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Opinião: “Incêndios denunciam erros desafiam a solidariedade”

Antonino acanac_a.dias1A nossa Diocese de Portalegre-Castelo Branco, nestes últimos dias, tem sido tragicamente atingida pelos incêndios. E não é só de agora que este flagelo nos tem batido à porta. Com mais ou menos intensidade, aqui ou ali, tem acontecido todos os anos e, em alguns anos, de forma calamitosa. Não é difícil imaginar quanto desespero e dor isto provoca nas populações, quanto sofrimento, quanta pobreza a curto e a longo prazo. Somos um interior com a população a desaparecer, com uma população cada vez mais envelhecida e pobre, com uma população a sentir-se cada vez mais desprotegida e com a sensação de um certo abandono.

Neste momento, porém, a Igreja Diocesana, através dos seus Párocos, Organizações paroquiais e Comunidades cristãs, embora se sinta pequenina e impotente perante tal calamidade, manifesta a sua proximidade junto dos Senhores Presidentes das Câmaras Municipais de Castelo Branco, Sertã, Mação, Proença-a-Nova, Gavião e Nisa, bem como às Juntas de freguesia e, particular e afetuosamente, junto das queridas populações tão sofridas e de quem, neste momento, as ajuda no terreno. Manifesta ainda a vontade de, através da Direção da Cáritas Diocesana, ajudar a minimizar, de forma concertada com os Autarcas e os Párocos, tantos estragos e sofrimento.

No meio das calamidades e à mistura com a súplica orante, surge, por vezes, a interrogação sobre o lugar de Deus. Onde está e por que é que Deus permite tamanhas desgraças? Em vez de nos perguntarmos porque é que Deus permitiu tudo isto, melhor será perguntarmo-nos sobre o que é que podemos fazer com tudo isto que nos acontece. Dessa forma, a interrogação transforma-se em pedagogia da esperança e do compromisso comum. E da certeza da pequenez humana diante de tamanhos acontecimentos, surge a oração confiante ao nosso Deus, o Deus que não abandona, não amedronta, não é indiferente ao sofrimento humano.

Pessoalmente ou em Comunidade, apelo a toda a Diocese para que não deixemos de rezar ao nosso Deus que, em Jesus Cristo, Se revelou um Deus próximo de cada experiência humana, sobretudo a experiência da dor e do sofrimento. Dizendo-nos a Deus, na oração, encontraremos esperança, serenidade e força para darmos as mãos e, na caridade cristã, nos valermos uns aos outros.

Mas se confiamos em Deus, também contamos decididamente com os homens. Todos aguardamos ansiosamente aquele momento em que, todos quantos superintendem no ordenamento do território, se deixem de filosofias baratas, resolvam decididamente congregar sinergias, e, de mãos dadas com as Autoridades locais, de forma concreta e concertada, façam o seu trabalho em favor desta causa e casa comum, também para melhor rentabilização do que temos, maior prevenção dos incêndios e sossego das populações.

Bispo Antonino Eugénio Fernandes Dias

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Opinião: “Dia 1 de Maio”

raquel-varela_1349828739Quase todos os dias as pessoas abordam-me na rua. Cada uma delas é uma história de um país que aparece pouco, embora nas estatísticas ele seja maioritário. 80% dos portugueses é trabalhador. 1/3 dos que trabalham não recebem, mesmo não estando sobre-endividados, para pagar as contas. O dia de hoje é para recordá-las.

A Ana, trabalha numa grande empresa, mãe de duas filhas, só o pai de uma dá uma pensão, de 150 euros, trabalha por turnos, sem horas de facto, ganha 670 euros líquidos, paga 500 de casa. Recebeu ordem de despejo, foi à Santa Casa que lhe aconselhou alugar um quarto e lhe deu uma latas de atum. O João é taxista, vai a casa almoçar 2 horas e dormitar no meio das 14 horas que passa no táxi. Quanto ganha? “O suficiente para pagar as contas”. O Pedro está num call centre subcontratado de uma grande empresa – 570 euros, 8 horas por dia, “o turno começa às 6 da manhã, queríamos ter filhos, uma casa…mas não dá”. Entro no elevador, a senhora da limpeza, desdentada, entra às 4 e 30 da manhã, ganha «3 euros e 26 à hora» – repete para eu não ter dúvidas novamente o valor do salário – «na verdade serve-me para pagar à Caixa, porque para casa pouco levo».

Todos os exemplos são desta semana, não vos contei os da semana passada e da anterior, são todos reais. Mudei apenas os nomes e omiti as empresas.Não tenho responsabilidades políticas e mesmo assim é muito difícil um dia em que não seja abordada por alguém que me conta como o lugar de trabalho – qualificado ou manual – se tornou num espaço ultrajante, os salários são risíveis, o assédio moral generalizado, a irracionalidade da gestão a norma, a vigilância ofegante, não há pausas, todos chegam a casa mortos. Às Câmaras chegam todos os dias pedidos de ajuda para ter onde dormir, o que comer. Aos tribunais. Às Juntas de Freguesia. Às Igrejas. Vivemos na instabilidade social, na ansiedade, na desorganização – o país real é um caos. Todos os que referi aqui trabalham 8 horas por dia. E pagam impostos.

Metade do país é oficialmente pobre. 30% recebem assistência.

O 1 de Maio não deveria ser só um desfile de memória, mas uma corrida contra o tempo. A história pode ser estupidamente lenta, mas a vida corre, mesmo quando não se vive, porque – com a mesma tristeza que olhamos alguém no século XXI desdentado, que destrói a auto estima – devemos ter frieza para deixar de elogiar a pobreza, parar de elogiar este país de baixos salários, exportações e alta competição que coloca os nossos vizinhos, colegas, filhos e pais a viver sem dignidade. Onde quem trabalha tem como opção o assistencialismo, umas latas de atum e um quartinho. A vida suspensa, portanto. Há alternativas e todas custam. A ruptura com este modelo não vai ser indolor – mas é inevitável se não queremos continuar a sair à rua com vergonha, medo, melancolia. Não podemos aceitar um país onde quem trabalha nem consegue viver.

Raquel Varela

Opinião​: “O interior é o lado de dentro”

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Enquanto estamos aqui, eles estão lá. Reconhecer a existência dos outros é o passo mais essencial para respeitá-los.

Afirmar o interior do país e o meio rural como uma realidade folclórica, exótica, ligada exclusivamente ao passado, é um insulto. Se existe agora, neste momento, então é presente. Se há quem ande de carroça hoje, então hoje também se anda de carroça. Não é possível levar uma vida no passado, acorda-se sempre no dia em que se está. Defender que a realidade do interior não é contemporânea transporta a visão tendenciosa e preconceituosa de que o nosso tempo é intrinsecamente urbano.

Também há quem argumente que o interior já não é rural, que a sua cultura hoje é tão urbana quanto a de qualquer cidade. Há duas possibilidades que contribuem para essa ideia: ignorância ou cegueira. Ou não sabem o que estão a dizer, ouviram daqui e dali e juntaram essas peças segundo o modo como gostam de imaginar o mundo; ou estiveram lá, mas não foram capazes de ver, mediram os outros pelos seus próprios critérios, baralharam as proporções, tomaram alguma coisa por outra coisa qualquer. Acharam talvez que, por haver televisão e Internet, não existia uma forma própria de entender o mundo e a vida.

As certezas absolutas que tínhamos acerca da modernidade e do desenvolvimento trouxeram-nos aqui. Foram elas que despovoaram o interior e transformaram aqueles que lá continuam numa minoria. A discrepância é enorme: uma aldeia assinalada no mapa tem menos gente do que o prédio mediano de uma qualquer avenida. Por isso, como sempre acontece com as minorias desfavorecidas (principalmente quando nem sequer são reconhecidas como tal), os seus direitos não são defendidos, a sua cultura é posta em causa.

A ruralidade não é o estereótipo da ruralidade. As piadas com personagens do meio rural têm a mesma raiz que as piadas sobre negros, homossexuais ou loiras. A discussão acerca da sua pertinência é a mesma.

Porque temos tantos problemas com os outros, mesmo quando estão na sua vida, apenas a lutar por sobreviver? Como nos deixámos convencer que engrandecemos se inferiorizarmos os outros?

Neste preciso momento, estamos a preparar o futuro. Se é verdade, apesar de não ser a única verdade, que a ruralidade mantém relações com o passado, temos todo o interesse de aproveitar essa sensibilidade, essa experiência. Não nascemos de geração espontânea. Chegamos de algum lado, que também nos constitui. A nossa história é parte de nós, mesmo que a recusemos. Desprezar a nossa história e a nossa cultura é desprezarmo-nos a nós próprios.

Enquanto estamos aqui, eles estão lá. A nossa realidade partilha este tempo com a realidade deles. Este tempo não pertence mais a uns do que outros.

Parece-me pertinente considerar a hipótese de que o futuro desejável possa conter um pouco desse mundo. E se o interior do país e a ruralidade contiverem não apenas passado, mas também futuro?

Em todos os instantes construímos o que virá. Estamos aqui, existimos, ainda estamos a tempo.

José Luís Peixoto, in revista UP, fevereiro de 2017

Banco Alimentar lamenta ausência de Presidentes de Câmara do distrito

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O presidente do Banco Alimentar de Portalegre lamentou hoje a ausência dos presidentes das Câmaras do distrito nas cerimónias dos 10 anos daquela instituição. Isidro Santos falava na tarde desta quinta feira, no auditório do Instituto Politécnico de Portalegre (IPP) durante a apresentação do balanço da atividade do Banco Alimentar de Portalegre.

O dirigente associativo disse ainda que a ajuda das câmaras municipais do distrito de Portalegre para com o Banco Alimentar “é muito pouca ou quase nenhuma”.

Isidro Santos explicou que a relação que existe entre as autarquias e a instituição que preside é apenas “por intermédio das outras instituições” com quem o banco tem protocolo. O Banco Alimentar de Portalegre tem protocolo com 48 instituições do distrito.

Sobre os 10 anos de atividade do Banco Alimentar, Isidro Santos fez “um balanço positivo” do trabalho realizado em prol dos mais necessitados.

Presente nas comemorações dos 10 anos da instituição de Portalegre esteve Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome e da Federação Europeia de Bancos Alimentares Contra a Fome. Isabel Jonet deixou um voto de louvor pelo bom trabalho do Banco de Portalegre, ao longo da última década, referindo que o seu desejo era “fechar o Banco Alimentar de Portalegre” pois era sinal que não havia pessoas que precisassem de ajuda.

As comemorações do 10º aniversário do Banco Alimentar contra a fome integraram ainda uma Missa de Ação de Graças na Sé Catedral, presidida pelo Bispo da diocese de Portalegre/Castelo Branco D. Antonino Dias. Foi ainda inaugurada, nas instalações do Banco Alimentar uma sala com o nome de José Luís Bacharel, fundador da instituição.

At http://www.radioportalegre.pt/

Artigo de opinião: “Classe média: o fetiche do igual”

maria-bitarello-photoHá uns anos ouvi um podcast de rádio americana, não me lembro mais qual, em que o entrevistado daquele dia dizia que o fator determinante da pobreza – económica, não de espírito – é a possibilidade de escolha. O pobre, dizia o entrevistado que também o era, muito mais do que carecer de coisas, pertences, bens, é privado de escolhas, de alternativas. E, salvo as exceções que sempre existem, a vida lhe impõe um caminho, muitas vezes sem bifurcações no percurso. O que o dinheiro compra, portanto, segundo o tal entrevistado, são escolhas. Fiquei pensando sobre isso muito tempo. Claro que se trata de uma de entre tantas formas possíveis de interpretação e que, de certo, é limitada. Mas vamos seguir nessa via, limitada que seja. Porque acho que ela traz insights.

De acordo com esse raciocínio de pobreza, por menor que possa ser a minha identificação com essa classe amorfa chamada de média, de facto, é dela que eu vim. Eu cresci num lar de classe média. Tive oportunidades de escolhas. Muitas. Como a de ter uma infância e crescer na hora em que estava pronta para crescer; a de estudar, o que e onde fazê-lo; as de viajar, trabalhar, aprender línguas, música, desporto, conhecer culturas diferentes, ser exposta à leitura, às artes; a de votar; a de não virar, cedo demais, nem esposa nem mãe; a de me relacionar com quem meu coração eleger; a de mudar de ideia, voltar atrás, andar para a frente, mandar tudo para o alto e começar de novo; a de viver da forma que é verdadeira para mim. E isso é ouro. Alguns diriam que não tem preço, mas se isso fosse verdade, todos teriam um pouquinho pra si. O que sabemos não ser o caso.

As escolhas às quais tive acesso não estão disponíveis a todos e foram-me concedidas, em grandíssima medida, devido à classe social à qual pertenço. Eu tive-as porque outra pessoa não as teve. É uma lei básica e perversa do capitalismo. Ao mesmo tempo, a classe média não é só uma fatia social; é uma cultura também. E uma das características constitutivas dessa classe cultural é o medo. A classe média é apavorada. Tem medo de perder as suas regalias disfarçadas de segurança e estabilidade. Ela paralisa a sua vida em função desse medo. Segrega. Empurra o diferente para longe. Vota mal. Não quer pretos nas escolas dos filhos brancos. Nem a boca no fim da rua. Tem medo do “flanelinha” que cuida dos carros. Da puta. De sair do carro, de andar na rua. Acha que a riqueza máxima será, um dia, se separar do convívio com os pobres.

É uma cultura pobre de espírito. Chata. A ela pertencem a moral e os bons costumes. Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela, na classe média, que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades. Movida pelo pavor, a classe média é capaz de qualquer coisa pra manter erguidas as barras que a aprisionam dentro do apartamento, enjaulada; dentro do carro, atrás de vidros blindados; dentro do bairro, onde todos são iguais. A personagem infantil de Pessoas Sublimes, peça que vi há umas semanas n’Os Satyros, em São Paulo, não sai de casa porque lá fora é muito perigoso. E já viu o que faz um bicho em perigo, encurralado? Ele morde. Ele ataca.

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Essa noção da classe média apavorada não é minha; tomei-a emprestada do documentário A Opinião Pública, do Arnaldo Jabor, lançado em 1967. Vale a pena assistir. Prometo que não tem nada a ver com o Jabor da Globo. É um registo das mudanças sociais pelas quais o Brasil passava na década de 1960. Uma época semelhante à de agora, quando um momento de abertura foi nocauteado por uma tenebrosa onda conservadora. Esse “medo” do qual fala Jabor nasce do que Marcia Tiburi chama de fetiche do igual, outra expressão que tomo emprestada – dessa vez do último romance dela, Uma fuga perfeita é sem volta, que estou acabando de ler. Os adeptos desse fetiche “amam o igual porque, na vida, só o que querem ver é espelho. O espelho que certifica que existem. Onde não há espelho, as pessoas põem ódio”.

O ódio. A força de uma classe média apavorada movida por ele, quando nas mãos da pessoa errada, pode ser monumental. A massa de manobra em que se transforma pode varrer uma sociedade, pode matar. E uma classe média assustada é tudo o que a direita mais aprecia e melhor sabe usar. Ela vai instigar ainda mais esse ódio que vem do medo, que por sua vez vem da não compreensão do diferente. Se a classe média brasileira não for sacudida de seu torpor, temos exemplos históricos palpáveis que mostram para onde esse discurso pode descambar. E a memória precisa ser exercitada, sempre, para que a história não se repita.

Evitar repetições é o que um paciente encontra na análise. É o que se alcança com uma epifania. Com um momento de iluminação. Perceber essas repetições e fazer o furo, não reproduzi-las mecanicamente, liberta. Porque aí, sim, há escolha. E em tempos de uma classe média que tantas panelas bateu nas janelas – a imagem própria do desespero –, não parece haver escolha, mas mera reprodução. Por isso, em meio a essa embriaguez burguesa (classista, racista, machista, fascista), será preciso muita riqueza de espírito interior pra despertar do transe e exercitar a capacidade de discernimento. Para perceber as bifurcações no caminho, as opções de desvio que existem, sempre.

Suspeito eu que a maneira de vê-las é olhar para o outro, para o diferente e, ao mesmo tempo, para dentro – sem medo. Porque, no fundo, é a mesma coisa. Reconhecer o diferente é um acto íntimo. E só daí sairá algo novo.

Maria Bitarello

At http://outraspalavras.net/

Comunicado da Diocese: “Erradicar a pobreza”

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Bispo D. Antonino Dias

O estudo recentemente divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos “Desigualdade de Rendimentos e Pobreza em Portugal As consequências sociais do Programa de Ajustamento” merece reflexão e deve sugerir aos decisores políticos e a muitos responsáveis de Organizações do 3.º setor um profundo exame de consciência.

Desde logo por deitar por terra dois dos mitos que foram sendo inculcados: o 1.º afirmando que as politicas de austeridade, com cortes nos salários e pensões tinham conseguido isentar as famílias e os indivíduos mais pobres; o 2.º que assegurava que a crise foi particularmente sentida pela classe média. A realidade, comprova o estudo, “é bem diferente…no período 2009-2014, enquanto o rendimento dos 10% mais ricos registou um decréscimo de cerca de 13%, o rendimento dos 10% mais pobres diminuiu nada menos que 25%” (Pág.153)

Aliás, segundo o professor Farinha Rodrigues que coordenou este estudo. “O aumento contínuo do fosso que separa os mais ricos dos mais pobres constitui o principal traço de evolução das desigualdades ao longo destes anos de crise”.

A Comissão Nacional Justiça e Paz chamou já a atenção para a profunda injustiça que alguns dos dados denunciam, nomeadamente, o crescimento da pobreza infantil, que, entre 2009 e 2014, aumentou de 22,4% para 24,8%; O aumento do índice de pobreza das mulheres que são as únicas responsava pela família e a perda de rendimentos dos jovens que atingiu os 29% e obrigou muitos a emigrar.

Associamo-nos a essas chamadas de atenção e aos alertas para o fato de esta situação por “em grave risco a coesão social e a concretização, no nosso país, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1),”.

Subscrevemos também a mensagem da Rede Europeia Anti Pobreza (EAPN) Portugal a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza que aponta como objetivo, fazer do combate à pobreza “um desígnio nacional” pois “a erradicação da pobreza não é uma utopia, mas sim um objetivo urgente, para o qual tem que existir vontade politica e coragem para cumprir”(2).

No momento em que vai iniciar-se a discussão do Orçamento de Estado para 2017, convirá ter presente os dados que o Estudo evidencia: Os planos de assistência não atacam os problemas da pobreza e a devolução dos rendimentos, embora necessária, também não. Urge ir mais longe.

Conviria que os cristãos e “os homens de boa vontade” fizessem chegar aos empresários e aos decisores políticos a palavra profética do Papa Francisco: “A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo … A desigualdade é a raiz dos males sociais (3)”.” Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. (4)”

A pobreza é um atentado à natureza humana. Erradicá-la é um imperativo ético. É um desafio que a todos deve interpelar. É um desafio que temos obrigação de vencer.

Castelo Branco 17 de outubro de 2016
Comunicado da Comissão Diocesana de Justiça e Paz da Diocese de Portalegre-Castelo Branco
(1)- Comunicado de 29 de Setembro da CNJP;
(2)- Comunicado da EAPN de 14 de Outubro
(3)- Evangelii Gaudium (nº 202)
(4)- Evangelii Gaudium (nº 203)

Agora, sim! Já temos o Secretário-geral do Mundo

“É com gratidão e humildade e com grande sentido de responsabilidade que me apresento hoje”, afirmou o novo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, na sua primeira declaração após ser aclamado pela Assembleia-geral da ONU.

Os 193 países membros das Nações Unidas ratificaram em Assembleia-geral, por aclamação, a escolha de António Guterres para liderar a organização, feita em 05 de outubro pelo Conselho de Segurança, o principal órgão decisório da ONU.

At http://www.rtp.pt/noticias/mundo/discurso-de-antonio-guterres-na-assembleia-geral-da-onu_v953911

Crónica: “O que é, afinal, ser um bom aluno?”

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Falar de Educação, em Portugal, é um desafio questionante e polémico. Falar de Educação inclusiva ou de um sistema educativo inclusivo é um desafio ainda mais questionante e polémico porque implica mudanças conceptuais e estruturais. Em ambos os casos faço-o com base em 15 anos de experiência e após o fim de um ciclo de três anos de estudos no Ensino Superior e porque considero que é essencial que os alunos estejam, cada vez mais, envolvidos no debate sobre a Educação.

Num mundo em constante transformação e que se revela com desafios e problemas cada vez mais complexos, assistimos, hoje, a uma cada vez maior padronização do ensino, num sistema que tem sido praticamente transversal ao longo de muitos anos e no qual sinto que não se promovem verdadeiramente competências como a criatividade, a resiliência ou a autonomia (relativamente a este ponto importa considerar que o Processo de Bolonha veio, na minha perspectiva, tentar melhorar esta questão), o que se repercutirá no futuro dos alunos e, diria, do país.

Acresce que os alunos não são estimulados a pensar sobre as coisas e a desenvolver a sua opinião, temos um sistema ainda muito orientado para a exposição e consequente memorização de conteúdos, e o próprio sistema de avaliação é reflexo disso. Não é estranho quando um professor pergunta, numa das minhas primeiras aulas na faculdade, qual a nossa opinião sobre determinado tema e a turma fica paralisada e em silêncio, por não estarem habituados a ser questionados sobre as coisas?

É neste raciocínio que me questiono quando, senso comum, se considera que os bons alunos, ou os “alunos de mérito”, são os que apresentam as melhores médias. Ainda esta semana que passou, e em época de início de aulas, foram várias as revistas que dedicaram temas centrais das suas edições a entrevistas com alunos com as melhores médias por todo o país. É certo que esta é uma componente vital na vida de um aluno e até no seu futuro escolar e revela também um excelente domínio de competências que vão desde a organização à memorização dos conteúdos, mas, enquanto não entendermos o sistema de uma forma mais ampla e inclusiva, não atingiremos o progresso desejado.

No outro dia conheci uma rapariga que estava no 10.º ano e que se mostrava desapontada por não ser uma boa aluna. Tinha média de 14 e meio, mas em contrapartida tocava numa banda filarmónica, dava aulas de música na banda, fazia ginástica competitiva e ainda cuidava da irmã quando a mãe estava ausente, mas sentia que o sistema não a valorizava nem estava orientado para todos…

Depois, importa falar ainda da inclusão e abordar as condicionantes que existem e que influenciam inevitavelmente o sucesso escolar de um aluno. Neste ponto recordo um recente estudo que afirma que nove em cada dez alunos que chumbam provêm de famílias carenciadas, outro que indica que os alunos imigrantes têm piores notas — mas curiosamente mais ambição, que assim devia ser potenciada, e mais recentemente, a reportagem da RTP que espelha ainda a realidade de inúmeras crianças que têm de percorrer vários quilómetros para chegar à escola e muitas vezes fazer longos percursos a pé até ao transporte.

Fica a pergunta no ar, O que é, afinal, ser um bom aluno?

Afonso Borga

At http://p3.publico.pt/

Artigo de opinião: “E os culpados somos nós”

marcoNão quero que este momento termine nunca. E que prazer dá escrever sobre ele. Não quero perder os sentimentos que ainda me rodeiam desde Domingo, em que estivemos, todos juntos, mais do que nunca, no limite da emoção, do equilíbrio nervoso, da força, da amizade, da humildade, até da condescendência, do orgulho, da honra. Em que rimos e chorámos, se nos apeteceu. Estávamos todos em cadeia, a lutar para o mesmo lado.

Custa muito ler que existe um bando de imbecis xenófobos que nos trata por “nojentos”. Mas a consequência foi demasiado saborosa e arrasadora. Quase fez lembrar “aquela” (das nossas infâncias) aldeia gaulesa (com personagens de “Viriato”) a aviar nos romanos. Mas que também pode muito bem representar um grito de revolta de uma qualquer bidonville nas redondezas de Paris, repleta de gente humilde e trabalhadora.

Não há nada que nos leve a esta união como a Selecção Nacional de futebol. Não serão garantidamente as eleições internas ou as disputas desportivas entre cidades que o farão. E, sim, também temos outros grandes resultados de outras competições desportivas, que também nos transportam alegria, mas sempre misturada com uma certa componente de hipocrisia. E foi com muita emoção que ouvimos o discurso de Fernando Santos do dia da vitória (carta que traria escondida), que alguns apontam como tendo uma forte componente religiosa, mas que na realidade traz um conteúdo, sim, com uma grande carga de simbolismo maçónico, naturalmente com os melhores conceitos e valores que se pretendem para a sociedade. E o resultado (quase como a pílula) do dia seguinte disse-nos que a República é definitivamente o nosso regime. Aquele que une o Povo. Que dá o poder de escolha ao Povo.

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Alguns, ditos grandes profissionais, parece não terem querido receber antes e abertamente o génio de Cristiano Ronaldo, devido à mesquinhez desses, porque o sentem demasiado grande e a inveja e a cobiça que lhe nutrem é de tal ordem, que só sonham em colocá-lo à parte dos demais ou empurrá-lo para baixo. É uma forma de estar típica de alguns portugueses. Poucos, graças a Deus. E são precisamente estes maus sentimentos que não levam ao desenvolvimento de nada, nem ao atingir de qualquer objectivo. E quem sabe disso sabe que, para crescer, só se conseguirá fazê-lo englobando todos, nomeadamente os que querem construir. Foi essa a lição que aprendemos.

É altura de receber e aproveitar esta energia positiva, e usá-la da melhor forma, com a família, com os amigos, nos locais de trabalho, nas instituições sociais e políticas que nos rodeiam. Até porque, com a decisão recente do Ecofin, querendo aplicar sanções a Portugal por não cumprimento de metas que (des)governos anteriores criaram, convém que nos afastemos de traidores (entenda-se a direita, contra o interesse nacional) e aniquiladores de nações com séculos de história. Esperemos que o actual Governo saiba responder à letra a tal atrevimento. Perante ingratidões e injustiças, Scolari perguntava: “E o burro sou eu?”. Sim, desta vez vamos ser assertivos e rodearmo-nos só do que a sociedade tem de melhor para nos dar. Sim, “e os culpados somos (fomos todos) nós.”

Marco Oliveira

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