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Opinião: “O Jovem Conservador de Direita não tem noção alguma do país”

Raquel 9719966António-Coimbra-de-Matos-e-Raquel-VarelaContaram-me que um site chamado Jovem Conservador de Direita (não conhecia, confesso) terá feito umas piadas sobre mim quando referi na RTP que hoje os filhos dos pobres têm bons telefones, ser rico é ir para acampamentos ao ar livre, portanto o problema central da educação não está em ter acesso às tecnologias, expliquei. Ele tem que produzir materiais e tentou argumentar que eu era uma intelectual da esquerda caviar, que viveria num castelo, e que não sabe que os pobres não têm bons iPhones. Ao que parece a coisa teve muitos comentários e partilhas. Conheço algo da sociologia do país e pertenço, infelizmente, a uma “elite” intelectual. Os filhos dessa “elite” nunca tiveram Play-Station, já conhecem metade dos países da Europa com 18 anos, todos os grandes museus, e qualquer semana de férias num ATL de surf não custa menos de 200 euros, por semana, 350 se for com dormidas, dois filhos são um salário mínimo por semana. O simples acto de ir ao cinema com pipocas dois filhos custa 20 euros, ou 30 euros se for com jantar. Só uma elite o faz. Vão também a Inglaterra uma vez na vida passar 15 dias num lugar idílico, custa 4000 euros, 13 Play Stations.

Os filhos dos outros, a larga maioria de quem trabalha, estão na TV, no Telefone e na Play Station – e aí que vão passar as férias e é aí que passam os dias, sozinhos. A vida de quem vive do trabalho cabe num telefone e numa consola. Por isso não é vida alguma.

Nada é tão barato na educação de filhos como um bom telefone. Este fim de semana fomos visitar o Palácio da Pena, a entrada-família custou 49 euros!, se somarem o almoço, 18 euros por pessoa, nenhum luxo, a gasolina e os magníficos travesseiros da Piriquita só numa manhã teríamos comprado uma Play Station. Sim, as classes trabalhadores, mesmo as qualificadas, estão com estes salários condenadas a ver os seus filhos terem os cérebros destruídos em horas de carregar num polegar a que chamam jogos, mas não há nada de “brincar” em algo assim. A brincar estão algumas, poucas, crianças e jovens, em acampamentos divertidos que custam por semana um salário mínimo. Não é preciso ser um estranho adepto de Permacultura ou vegan – eu não sou. Há uma linha que separa hoje quem brinca e quem vê os outros brincar. Do lado dos obesos, ou dos sem sociabilidade, dos que passam as tardes sozinhos, dos analfabetos-motores, estão cada vez mais crianças e jovens.

O Jovem Conservador de Direita não tem noção alguma do país, mas ao que parece tem milhares de seguidores (não surpreende). Os quais se entregaram a despejar insultos contra mim porque, segundo o JCD, eu sou uma intelectual da esquerda caviar que não sabe como vivem os “pobrezinhos”. Parece que tem sentido de humor. Como sou adepta do riso, porém, aconselho-o hoje a fazer uma piada com os incentivos políticos a que se viaje cá dentro este ano. Com estes salários não há mercado interno, a larga maioria dos portugueses não terá como viajar cá dentro. E, creio, a maioria nunca visitou ou visitará o Palácio da Pena. Era com isso que um néscio como o JCD devia preocupar-se e menos com os “intelectuais da esquerda caviar”. Já devia ter compreendido, a esta altura da vida, que os intelectuais da esquerda caviar têm tanto de amor à classe trabalhadora como de desprezo aos tipos que escrevem na internet ou comentam nos media baseados em superficialidades, eles são aliás a nossa barrigada de rir favorita em qualquer bom jantar da esquerda caviar, os ignorantes atrevidos. Todo o nosso saber, aqui na esquerda caviar, é mobilizado a favor de quem-vive-do-trabalho, e usado para escarnecer de cretinos como ele que adoram comentar a vida do país e não conseguem dar um sinal de vida inteligente dentro de si ou de conhecimento da realidade.

Agora regressamos ao que importa: como garantir que todas as crianças e jovens em Portugal podem voltar a brincar, socializar, conhecer o país, fazer excursões, ter amigos reais. Essa é a nossa questão, que urge. Tem que haver, como diz o professor Carlos Neto, um programa nacional que decrete o estado de emergência de brincar. Temos que desprivatizar o brincar, e socializar o acesso à cultura e ao património natural e histórico.

Raquel Varela

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Artigo de opinião: “De Vilamoura ao Ameixial, uma viagem pelo imaginário serrano!”

Antonio Covas 834924Alimento a esperança de que os mais jovens, mais do que turistas ocasionais, sejam também viajantes, mas, sobretudo, agentes inovadores em projetos de interesse comunitário.

Eu costumo dizer que os territórios não são pobres, estão pobres, num determinado período histórico da sua existência. Além disso, na sociedade do conhecimento, os nossos principais problemas são problemas ou défices de conhecimento.

Acresce que, na sociedade do século XXI, estamos bem-dotados de conhecimento, cultura e criatividade que podem ajudar a mitigar, adaptar e transformar um território, por mais remoto e agreste que ele seja.

É, assim, também, no interior do concelho de Loulé. Em escassas dezenas de quilómetros passamos do universo cosmopolita de Vilamoura, cheio de glamour e pastiche, para o universo remoto e invisível do velho mundo, pleno de histórias e memórias que o tempo apagou.

Esta viagem pelo interior do concelho de Loulé é uma metáfora ao imaginário da serra do Caldeirão e serve apenas para ilustrar a minha ideia de que há uma complementaridade virtuosa entre o litoral e o interior, desde que, obviamente, nos mobilizemos politicamente para resolver o problema.

O sistema operativo do Caldeirão

O Algarve foi quase sempre, como sabemos, lido e praticado na horizontal, seja na linha de costa, na EN 125, na A22 ou na EN 124. Vamos, desta vez, procurar lê-lo na vertical. Façamos, então, uma viagem imaginária e imaginemos que:

1) O concelho de Loulé assume politicamente que a justiça ambiental e a justiça social estão gravemente postas em causa na economia rural do barrocal-serra e, em particular, na serra do Caldeirão; o município assume este desafio como um imperativo categórico, não apenas no campo da mudança climática e da ecologia fundamental, mas, também, nos campos da economia rural e da solidariedade social;

2) A freguesia do Ameixial é eleita como a sede de um ecossistema operativo inovador para a Serra do Caldeirão; trata-se de um projeto de investigação-ação envolvendo, numa primeira fase, o município de Loulé e, numa segunda fase, os municípios do Caldeirão e os principais atores regionais que, para o efeito, subscreverão uma candidatura comum no quadro do programa de recuperação que se desenha neste momento e tendo como pano de fundo um projeto regional sobre a economia da dieta mediterrânica;

3) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um centro operacional de silvicultura preventiva; trata-se não apenas de um centro de limpeza de matos e matas para prevenir os fogos florestais, mas, também, de uma unidade de apoio à elaboração do cadastro florestal e à produção de biomassa;

4) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um centro de ecologia funcional para a biodiversidade e os serviços de ecossistema; trata-se de reabilitar linhas de água e vegetação ripícola, endemismos locais, proteção da fauna e flora serranas, restauração dos ecossistemas e dos serviços de ecossistema (em especial, a compostagem para a produção de solo);

5) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um espaço de coworking empresarial alimentado por um programa de estágios profissionais; trata-se de uma pequena incubadora para iniciativas empresariais que visem o desenvolvimento económico e social do barrocal serra, em especial, nas áreas agro-silvo-pastoris;

6) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte um complexo pedagógico, recreativo e terapêutico; trata-se de um complexo com campo de férias e trabalho, residências científicas e artísticas e locais para apoio ao viajante e peregrino das caminhadas e dos percursos de natureza;

7) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, igualmente, um centro de artes e ofícios tradicionais, que é, também, um centro de reutilização de recursos da economia circular e um posto de observação privilegiado das artes da paisagem e arquitetura de amenidades paisagísticas;

8) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, igualmente, um serviço ambulatório de apoio domiciliário em matéria de alimentação, saúde e segurança, pelos diversos lugares dispersos na serra;

9) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, também, um centro de acolhimento de animais abandonados, mas, também, de apoio à fauna em risco e que tem o seu habitat na serra do Caldeirão;

10) Do sistema operativo do Caldeirão faz parte, finalmente, um centro de animação turística; trata-se de rever os percursos de natureza do Caldeirão e os seus postos de observação privilegiados e organizar visitas guiadas, em especial, a rota que une os seus cumes mais altos acima dos 500m.

A economia serrana e a dieta mediterrânica

Tudo o que dissemos acerca do sistema operativo do Ameixial e do Caldeirão necessita de uma fonte de alimentação, ou seja, de uma economia de rede e visitação minimamente organizada.

Imaginemos, então, uma economia serrana composta pelas seguintes atividades: a produção de pequenos ruminantes, a cabra algarvia em primeiro lugar, o mel e a transumância das abelhas, o medronho e os frutos silvestres, o pomar tradicional de sequeiro, o figo da índia, os citrinos, as flores ornamentais e comestíveis, as ervas aromáticas e medicinais, os cogumelos, a caça e os produtos da caça, a cortiça e os produtos do montado, a lenha e o carvão, a limpeza dos matos e das matas, o turismo micológico, a oliveira e o azeite, a compostagem, a biomassa e a microgeração de energia, a provisão de serviços ecossistémicos, os festivais das caminhadas, a gastronomia tradicional, a nova dieta mediterrânica. Mas, também, os produtos transformados, o marketing digital e a produção de conteúdos publicitários e pedagógicos associada ao comércio direto e online de todos estes bens e serviços.

Imaginemos, então, que somos capazes de ligar todas estas atividades, que temos um ator-rede com talento suficiente para articular conhecimento, cultura e criatividade e, assim, gerar novas cadeias de valor, de tal modo que o Ameixial e o Caldeirão se tornem parte integrante dessas cadeias de valor e sinais distintivos tão relevantes como Vilamoura ou Vale do Lobo, os sítios da Fonte Benemola e Rocha da Pena, as minas de água e as levadas, as aldeias típicas do barrocal, as estelas e a escrita do sudoeste, os vales e os hortejos tradicionais, para citar apenas as principais.

Retomo aqui o que já escrevi em outra ocasião. Tomemos, por exemplo, as artes tradicionais do barrocal-serra e pensemos no que poderia ser realizado com algumas pequenas inovações tecnológicas e artísticas introduzidas nestas atividades de tal modo que, a partir delas, se pudesse estruturar um mosaico produtivo e uma economia inteligente de rede e visitação turística.

A partir daqui, poderíamos compor uma pequena economia de aglomeração e visitação e, com um sistema de incentivos adequado, atrair para o barrocal serra os neorurais em busca de uma oportunidade.

As artes tradicionais e a economia da dieta mediterrânica

1. As artes do pastoreio da cabra algarvia
2. As artes da queijaria tradicional algarvia;
3. As artes da tirada da cortiça;
4. As artes do varejo e apanha da azeitona;
5. As artes do varejo e apanha do PTS,
6. As artes da apicultura e da melaria,
7. As artes da pisa a pé das uvas;
8. As artes da destilação do medronho;
9. As artes da apanha do figo da índia;
10. As artes da apanha produtos micológicos
11. As artes associadas à poda e ao enxerto;
12. As artes da cosmética tradicional;
13. As artes associadas às ervas aromáticas;
14. As artes associadas às ervas medicinais;
15. As artes da cestaria e da olaria;
16. As artes associadas às flores comestíveis;
17. As artes associadas à pesca artesanal;
18. As artes associadas à caça e à cinegética;
19. As artes da confeitaria e doçaria locais,
20. As artes da culinária tradicional;

A economia da dieta mediterrânica tem de ser equacionada em redor de cadeias de valor, tangíveis e intangíveis, mais do que em torno de produtos específicos e reunir em doses equivalentes conhecimento, cultura e criatividade, quanto baste. Este é o momento do digital, da ecologia e do combate às alterações climáticas, por isso deve ser prestada uma atenção muito especial à biodiversidade, restauração de ecossistemas e a agroecologia.

Deixo aqui alguns exemplos de cadeias de valor que precisam de ser trabalhadas com muita imaginação no terreno, mas, também, pelo marketing digital, seja através de visitas guiadas, jornadas científicas, festivais de caminhadas, programas pedagógicos para os mais jovens e programas terapêuticos para os mais idosos:

– Um dia na floresta da serra algarvia: a apanha dos frutos silvestres e a destilação do medronho conjugado com o turismo micológico e os percursos de natureza e a gastronomia serrana da dieta mediterrânica;

– Um dia nas aldeias da serra algarvia: a colheita das ervas aromáticas e medicinais, a sua preparação e destilação, conjugado com a visita ao apiário e visitas guiadas ao património vivo e museológico das aldeias; à noite a gastronomia mediterrânica e os serões de música e teatro na aldeia;

– Uma jornada científica e cultural no barrocal serra algarvio: visitas guiadas para a observação dos endemismos florísticos e faunísticos do barrocal e serra algarvios, conjugado com percursos de natureza, as paisagens literárias, a gastronomia mediterrânica e os serões culturais de aldeia; importa lembrar que a inventariação e o plano de salvaguarda da dieta mediterrânica obrigarão a criar uma linha de investigação nesta área em particular;

– Um dia na caça: a preparação e a participação numa caçada, a culinária dos produtos da caça, sessões sobre a natureza e a vida selvagem e o turismo cinegético;

– Um dia na rota da cortiça: a tirada da cortiça e a sua transformação industrial, as artes artísticas e decorativas associadas à cortiça, os produtos e a gastronomia do montado, a apanha de flores comestíveis, as sessões científicas, culturais e recreativas associadas à multifuncionalidade do montado;

– Um dia no pastoreio: pastorear um rebanho de cabras de raça autóctone, recolher o leite e produzir o queijo artesanal, provar a gastronomia da dieta mediterrânica, assistir às sessões culturais e recreativas associadas ao sistema agro-silvo-pastoril;

– Um dia no pomar tradicional de sequeiro do barrocal serra algarvio: a apanha do figo, da amêndoa e da alfarroba, a sua preparação e transformação, o artesanato da doçaria tradicional, workshops sobre a doçaria tradicional, a gastronomia da dieta mediterrânica, sessões sobre artesanato local;

– Um dia na vinha e na adega: o conhecimento das boas práticas de produção na vinha, a pisa da uva, o processo de vinificação, a reciclagem de resíduos, os produtos derivados, as provas de vinho e o enoturismo, a gastronomia da dieta mediterrânica associada, sessões culturais, técnicas e científicas ligadas à vinha e ao vinho;

– Um dia no olival e no lagar: o conhecimento das boas práticas de produção no olival, a apanha da azeitona, o processo de transformação no lagar, a reciclagem de resíduos, os produtos derivados, as provas de azeite e o olivoturismo, a gastronomia da dieta mediterrânica associada, sessões culturais, técnicas e científicas ligadas ao olival e ao azeite.

Estes programas curtos podem, ainda, estar associados com programas especiais para o turismo sénior e o turismo para grupos de mobilidade reduzida e ser articulados, por exemplo, com residências artísticas e produção criativa e cultural (semanas criativas e culturais) e, ainda, com programas de educação física de manutenção e tratamento adaptados a grupos especiais e programas recreativos de eventos e espetáculos noturnos de fados, de teatro, de música de câmara, de canto e poesia, de cinema e documentário, campeonatos de jogos de mesa, concursos vários, etc.

Notas Finais

Em tempo de pandemia deveríamos rever os nossos conceitos de economia do turismo e economia rural e olhar para a totalidade de um território de uma forma mais justa e equitativa.

Não se trata, obviamente, de turistificar a serra do Caldeirão, trata-se de ser magnânimo com o interior esquecido e abandonado e tirar partido do grande volume de turistas que visita a linha de praia e sol do concelho de Loulé.

Depois da pandemia temos de pensar menos em termos de “negócio turístico” puro e duro e mais em termos de cadeia de valor de uma região inteira. Voltar ao “velho normal”, frágil em termos de justiça ambiental e justiça social, não seria uma prova de inteligência.

Há cerca de dez anos, o município de Loulé patrocinou um projeto inovador em espaço rural com bastante sucesso na freguesia de Querença designado “Projeto Querença”. Em boa hora, a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (FMVG) acolheu esse projeto sob a direção esclarecida do Eng. Luís Guerreiro, entretanto falecido.

A minha sugestão ao município de Loulé é que convide a FMVG, a Junta de Freguesia do Ameixial, a Cooperativa QRER sediada em Querença e vocacionada para este tipo de ações e em conjunto desenhem um projeto para os próximos anos, no âmbito do programa de recuperação europeu e do próximo quadro comunitário de apoio para 2021-2027. Seria, também, uma forma singela de prestarmos uma homenagem devida ao Eng. Luís Guerreiro.

Como disse no início, trata-se de uma viagem imaginária pela serra do Caldeirão. Todavia, eu alimento a esperança de que os mais jovens, mais do que turistas ocasionais, sejam também viajantes, mas, sobretudo, agentes inovadores em projetos de interesse comunitário. É nossa obrigação criar as condições mínimas necessárias para que tal aconteça.

Aos amantes da natureza e aos neorurais da agroecologia serrana, o Ameixial e a Serra do Caldeirão aguardam pela vossa visita.

António Covas

At https://www.sulinformacao.pt/

Catarina Eufémia, 26 anos!

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19.5.1954 – Catarina Eufémia, camponesa alentejana, é assassinada a tiro pela GNR, durante uma manifestação de trabalhadores rurais por aumento de salário. As camponesas, reivindicavam o aumento da jorna de 16 para 23 escudos. Assassinada pelo regime, grávida e com uma criança de oito meses ao colo, Catarina tornar-se-ia num dos principais rostos da luta anti-fascista! – Jorge Miranda, at https://m.facebook.com/.

Artigo de opinião: “A nova ordem sanitária e o policiamento da vida colectiva”

Santana CastilhoVive-se, assim, numa cidadania apenas simbólica, tutelada pela polícia e pela Direcção-Geral da Saúde, que têm agora o monopólio do espaço público.

1. A declaração de calamidade não suspende, muito menos suprime, direitos laborais, sociais e políticos. Nem, nunca, estes direitos prejudicaram o combate à covid-19. Prejudicariam, isso sim, o curso da propagação da pandemia do medo, em que os principais responsáveis políticos se empenharam, arrastando, com pouca ponderação, 1,3 milhões de trabalhadores para o lay-off, 170 mil independentes para a penúria e 55 mil para a sopa dos pobres.

O ambiente em que vivemos desde 3 de Maio é manifestamente inconstitucional, porque pretende suspender direitos fundamentais por uma decisão unilateral do Governo. Com efeito, a situação de calamidade colhe o seu suporte legal numa lei ordinária da AR (Lei n.º 27/2006), que não permite limitar o exercício desses direitos senão de forma temporária determinada e apenas em zonas claramente definidas do território nacional (Art.º 21.º, n.º 1, b) da citada lei).

Mas uma grande parte dos portugueses, resignada, deprimida pela campanha da promoção do medo a que foi submetida, parece querer aceitar em silêncio a limitação administrativa dos seus direitos. Vive-se, assim, numa cidadania apenas simbólica, tutelada pela polícia e pela Direcção-Geral da Saúde, que têm agora o monopólio do espaço público. Sente-se, assim, a opressão de uma espécie de religião do confinamento, que nos empurra, em rebanho, para a neurose colectiva. A retórica fascizante que a serve permitiu a António Costa armar-se em intérprete de um certo interesse superior, “diga a Constituição o que diga”, e a um comandante da GNR recordar-nos o “dever de cada um ser o polícia de si próprio”.

E, apesar de os cientistas do mainstream terem concluído que a quase totalidade das contaminações ocorreu em espaços fechados (habitações, lares e instituições de saúde), prepara-se agora o reforço das contínuas operações da PSP, da GNR e da Polícia Marítima, chamando “fuzileiros e artilheiros” (ministro do Ambiente dixit) para controlarem os perigosos areais. As medidas em estudo, refere a imprensa, admitem cercas, torniquetes, sensores, drones, vigilância privada, marcas na areia para espetar as sombrinhas e cordas para delimitar a separação entre banhistas. Por este caminho, ainda vamos ver um ajuste directo para amestrar carapaus, que vigiarão o distanciamento dentro de água.

À salvação pelo grande confinamento e pela ditadura sanitária, opõe-se uma racionalidade ponderada para combater o vírus, coexistindo com ele por via da imunidade adquirida. Trata-se da dicotomia entre um risco de infecção, probabilisticamente baixo, e uma morte lenta, mas certa, por catástrofe económica, psíquica e social, sem precedentes.

2. A casa dos professores e a casa dos alunos cederam a sua natureza privada a uma certa lógica totalitária, que o fetichismo do ensino à distância impôs. O impropriamente chamado ensino à distância invadiu a vida privada e familiar dos docentes, misturando perigosamente vida profissional e vida pessoal. Sem resistência, inebriada por essa estranha união nacional contra a covid-19, uma parte significativa dos professores alistou-se em jornadas de trabalho sem limite e disponibilizou-se para trabalhar a todo o momento, respondendo a todas as solicitações. É prudente reflectir sobre o que está a acontecer e separar águas.

Tecnólogos e tecnocratas não entendem que a interacção pedagógica exige presença. Professores e alunos sabem e sentem isso

Uma coisa é uma metodologia sólida, coerente e tecnicamente complexa de ensino a distância (maioritariamente destinado a populações adultas e definitivamente vedado a algumas áreas temáticas), outra coisa é uma solução improvisada e precária (para entreter crianças e jovens afastados da escola). Não discernir sobre a diferença entre estes conceitos pode conduzir a entusiasmos para “normalizar”, no futuro, o que agora é meramente instrumental, pobre e casuístico.

Custa-me ver que se aceite tão facilmente trocar relações pessoais por relações digitais, admitindo que a profissionalidade docente possa prescindir do contacto social e da empatia humana. Como se um colectivo de pessoas pudesse ser substituído por um colectivo de computadores, sem perda de humanidade. Tecnólogos e tecnocratas não entendem que a interacção pedagógica exige presença. Professores e alunos sabem e sentem isso. Agora, mais que nunca, interiorizaram, certamente, que uma aula tem múltiplos papeis sociais, que nenhuma máquina substitui.

Santana Castilho

At https://www.publico.pt/

Ninguém é Pai aos fins de semana de 15 em 15 dias. É-se Pai todos os dias, toda a vida.

Pai-e-filha

Chegará ao fim a era dos Pais, em regime de part-time, em que o convívio com os filhos se resumia a pouco mais de um fim de semana de 15 em 15 dias.

No momento em que a Assembleia da República discute cinco projetos-lei sobre residência alternada não é demais recordar que os pais que se divorciam, não se divorciam dos seus filhos, nem estes deixam de ter avós, tios ou primos.

Estes projectos-lei defendem, sempre que possível, a residência alternada antecipando que os filhos de pais separados ou divorciados vivam com ambos os progenitores de forma revezada.

Nem sempre os pais têm a capacidade de colocar os superiores interesses dos filhos acima das suas divergências pessoais surgindo as batalhas judiciais em torno das responsabilidades parentais que não raras vezes se prolongam por muitos anos. E quem mais sofre são os filhos. Precisamente aqueles que em nada concorreram para a separação ou divórcio.

Espero que os deputados percebam que ao discutirem e votarem favoravelmente os projetos-lei sobre a residência alternada estão a permitir que milhares de crianças possam crescer em harmonia e equilíbrio, usufruindo no dia a dia do amor e carinho de mãe e pai.

Esta mudança legislativa alterará o que “vigorou” durante anos, dado o conservadorismo dos tribunais, que atribuíam a residência das crianças a uma das partes, tendencialmente à mãe, em que parecia que apenas os quartos das casas das mães tinham condições para os filhos dormirem. Ficava a sensação que em face da maioria das decisões judicias era mais importante para um filho dormir sempre no mesmo quarto do que crescer, ser amado e acompanhado quotidianamente pela mãe e pelo pai.

Terminará assim um tempo em que os pais eram pouco mais que “máquinas multibanco” para pagar as despesas dos filhos, com muitos deveres, mas poucos ou nenhuns direitos.

Ser Pai é acompanhar o quotidiano dos filhos, dar-lhes amor e carinho, participar na sua educação, no seu crescimento

Agora chegará ao fim a era dos Pais, em regime de part-time, em que o convívio com os filhos se resumia a pouco mais de um fim de semana de 15 em 15 dias.

Ser Pai é muito mais do que isto. É acompanhar o quotidiano dos filhos, dar-lhes amor e carinho, participar na sua educação, no seu crescimento, ajudá-los na resolução dos seus problemas e no esclarecimento das suas dúvidas, mas também terem tempo para brincarem e se divertirem. Isto, sim, é ser Pai na plenitude.

O modelo de residência alternada é a solução mais equilibrada e sensata para o crescimento e futuro dos filhos. Estamos perante a partilha igualitária de deveres e direitos na qual mãe e pai têm as mesmas oportunidades de exercerem os seus insubstituíveis papéis na vida dos filhos.
Nem sempre será exequível a residência alternada mas esta será a solução idealmente possível para que a relação entre pais e filhos seja a mais aproximada à que existia antes da separação.

Espero que hoje seja o dia que, culminará com um longo caminho de décadas, em que mães e pais passam a ter, vertido em Lei, deveres e direitos iguais face aos filhos, mas que seja o dia em que mormente os filhos deixem de ser usados como armas de arremesso entre mães e pais desavindos podendo viver em paz, harmoniosamente felizes com as pessoas que mais os amam na vida.

Paulo Vieira da Silva

At https://www.impala.pt/

Artigo de opinião: “Ouvir Pacheco Pereira é sempre uma tourada”

rodrigo-alves-taxaRidículo, patético e sobretudo ignorante. Assim caracterizo o triste episódio anti touradas ontem à noite realizado por Pacheco Pereira no jornal da noite da TVI, querendo começar este artigo que será necessariamente muito mais longo que os que costumo escrever, fazendo um conjunto de considerações.

A primeira para com honestidade intelectual afirmar publicamente que sempre tive alguma simpatia pelo perfil de Pacheco Pereira. Sempre lhe atribuí aquela dose de irreverência e coragem que permite aos que a têm, falar dos assuntos de que outros fogem a sete pés. Nesse sentido choca-me que um homem manifestamente inteligente e na maioria das vezes educado e polido, se tenha ontem transformado, ainda que por momentos, num verdadeiro grunho. A postura que ontem apresentou Pacheco Pereira é digna de um bronco, coisa que ele não é nem nunca foi. Portanto a primeira consideração é de lamento. Pacheco Pereira tem todo o direito em não gostar de touradas. O direito que já não tem é querer impedir-me a mim de vê-las se gosto.

A segunda consideração inicial, que até se articula com a anterior, é para dizer que nesta questão da tauromaquia, o gostar ou não gostar é secundário para efeitos de observação sociológica. O gosto só se encontra na base da discussão porque naturalmente se há touradas é porque as pessoas a elas vão, e se vão é porque gostam. No entanto, no seu âmago, a questão não assenta no domínio do gosto, mas no espectro do respeito pelo outro.

Aqui chegados, a terceira consideração inicial assenta numa grande confusão principiológica que inquina por completo a discussão sobre a tauromaquia desde o seu início, urgindo por isso esclarecê-la. É que tal como Pacheco Pereira, começo a ficar com falta de paciência para certas coisas. E sobretudo quando isso me acontece sou mais azedo num só dedo que Pacheco Pereira nos dez que tem nas mãos.

Caríssimo, pode dar as voltas que quiser ao texto. Um animal não é, seja no que for, um ser igual ou sequer equivalente ao ser humano. Não há qualquer equivalência entre ambas as espécies. Um animal não tem deveres. Ao não ter deveres, não tem direitos. Não tendo direitos, a tauromaquia não viola qualquer princípio, valor ético ou moral, pela simples razão de que aos animais e para com eles, não se aplicam quaisquer exigências intelectuais que entre nós devem ser fio condutor de rectidão social.

Se eu cravar três bandarilhas numa qualquer pessoa, isso é tortura. Se eu colocar três bandarilhas num toiro, não é tortura absolutamente nenhuma pela simples razão de que não há uma equivalência criminal entre ambas as condutas. Aliás, como tem obrigação de saber, o toiro de lide, e não de morte como erradamente o caracterizou, nem sequer está dentro da categoria dos animais de estimação ou companhia, perante os quais eu admito termos uma postura diferente, pela simples razão de que com eles se criam laços de proximidade e afeição muito superiores ao animal aqui citado que não passa na verdade de uma besta.

A menos que que queira experimentar afagar os cornos a um toiro. Boa sorte com isso. Enquanto tenta eu vou continuando o meu artigo.

Ridículo – O primeiro adjectivo que escolhi para caracterizar o que ontem ouvi sobre as touradas, deve-se ao que senti ao ver um homem que entre outras facetas, por ter sido toda a vida um homem de Estado e por isso sempre ter dito defender a democracia, parecer agora esquecê-la por pura embirração ideológica.

A democracia assenta na pluralidade. Assenta também por isso no princípio de que não poderá apenas ser permitido aquilo que eu gosto, aquilo que comigo se identifica e aquilo que por mim é compreendido.  Pacheco Pereiro esqueceu-se desde logo, portanto, que um dos pilares da democracia é a igualdade, e que essa igualdade se manifesta antes de qualquer outra coisa no respeito pela diferença.

Igualmente ridículo foi ver Pacheco Pereira procurar negar que a tauromaquia não tem qualquer raiz de natureza cultural, tendo tanto quanto percebi alvitrado que nem sequer representava grande parte da cultura rural. Ou seja, além de não gostar de touradas, Pacheco Pereira parece querer ser agora o definidor do critério da cultura nacional. Lá saberá o que pretende, eu cá por mim aconselhava-o a ter mais juízo que as suas vastas barbas brancas deviam ser sinónimo de que já devia ter idade para tê-lo.

Eu sou Ribatejano, nasci em plena ruralidade com muito orgulho e com o mesmo orgulho me definirei sempre como rural. A cultura da minha terra bem como do meu distrito é eminentemente taurina, sempre vivi perto de toureiros, forcados, ganadeiros, praças de toiros, campinos, cavalos e toiros. Em criança, bati o record de número de corridas toureadas por ano quando em cima do meu cavalo de pau, o “México”, (em homenagem ao melhor cavalo do toureiro que nessa altura mais gostava de ver tourear) bandarilhava com destreza os vasos das flores da minha mãe. Fui uma criança feliz. E sou sobretudo um homem feliz.

Considero-me além disso um homem bem formado, e nada e em nada inferior ou superior a quem possa ter uma cultura diferente da minha mesmo que não a perceba. Considero-me sobretudo bem formado porque mesmo que não a perceba não a quero eliminar. Muito menos que os outros sejam iguais a mim.

 Então agora vem o Pacheco Pereira armado em pateta explicar-me a mim o que é a minha cultura? Ridículo

Mas não me fico por aqui.

Outra circunstância ridícula, é o argumento tantas vezes invocado de que várias tradições acabam. Que o coliseu romano também acabou. Primeiro há que clarificar que as tradições acabam, quando delas já não há quem goste, as represente ou execute. Em segundo lugar e muito rapidamente, há que clarificar que uma tourada é em tudo diferente dos gladiadores e do coliseu de Roma. É diferente porque no primeiro caso o homem vai de livre vontade enfrentar um animal. Já no coliseu de Roma era um homem que obrigava outro homem a ir lutar com um animal que o poderia matar. E mesmo assim, se não fosse lutar com ele, morreria na mesma.

É capaz de ser um bocadinho diferente.

Claro que tanto num caso como noutro nem o toiro nem o leão do coliseu lá iam parar por sua livre vontade. Mas isso é natural porque o gozo e fruição da vontade é uma demonstração do livre arbítrio, domínio de que só dispõe tal como o concebemos, o ser humano.

Igualmente ridículo, foi Pacheco Pereira na forma como logo no inicio do debate, perante uma questão que lhe foi dirigida sobre se era aceitável que o Estado proibisse alguém de ir a uma corrida de toiros antes de completar dezasseis anos, vir referir que não seria admissível, na medida em que o admissível era desde logo acabar com as touradas.

Portanto, ficámos todos a saber que o mesmo homem que durante anos se sentou no parlamento nacional e europeu, auferindo um ordenado que era pago por todos os portugueses, onde se incluem os toureiros e os aficionados, assumiu publica e claramente que se estava a marimbar sequer para a discussão do tema e para os seus defensores. Era acabar e quem goste que se cale. Meu caro amigo, pode esperar sentado. Não vai ter tarefa fácil. Eu próprio me encarregarei de lhe tornar essa tarefa bem difícil.

Enfim, o show continuou, e depois de todas estas ridicularias de conteúdo houve também um notório ridículo de forma, na medida em que Pacheco Pereira mais parecia um qualquer reacionário descompensado e não o homem ponderado que sempre achei que fosse. Mas aí, todos temos dias e noites infelizes. Talvez a conta do jantar de Pacheco Pereira tenha sido cara ou a ementa lhe estivesse a causar azia.

Passo agora ao patético:

Ora bem, na vida é perfeitamente aceitável, diria mesmo que desejável, que todos nós tenhamos discordâncias. Agora argumentar as nossas discordâncias, assentando-as em falácias, argumentos desleais, imprecisões ou jogos de sombras é que é uma verdadeira patetice. Pacheco Pereira foi para ali falar de touradas sem que tivesse um único argumento sólido que sustentasse a sua posição. Já antes mencionei alguns, mas vou agora mencionar outros.

A primeira patetice foi dizer que a forma como tratamos os animas diz muito da maneira como tratamos as pessoas. O que eu gostava de perguntar a Pacheco Pereira, é se considera que uma qualquer pessoa por ser aficionada é por equivalência um ofensor nato dos seus semelhantes.

Eu sou muitíssimo aficionado. Considera-me, por sê-lo, menos integro que qualquer outra pessoa que não seja?

 É que sabe Pacheco Pereira, distintamente de si, entendo que a forma como muitos destes pseudo modernos seres humanos se preocupam com os animas, o que é, é uma demonstração bem clara da maneira como hoje se encaram as pessoas. São de segundo plano. O animal deve ser protegido. O ser humano logo se vê. Veja bem que até temos partidos com assento parlamentar que defendendo que eutanasiar um animal é um crime hediondo, dizem depois que fazê-lo num ser humano é um acto de bondade.

Diz muito da nossa sociedade. Esperava mais de si.

Outra patetice foi o meu caro amigo vir afirmar que a tourada é um espetáculo público. A tourada não é um espetáculo público Pacheco Pereira. É um espetáculo de público, o que é bem distinto. É organizado por empresas privadas, abrangidas pela legislação que a elas se aplica e, portanto, é feita no exercício de uma actividade com normas e preceitos legais, a que só vai quem quer, pagando o seu bilhete de livre e espontânea vontade para lá se dirigir. Pura deslealdade argumentativa.

Já que falo de lei, outra grande patetice por si explanada durante toda a sua intervenção foi por e simplesmente omitir a força da nossa ordem constitucional na qual em vários artigos se preceitua claramente a legalidade da tauromaquia. A menos que o meu caro amigo não respeite a constituição ou defenda que se faça outra. No primeiro caso é preocupante, se se aplicar o segundo, é legítimo.

Mas a haver uma alteração, esta não pode ser feita sem ouvir o povo. Até que aconteça, continuar-se-á a cumprir a actual. Portanto, a tauromaquia é uma manifestação cultural perfeitamente legal em todos os seus parâmetros, não podendo daí ser proibida ou limitada por decreto. Mas como eu sou boa pessoa, e sobretudo porque sei que o meu caro amigo não é jurista, aconselhava-lhe, nem que fosse por mera curiosidade, a leitura de alguns artigos da constituição.

Pode começar ali pelo princípio da igualdade para aprender o que é, depois passar para os direitos liberdades e garantias para ter uma breve noção de como tudo isto se articula e terminar dando uma passagem ali pela zona dos direitos sociais económicos e culturais. Se no fim da leitura ficar com dúvidas eu dou-lhe umas aulas de Direito Constitucional. E posso dar-lhe também uma de Introdução ao Direito para perceber juridicamente o que é o costume.

Veja bem que estou a dizer que lhe dou umas aulas. Não lhas cobro. Afinal um aficionado pode ser uma pessoa de bem.

Outra patetice:

A dada altura Sousa Tavares disse e bem que se o toiro de lide não fosse toureado por e simplesmente deixava de existir. Ora o Pacheco Pereira, pateticamente, transmitiu que pouco lhe importava o destino dos toiros se a sua existência assentasse no fim tourada. Portanto o caro amigo está tão, mas tão preocupado com um animal, que prefere que ele não exista, a existir para um fim com o qual não concorde.

Grande lógica. Como lhe chamaria um antigo professor meu, é a lógica da batata. Ou seja, desculpem-me todos o termo, uma lógica de merda.

Pelo reino das patetices podia continuar, dizendo que é patético haver partidos que querem colocar como idade mínima para assistir a uma tourada os dezasseis anos porque antes disso a pessoa não tem o carácter suficientemente desenvolvido para saber o que quer e não quer, mas em detrimento, defendem que muito antes disso já se tem a capacidade suficiente para decidir sobre a mudança de sexo; que patético é dizer que o sangue de uma tourada choca, mas que já não choca o sangue que se vê nos filmes, em determinados jogos ou mesmo em alguns desportos.

Não o vou fazer e passo ao último adjectivo; o ignorante.

O ignorante é aquele que não tendo conhecimento suficiente sobre determinada matéria, dela ignora a sua essência. Ora quando se é ignorante sobre algum assunto, manda a cautela que nos calemos sob pena de fazermos figura de parvos. É que a primeira circunstância é uma inevitabilidade. A segunda já é uma escolha.

Porque é que digo que Pacheco Pereira é um ignorante? Eu explico.

 A primeira grande ignorância foi ouvi-lo dizer que a tauromaquia é uma cultura machista. Ora certamente Pacheco Pereira desconhece que numa qualquer bancada de praça de toiros se encontram centenas e centenas de mulheres das mais variadas idades. Só se Pacheco Pereira ignora que elas lá estejam, e isso sim já é uma demonstração, não do machismo da tauromaquia, mas do seu próprio machismo pessoal.

Não obstante, foi igualmente ignorante, porque ou não sabe ou propositadamente procurou omitir, que na actualidade há pelo menos, assim que me lembre de repente, seis cavaleiras tauromáquicas no activo. E já que gosta de colecionar papéis, faça uma busca sobre cartelaria taurina e verá que já aí pelas décadas de 50, 60 e 70, existiam mulheres cavaleiras e até toureiras a pé.

Se não encontrar eu mostro-lhe.

Claro que o mundo taurino de então era machista. Como foi durante séculos o mundo político, académico, social e todos os outros. Tudo teve a sua evolução e a mulher chega à tauromaquia como chegou a qualquer outra área de actividade da sociedade. Mais tarde que os homens.

Amigo Pacheco, mais tento na língua se faz favor que ninguém tem que ser obrigado a aturá-lo, sim?

Outra ignorância foi ouvi-lo dizer que a cultura tauromáquica, dentro desta sua visão machista, era uma cultura em que o homem se gostava de armar em valente perante o toiro, eventualmente digo eu, para mostrar aos seus pares e às senhoras que é muito viril e valente. Portanto ser valente é agora sinónimo de ser machista. Eu sempre vi a valentia como uma característica sem sexo. A valentia e a cobardia. Eventualmente enganei-me.

Desta forma não compreendo esta argumentação e muito menos de que maneira ajuda a mesma a debater seriamente o tema. Ou melhor, compreendo. Esta argumentação é própria de quem por mero capricho pessoal e ideológico que sobrepor a sua opinião à dos outros nem que para isso tenha de aplicar toda e qualquer artimanha dialética por ausência de qualquer nível de razão.

Como isto já vai longo, e antes mesmo de terminar com uma preocupação e um desafio, deixo aquela que vi como a última e mais grosseira demonstração de ignorância da sua parte. Oh caro amigo, em Portugal não há toiros de morte desde o reinado de D. Maria II, exceptuando o caso de Barrancos, numa decisão maioritariamente assente no tal costume como fonte de direito que já lhe aconselhei que estudasse. Toiros de morte é em Espanha.

Então o caro amigo vem discutir um tema quando nem sequer o saber caraterizar e delimitar correctamente?

 Não sei que lhe diga.

Olhe por aqui me fico. Mas tal como disse, faço-o manifestando uma preocupação e fazendo um desafio. A preocupação é porque acho que algum trauma deve o meu amigo ter tido ou com as touradas, ou com algum toiro, ou mesmo com algum agente da tauromaquia, com qualquer coisa. Só assim percebo a sua descompensação e completo desrespeito pelos muitos milhares de aficionados portugueses.  Veja lá, se o poder ajudar a ultrapassar isso, diga-me, por favor.

O desafio que lhe lanço, e porque manifestamente ainda que tenha tentado, Sousa Tavares não lhe soube dar as respostas mais correctas porque tal como disse, deve ter visto aí umas seis corridas na vida, desafio-o para numa qualquer televisão, rádio, restaurante, café, sala de reuniões ou qualquer outro local, vir debater comigo, ponto por ponto, a tauromaquia. Até porque certamente muitos acharão que pessoalmente não lhe diria tudo isto que hoje aqui escrevi, e eu gostava de lho dizer de viva voz.

 Estou à sua inteira disponibilidade, no local e formato que a si mais adequado lhe parecer.

Olhe, em linguagem taurina, obviamente apelando ao seu sentido de humor e metaforicamente falando, coloco-me de praça a praça e dou-lhe a primazia da investida.

Rodrigo Alves Taxa

At https://ionline.sapo.pt/