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Opinião: “PS – Razões de uma desfiliação”

Raul Martins AveiroNuma assumida mas dolorosa decisão pessoal, decidi desfiliar-me do meu partido de sempre, no qual militei empenhadamente e desempenhei as mais variadas funções, tendo para tal remetido o respectivo pedido ao Presidente da Concelhia a que pertenci. Nessa carta enumero as razões fundamentais de tal afastamento, que abaixo transcrevo, reconhecendo sentir que já não tenho ânimo nem vitalidade para, antes que a barca venha, conseguir ajudar a alterar o rumo que, desafortunadamente, o PS vem a prosseguir. Deixo essa tarefa a outros mais novos que ainda acreditam na possibilidade de fazer retornar o PS à pureza dos seus princípios políticos, económicos e éticos, originais.

1- Estratégia económica e social do partido.

O PS, no passado recente, definiu como sua uma estratégia de crescimento económico fortemente apoiada no consumo público e privado, relegando para segundo plano o investimento e as exportações.

Esta opção, muito saudada por alguns “jovens turcos” joga, no meu entender, um importante papel no nosso futuro colectivo comum, principalmente porque os resultados positivos de curto prazo desta política não escondem os caminhos já antes percorridos e prenunciam um regresso de uma qualquer troika, nomeadamente quando se verificar a normalização da política monetária que o Banco Central Europeu vem a adoptar.

O problema apresenta ainda, a meu ver, uma maior gravidade quando se verifica que o aumento da despesa pública corrente tem sido feito à custa do aumento de uma carga fiscal que atingiu um patamar brutal e o consumo privado se tem baseado na diminuição do nível das poupanças e, pior do que isso, no crédito, que está a gerar uma bolha que, mais dia menos dia, vai rebentar.

Sob a falaciosa ideia que não é necessário poupar porque o mesmo Estado que hoje permite a degradação dos serviços públicos por falta de verbas ou cativações, de todos vai cuidar no ocaso das suas vidas, desincentivando a poupança ao mesmo tempo que elimina os parcos estímulos ao aforro que ainda existiam, o que diminui a capacidade da nossa resistência colectiva a futuras e anunciadas crises, bem como o stock de capital que deveria ser destinado ao financiamento da inovação e dos sectores produtores de bens transaccionáveis da nossa economia, base da criação de emprego e crescimento económico estável.

Para garantir, no curto prazo, alguns resultados políticos eleitorais, estamos a esbanjar a oportunidade de construir um futuro melhor para os nossos filhos. E escusam de nos vir dizer que as perspectivas das agências de rating sobre a dívida portuguesa sobem ao sabor do aumento dos combustíveis porque já todos sentimos na pele como tudo isso rapidamente se altera. Basta um espirro da economia mundial ou uma pequena alteração na política do BCE. E não é obviamente a estratégia económica que o PS está a percorrer que faz aclarar as nuvens negras que se vislumbram no horizonte.

2- Estratégia política do partido.

Ao arrepio da tradição e da história do PS esta direcção celebrou um acordo contra-natura, de sobrevivência política, com o PCP e particularmente com o BE, trilhando os caminhos de uma perigosa deriva esquerdista que, certamente, faz dar voltas no túmulo a muitos dos “pais fundadores” do partido. E se, embora não concordando com o seu ideário político, considere o PCP um partido sério que assume e respeita os acordos celebrados, já o mesmo não poderei dizer do BE, partido sem ideário político estável que vai alimentando o seu eleitorado com as chamadas medidas “fracturantes”, aliás muito em voga, e o apoio a acções politiqueiras e frentistas a pensar única e exclusivamente nos seus ganhos eleitorais futuros, esquecendo que para dividir o “bolo” da economia é necessário, antes do mais, criá-lo.

Embora tenha algumas reservas éticas não ponho em causa a legitimidade política e constitucional do acordo de governação celebrado. Constato, no entanto, que tem conduzido a um crescente “parasitismo político” por parte do BE, que apregoa aos sete ventos que todas as medidas, mesmo que desacertadas, que têm tido aplauso público a eles se devem e culpa o PS de todas as medidas menos populares que, obviamente, a governação de um País exige que sejam tomadas.

E de tal forma sentem que as suas propostas populistas e os manifestos do seu parasitismo interesseiro estão a ser bem recebidas pelo eleitorado (ao contrário do que infelizmente prevejo poder vir a acontecer ao PS), que já falam abertamente no “aprofundamento das relações com o Governo” após as próximas eleições e no seu desejo de participar no próximo Executivo. E como antevejo, que, se for necessário para a sua manutenção no poder, como penso ir acontecer, o PS vai aceitar partilhar o Governo do País com um partido que repudia a União Europeia, a NATO bem como os princípios políticos que sempre defendi, e como esse facto iria fazer evoluir desfavoravelmente o enjoo que já actualmente sinto, acho melhor, por respeito à alimentação que ingiro, não pertencer ao partido quando isso acontecer.

3- Promiscuidade Política

Há muito que todos sabemos que, salvo raras e honrosas excepções, o mérito não é, como deveria ser, a chave para o sucesso profissional e social que entre nós, comummente, assenta no nome de família, na cunha, no compadrio, nas tertúlias e jantares de amigos e familiares, na orientação sexual, etc., que, com uma regularidade repugnante, se sobrepõe a um curriculum profissional digno e adequado. E esse triste e promíscuo “fado” que é transversal a toda a sociedade, atinge o seu apogeu nos partidos políticos. Daí os lugares de “chega-me isto” junto de um qualquer político influente serem tão cobiçados como ponto de partida de um percurso de “capataz” político, que obriga amiúde os neófitos a jurar lealdades eternas e, por vezes, a percorrerem caminhos bem tortuosos que só esmiuçados permitem compreender determinadas posições e evoluções futuras. Tudo por uma “vidinha” em circuito fechado que não fora esse trajecto nunca conseguiriam alcançar. E tudo isto conduz à captura do Estado pelas elites urbanas e partidárias, cancro fatal que mina fatalmente a nossa sociedade e que urge extirpar.

O PS não é imune ao crescimento deste “fadário”, que aliás tem criado fortes raízes e prosperado, a que se vem juntando o emaranhado de relações familiares entre membros do Governo, facto que, por si só, pode fazer baixar fortemente as intenções de voto em próximas eleições. Não que nos outros partidos e Governos não exista, ou tenha existido entre todos aqueles cuja vida começa e acaba no partido, um elevado grau de endogamia baseada nas amizades íntimas, matrimónios ou consanguinidade. Não só porque, o nível a que chegou, pode gerar conflitos de interesses nas “guerras” pelos recursos, sempre limitados, do Orçamento do Estado definidos no Conselho de Ministros a que alguns pertencem (ou podem fazer lobby familiar), mas essencialmente porque o PS sempre se arrogou de ser o bastião da “Ética Republicana” à qual não basta o simples cumprimento da lei em vigor. “Ética Republicana” que, aliás, reconhece que a criação de uma oligarquia endogâmica é o patamar do aparecimento das tiranias.

Infelizmente alguns governantes, tem vindo a pôr sal nesta ferida, elogiando os seus familiares ou cônjuges nomeados ou escolhidos para o exercício de importantes cargos políticos e outros, alimentando a polémica e confundindo os eleitores, pois declaram tantas competências e qualidades aos nomeados que ficamos sem compreender porque é que estes não ocupam, por apregoado mérito, o lugar de quem os elogia.

Mais do que criar, para uso próprio, legislação de moralização política é fundamental erradicar esta perversa forma de actuação com uma grande dose de bom senso que, como aconteceu recentemente com a lei das incompatibilidades dos deputados que tiverem mais de 10% em sociedades de advogados (na AR existem 42 advogados), parece estar arredada dos actuais parlamentares do PS, que, não pretendo me continuem a representar.

– Finalmente, e para que não existam quaisquer dúvidas sobre a matéria, afirmei ao Dr. Manuel Oliveira de Sousa que a decisão que tomei nada tem a ver com a forma como tem dirigido a política concelhia local. Fui seu apoiante, recebi-o no partido quando era presidente da concelhia, e saio do partido a apoiá-lo. Não por sempre ter concordado com as posições que a concelhia tomou. Mas quando pontualmente tal não aconteceu, foi sempre o primeiro a quem pessoalmente transmiti as minhas discordâncias, particularmente, da posição de voto desfavorável da descida do IMI para 4% (embora reconheça que era possível ter ido mais longe) e da oposição à construção de um parque de estacionamento em cave no Rossio, e augurei-lhe os maiores êxitos pessoais e políticos esperando que a nossa amizade, bem como muitas outras que ao longo destes anos criei no partido, sobrevivam à minha saída.

Mas aproveitei para lhe aconselhar alguma precaução pois os poderes “ocultos” que governam (ou julgam governar) o partido em Aveiro não deixarão de lhe dar o bote quando acharem que poderá embaraçar a evolução das suas “vidinhas” ou uma eventual mudança nos destinos políticos locais (cuja dificuldade é óbvia e exige todo o esforço e dedicação para que muitos não estão disponíveis) o tornarem “descartável”.

E não deixarei de ser apoiante do socialismo democrático na linha da verdadeira social-democracia europeia, defensor de uma sociedade livre, assente na justiça e na equidade, aberta à diversidade, à iniciativa, à inovação e ao progresso e militante de uma construção europeia orientada por princípios da cooperação, solidariedade e respeito por uma relação equilibrada e sustentável entre o homem e a natureza.

Apenas não serei filiado deste PS.

Raul Martins

(Publicadas no Diário de Aveiro de 10 de Abril de 2019)

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Opinião: “O sentido da vida são os outros, o respeito por quem trabalha”

Raquel VarelaOntem passei a manhã nas urgências do hospital do Funchal. Foram tantos os enfermeiros que passaram por mim – no SO ou nas urgências – e sorriram agradecendo «ter-nos defendido». Depois viajei na TAP, com um comissário que meteu conversa comigo, «vejo-a sempre por aqui», é que eu viajo demasiado, respondi. «Quero agradecer-lhe o estudo (pessoal de Voo) que está a fazer para nós sobre desgaste». Sorri. Uma professora abordou-me na rua «durmo descansada depois de a ler, descansa-me que haja alguém que não se resigna e que diz o que pensamos», outra disse-me «nós não temos voz». Todos os dias alguém me aborda na rua assim. Os elogios não são para mim, não faço nada sozinha. Tudo em equipa.

Vivemos na fase do elogio do homem financeiro, ainda que tenham espalhado a miséria no mundo depois de 2008. Leio nos jornais casos de mulheres de “sucesso” porque “alcançaram o topo das empresas”. É um lugar onde eu não queria estar. Queria que deixassem de existir topos. Acredito em direcções e hierarquias, em organização e responsabilidade, em trabalho sério, mas com base na democracia. O Estado, as empresas e as fábricas tornaram-se um lugar de sofrimento para quem trabalha. É uma desumanidade, uma involução que lança todos no medo. A minha quota é por isso junto da condição humana, de quem vive do trabalho. Não para distribuir roupa em segunda mão, com um ar caridoso, mas para fazer o melhor que sei e posso para que as pessoas se sintam com força para mudar a vida, e mudar o mundo onde vivem – só assim se muda a vida, não há ioga que substitua a necessidade de mudar as tremendas condições económicas que vigoram no mundo. O sentido da vida são os outros, o respeito por quem trabalha. Uma ex operária ontem num debate onde estive na Universidade da Madeira disse do público, com um vigor contagiante: «Estou farta de ONGs e caridade, de ordenados de 600 euros e aumentos de 2%, da facilidade com que se luta por caridade, farta! deve-se viver com direitos, de cabeça erguida.». Obrigada a vós.

Raquel Varela

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Opinião: “A propósito de famílias!”

Jamila MadeiraO meu pai combateu o antigo regime e foi um dos protagonistas do ‪25 de abril‬ e da construção do Portugal democrático! Durante 25 anos, desempenhou cargos políticos de eleição e foi até o primeiro presidente da região de turismo do Algarve eleito! Saiu da vida política activa em janeiro de 1999! Eu nasci em 1975 e cresci com a efervescência política dentro de casa e, claro, com a inevitável ausência paterna devido às actividades políticas que o meu pai desempenhava! Naturalmente isso gerava, sobretudo, curiosidade e uma busca por perceber o que de tão importante o levava a estar longe de nós, apesar de se desdobrar para o conseguir mitigar!

Nunca o meu pai incentivou, nem a mim nem a minha irmã, para enveredarmos pela vida política e, quem o conhece, pode comprová-lo.

Mas, como dizia, vivi por perto momentos políticos de enorme tensão e um destes foi a campanha Soares vs Freitas, o que tornou, para mim, claro as escolhas a fazer e o partido que as defendia (curiosamente tive oportunidade de referir esse facto a ambos quando, em 2003, juntos lutávamos contra a guerra do Iraque)!

Lutei no mundo associativo e ajudei a que fossem construídas soluções alternativas à PGA (prova que ainda não me afectava dado que eu estava apenas no 7o ano de escolaridade) mas lutei, não podia deixar que uma injustiça gerasse ainda mais injustiças. O sistema educativo não podia exigir aquilo que não proporcionava!

Prossegui a minha intervenção política no mundo associativo no secundário e, posteriormente, no superior, tendo, em paralelo, desenvolvido a minha acção política partidária e autárquica, nacional e internacional, tendo sido nesse período eleita vice presidente das juventudes socialistas internacionais (iusy).

Ingressei no mercado de trabalho em 1997, após concluir a minha formação superior.

Em julho de 1999 fui honrosamente convidada para integrar as listas do PS à Assembleia da República, convite que aceitei com muito orgulho!

Desde então desempenhei funções na Assembleia da República, no Parlamento Europeu e múltiplos cargos no PS , tendo sido vice presidente do Grupo parlamentar do PS em 1999 a 2003 e Secretária geral da JS entre 2000 e 2004 e membro do SN do Ps.

Mais recentemente, em 2015, regressei ao Parlamento depois de ausente, sem cargos electivos, e tendo, entretanto, concluído o mestrado em Finanças no Indeg – iscte em 2011 e tendo, em simultâneo, desenvolvido a minha vida profissional na empresa de que sou quadro técnico desde 1997! Conjunturas da vida, durante esta legislatura, divorciei-me e refiz a minha vida ao lado de um amigo de longa data, amigo das lutas político- partidárias. Para além de partilharmos a militância no PS e de sermos, ambos, deputados eleitos à Assembleia da República, partilhamos, agora, a mesma casa e temos uma filha linda.

Nunca ninguém me beneficiou pelo meus antecedentes familiares, e todas as minhas eleições foram combativas e sofridas! Ganhei umas e perdi outras, mas nunca deixei de acreditar!

Porque acredito na democracia aqui estou, hoje, a apresentar contas. De modo claro e transparente.

Percurso idêntico teve o meu colega e meu marido, e foi só pelo seu desempenho e amor a causa política e ao PS que chegou onde chegou! É funcionário público, dirigente associativo, desempenhou várias funções autárquicas em Lagos, terra onde nasceu, e em Faro, terra que mais recentemente o acolheu, bem como múltiplas funções partidárias tendo sido director de campanha de António Costa nas eleições primárias em 2014 e eleições legislativas de 2015, foi presidente da concelhia do PS de Faro desde 2012, sendo, actualmente, presidente da federação do PS Algarve e presidente da Assembleia Municipal de Faro. Desempenha agora funções no Parlamento como deputado.

A nossa vida, a nossa história não pode e não deve ser vista com olhos destorcidos! Tivemos, aliás quase sempre, em campos opostos dentro do PS! A ética política republicana é uma prática que defendo mas não a vejo como predadora, vejo-a como regeneradora da democracia!

Por isso, sublinho: nunca ninguém nos beneficiou por quaisquer relacionamentos familiares.

Porque acredito numa democracia transparente e justa deixo-vos esta mensagem pois, ontem como hoje, não posso deixar que uma injustiça gere ainda mais injustiças!
Na certeza porém que como outros outrora o disseram ‘se a situação for considerada incompatível com as minhas funções, escolherei a pessoa que amo’.

Jamila Madeira

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Excerto: “Antes que elas cresçam”

affonso-romano-de-santannaHá um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença à vida. Crescem como a inflação independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira: crescem de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade, que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde é que andou crescendo aquela danadinha, que você não percebia? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal ou da escola experimental?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você agora está ali na porta da discoteca esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou então com o suéter amarrado na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar o suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro ou segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar apesar dos golpes dos ventos, das colheitas das notícias e das ditaduras das horas. E elas crescem, meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante das próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha lhe oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância e os adolescentes cobertores naquele quarto cheio de colagens, pôsteres e agendas coloridas de pilot. Não, não as levamos suficientes vezes ao maldito drive-in, ao Tablado para ver Pluft, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches, cantorias infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível largar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora dos pais nas montanhas terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

Affonso Romano de Sant’Anna

“Que presente te dar? Crônicas de amor e outros afectos” – 2013

“A debandada em bloco dos críticos do Bloco”

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Contra o “tacticismo”, militantes do Bloco de Esquerda, incluindo dois irmãos de Francisco Louçã, fundadores do partido, decidiram afastar-se e apontam as razões numa extensa carta. (…)

“Camaradas,
conscientes de que pouco resta do projeto original do Bloco de Esquerda de ser uma força política em alternativa à sociedade existente, resolvemos deixar o partido no qual militámos ativamente até agora.

Sem arrependimentos, mas também sem ilusões, este é o momento da clarificação política entre uma esquerda com um projeto radical para a sociedade e outra paliativa em que o resultado da sua ação é a integração no sistema que deveria combater. O capitalismo não se reformará com a gradualidade de medidas parcelares que, por mais justas que sejam, não evitam o aprofundar das crises, a exclusão e o agravamento das desigualdades inerentes a um sistema de dominação que tem a propriedade privada, o mercado e a finança como suas principais forças motoras.

O socialismo não será um projeto retórico que esquece a razão estratégica na sua prática, que ignora que cada ganho institucional só terá razão de ser se contribuir para o aprofundar da consciência da exploração e dos seus responsáveis, se lançar luz sobre a origem das desigualdades e de quem as promove, se apontar formas que disputem poder ao estado.

Resolvemos deixar o Bloco porque não podemos ignorar o caminho de institucionalização dos últimos anos que transformaram o partido, de instrumento de luta política, num fim em si mesmo. O taticismo de decisões, o jogo da comunicação na sua forma burguesa, a ausência de qualquer ativismo local inserido numa estratégia de construção do partido, a progressiva ausência de pensamento crítico acompanhada pela hostilização da divergência interna e profundo sectarismo com outras forças de esquerda, transformaram o Bloco de Esquerda num projeto reformista centrado na sua própria sobrevivência. Uma sobrevivência quase sempre determinada através da influência eleitoral projetada em cada momento. É esse taticismo que justifica a posição tíbia a propósito dos incidentes recentes no Bairro da Jamaica no Seixal ou o desconforto sentido por ter sido um seu militante e assessor, Mamadou Ba, que protagonizou a denúncia de serem as forças policiais responsáveis por um racismo sistémico dirigido contra africanos e afrodescendentes dos bairros pobres. Ao ocultar esse racismo sistémico das forças de segurança e dos agentes do Estado, o Bloco coloca-se no lado errado do combate antirracista e perde espaço junto de uma geração que perdeu o medo e que trava os combates decisivos do nosso tempo. É ainda esse taticismo que faz o Bloco abdicar de posições claras e de agir em conformidade como no caso da questão da renegociação da divida externa que era central e incontornável com o governo anterior, agora transformada em mero pormenor retórico que não perturba o apoio a um governo que perpetua a austeridade.

Sem espaço para a construção coletiva, perseguindo e expulsando militantes, manipulando eleições internas de forma a garantir a ficção de um partido coeso, ao mesmo tempo que a grande maioria dos e das aderentes se abstém em todos os processos de debate e decisão onde imperam os acordos de cúpula, o Bloco tornou-se numa organização hierárquica e cristalizada. E assim, deixou de servir para pensarmos coletivamente os caminhos da emancipação, deixou de ser capaz de uma prática política coerente com as tradições comunistas, socialistas ou libertárias, deixou de ser capaz de transformar esperança militante em energia transformadora.

Com a certeza de que continuaremos a partilhar com tantas pessoas do Bloco espaços e projetos, ação concreta e militâncias, sabemos que a esquerda não se esgota nas suas representações parlamentares, institucionais ou sequer partidárias, que a esquerda que faz falta para este século está em grande medida por construir.

Em ano de eleições europeias e legislativas, a ideia de que o partido está unido será pouco beliscada por esta nossa decisão, certamente menorizada e combatida politicamente. Com humildade, respondemos antecipadamente que depois das eleições o país continuará profundamente desigual, a precariedade continuará a crescer nas relações de trabalho, o capital a ser um instrumento da sua própria acumulação através da exploração incessante do trabalho e das classes que dele vivem. Depois das eleições a extrema direita europeia continuará a crescer e a beneficiar da falta de clareza da esquerda que convive e reproduz ideias dominantes sobre a Europa, ou sobre a utopia do crescimento económico perpétuo.

A esquerda que varreu o projecto revolucionário para debaixo do tapete, numa tentativa de ganhar respeitabilidade, não será assim tão diferente da esquerda que dele abdicou há muito. As duas convergem no conformismo fatalista que transforma o capitalismo no único sistema possível e a sua alternativa socialista em utopia alucinada. Pela nossa parte continuaremos o combate, pelos meios ao nosso alcance, para uma alternativa que não se limite a gerir o sistema existente, mas que procure os caminhos para sua superação revolucionária.

Para nós, o tempo de militância no Bloco de Esquerda acabou. Começamos de novo quando ainda está tudo por fazer.

12 fevereiro 2019

Assinam:
Alex Gomes, 2803;
Alistair Grant, 4221;
Ana Margarida Tavares dos Santos, 12220;
André Rodrigues Pereira, 1062;
Ângela Patrícia Teixeira Fernandes, 965;
Elisabete Figueiredo, 9036;
Filipe Teles, 11832;
Isabel Louçã, 2780;
Irina Castro, 6797;
João Carlos Louçã, 240, Lisboa;
João Freitas, 10997;
João Rodrigues, 10538;
José Viana, 1887;
Leonardo Silva, 3888;
Maria da Graça Pacheco, 771;
Maria Emilia Gomes, 567;
Maria José Martins, 623;
Mário Martins, 11238;
Nuno Pacheco dos Santos Costa,13622 ;
Paula Coelho, 5088;
Paulo Martins, 607;
Pedro Santos Costa, 770 ;
Ricardo Cabral Fernandes, 10758;
Sérgio Vitorino, 663;
Tiago Braga, 10930″

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