Arquivo de etiquetas: Portugal

Faleceu o pai do Serviço Nacional de Saúde

antonio-arnaut

António Arnaut (1936 – 2018)

UGT comunicado_15_09_2014-page-001

Comunicado da UGT, de 15/09/2014, aos 35 anos do SNS.

Anúncios

Opinião: “O Meu Sporting”

Mário Machado 32530673_220703091854566_636522167676174336_n

Não é segredo para ninguém que sou do Sporting, e que tenho por este Clube uma paixão que é tudo menos racional, até pelas atitudes e comportamentos que já tive ao longo da vida, sempre que esse Grande Amor se manifesta.

Sou sócio desde 1976, sendo toda a minha família sportinguista, desde o tempo dos meus avós. Hoje, com muito orgulho, e quatro gerações passadas, também os meus filhos são Verde e Branco.

Ainda sou do tempo que ia ver os jogos de Hóquei em Patins, Andebol entre outros no Pavilhão, com o meu pai, mãe, avós e primos. Lembro-me como se fosse hoje, do eco brutal, de toda uma massa associativa em delírio nas bancadas.

Lembro-me também de ir ao Estádio de Alvalade com o meu pai para a Bancada Central, e levar a almofada já caída em desuso, uma buzina que era também a haste da bandeira que orgulhosamente carregava desde a nossa casa no Paço do Lumiar.

Aos domingos de manhã, enquanto a minha mãe fazia o almoço, demorava horas por sinal, eu e o meu pai íamos ver “os miúdos”, expressão carinhosa com que o meu pai se referia às camadas mais jovens. 

Foi no tempo que tínhamos um Clube e não uma empresa. Uma massa associativa fervorosa e não accionistas calculistas, e em que nós, os sócios, éramos os donos do Clube.

Tudo isso acabou!

Sobre o pretexto de termos que nos modernizar, de estarmos preparados para o futuro, e para o Sec XXI passámos a ser uma SAD. (Triste, em Inglês).
E o que mudou?
Quase tudo!

Os grupos económicos/financeiros tomaram de assalto o Clube, e mais preocupados em realizar mais-valias, nunca perceberam ou quiseram entender toda uma dinâmica que envolvia um Clube como o nosso, ou seja : -Que estamos a borrifar para o dinheiro e queremos é ganhar! 

Assim, os melhores jogadores, a que chamam hoje “activos”, foram sendo vendidos mal o seu preço de mercado subia, e nunca se conseguiu fazer uma Equipa.

Preferia ver o SCP entrar em incumprimento com todos os Credores agiotas, e ser remetido para uma Divisão inferior, devido a castigos e sanções por incumprimento, recomeçando tudo de novo, do que ver o meu Clube de Coração a lutar pelo segundo ou terceiro lugar, com o único objectivo de receber o dinheiro das competições europeias. 

Em muito pouco tempo, teríamos o nosso Clube de volta, a ganhar e a lutar por títulos em todas as modalidades! Não deveria ser de outra maneira.

Qualquer projecto que apareça no Sporting, que não afronte directamente os Credores usuários, que não acabe com os “notáveis”, que tão silenciosamente e ardilosamente nunca demonstram oposição, somente e apenas quando o Rei está morto, ou em vias…Não terá sucesso.

Continuaremos assim condenados ao fracasso, a sofrer horrivelmente, a enviar uns para o hospital e outros para as prisões e os DDT (donos disto tudo), continuam alegremente a viverem as suas grandes vidas.

O Sporting precisa de uma Revolução, e essa Guerra Relâmpago só se pode fazer com quem não depende do Capital, nem de Burgueses, mas sim de si próprio e dos que o acompanham.
Conheço tantos, que fariam tanto mais, por muito menos.

Quero também salientar que ainda não tenho uma opinião formada acerca de BDC, mas quando vejo os que o rodeiam, chego à triste conclusão, que por mais boa vontade que tenha, e acredito que sim, é humanamente impossível, a este Homem fazer a Revolução que se exige! E parece-me que ele teria muita vontade disso.

Vou tentar de ora em diante, concentrar-me um pouco mais no nosso Sporting, e no que poder e estiver ao meu alcance, para que com o meu humilde mas revolucionário contributo possamos todos juntos mudar o seu status quo.

SPORTING SEMPRE!
Lisboa, 16 de Maio de 2018

Mário Machado

At https://www.facebook.com

Presidentes ganham mais 40% em três anos. Trabalhadores ficam na mesma.

Salarios CEO
São precisos 46 anos para se ganhar um salário de CEO. Diferença entre gestores e funcionários aumentou nos últimos anos.

Quase um milhão de euros. É a remuneração média dos presidentes executivos das empresas do PSI 20. Este valor aumentou mais de 40% nos últimos três anos, reflexo dos maiores lucros obtidos pelas empresas da bolsa. E é 46 vezes mais alto do que o custo médio que as cotadas têm com os seus trabalhadores. Há três anos essa diferença era de 33 vezes.

No total, os presidentes executivos (CEO) do PSI 20 levaram para casa quase 16 milhões de euros no ano passado, mais 4,6 milhões que em 2014. Em média, cada um ganhou 996 mil euros brutos, o que compara com uma remuneração de 708 mil euros há três anos, segundo cálculos do DN/Dinheiro Vivo, baseados em dados constantes nos relatórios e contas das empresas, e que englobam remunerações fixas, variáveis, prémios e encargos com fundos de pensões.

Mas não foram apenas as remunerações dos responsáveis máximos a aumentar. As dos outros elementos dos conselhos de administração também. No total, o custo com estes responsáveis das empresas subiu 43%, ascendendo a 57,5 milhões de euros. São mais 17 milhões do que há três anos.

Já o custo médio assumido pelas empresas com cada funcionário ficou praticamente estagnado: 21,7 mil euros anuais. Excluindo o setor do retalho, que tem os salários mais baixos, o custo médio com cada funcionário é de 32 mil euros, uma descida de 2,7% face a 2014. Os números contabilizam todos os custos com pessoal (remunerações, prémios, outros encargos e indemnizações). E não incluem a Pharol e a Sonae Capital, já que não têm um número significativo de trabalhadores.

Apesar de o gasto com cada trabalhador ter estagnado, os custos com pessoal aumentaram 16% desde 2014 para 5,41 mil milhões de euros. Essa subida é explicada pelo maior número de trabalhadores. As empresas engordaram os quadros de pessoal em 35 mil. No final de 2017 empregavam quase 250 mil funcionários.

Diferenças aumentam

Nos últimos três anos, os lucros acumulados das empresas da bolsa subiram 50%, totalizando mais de 3,5 mil milhões de euros. Essa melhoria da rentabilidade é uma das explicações para as subidas das remunerações pagas aos gestores, que tendem a ter uma componente variável. Mas os salários dos gestores são cada vez maiores que os dos trabalhadores.

No ano passado, os CEO do PSI 20 ganharam em média 46 vezes mais do que o custo médio que as suas empresas assumiram com os trabalhadores. Por outras palavras, em média seria necessário trabalhar 46 anos para conseguir o valor que o CEO ganha em 12 meses. Há três anos, essa diferença era de 33 vezes. O maior contributo para este fosso foi dado pela Jerónimo Martins.

A dona do Pingo Doce pagou, em 2017, mais de dois milhões de euros ao presidente executivo, Pedro Soares dos Santos. Já o custo médio com trabalhador foi inferior a 13 mil euros. É o mais baixo da bolsa portuguesa, um reflexo não só do que se paga no setor do retalho, mas também da proporção elevada de trabalhadores na Polónia, onde os salários são mais baixos do que em Portugal. Pedro Soares dos Santos ganha mais 155 vezes do que os funcionários. Em 2014, o CEO da Jerónimo Martins teve uma remuneração de 668 mil euros, 57 vezes acima da média dos seus trabalhadores.

António Mexia, o CEO que mais ganha na bolsa portuguesa, auferiu 2,29 milhões, mais 39 vezes do que o custo médio da EDP com cada trabalhador. Há três anos, tinha ganho 1,15 milhões, mais 23 vezes do que os funcionários da empresa.

Além da Jerónimo Martins, as outras cotadas do PSI 20 com maiores discrepâncias entre o dinheiro entregue aos CEO e a média dos trabalhadores são a Mota-Engil e a Sonae. Mas o fosso é bem menor do que na dona do Pingo Doce.

Na construtora, Gonçalo Moura Martins ganhou quase 740 mil euros, mais 41 vezes do que os trabalhadores. Na dona do Continente, Paulo Azevedo auferiu 652 mil euros, mais 40 vezes do que o custo médio com trabalhador. Excluindo a Jerónimo Martins, a diferença entre as remunerações dos CEO e as dos trabalhadores nas cotadas do PSI 20 seria de 34 vezes (27 em 2014).

Fosso é maior lá fora

A tendência de subida das remunerações dos gestores tem originado vários alertas. A Deco Proteste, por exemplo, tem recomendado que se devia “fixar um limite máximo para o rácio entre a remuneração do presidente da comissão executiva e a média dos trabalhadores da empresa. Ainda que possa variar em função do setor de atividade, por exemplo, é necessário fixar limites para evitar abusos”.

Apesar de em Portugal a diferença entre os salários dos gestores e dos trabalhadores estar a aumentar de ano para ano, o fosso é menor do que se passa em outros países. Nas empresas norte-americanas cotadas era de quase 190 vezes, nas alemãs de cerca de 150 e nas suíças de 130. Na vizinha Espanha, esse rácio era de mais de 60 vezes, segundo dados da Deco Proteste que dizem ainda respeito a 2016.

A nível global, o fosso que se criou nas últimas décadas tem motivado críticas. Na Suíça já foi mesmo feito um referendo para limitar a diferença a 20 vezes. Mas a proposta acabou chumbada. Nos Estados Unidos, as cotadas passaram a ser obrigadas a divulgar oficialmente a diferença entre o salário dos CEO e da mediana dos empregados. E essa informação é usada pelos investidores para compararem se os líderes de uma empresa de determinado setor estão, ou não, a ter salários exagerados. Existem casos nos EUA em que os CEO ganham mais de duas mil vezes o que pagam aos trabalhadores, casos da fabricante de componentes automóveis Aptiv e da agência de trabalho temporário Manpower.

Em Portugal as empresas ainda não são obrigadas a divulgar e a explicar o rácio entre salários de CEO e trabalhadores.

At https://www.dn.pt

A direita já não está no Governo, mas a carga fiscal aumentou

Costa-Centeno

A carga fiscal aumentou para 34,7% do PIB em 2017, contra os 34,3% no ano anterior. O nível mais alto desde 1995 devido ao aumento dos impostos e das contribuições para a Segurança Social, que aumentaram mais do que a económica, revela o Instituto Nacional de Estatística esta segunda-feira.

A subida do peso dos impostos e descontos para a Segurança Social foi confirmada esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). A carga fiscal aumentou 34,7% em 2017, contra 34,3% um ano antes. O INE explica que esta subida da carga fiscal ao nível mais alto desde 1995 com o aumento dos impostos e contribuições num nível superior ao crescimento da economia

“Em 2017, a carga fiscal aumentou para 34,7% do PIB (34,3% no ano anterior). A variação positiva da receita foi determinada pelo crescimento de todas as componentes da carga fiscal”, revela o INE nas estatísticas das receitas fiscais divulgadas nesta segunda-feira, 14 de maio no período entre 1995 (quando começou a juntar dados sobre este indicador) e 2017.

A receita com os impostos diretos aumentou 3,3%, tendo os impostos indiretos e as contribuições sociais subido 6,1% e 6%, respetivamente.

Relativamente aos impostos diretos, a receita do imposto sobre o rendimento de pessoas singulares (IRS) situou-se praticamente ao mesmo nível do ano anterior enquanto a receita do imposto sobre o rendimento de pessoas coletivas (IRC) cresceu 10,2%.

Já a receita com o imposto sobre o valor acrescentado aumentou 6,4%.

Entre os restantes impostos indiretos, o INE destaca os aumentos registados nas receitas com o imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis (31,6%), com o imposto sobre veículos (12,7%), com o imposto sobre o tabaco (4,0%) e com o imposto sobre produtos petrolíferos e energéticos (2,4%).

As receitas com o imposto municipal sobre imóveis, devido à cobrança do adicional do IMI, regressaram a variações positivas, tendo aumentado 8,7%.

As contribuições sociais efetivas cresceram 6%, resultado que, segundo o INE, “foi influenciado pelo crescimento do emprego e, em menor grau, pela reversão integral da medida de redução das remunerações dos trabalhadores da administração pública”.

Excluindo os impostos recebidos pelas Instituições da União Europeia, Portugal manteve, em 2017, uma carga fiscal inferior à média da União Europeia (34,6%, que compara com 39,3% para a UE28).

Em 2015, o gap (a diferença entre o valor que o IVA deveria render e o efetivamente cobrado) do IVA foi estimado em 1,1 mil milhões de euros, o que equivale a 6,4% do IVA cobrado no ano, traduzindo uma diminuição de 1,4 pontos percentuais face ao valor estimado para o ano anterior (1,2 mil milhões de euros).

At http://www.jornaleconomico.sapo.pt

Artigo de opinião: “A corrupção e suas variedades”

Antonio Barreto mw-860 (1)O mais provável é que o PS esteja a caminho do fim. Não por causa da adesão ao mercado nem pelo seu entusiasmo com a frente de esquerda. Mas sim por causa da corrupção, que o PS nunca condenou claramente, sobretudo a sua e a dos seus amigos. O caso Sócrates, a que se acrescentaram tantos outros, está agora a mostrar contornos difíceis de apagar da memória. O caso PT, bem anterior, já tinha deixado feridas e cicatrizes profundas. Os casos Pinho e EDP, que ainda agora vão no adro, revelaram-se de tal maneira letais que será difícil convencer quem quer que seja que membros deste governo não tiveram nada que ver com o governo Sócrates, nesta que é talvez a maior derrota da democracia desde há mais de 40 anos.

O PS não está a tratar da “espuma dos dias” nem de pequenas circunstâncias, como sejam o pagamento a dobrar de ajudas de custo e outras “bagatelas”. O PS está a ocupar-se de uma questão muito séria: a do seu envolvimento em processos de corrupção política de grande escala e a do seu silêncio diante da actuação dos seus dirigentes. Com a corrupção, o PS está a tratar da sua natureza contemporânea, não apenas de uma circunstância excepcional.

O PS nunca foi muito claro na sua atitude perante a corrupção. Condenou a dos seus adversários, fez o possível por disfarçar a sua. Ou garantir que eram apenas casos de justiça. Pior: desculpou a corrupção com uma ideologia barata, a da ética republicana! O que isso quer dizer é estranho. Como se houvesse uma ética monárquica. E uma ética socialista. Até uma ética fascista! Está a ver-se onde isto vai parar. Mas a ideia leva-nos a admitir que há várias espécies de ética e de corrupção.

Um dos problemas mais interessantes da corrupção é o de que os seus responsáveis nunca acham que são corruptos. Julgam que estão a comportar-se com direiteza e valores inatacáveis. Isto resulta de uma concepção própria de corrupção e de ética.

A ética aristocrática faz que certas pessoas pensem honestamente que tudo lhes é devido, que estão acima de todos e de qualquer suspeita, que são charneiras da pátria e depositárias do destino nacional! Aqueles gestos e valores que muitos consideram imorais são, para as classes altas, antigas e modernas, direitos adquiridos. Corre-lhes no sangue uma espécie de moralidade pública indelével que nem sequer é preciso provar. A sua legitimidade é a do seu sangue.

A ética burguesa faz que pessoas, geralmente empresários e gestores, acreditem cegamente no mercado, considerem que merecem uma recompensa pelo que fazem, pelo emprego que criam, pelas exportações que promovem e pelas obras que fazem para o Estado. Por isso, querem fazer o que lhes apetece. Julgam-se agentes e instrumentos de bem-estar da população. Zelam pelos direitos das empresas e acreditam em que tudo o que fazem é para criar riqueza. Por isso querem ser recompensados. O que é bom para eles é bom para o país. A sua legitimidade é a da sua obra.

A ética republicana é a que remete os valores para a cidadania, rejeita privilégios de nome, fortuna e condição, mas atribui méritos desmedidos ao contributo para a democracia partidária. Tudo o que for feito a favor dos partidos no poder local, nos governos e em respeito pelo eleitorado, faz parte dessa ética republicana. Que permite a corrupção do dia-a-dia, os empregos para os amigos, as comissões para os partidos, o financiamento público das campanhas eleitorais, as leis feitas por medida, os descontos e os favores… A sua legitimidade é a do seu eleitorado.

Finalmente, a ética revolucionária, que critica todas as anteriores, que estipula como valores supremos a classe trabalhadora e o papel do seu partido de vanguarda. Tudo o que for feito, incluindo roubo, ocupação, assalto, despedimento, saneamento e favores, a bem da classe e do partido, cabe na moral trabalhadora. Com uma condição: a de nunca ser individual! Terá sempre de ser colectivista, do partido, do sindicato… É essa a razão pela qual há tão poucos comunistas envolvidos em casos de corrupção: é o próprio partido que assegura as mais eficazes funções de polícia de costumes. Proventos individuais no movimento comunista, nunca! A sua legitimidade é a da luta de classes e das relações de força.

António Barreto

At https://www.dn.pt

Artigo de opinião: “Os lesados de Sócrates”

Rui Calafate 26486_104731429549928_3658939_nVemos uma associação de lesados do Sócrates aos quais convinha confrontar com os encómios e louvores que então teceram na sua jornada ascensional até ao poder.

No livro “Música para Camaleões”, que contém 16 contos de Truman Capote, existe um deles que nos traz “Mr. Jones”. Uma personagem que não saía do seu quarto, em Brooklyn, mas que recebia pessoas. Não era traficante de droga, nem cartomante, as pessoas vinham apenas para conversar com ele. E em troca das suas palavras e conselhos, as mesmas, gratas, davam-lhe algum dinheiro. Capote, que morava ao lado, nunca conversou com ele. Apenas viu aquela figura marcante, de rosto pálido, com um sinal de nascença na bochecha esquerda. Era cego e também aleijado, quase incapaz de se deslocar. Um dia, porém, Mr. Jones desapareceu. Dez anos mais tarde, em Moscovo, com 18 graus negativos, numa carruagem do metro, Capote vê o Mr. Jones. Não lhe consegue dirigir palavra porque este se levanta, “firmando-se num par de pernas robustas e sadias, se pôs de pé e saiu da carruagem em passada larga”. Parece que ao fim de alguns anos de processos judiciais, diversos dirigentes do PS e figuras que lhe foram próximas só nos últimos dias viram em José Sócrates um Mr. Jones.

A dúvida que perpassa por todos é porquê só agora este afastamento de personalidades gradas ou com visibilidade no partido? Havia um silêncio estratégico como se o que é da Justiça ficasse apenas na Justiça, evitando assim enlamear o PS e uma série de homens e mulheres que fizeram parte dos seus Governos, mantendo um legado político que continua a ser marcante para uma enorme ala do PS. E relembro que António Costa por sms enviado a todos os militantes antes de ser eleito como líder do partido escreveu o seguinte: “Caras e caros camaradas, estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates. Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a acção política do PS, que é essencial preservar, envolvendo o partido na apreciação de um processo que, como é próprio de um Estado de Direito, só à Justiça cabe conduzir com plena independência, que respeitamos. Ao PS cabe concentrar-se na sua acção de mobilizar Portugal na afirmação da alternativa ao governo e à sua política. Um abraço afectuoso do António Costa”.

Uma tomada de posição correcta, perfeitamente perceptível e compreensível e, acima de tudo, realista face ao momento vivido que podia afectar a imagem do PS. Logo, esta mudança de agulhas dos últimos dias, e como se de um comité se tratasse porque parecia que as reacções eram encadeadas, levaram as próprias bases socialistas a não entenderem bem o que se passa. Por um motivo: o PS não é ingrato e comparado com outros tem na sua matriz essencial ser fraterno e solidário com os seus. José Sócrates é actualmente um homem só, não tem apoios, perdeu influência mediática, mas só há uma aldeia gaulesa que resiste a este cenário: exactamente, as bases do PS, que não esquecem as suas vitórias, a primeira maioria absoluta e sobretudo o seu primeiro Governo.

Há muitos anos rolava na televisão uma campanha publicitária, nos meses antes do Verão, sensibilizando as pessoas para não abandonarem os seus animais quando iam de férias. José Sócrates, o famoso animal feroz, hoje, está ferido e abandonado, quase moribundo. E não é bonito o espectáculo de ver muitos que o elogiaram, lhe teceram loas, jornalistas servis, empresários pusilânimes, políticos que lhe devem tudo e muitos que conviveram com ele de perto e que parece que só agora acordaram, o que a meu ver é ignóbil, a espezinharem alguém que ungiram como “menino de ouro”. Parece uma inaudita associação de lesados do Sócrates aos quais convinha confrontar, pois parece que a memória é algo ténue, com os encómios e louvores que teceram na sua jornada ascensional até ao poder e depois durante o seu exercício. Mas há uma pergunta para o próximo Congresso do PS que vale um milhão de dólares: qual será a reacção das bases socialistas, se alguém subir ao palco e pedir uma saudação “para o nosso camarada José Sócrates”? Aí veremos se uma coisa são os dirigentes e outra os socialistas anónimos. Se Sócrates foi expurgado definitivamente ou se, recebendo aplausos, mantém esse bálsamo de resistência.

Rui Calafate

At https://eco.pt

“O Partido Socialista traiu a sua própria origem”

Antonio Campos
António Campos, fundador do PS, entende a decisão de Sócrates de abandonar o PS e lamenta a atitude do partido.

O histórico socialista lamenta a decisão de José Sócrates de deixar o PS, mas entende as razões do antigo primeiro-ministro. Em declarações à TSF, António Campos considera que Sócrates “tem toda a razão em estar revoltado” porque “o partido, que nasceu como um grande partido da Liberdade, dos Direitos e Garantias dos cidadãos, no fim de contas embarcou em julgamentos populares”.

“O partido traiu a sua própria origem”, defende o fundador do PS.

António Campos deixa críticas à atual direção. “Não é possível aceitar que o partido da liberdade entre em julgamentos populares”, defende, “lamento muito que o Sócrates saia, mas o partido não cumpriu o seu dever para com ele”.

At https://www.tsf.pt/politica/interior/o-partido-socialista-traiu-a-sua-propria-origem-9307008.html

Artigo de opinião: “A tragédia de Sócrates”

Fernanda Cancio 600.5422fc9b30042374d7a5551a“Isto ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político”, diz Sócrates. “É uma injustiça.” E tem toda a razão. Ultrapassou mesmo todos os limites.

Vamos tentar uma coisa muito difícil: vamos esquecer que José Sócrates está acusado de uma série de crimes particularmente graves. Vamos esquecer o processo judicial e seus procedimentos, o aproveitamento político-partidário da questão, o comportamento de alguns media. Assentemos apenas em que, depois de ter sido primeiro-ministro sete anos e estabelecido residência em Paris durante algum tempo, de serem levantadas dúvidas sobre como conseguia sustentar-se e de o próprio assegurar denodada e indignadamente que o fazia graças a um empréstimo bancário e à ajuda da mãe, se soube que afinal as suas despesas eram suportadas por um amigo empresário – e em molhos de notas, à sorrelfa.

Vamos ignorar tudo menos isto: um ex PM que tratava como insulto qualquer pergunta ou dúvida sobre a proveniência dos fundos que lhe permitiam viver desafogadamente; que recusou receber pela sua prestação como comentador na RTP de 2013 a 2014; que ostentou, na saída do governo, a rejeição da subvenção vitalícia a que tinha direito por ser deputado eleito desde 1987 (e que agora está a receber), não teve afinal, desde que abandonou o governo até janeiro de 2013, quando se anunciou consultor da Octapharma, outros meios de subsistência senão o dinheiro do amigo (à generosidade do qual terá continuado a apelar mesmo quando auferia um ordenado de mais de 12 mil euros brutos por mês). Ou seja, fingiu ante toda a gente que tinha fortuna de família, rejeitando até rendimentos a que tinha direito como alguém que deles não necessitava. Urdiu uma teia de enganos. Mentiu, mentiu e tornou a mentir.

Mentiu ao país, ao seu partido, aos correligionários, aos camaradas, aos amigos. E mentiu tanto e tão bem que conseguiu que muita gente séria não só acreditasse nele como o defendesse, em privado e em público, como alguém que consideravam perseguido e alvo de campanhas de notícias falsas, boatos e assassinato de caráter (que, de resto, para ajudar a mentira a ser segura e atingir profundidade, existiram mesmo). Ao fazê-lo, não podia ignorar que estava não só a abusar da boa-fé dessas pessoas como a expô-las ao perigo de, se um dia se descobrisse a verdade, serem consideradas suas cúmplices e alvo do odioso expectável. Não podia ignorar que o partido que liderara, os governos a que presidira, até as políticas e ideias pelas quais pugnara, seriam conspurcados, como por lama tóxica, pela desonra face a tal revelação.

Este comportamento, que o próprio admitiu na primeira entrevista que deu a partir da prisão, sem, frise-se, pelo engano e mentira fazer qualquer ato de contrição, dar qualquer satisfação – e qual seria possível ou passível de satisfazer, diga-se – chegaria para clarificar a absoluta ausência de respeito pela verdade, pelas pessoas e por isso a que se dá o nome de bem comum de que padece José Sócrates.

E chegaria, devia chegar, para que qualquer pessoa, seja ou não do seu partido, reconheça que esta total deslealdade e falta de seriedade é suficiente para fazer um juízo ético e político sobre a sua conduta. Não é preciso falar de responsabilidades criminais, mesmo se a conduta descrita implica questionar por que carga de água um empresário pagaria, durante tanto tempo e sem aparente limite, as despesas de um amigo que tivera tais responsabilidades políticas, e por que motivo, se se trata de algo que o próprio vê tão sem problemas, isso foi cuidadosamente escondido não só do país como dos próximos.

Fazer publicamente esse juízo ético, no clima de caça às bruxas que se instalou após a revelação das mentiras de José Sócrates e das acusações de que é alvo, não é fácil. Quem sinta esse impulso, se for pessoa de bem, não pode deixar de ter pudor em bater em quem está por terra e temer ser confundido com a turba que clama por linchamento.

E para o seu partido — um partido no qual Sócrates foi tão importante, até por ter sido o primeiro líder a conquistar uma maioria absoluta, e no qual tem ainda apoiantes que pelos vistos não se sentiram traídos com as suas mentiras nem acham nada de errado em um dirigente partidário e ex governante viver secretamente às custas de um empresário — não era fácil declarar o óbvio. A saber, que independentemente de qualquer responsabilidade criminal alguém que age assim tem de ser persona non grata.

O PS esperou muito para o fazer e na verdade nem o fez bem. A sequência de declarações de dirigentes foi confusa e falou de suspeitas criminais – que estão por provar — em vez de se centrar no iniludível: a assunção do próprio de que andou deliberadamente a enganar toda a gente. Confusas ou não, porém, as declarações levaram o ex-líder a finalmente libertar o partido do terrível peso da sua presença simbólica.

Mas, claro, José Sócrates sai vitimizando-se, falando de “embaraço mútuo” e ameaçando, segundo o Expresso, “vingar-se” – aventa mesmo “um amigo” que poderá “usar escutas a que teve acesso como arguido”. Chocante, porém não surpreendente. De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa; reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.

At https://www.dn.pt