de trabalho – estas são as duas áreas de estudos da FMMS – aumentar a idade da reforma e aumentar o número de migrantes porque o Pingo Doce não terá força de trabalho a prazo de outra forma, mantendo os lucros). Ninguém vai trabalhar até aos 69 mas aos 55, 58, mortos vivos vão deixar de receber salário no Pingo Doce e passar a receber uma meia pensão da Segurança Social…É a eterna dependência do Estado que os grupos económicos portugueses mantêm historicamente. É, numa palavra, a incapacidade cabal de os de cima governarem, terem um projecto de país e bem estar, para o conjunto da população. É o salve-se a família Jerónimo Martins e os seus accionistas, mesmo que destruindo a Segurança Social e , por isso mesmo, a vida civilizada. Si, em sociedades urbanas, sem apoios de grandes famílias rurais, a vida civilizada é insustentável sem um forte Estado Social.

Não existe ciência neutra – mas existe ciência séria que se faz a pensar metodologicamente no bem estar geral. É essa a ciência que produzimos. Porque o bem estar colectiva é fundamento primeiro da liberdade individual. E por isso da vida civilizada.

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