Arquivo de etiquetas: Pobreza

Opinião: “O fantasma de Salazar e o Reitor da Universidade de Coimbra”

Raquel 10464109_10202306149190196_3394916574196011546_nO Reitor da Universidade de Coimbra não decidiu excluir a carne de vaca. Decidiu que quem tem menos dinheiro vai deixar de comer carne de vaca. As cantinas são os locais onde os filhos das classes pobres e médias empobrecidas comem. Quem tem dinheiro vai continuar a comer carne, do lombo. Os filhos de quem pode, como os meus, irão comer carne do lombo, de qualidade, bio. No norte da Europa já se serve carne bio em algumas universidades por onde ando. Em Portugal acaba-se com a carne. A periferia não é verde, é inexistente. Na verdade a medida do reitor é análoga à generalização dos parquímetros, uma privatização do espaço público. Quem tem dinheiro continua a ter acesso à cidade por carro. Estas medidas não são ecológicas, são classistas. Ecologia era transportes públicos das zonas pobres para o centro. Ecologia era subsidiar na Escola Agrária da Universidade produção de agricultura biológica e fornecer nas cantinas para que pelo menos algumas vezes pudessem comer proteína de qualidade. Ecologia era um Reitor defender a agricultura sustentável ser cada vez mais subsidiada. Assim o reitor o que fez foi reduzir a despesa da Universidade de Coimbra que agora vai oferecer frango de aviário, um mutante que nem frango devia chamar-se. Também vai ficar bem nas contas gerais da Universidade servir na cantina (paga com os nossos impostos) soja geneticamente modificada – é a transição energética.

A “transição” está a relevar-se uma forma de privar ainda mais os mais pobres de tudo, irão pagar mais impostos verdes, estão privados da cidade “verde”, num subúrbio cinzento, vestem fibras horrorosas enquanto fabricam algodão natural de design inovador em fábricas super poluentes, e agora podem esperar esta moderna versão Jonet de “não de pode comer bifes todos os dias”. Tudo para o bem deles, como se sabe se os ricos não cuidassem dos pobres eles jamais saberiam o que fazer. Agora por exemplo, imagine-se!, querem comer bifes que fazem tão mal à saude e ao planeta…

Vou poupar-vos ao óbvio. A poluição é grave mas o mundo não está a acabar. É preciso medidas sérias, e não hipocrisia disfarçada de ciência. Comer carne em idades jovens, quando se estuda, é essencial ao cérebro. Nos colégios onde se formam elites dirigentes do mundo posso garantir-vos que a carne é biológica e do lombo. Comer muita carne faz mal, não comer nenhuma faz muito mal. Outro dado: um dos maiores estudos de saúde do mundo provou que a segurança no emprego e a autonomia podem aumentar 18 anos a esperança média de vida e o medo fazer cair a mesma 18 anos, pela produção de cortisol. Nada faz tão mal à espécie humana hoje como o medo da sobrevivência, condição em que vão estar a grande maioria dos jovens estudantes da Universidade de Coimbra quando entrarem no mercado de trabalho. Coisa que não preocupa o reitor. O fim do planeta para o Reitor é uma garantia, é o dilúvio bíblico que exige medidas radicais. Já o facto de que os que estudam na Universidade virem a ter empregos em que não chegam ao fim do mês, bom isso já não é bem uma certeza, nem diz respeito a um Reitor, que cuida do Planeta.

Que o PAN, que representa o ultra liberalismo verde, seja a favor comprende-se. O silêncio dos outros partidos, com algo tão fundamental quanto o que se serve de alimentação numa instituição pública, por nós financiada, é inexplicável.

Para compreender o mundo, e a atitude de um Reitor, é preciso saber teoria do valor. E o valor da teoria. Marx explicava que a tendência do capitalismo era para tornar vegetarianas as classes trabalhadoras, desde logo diminuindo a parcela de proteína a que têm acesso na reprodução da força de trabalho, vulgo salário. Os chineses perceberam bem isso – ali, nas fábricas, come-se arroz. E mais nada. Ainda vou assistir à glorificação do Estado Novo em plena Universidade de Coimbra, o fantasma do Salazar a rondar as salas escuras, de ilusão esverdeada – carne faz mal, melhor só no Natal.

Raquel Varela

At https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

Artigo de opinião: “Afinal, pode haver vida para lá do PIB”

Rui Tavares Guedes zskbL3GMA conclusão a que Jacinda Ardern chegou, na Nova Zelândia, devia ser um exemplo para o mundo: o crescimento do PIB não conduz, só por si, a um país melhor.

Porque é que temos a tendência de olhar para a realidade e achar que as coisas estão sempre piores do que aquilo que, na realidade, estão? Porque é que ganhamos o hábito de prestar mais atenção aos indicadores negativos do que aos positivos? Há várias explicações para que isto suceda. Pode ser fruto da reação dos nossos instintos de sobrevivência, sempre prontos para nos alertarem para os perigos. Mas também pode ser a consequência lógica de quem se habituou a olhar apenas para alguns factos, deixando muitos outros fora de foco e ausentes da sua visão final sobre a realidade. Numa época em que estamos cada vez mais inundados de informação, aumentámos a nossa capacidade de nos sobressaltarmos com factos e acontecimentos, mas perdemos o discernimento para apurar tendências. Valorizamos a última estatística, mas não perdemos tempo a analisar as séries longas.

Muito do afastamento que atualmente se sente entre políticos e eleitores pode ser explicado, se calhar, pelas formas diferentes como cada um olha para a realidade. No debate político, dependente dos indicadores económicos, os diagnósticos terminam sempre da mesma forma: se o PIB cresce, então o país, qualquer que ele seja, está no bom caminho.

E o debate prossegue apenas a tentar apurar quantas mais décimas podiam ou não acrescentar-se a esse crescimento económico.

Uma das grandes causas do descontentamento que grassa em todas as democracias ocidentais reside, precisamente, no facto de as pessoas ouvirem que o PIB cresce, mas sentirem que a qualidade das suas vidas diminui. Pior ainda: à medida que o PIB cresce também tem aumentado a desigualdade e, com ela, a sensação de injustiça social e os focos de conflito.

A boa notícia é que há quem também se preocupe com isto e, mais importante, arrisque fazer diferente. É o caso de Jacinda Ardern, a jovem primeira-ministra trabalhista da Nova Zelândia que, do outro lado do mundo, à frente de um Governo que também funciona como uma espécie de Geringonça (em coligação com um partido verde e um partido nacionalista), tenta inovar no modo de fazer política, não só com um discurso e uma postura baseados na solidariedade, mas também ao ser o primeiro Governo de uma democracia ocidental a apresentar um Orçamento em que se privilegia o bem-estar da população e não o crescimento económico.

Há razões para o fazer. Quando chegou ao Governo, há cerca de dois anos, Jacinda Ardern percebeu depressa que a frieza dos números da economia não era similar com muitos outros indicadores que encontrava na sociedade. Apesar de acumular, há vários anos, um crescimento forte do PIB, a Nova Zelândia registava, em contrapartida, algumas das maiores taxas de suicídio, de sem-abrigo, de violência familiar e de pobreza infantil do planeta. E a desigualdade social continuava a aumentar, demonstrando que o crescimento do PIB não era redistribuído por toda a população.

A conclusão a que Jacinda Ardern chegou devia ser um exemplo para o mundo: o crescimento do PIB não conduz, só por si, a um país melhor. Isso consegue-se, sim, através de outros indicadores, como os que promovem a qualidade de vida e o bem-estar dos cidadãos. No primeiro Orçamento de Bem-Estar que o seu Governo apresentou, na semana passada, no parlamento, foram criadas cinco áreas principais de atuação, fortemente financiadas, e cuja avaliação passa a ter a importância que, anteriormente, era dada ao PIB: saúde mental, pobreza infantil, promoção profissional dos povos indígenas, inovação digital e transição para uma economia sustentável.

Os críticos dizem que se trata de uma manobra de marketing, mas, mesmo que também o seja, continua a merecer os elogios, pois revela uma tentativa de fazer política de forma diferente. Com a preocupação centrada em quem mais merece: as pessoas.

Rui Tavares Guedes

At http://visao.sapo.pt/

Opinião: “Carta aberta a João Miguel Tavares”

ruy_ventura_portalegrePortugal ainda é uma Portalegre ampliada, porque, como dizia Raul Brandão a propósito de Gomes Freire de Andrade, aqui não ganham os inteligentes, mas (para nossa desgraça colectiva) os mais espertos.

Caro João Miguel,

Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de não nos conhecermos. A nossa idade é muito próxima. Imagino que, como eu, tenhas nascido no velho Hospital da Misericórdia, em pleno Rossio portalegrense; tu, em Setembro, eu dois meses depois. Escrevo-te depois de ter escutado pela televisão, comovido, a tua intervenção como responsável pelas comemorações do Dia de Portugal e de Camões. Não poderia deixar de fazê-lo, ao ouvir-te evocar o teu avô que, ao fundo da nossa Rua de Elvas, dava sopa àqueles que dela precisavam, ao sentir o significado daquela casa ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais que foi e é a tua e, sobretudo, ao ter contido com alguma dificuldade as lágrimas quando te ouvi mencionar o destino de tantos portalegrenses que, para cumprirem o seu destino, se viram obrigados a deixar o nosso concelho.

Poderia ficar por aqui e agradecer-te, com a maior profundidade. Mas cortaria metade da verdade. Poderia dizer que o meu destino foi igual ao teu e ao de tantos da nossa terra. Mas não contaria a história toda, porque é mentira.

Se bem conheces o nosso concelho, e acredito que sim, sabes que o destino daqueles que nasceram e cresceram com a democracia não foi igual para todos. Os filhos do funcionalismo público e das elites locais, seja lá isso o que for, nascidos e criados na cidade, nunca tiveram o mesmo tratamento que os filhos dos operários, das costureiras e dos pequenos agricultores que tiveram como destino crescer nas aldeias da serra e dos arredores. Os sacrifícios, acredito, seriam semelhantes em cada família; mas enquanto os sacrifícios da classe média citadina podiam oferecer aos seus a universidade, fora de Portalegre, quem vinha de outros meios era obrigado a contentar-se com os cursos ministrados pelas escolas do Instituto Politécnico de Portalegre, mesmo que tivesse notas e capacidades para marchar até outras paragens. Como dizia uma grada senhora, era uma espécie de prémio de consolação…

Estou grato à democracia por ter criado instituições de ensino superior em pequenas cidades de província; se assim não fosse, ter-me-ia ficado pelo ensino secundário e ver-me-ia transformado num apagado empregado bancário ou de secretaria, talvez num contabilista, mesmo que tivesse asas para outros voos. Assim sendo, filho de um operário da Robinson e de uma costureira, vindo das serranias das Carreiras, não tirei (é certo) o curso de História que sempre ambicionei ou o de Geografia e Planeamento Regional para o qual tinha altas classificações (apesar de ter sido um dos agraciados com o Prémio Francisco Fino para os melhores alunos do secundário do nosso município), mas desenrasquei-me com uma licenciatura em ensino de Português e Francês, tirada na nossa cidade, porque para ela ainda ia havendo dinheiro, sabe Deus com que esforço e privações, embora para mais fosse impossível. Sem cunhas e sem parentes que me abrissem a porta fora de Portalegre, tive de me contentar com o que havia e dar o meu melhor, sabendo bem demais, mas tentando esquecer, que partia para a meta da vida numa posição diferente da de outros meus conterrâneos…

Foi no final dessa licenciatura que comecei a tomar consciência de outra realidade. Aluno no último ano do nosso saudoso Carlos Garcia de Castro, poeta grande cujo mérito, refugiado na interioridade, nunca foi reconhecido como deveria ter sido pelo “meio literário”, foi ele quem me abriu os olhos para o que Portalegre era há 25 anos e, infelizmente, continua a ser. Nunca esquecerei a sua frase: “Concorra para sair daqui. Nesta terra nunca lhe perdoarão ser filho de um operário e de uma costureira.” Concorri, mas passados anos caí na tentação de aceitar um convite para regressar.

Durante três anos, fui professor na instituição de Ensino Superior onde recebera a minha formação inicial. Seduzido entretanto para a política por estratégias ardilosas, estive quase a entrar para o partido que agora nos governa. Acontece que, no momento decisivo, me deu para ser independente e recusei atravessar para esse lado. Paguei caro. Não tardou muito que deixasse de haver lugar para mim e, apesar de ter o meu mestrado concluído e iniciado o doutoramento, fui preterido. Eu tive de regressar ao exílio; quem ficou, apenas com a licenciatura (!), teve o lugar garantido durante vários anos, talvez por ser filha de um ex-autarca do partido da mão fechada. Só então percebi tudo quanto Carlos Garcia de Castro me dissera e indicara e eu, ingénuo, esquecera. Em Portalegre, cópia em miniatura do Portugal que abomina o mérito e tu hoje denunciaste com a firmeza que te conhecemos, não se perdoa a falta de currículo familiar e muito menos pensarmos pela nossa cabeça, sobretudo se isso fizer sombra a alguém bem instalado ou puser em causa o seu pequeno poder ou a sua mediocridade.

Sou hoje um portalegrense exilado que bem gostaria de curar-se dessa doença chamada Portalegre. Teria uma vida muito mais tranquila… Não nego: o exílio tem-me trazido muitos momentos felizes, algumas alegrias que nunca atingiria se tivesse ficado pelo Corro lagóia. Mas, confesso-te, são alegrias amargas ou com sabor diminuído que, a cada momento, me recordam essa condição de migrante por vontade alheia. A minha árvore tem raízes e custa-me saber que os seus frutos são colhidos por outros porque da minha terra vem uma incessante e nefasta ventania que lhe vergou o tronco e fez crescer a copa noutra direcção.

Sabes, João, ao ouvir o teu discurso de hoje – que só não me fez verter lágrimas porque, caramba!, um homem não chora – vi pela televisão os meus pais aplaudindo-te. Também devem ter sentido fundamente as tuas palavras, lembrando o seu filho único que a várias centenas de quilómetros as ouviria. Portugal ainda é uma Portalegre ampliada, porque, como dizia Raul Brandão a propósito de Gomes Freire de Andrade, aqui não ganham os inteligentes, mas (para nossa desgraça colectiva) os mais espertos.

Bem hajas pelas palavras que tiveste a coragem de dizer. Espero que a voragem deste país não as apague tão depressa. Um abraço firme e comovido do teu conterrâneo.

Ruy Ventura

At https://www.publico.pt/

Artigo de opinião: “Genocídio no Alentejo: Quem extermina o Povo Alentejano? Portugal ou Espanha?”

genocidio_alentejo005
“Estou dias e dias fechada em casa. Tenho saudades de poder conversar com as vizinhas. Não tenho para onde ir; não tenho vontade de viver” – Maria Emília Laranjinha Coelho; Fortes; Alentejo

Se no passado simbolizaram um grito de revolta e a liberdade, hoje, pelas suas características, os montes alentejanos determinam a extinção e exterminação do povo alentejano.

Assim que descobertos, o extermínio foi a realidade dos índios e de todas as tribos que viviam em plena comunhão com a Natureza; é a realidade do povo alentejano.

Os Montes surgiram devido à tentativa de moldagem dos habitantes a novas regras sociais. A fuga dos inadaptados, às exigências de uma sociedade injusta e de elites, fomentou que, aqui e ali, há muito tempo, surgissem pequenas habitações, pertencentes aos homens livres: os Montes alentejanos.

Iniciou-se um novo e nobre povo, cujas características se mantêm até aos dias de hoje: humilde, sábio, respeitador, simples mas livre. Em plena comunhão com a natureza, vivia das ervas da planície e das margens da ribeira, de pequenas hortas e do pastoreio.

Hoje, são, maioritariamente, idosos que ali habitam: alvos fáceis da ganância alheia. Na solidão dos pequenos povoados, a sua voz é abafada e a sua simplicidade apelidada de ignorância. Hoje, o povo alentejano vê as novas plantações invadir o perímetro dos povoados, vê-as entrar em casa; vê as águas interditas a uso público e os seus cursos desviados; vê a planície decapada das ervas que aprendeu a usar na sua alimentação; vê as árvores milenares serem vendidas ao desbarato, no OLX; vê os sobreiros e as azinheiras serem arrancadas ou queimadas; sabe as praias contaminadas; chora o ar gorduroso e nauseabundo; sente os químicos que o matam; e, na sua velhice, agasta-se com a nova doença que aqui chegou: o cancro. Cala-se envergonhado de uma culpa que não tem.

E, a lei? A lei, nas suas exceções, por vezes, legaliza um genocídio sem precedente; por vezes, não é aplicada. Em nome do desenvolvimento económico, do alto interesse financeiro: ceifa-se, aos poucos, em morte lenta, todas as formas de vida, incluindo as humanas.

Em plena Europa, a dúvida persiste: quem o inflige? Portugal ou Espanha?

O começo do fim

Ninguém imaginaria que a promessa de água do grande lago Alqueva, à planície seca e árida, fosse o início do fim.

Há cerca de 10 anos, no interior, surgiram as primeiras culturas intensivas de olival (400 árvores por hectare); no litoral, aproveitou-se as águas do Mira, apareceram as estufas e as monoculturas, iniciou-se a decapação dos terrenos do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Aqui e ali, a vinha, as nogueiras, as amendoeiras, o olival, os brócolos, a salsa (vendida entre 50 a 125 euros/kg)… ficando, sempre, para depois, a chegada da água às torneiras das casas. Hoje, ainda, é água de cor negra e imprópria para uso humano ou animal que corre nas casas do Alandroal.

De forma sútil, foram desaparecendo sobreiros, azinheiras (árvores protegidas por lei), surgiram graves alterações a nível da orologia, foi destruído todo o património ambiental e histórico (arrasadas Villas Romanas e Celtas, importantes vestígios pré-históricos….)… Antas, únicas, aparecem desmembradas na periferia dos terrenos da planície.

Na sede do quero mais e quero para mim o que é de todos, deu-se continuidade a um arraso sem planeamento, sem bom senso, sem vigilância, sem respeito pelos bens comuns e pelos outros seres humanos, sem arrependimentos por parte dos prevaricadores.

O Olival intensivo que exigia muito mais do que o Alentejo lhe podia dar, deu lugar ao superintensivo ( 2000 pseudoárvores) que aspira, no seu caminho, lágrimas de sangue e vidas humanas. Seguiu-se o olival híperintensivo, sem cabimento nem perceção.

Todos os solos do Alentejo, estão a ser decapados, todas as árvores arrancadas, toda a vegetação desaparece e, no chão daquilo a que chamam oliveiras ou desenvolvimento económico, a terra nua ganha terreno em milhares de quilómetros. Muitos terrenos foram decapados 3 vezes: iniciaram com vinhas, foram arrancadas para dar lugar ao olival intensivo; por sua vez arrancado para dar lugar ao superintensivo (sempre subsidiadas pelo estado e antes que o lucro financeiro fosse uma realidade).

Estão aprovados mais 70 000 hectares (700 quilómetros quadrados) e a duplicação das, incontáveis, centenas de quilómetros quadrados no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, para culturas hiperintensivas, numa região em que a água é insuficiente para o consumo humano e se encontra contaminada com substâncias cancerígenas.

Porque escrevo tanto sobre o tema?

Um dia, ao atravessar o Alentejo, constato uma dimensão de destruição inacreditável; pesquisei, informei-me e escrevi o meu primeiro artigo sobre o tema (O fim da planície e a morte do azeite: um dos maiores crimes ambientais de Portugal ), nos Navegantes de ideias. O artigo foi lido e partilhado por muitos e muitos milhares de pessoas. A partir desse momento, comecei a receber milhares de mensagens de alentejanos; muitas pessoas referem que, pela primeira vez, alguém lhe dá voz e faz eco da sua dor; outras, com medo e solicitando anonimato, relatam e provam, quer por imagens quer por documentos, que a catástrofe ganha a menção de genocídio.

Ao mesmo tempo, sou contactada por pessoas de quase todos os partidos políticos. O tema é o mesmo, manifestam a sua opinião e preocupação contrária, neste tema, às orientações dos partidos. Conscientes da gigantesca dimensão, sem precedentes, do atentado à vida no Alentejo, revelam nada poder fazer para reverter a situação. Segundo os mesmos, as políticas a adotar são acordadas em documento próprio, por pessoas que com parcos ou nenhuns conhecimentos da matéria (especialistas e estudos nunca estão presentes) e a sua orientação é, tão somente, o aproveitar subsídios vindos da Europa ou a pressão de intervenientes, presentes, com interesses financeiros. Por vezes, nos debates, ouve-se a expressão: “o fim é só daqui a quinze ou vinte anos, logo se vê”. Chocaram-me os documentos, a que tive acesso, oriundos dos maiores partidos políticos portugueses: até a gerência da água pretendem passar para os agricultores – o fim da água nas torneiras, nos aquíferos e na superfície  do Alentejo.

De facto, um dia, sem qualquer interesse ou manipulação da minha palavra, escrevi sobre uma situação que me incomodou – uma situação que todos viam mas poucos tinham coragem de comentar. Talvez tenha sido isso que levou “tantos e tantos” a pedir-me ajuda. Como se eu tivesse o dom de reverter algo tão complexo! Não tenho. Posso, no entanto, escrever com as minhas palavras a Vossa Voz.

É com base nessas mensagens, nesses documentos, na minha pesquisa, nas minhas idas ao terreno, de fotografias aéreas e na minha opinião que escrevo o presente artigo. Obviamente, não identifico pessoas nem partilho documentos que vi. Escrevo porque não consigo calar, em mim, o que chamo de Genocídio. Não consigo calar os que me pedem ajuda na tentativa de acabar com o seu tormento. Não consigo calar um povo que vive só, amedrontado e ameaçado, na grandeza do seu monte, desalentado, doído, doente, envenenado…

As árvores do Alentejo

As oliveiras milenares: umas vendem-se no OLX, ao desbarato; outras, são certificadas em Espanha e vendidas para Itália; outras, seguem em camiões para destinos europeus.

Despovoamos o Alentejo de árvores centenárias e milenares, espécies resistentes a doenças e que não necessitam de produtos químicos, e plantamos: OMGs (Organismos Modificados Geneticamente). Relativamente aos olivais superintensivos e hiperintensivos, agrava-se a situação tendo em conta a proveniência das espécies implantadas: oriundas de um país (Espanha) onde uma grave doença das oliveiras impossibilita o uso dos solos.

Sim. Não há dúvida, na minha opinião, que se trata de Organismos Modificados Geneticamente:

– o mesmo foi referido, em entrevista, numa rádio de Beja, por um grupo de agricultores, a escolha desta variedade de oliveiras, implantadas no Alentejo, deveu-se às alterações genéticas das plantas, garantindo que eram o que de melhor se adaptava ao terreno;

– o uso de Glifosato, na região, confirma: este produto químico (em tribunal, noutros países, foi provado que é altamente cancerígeno) mata todas as plantas que não sofreram alterações genéticas, assim, se as espécies de oliveiras, amendoeiras, de fruto, de videiras e outras resistem ao seu uso, comprovam que existiram modificações genéticas;

– a proveniência de Espanha das oliveiras implementadas, também, confirma; segundo o que li, para poder exportar e na tentativa de reverter a grave epidemia, os cientistas espanhóis fazem experiências manipulando cerca de 8000 genomas: uma vez que as inicialmente implantadas, neste país, estão contaminadas.

A tratar-se de OMGs, significa que a lei portuguesa não é mais do que um papel com letras escritas para os estrangeiros e para as empresas; a sua utilização, para além de outros, carecia de consulta pública e rotulagem em conformidade: o que não ocorre.

As árvores centenárias, resistentes a doenças e que não necessitam de produtos químicos, são vendidas, arrancadas ou, simplesmente, queimadas e enterradas. Tal como na Amazónia, longe dos olhares, aparece um caminho, uma clareira é aberta e, aos poucos, todas as formas de vida são mitos; dão lugar a um grande círculo, a outro, a mais outro e, num raio de muitos quilómetros, a vida esvai-se na ganância e do quero para mim tudo o que tens.

Nas serras, na planície, é visível (com exceção para dois ou 3 concelhos) que toda a vegetação desaparece. O Montado (azinheiras e sobreiros) seca de um dia para outro; por vezes, é simplesmente arrancado ou queimado.

Muitos olivais s e montados são arrancados sem qualquer autorização. No caso dos olivais, por vezes, o futuro comprador (ou outro aparentemente alheio ao negócio) vende as árvores antes de adquirir o terreno. Após a venda do terreno, não há culpados: o vendedor não sabe o que aconteceu e o comprador adquiriu o terreno sem árvores. Nestes casos, o arranque das árvores fica a cargo do seu comprador, não havendo, assim, prevaricação por parte dos envolvidos no negócio de compra e venda do terreno.

Os novos contratos já assinados, com empresas estrangeiras, dada a dimensão das áreas que abarcam, levam a crer que nada restará do Alentejo e grande parte do Algarve. Além dos milhares ou milhões de árvores milenares e centenárias arrancadas, já é visível, através de fotografias aéreas, o inicio da queima ou arranque das que sobejaram. É a dor e a morte, por todo o Alentejo.

O que já desapareceu?

Salvada, nove hectares de importantes vestígios pré-históricos;

Beja, Villas Romanas e Celtas, desapareceram;

Monsaraz, olival tradicional arrancado;

Monte Novo e Farisoa, olival tradicional arrancado, sítio romano e Antas afetados;

Mesquita, Évora, sítio romano afetado;

Casa alta, Redondo, olival intensivo arrancado; no seu lugar já brilha o superintensivo;

Aldeias de Montoito, olival tradicional arrancado;

Alvalade, montado arrancado;

No litoral, desapareceu quase todo o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina; as culturas chegam a 5 metros do mar; estende-se para a zona do Algarve e para a serra da vigia;

Longe das estradas, a leste do olhar humano, todas as árvores desapareceram ou já se iniciou o seu abatimento e, no seu lugar, restam os solos nus. Existem áreas com 10 quilómetros quadrados sem uma única árvore.

Posso continuar mas penso que o cansará (são milhares de ocorrências comprovadas).

No Litoral Alentejano, a área de cultivo é tão imensa que ocupa toda a faixa entre Vila Nova de Milfontes e Odeceixe (tendo já ultrapassado este limites, até Aljejur, estende-se para a Serra da Vigia, parou, em muitas situações, a cinco metros do mar). No entanto, a faixa livre de plantações situa-se, maioritariamente, entre vinte a sessenta metros do mar e já é notório  alterações na orologia das arribas.

Não esquecer que as arribas e as dunas são a nossa defesa contra o avanço do mar e a consequente salinização, erosão e inutilização dos solos. É irónico transmitir, às nossas crianças e aos caminhantes, o dever de caminhar pelos trilhos existentes e o não arrancar plantas destas zonas (pela sua vital importância) e, ao mesmo tempo, consentir a sua total destruição para uso de uma empresa. Penso que os manuais escolares e os programas que abarcam devem ser alterados: transmitir o contrário que ocorre, com o aval do estado, fará de um professor: um tolo não confiável.

Neste caso, a lei que regula o aproveitamento das águas do Mira legaliza todo o desbaste.

Numa dimensão de centenas de quilómetros, estas culturas levaram ao desaparecimento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano (resta uma pequena faixa entre Sines e Vila Nova de Mil Fontes).

A vida selvagem

Durante a noite, quando passam as máquinas para a apanha da azeitona, milhares de pássaros que ali dormem, morrem ao ser sugados.  “Tordos”, “Calhandras”, “Trigueirões”, “Rouxinóis”, “Felosas”, “Milheirinhas”… “uma verdadeira chacina” é referida pelos trabalhadores que os retiram das cubas das azeitonas.

Esta situação ocorre, essencialmente, nos arbustos mais baixos, nos olivais superintensivos. Após as colheitas, milhares de aves são retiradas das cubas das azeitonas; no entanto, o seu sangue fará parte do azeite que servimos à mesa. Mesmo que sejam lavadas antes de dar origem ao azeite, o aconselhável, por questões de saúde, é que, o que seja contaminado com sangue, não integre o consumo humano.

A administração de produtos fitofármacos é feita através dos gotejadores de água onde qualquer espécie animal selvagem bebe e, dias depois, morre. Lebres, coelhos, perdizes… são encontrados, todos os dias, mortos nos seio das culturas superintensivas e hiperintensivas ou na sua periferia, perto das estradas, pelos campos do Alentejo.

Em milhares de quilómetros decapados, desapareceu toda a vegetação, desapareceram todas as rochas (de importância vital para muitas espécies e no combate à erosão).

Numa barragem, morreram envenenados 700kg de peixe e o gado que ali matava a sede.

É evidente a escassez de insetos, fundamentais para a existência de vida.

A nuvem química, usada para fazer cair a azeitona, além de contaminar com químicos cancerígenos o azeite, mata as abelhas (o ser vivo mais importante do planeta, sem o qual não existe nenhuma outra forma de vida).

Nos depósitos, a céu aberto, do bagaço da azeitona, milhares de animais (ratos, aves, cobras e outros) perdem a vida. Segundo os habitantes locais, estes não são retirados e integrarão o azeite refinado que é, comummente, adicionado ao azeite virgem para que a acidez atinja os níveis requeridos pela lei.

A Água

Anos de seca consecutivos têm tido graves consequências nos recursos hídricos da superfície. Algumas barragens estão completamente secas ou apresentam níveis nunca vistos e, no que se refere às água do Alqueva, já é visível a formação de zonas pantanosas. A salinização, a presença de químicos cancerígenos e a nitrificação, crescentes, além de tornarem a água imprópria para uso agrícola, atingem os níveis que levaram à extinção do Mar Aral e das Tablas de Daimiel.

O mesmo ocorre com as águas do rio Guadiana que já nos chega, de Espanha, contaminado.

Assiste-se, assim, ao uso, na agricultura, de um recurso que devia ser exclusivo para o consumo humano: desde outubro, mais de três mil novos furos de captação de água são o resultado da crescente intensificação da agricultura: extingue-se um recurso crucial, numa época de secas, cada vez mais frequentes, tornando inviável: a existência de qualquer espécie de vida, em toda a região.

Se as espécies, plantadas no Alentejo, prometiam uma vida de 20 anos, estes fatores, não contabilizados na implementação de uma agricultura sem regras, planeamento ou controlo, ditam, segundo estudos publicados por especialistas da área: o Alentejo não tem 10 ou 15 anos de vida.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) refere que os pesticidas estão a ser usados em concentrações excessivamente elevadas e estão presentes nas águas subterrâneas, em níveis muito elevados, nas zonas onde a atividade agrícola é mais intensa. Um seu estudo, à qualidade das águas subterrâneas, detetou a presença de pesticidas proibidos pela lei portuguesa e outros proibidos em toda a Europa. A APA não descarta a possibilidade dos produtos proibidos, presente nos aquíferos, provirem de Espanha.

Estes pesticidas podem ser a causa do surgimento de grande número de Cancros, essencialmente do intestino e das vias respiratórias.

 É muito difícil perceber e aceitar que uma população, maioritariamente idosa, com uma postura de vida ecológica, sucumba ao cancro. São em elevado número e todos recentes: no entanto não há números, nem dados: não foi realizado nenhum estudo de impacto humano. E a relação efeito/causa só é possível no tempo; ou seja, precisamos esperar que os Alentejanos morram para ser correto referir o nome “GENOCÌDIO”.

O que é certo é que os alentejanos estão doentes e a morrer: quer pelo ar que respiram, quer pela água que bebem, quer por serem vaporizados por produtos químicos. Sem respeito pelos PDMs (Plano Diretor Municipal), as culturas superintensivas e hiperintensivas entram dentro do perímetro das localidades e engolem as habitações. Todas as noites, em períodos prolongados, são vaporizados com produtos químicos.

O Serviço Nacional de Saúde já se pronunciou, no que se refere aos olivais do distrito de Beja,  e considera necessário e obrigatório estabelecer medidas de intervenção e correção à sua instalação, pelo seu impacto negativo na saúde pública.

No litoral, muitas mensagens recebidas e as recentes análises da APA , sugerem uma utilização de químicos que vai, excessivamente, além do permitido por lei e que as praias, da zona em questão, não estão próprias para uso humano: as escorrências contaminaram todo o areal.

Se pretende refrescar-se, não utilize as águas destas praias; segundo muitos especialistas e as recentes divulgações de estudos da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), é tão excessiva a carga de químicos aplicados que se encontram altas concentrações de elementos cancerígenos (provenientes de produtos proibidos em toda a Europa mas aplicados no Alentejo).

Esqueça as piscinas, por todo o Alentejo, se os aquíferos estão contaminados por produtos cancerígenos: a sua piscina, também, está.

Associação Natureza Portugal, representante do Fundo Mundial para a Natureza (WWF na sigla internacional) faz o alerta num comunicado divulgado esta quarta-feira, por ocasião do Dia Mundial da Biodiversidade, afirmando que “Portugal está a viver da água que não tem”. A organização ambientalista avança também uma série de recomendações para travar o problema.

Para a  ANP/WWF é necessário conservar os ecossistemas aquáticos saudáveis e reabilitar os outros, não financiar novos regadios em zonas de escassez, nem as situações que não garantam sistemas de uso eficiente da água.

O ar

O ar nauseabundo, gorduroso, pleno de poeiras cancerígenas, não permite uma vivência condigna.

No meu entender, existem cinco grandes causas:

 – as três, excessivamente poluentes, fábricas de transformação do bagaço da azeitona tornam irrespirável todo o ar, numa zona entre Cuba e Mértola; mesmo quando as máquinas param (dois meses no verão), os depósitos, a céu aberto, mantêm um ar gorduroso e com cheiro a esgoto muito intenso, por toda a região, numa extensão de centenas de quilómetros quadrados;

– as pulverizações, constantes, com produtos químicos (muitos proibidos na Europa), a que são sujeitos os olivais superintensivos e hiperintensivos e, consequentemente as pessoas (os olivais ultrapassaram o perímetro dos povoados), tornam irrespirável todo o ar, numa zona entre Cuba e Mértola;

– as pulverizações, constantes, com produtos químicos (muitos proibidos na Europa), em toda a faixa do Parque Natural do Sudoeste Alentejano;

– as pulverizações, constantes, com produtos químicos nos amendoais, vinhas e outras culturas superintensivas;

– aquando da floração de toda esta mancha de culturas superintensivas e hiperintensivas, o pólen, contaminado por produtos altamente cancerígenos, esvoaça até atingir a respiração humana, originando graves problemas respiratórios e pulmonares.

Fortes

A indignidade maior surge na localidade de Fortes Novas.  E não sei como a escreva, de forma a transparecer a verdadeira dimensão de tão grande crime que ocorre no meu país. Ali, a morte é um bem conseguido em vida.

Definha-se, numa poluição tão intensa que não deixa ver a pessoa com quem dialogamos. São sobretudo idosos, envergonhados e doridos pela morte que chegou quando o coração ainda bate e a mente sabe que não há saída de um crime monstruoso, praticado com o consentimento dos órgãos de poder e de um país que não podia permitir esta aberração. Permanentemente, não há ar.

No início, durante 10 anos, chamavam-lhe parvos e referiam que o fumo era vapor de água. Os órgãos de poder negavam, as fábricas de transformação do bagaço negavam, as primeiras análises foram efetuadas no único dia do ano em que o vento levou a poluição. Após muita luta, por parte algumas pessoas (muitas choram no anonimato, ameaçadas ou com medo de perder o transporte, à quinta feira, que lhes permite sair da povoação) a fábrica reconheceu que o vapor de água era mais denso e construiu uma nova chaminé. No entanto, esta e as outras duas continuaram a poluir, de forma medonha, as pessoas que vivem a 200 metros (134 metros, no caso da Dona Rosa Dimas).

Devíamos combinar um dia e irmos todos, Portugal em massa, a Fortes. Acreditem, quem lá vai não precisa de análises: prefere a morte rápida a ter que respirar aquilo todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos, a todos os segundos. É, sem sombra de dúvida o crime mais hediondo que se possam praticar.

Assoam e cospem sangue, vivem enclausuradas na poluição que têm dentro de casa; evitam a rua porque intensifica estes sintomas e o ardor nos olhos e garganta. Não saem de casa, não convivem com os  vizinhos, não veem outros seres humanos, estão sós, prisioneiros do desenvolvimento económico e da ganância alheia.

Choram doridos, morreram.

Aplicaram as poupanças de uma vida num Alentejo puro e são; são idosos, viviam da reforma e das hortas; hoje, em fome envergonhada, sem recursos financeiros, estão prisioneiros e é o sangue que lhes sai das entranhas.

Finalmente, em junho de 2018, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) fez análises e deu a conhecer os resultados:

“Poluentes químicos associados a emissões confinadas e difusas”. Na composição química das partículas libertadas pela actividade da fábrica de bagaço de azeitona, foi identificada a presença de “monóxido de carbono, dióxido de enxofre, compostos cancerígenos (hidrocarbonetos policíclicos aromáticos) e outros gases (amoníaco, ácido sulfídrico e sulfureto de metilo”. Perante este e outros pareceres, incluindo um do Sistema Nacional de Saúde, foram solicitadas medidas urgentes para que estas pessoas pudessem viver, o fim dos seus dias, com dignidade. Todos os órgãos de poder empurram uns para os outros e nenhum faz absolutamente nada, desculpando-se com o vizinho: judiando com estas pessoas.

Para minimizar os efeitos negativos na população, a fábrica perguntou à população: se queriam óculos, uma capela e arranjos na escola primária. A população respondeu: a escola está fechada; não nos falta visão mas sim o ar; não precisamos rezar, são vocês que decidem se temos ou não: ar.

Há dias, ocorreu mais um congresso para se debater este tema; provavelmente ainda não sabem que aquelas pessoas estão a morrer de forma desumana e que era hoje que devia ter acabado a sua agonia.

De bradar aos céus, foi a humilhação provocada pelo senhor José Velez, vice-presidente da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo (Drapal), Em conferência, após ouvir o choro destas pessoas, disse-lhes: “desmistificar papões”; “ambiente é fundamental, mas o desenvolvimento é crucial”; “desenvolvimento tem os seus custos e as suas facturas” – ou seja, opino eu, considera aceitável o envenenamento e a morte destas pessoas em troca do desenvolvimento.

Belos políticos, é muito bem gasto os ordenados que lhe pagamos. O à vontade é tanto que nem se inibe de aprovar a doença e a morte de seres humanos, a troco de um desenvolvimento que ocorre não sabemos para quem. Terá, além do ordenado que lhe pagamos, subsídios dos capitais espanhóis envolvidos na fábrica? Algo tem que condicionar o que profere, não acredito que alguém, são mentalmente e livre de palavras empenhadas, possa transmitir concordância com este atentado à vida.

Após o congresso, a APA instalou sensores para realizar novas análises ao ar de Fortes: a fábrica, estava presente aquando foi tomada esta decisão, parou as máquinas; uma paragem que, certamente, durará até ao final das análises.

Após o congresso, outra importante medida foi tomada: enviar uma equipa de saúde para analisar a população. Em tons de estou permanentemente no telemóvel, entre mensagens e joguinhos, foi entregue, a cada idoso, um inquérito. Afinal, o estudo não pretendia saber as marcas da doença provocada pela respiração contínua de gases venosos, queria saber se a população era louca, se poderia recorrer ao suicídio e se pretendia matar os que lhe infligem tamanha aberração.

No Alentejo, brinca-se, judia-se com a dignidade e a vida das gentes.

Os solos

Ao revirar-se todo o terreno, com máquinas pesadas, para se implantar uma única espécie: permitiu-se a diminuição da infiltração de água nos aquíferos, com efeitos muito prolongados.

Desapareceram todas as rochas, incentivando a erosão e inibindo a humidade dos solos.

Modificou-se o percurso dos cursos de água e a orologia dos solos.

O não manter as coberturas de plantas rasteiras, controladas apenas pelo gado e sem mobilizações superficiais, leva à inutilização dos solos e à formação de deserto.

O desaparecimento das plantas autóctones impede: a fixação de carbono, o desenvolvimento do ecossistema e a biodiversidade.

A implementação de plantas de uma única espécie e de crescimento rápido: esgotou os solos.

A maior biodiversidade terrestre situa-se abaixo do solo, essencial para a produção de alimentos de qualidade nutricional, para a saúde da população, para a fixação de carbono nos solos (e diminuição do carbono na atmosfera). Nos solos nus, secos, movimentados várias vezes, como no Alentejo, a vida extingue-se.

Escravidão em solo português

São oriundos dos países asiáticos, beneficiam de contratos desumanos, vivem aos 20 e 30 em contentores ou casas diminutas, sem quaisquer condições sanitárias. Defecam e fazem a sua higiene nas ruas. Os patrões queixam-se que gastam muita água e luz, obrigam-nos a pagar condições que não beneficiam; por vezes, o que recebem não ultrapassa o um euro diário.

Ao fim de seis meses são abandonados sem dinheiro para regressar ao país de origem, é mais económico trazer nova remessa.

Estas pessoas, que procuram uma vida melhor, são trapos e lixo em solo português. Trabalham horas e horas, sem regalias, dobrados, agachados, sem poder desviar o olhar de um trabalho duro e inaceitável; são vítimas de racismo devido ao choque de culturas e a hábitos  (que efetuam por falta de meios para o evitar)  que distam do nosso aceitável. Um grave problema social.

Na verdade, quando os donos das grandes superfícies agrícolas dizem que os portugueses não querem trabalhar: referem-se ao facto dos portugueses exigirem o cumprimentam da lei e do código de trabalho. Referem-se ao facto de querermos trabalhar com dignidade e prestar assistência às nossas famílias. Referem-se ao facto de nós sabermos que a escravidão humana é proibida e inaceitável.

Acima de tudo, referem-se ao facto de podermos denunciar que este e aquele produto são ilegais na Europa. Os exploradores sabem que podemos denunciar práticas que violam a lei, o ambiente e a vida.

Quem lucra com as plantações superintensivas e hiperintensivas?

A EDIA, Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A, é uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos (Pública mas anónima? Faz-vos sentido? A mim: não.) e pertence ao setor empresarial do Estado. Esta empresa está na base de milhões de euros de prejuízo para Portugal. O rendimento que obtém da utilização da água não é sequer suficiente para o pagamento dos custos energéticos e, a energia representa, apenas, 20 a 40% dos custos totais. A água é vendida por preços bastante elevados, mas muito inferiores à despesa efetuada. A venda da água é realizada a menos de 30% do seu custo real (medida  ilegal pois não cumpre as normas da Diretiva dos Quadros da água). Se a água for encarecida, levará ao abandono das explorações.

A contaminação geral, a destruição do património histórico e ambiental e a inexistência da bela paisagem da planície não permitem o desenvolvimento de um turismo de qualidade.

Os empregos estão a cargo de mão-de-obra-escrava proveniente dos países asiáticos. Uma nova fonte de despesa para o nosso país: a maioria destes trabalhadores são abandonados, sem meios financeiros que lhes permita regressar ao país de origem, após seis meses de trabalho: é mais económico trazer novos trabalhadores. Portanto: o Alentejo continua sem emprego.

Em Portugal, fica a poluição e a inexistência de recursos naturais. Todos os produtos seguem para Espanha; quer seja o que resulta das poluentes fábricas de transformação do bagaço, quer seja o azeite, quer seja produto pecuário, quer seja produto agrícola. Muitos camiões destroem as nossas estradas num vai cheio e talvez volte vazio, pela noite dentro, até à vizinha Espanha. Mais um fator a ser considerado no tão falado desenvolvimento económico.

Segundo as informações recebidas e algumas verificadas através de pesquisa, no que se refere ao azeite, o que chega aos nossos hipermercados possuem rótulos enganosos. Omitem ou referem proveniência errada, tentando ocultar que provêm de espécies OMG (Organismos Modificados Geneticamente) e não tradicionais. Segundo várias mensagens recebidas, o azeite virgem não chega ao nosso mercado e os azeites que o referem, nos rótulos, são enganosos. Há quem refira que o azeite das nossas garrafas é o óleo que Espanha compra a Marrocos. Perdemos qualidade mas, para o consumidor, o azeite é cada vez mais caro.

Apesar de ser um negócio “multimultimilionário”, não é o produtor quem mais lucra. Intermediários, a partir de Espanha, vendem o azeite virgem aos países nórdicos, onde 25cl custam quase 30€.

Comummente, surge o desenvolvimento da economia de Espanha, em detrimento da portuguesa e com a menção de esgotamento total dos nossos recursos.

Espanha

Por todo o lado, surge, de forma pouco abonatória, o nome da nossa vizinha “Espanha”. As mensagens sugerem que é a Espanha que obtém os lucros do Genocídio, no Alentejo,  do seu povo. Portugal paga os subsídios, com dinheiro do Fundo Comunitário Europeu, esgota os recursos, fica sem estradas…

Muitas mensagens referem que as terras são compradas, por espanhóis, em dinheiro vivo, por 20 vezes superior ao real valor da Terra. Surgem menções a altos cargos do anterior Governo espanhol envolvidos.

Também é o Nome de Espanha que aparece associado ao desbaste pleno de todo o Património histórico e ambiental e ao excessivo uso de produtos químicos, uns proibidos pela lei portuguesa e outros proibidos em toda a Europa há mais de 20 anos. “É tanto o à vontade (referia uma mensagem) que os espanhóis, abandonam os recipientes destes produtos tóxicos, com o rótulo, perto das linhas de água e matam todos os animais que ali vão beber”.

Outras, ainda, referem que, nalgumas explorações, são retirados os rótulos para que os trabalhadores não saibam que produtos estão a ser aplicados.

Agricultores espanhóis não se cansam de repetir, em entrevistas: “Felizmente, no Alentejo, temos a Terra e a água que quisermos”. Fazendo-nos crer que este solo já não é Português.

Numa investigação mais exaustiva, encontra-se a “verticiliose”

A verticiliose é uma doença que se converteu num grande problema para a olivicultura espanhola, em especial para as novas plantações que se realizaram no país, nos últimos 30 anos. Na oliveira, a infeção provoca:  morte súbita de ramos ou de toda a árvore, ou de uma forma menos aguda,  a dessecação das flores e das folhas. A infeção que se propagou por quase todos os solos do país vizinho, levou os investidores a procurar novos solos. O Alentejo foi o destino. No entanto, é provável, sendo que as plantas provêm de Espanha, que  a doença já se tenha implantado no Alentejo e seja a causa do excessivo uso de produtos fitofármacos proibidos na Europa.

De referir que esta praga se propaga, também e facilmente, através das águas de rega.

Também, é referido, com frequência, que 99% de todos os produtos produzidos seguem para Espanha.

A matéria que resulta das poluentes fábricas de bagaço, do Alentejo, segue para Espanha e é utilizada, pelo país vizinho, em Unidades de Biomassa para o fabrico de energia: desenvolvendo, assim, a economia espanhola e não a portuguesa.

A não esquecer: são capitais, maioritariamente, espanhóis presentes nas poluentes fábricas de transformação do bagaço da azeitona.

Tanto se ouve o nome “Espanha”, e como o nosso Governo tem feito ouvidos surdos a todas as queixas que provêm do Alentejo e se demonstra incapaz de terminar com o genocídio, baseando toda a devassa em “desenvolvimento e economia”, não seria má ideia pedir ao Governo Espanhol (e ao seu Rei) explicações sobre: O Alentejo é português ou espanhol? O que se passa no Alentejo? Quem é responsável sobre o genocídio que aqui ocorre?

Não seria, ainda, má ideia perguntar à União Europeia: se tem conhecimento do GENOCÌDIO? Se sabe o que resulta da aplicação dos subsídios que paga a Portugal?

Somos portugueses ou espanhóis? Esta é uma questão que urge esclarecer, pelas bandas do Alentejo.

Conclusão

Permitimos o genocídio sobre um povo e destruímos as condições essenciais a qualquer tipo de vida, numa extensão tão grande como o Alentejo, de forma gratuita; num país que tinha todos os recursos para a economia florescer, para permitir uma vivência com qualidade e respeito por todos os seus habitantes, num ambiente de respeito pela Natureza, mantendo os seus recursos naturais:

– a universidade de Évora publicou, esta semana, uma sua experiência que prova que Portugal não necessitava deste monstro que nos evadiu e que o Olival Tradicional é muito rentável;

– as nossas ervas endémicas (utilizadas na alimentação); os produtos das hortas e explorações de pequena dimensão; o azeite, o vinho, a amêndoa, o nosso peixe (de qualidade, comprovadamente, única a nível mundial), os nossos frutos, os nossos enchidos, os queijos e presuntos tradicionais… deram bom nome ao que é português e fomentaram o interesse além fronteiras. Ao invés de se focar na qualidade dos produtos e no desenvolvimento sustentável e limpo  (no elevado valor nutricional e económico), produz a quantidade, de  forma extremamente poluente (foca-se no baixo valor nutricional e económico).  Portugal esgota os nossos recursos e as condições essenciais à vida, enganado o próximo durante algum tempo: mata o país e a possibilidade de um dia se recuperar. Andamos sempre atrasados e a copiar políticas que falharam noutros países: a Holanda, por exemplo, percebeu, a tempo, inverteu políticas e está na linha da frente de uma economia sustentável, produzindo produtos de qualidade. Em suma: se desenvolvêssemos a  produção de produtos agrícolas e derivados de primeira qualidade para países ricos ,em vez de baratos para países pobres e populosos, tínhamos um indicador de produtividade material muito superior à media da UE;

– o extinto Parque Natural da Costa Vicentina, atraía 150 000 pessoas por ano, num turismo respeitador e cívico: facto que começava a ter reflexos nas carentes finanças dos alentejanos;

– o Cante, as gentes, a arquitetura, a culinária, as praias, a simpatia, as festas, a simplicidade começavam a atrair, a todo o Alentejo, um turismo único no Mundo: sem megaconstruções ou destruição mas de recuperação da nossa identidade;

– desaparecem, montados, pastoreios, vegetação … a alimentação nobre dos nossos animais…

Portugal, estado membro da ONU, assinou e viola, com as políticas que adotou e que permite que ocorram,  os 17 objetivos, da ONU em prol de um desenvolvimento sustentável.

Defende o Alentejo; defende os mares; defende o ambiente; acaba com o GENOCÌDIO:

Partilha até que a mão te doa!

Sem sorrisos;

Guida Brito

At https://navegantes-de-ideias.blogspot.com/

Carga fiscal atingiu em 2017 um dos níveis mais elevados desde 1995

Antonio Costa-e-Jerónimo2-1060x594
Total de receitas de impostos e contribuições sociais ascendeu a 67 mil milhões de euros em 2017, contra 63,6 mil milhões em 2016

A carga fiscal aumentou em 2017 face ao ano anterior e atingiu 34,4% do Produto Interno Bruto (PIB), um dos valores mais altos desde pelo menos 1995, divulgou nesta sexta-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE). Segundo dados atualizados do INE, a carga fiscal, que inclui receita de impostos e contribuições efetivas, subiu de 34,1% em 2016 para 34,4% em 2017, igualando assim o valor registado apenas em 2015, último ano do Governo liderado por Pedro Passos Coelho.

O total de receitas de impostos e contribuições sociais ascendeu a 67 mil milhões de euros em 2017, contra 63,6 mil milhões em 2016. Em maio, o INE tinha estimado uma carga fiscal de 34,7% em 2017 e de 34,3% em 2016, revendo agora em baixa estes valores no âmbito da segunda notificação a Bruxelas do Procedimento por Défices Excessivos. No mesmo documento, o instituto avança que o crescimento da economia referente aos anos de 2016 e 2017 foi de 1,9% e 2,8%, respetivamente, acima do previsto.

O conceito de carga fiscal define-se pelos impostos e contribuições sociais efetivas (excluindo-se as contribuições sociais imputadas) cobrados pelas administrações públicas nacionais e pelas instituições da União Europeia.

At https://expresso.sapo.pt/

Câmara Municipal de Nisa não vai participar no 2.º Congresso AMALENTEJO

AMALENTEJO_-1

PROGRAMA-page-001

PROGRAMA-page-002

265 Congressistas são esperados este fim-de-semana em Castelo de Vide no 2º Congresso AMAlentejo/Semeando Novos Rumos

É já este fim-de-semana, no Cine-Teatro Mouzinho da Silveira, em Castelo de Vide, que irá decorrer o 2º Congresso AMAlentejo, com o lema “AGIR NO PRESENTE/PLANEANDO O
FUTURO”.

“Alentejo: Poder Local e Descentralização”, “Desenvolvimento Económico, Social e Cultural – Projetos Estruturantes para o Alentejo – Portugal 2020 e Portugal 2030” e “A Palavra aos Partidos, pelo Alentejo” são os painéis que irão compor estes dois dias de debate em prol do Alentejo.

A sessão de abertura, marcada para as 10h30, contará com a palavra de António Pita, Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide, João Proença, Presidente da Direção da Casa do Alentejo que estará em representação da Comissão Organizadora deste 2º Congresso, e Pedro Soares, Presidente da Comissão Parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território, Descentralização, Poder Local e Habitação, em representação de Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República.

Ao longo do dia 30 de junho serão várias as personalidades de reconhecido mérito que farão a introdução do 1º e 2º Painéis, estando assegurado o espaço para a intervenção dos congressistas que manifestaram, previamente, essa intenção, sendo posteriormente aberto o debate.

O dia 1 de julho será reservado às intervenções dos Partidos Políticos com assento na Assembleia da República, estando confirmados, até ao fecho do presente programa em anexo, os seguintes representantes: Telma Saião pelo Partido Ecologista “Os Verdes”, António Batista pelo CDS – Partido Popular, José Carita Monteiro pelo Bloco de Esquerda, João Dias Coelho pelo Partido Comunista Português e António Costa da Silva pelo Partido Social Democrata.

A sessão de encerramento do 2º Congresso AMAlentejo está prevista para as 12h30 do dia 1 de julho, com os discursos de António Pita, Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide, e Ceia da Silva, Presidente da Turismo do Alentejo (ERT), que estará em representação da Comissão Organizadora deste 2º Congresso.

At http://www.amalentejo.pt/

 

Rede Aldeias Históricas de Portugal sem dinâmica

Castelo MENDOBOA3-1024x683
A Rede de Aldeias Históricas de Portugal tem uma “fraca dinâmica” e sofre de “alguma estagnação”, conclui um estudo universitário, que nota também que os 60 milhões de euros em investimento não conseguiram estancar o despovoamento.

Mais de 20 anos depois da criação das Aldeias Históricas de Portugal e do investimento que começou a ser feito nos 12 locais situados na Beira Interior, o estado atual da rede é de “fraca dinâmica e até de alguma estagnação”, conclui a tese de doutoramento de Paula Reis, realizada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Para a investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade de Évora, há várias variáveis para esta estagnação, como um excesso de municipalização da rede, que foi apoderada “por interesses do poder local”, o que provocou, como consequência, um desinteresse de privados, que acabam por se afastar da estrutura.

No terreno, Paula Reis identificou também “uma ausência de cultura de parceria”, estando cada um a trabalhar por si, e a sobreposição de outras marcas, como as Aldeias do Xisto ou o Vale do Côa.

“Tentam ir a jogo a todas as marcas e depois não estão em nenhuma”, constatou.

As 12 aldeias integradas na rede são Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Nova, Linhares, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso.

O investimento inicial nestas aldeias (Belmonte e Trancoso foram apenas incluídas em 2003) foi “elevadíssimo na componente material”, nomeadamente nas infraestruturas básicas (canalização, água, luz), mas também em arranjos urbanísticos, recuperação de fachadas e criação de alguns hotéis e pequenas empresas, contou à agência Lusa a investigadora.

Com apoio de fundos comunitários, entre 1994 e 1999, foram investidos 26 milhões de euros e, entre 2000 e 2006, houve uma continuidade do investimento (já com Belmonte e Trancoso incluídos na rede) de 18 milhões de euros.

Com a mudança de quadros comunitários, o investimento passou a focar-se na componente imaterial, entre 2007 e 2013, em que estavam aprovados 100 milhões de euros até 2015, mas que foram “apenas executados 25 milhões de euros” – uma consequência da crise financeira que surgiu em 2008 e também do surgimento da associação da rede, cuja entrada se atrasou e que só ficou operacional em 2011.

Se, por um lado, houve uma melhoria significativa em termos de infraestruturas básicas nas aldeias abrangidas, a falta de investimento material entre 2007 e 2013 criou uma descontinuidade na requalificação das localidades.

“Causou um choque. As operações anteriores tinham lavado o rosto das habitações, que estavam desabitadas, com árvores a crescerem lá dentro, com o telhado a cair e paredes caídas. Hoje, estamos a voltar a essa fase”, sublinhou Paula Reis.

Atualmente, já se notam casas com telhados outra vez a cair e janelas com vidros partidos, face à quebra no investimento. Para além disso, face à especulação imobiliária nestas aldeias históricas, há casais jovens que são levados a escolher residência fora da aldeia, afirmou.

Segundo Paula Reis, a esta situação soma-se a ausência de serviços como farmácia, centro de saúde ou transportes públicos, que também não ajuda a estancar o despovoamento da maioria das aldeias.

O diagnóstico das 12 aldeias, com base em dados entre 2001 e 2011, deixa transparecer a situação de despovoamento: a percentagem de jovens recuou 3,69%, a população idosa aumentou 2,16%, há três aldeias que não registaram qualquer nascimento (Idanha-a-Velha, Castelo Rodrigo e Piódão) e, dos 7.885 edifícios recenseados, 24,5% necessitavam, em 2011, de reparações.

Em dez anos, as doze aldeias perderam, no total, 683 pessoas, havendo casos de grande recuo populacional como Castelo Mendo (-35%), Monsanto (-28,5%), Sortelha (-23,3%) ou Piódão (-20,5%).

Na tese de Paula Reis, são desenhadas várias estratégias para o futuro pelos diferentes atores que entrevistou – habitantes, neo-rurais, visitantes, municípios, associações, CCDRC, entre outros – e que foram validadas por um grupo de especialistas.

As estratégias apontam para a criação de uma estrutura de missão independente, em permanência no território, mobilização dos atores para o desenvolvimento de estratégias de animação do território, qualificação da oferta turística, alargamento dos canais de promoção da rede e criação de novos produtos e práticas com base nos recursos locais.

A investigadora espera agora que este trabalho possa servir de “auxílio para o desenho do próximo quadro comunitário” e influenciar a intervenção na rede.

At https://www.dn.pt/

O Padre Constantino

padre_constantino
Nasceu e cresceu num lugar onde a Igreja sempre teve um papel preponderante, mas hoje, às manifestações religiosas o governo responde com balas.

Constantino Buapale Malu, ou padre Constantin, como se apresenta, é um dos três sacerdotes missionários, da Congregação do Verbo Divino, a exercer o seu ministério pastoral em Nisa, na Diocese de Portalegre e Castelo Branco. Partilha esta missão, in solidum, com os também missionários Joaquim Valente e Jomy Jonh. Nasceu em Mikalayi, na Província do Kasai-Ocidental, na República Democrática do Congo. Chegou a Portugal em 2004, com uma parte da licenciatura em filosofia na bagagem, tendo feito cá a parte da teologia, na Universidade Católica. Acabou os estudos em 2008 e foi ordenado diácono em 2009. Em 2 de maio de 2010 foi ordenado padre, em Kinshasa, na presença daa família. O trabalho missionário apontou-lhe novamente o caminho de Portugal, onde começou a trabalhar no distrito de Castelo Branco, no Tortosendo. Em 2013 foi destacado como pároco in solidum para a paróquia de Prior Velho, em Lisboa, e desde 2016 que foi nomeado para Nisa.

Ser missionário é ser cidadão do mundo, e, neste momento, a casa do padre Constantino é Nisa, mas o coração e a preocupação continuam na casa natal, onde o governo, para se manter no poder e não marcar eleições, começou por fazer braço de ferro com a oposição, mas acabou a perseguir a Igreja, entidade que sempre teve um papel preponderante naquele país, tendo inclusive sido chamada a mediar um acordo entre governo e oposição. O acordo fez-se, mas não saiu do papel, e agudizou-se com a morte do chefe da oposição. “A Igreja manifestou o seu desagrado, defendendo que o povo devia tomar a decisão nas suas mãos”, conta, lembrando que, nesse sentido, o conselho laico dos cristãos organizou três manifestações, em que morreram sempre muitas pessoas, mas na última, em janeiro, o cardeal do Congo (que faz parte do conselho papal) disse: Os medíocres saiam e deixem lugar àqueles que têm capacidade para governar o país”. Uma frase que teve o efeito de “uma explosão” e que já resultou na morte “de muitas pessoas, muitos padres, muitas freiras. Os militares vão às igrejas, com armas, e matam as pessoas. O terço e a bíblia são as armas dos cristãos nas manifestações às quais os miliares respondem com as armas de fogo”. Não concordar com o governo significa poder morrer. “A vida do povo congolês e a dimensão da ação da igreja despertou o interesse de muitas pessoas no mundo, incluindo da Igreja Universal, com o próprio Papa Francisco a fazer um apelo a todos os cristãos para rezarem pelo Congo”, recorda ao Reconquista. “Sou congolês, mas neste momento a minha casa é Nisa. No Congo sou uma visita”, reitera, considerando viver a sua atual pastoral num ambiente calmo, próprio dos territórios desertificados do interior, mas “a realidade da pastoral, as dificuldades, acabam por ser as mesmas em todas as paróquias. A nossa missão é encontrar soluções para superar essas dificuldades”. Contudo, estas dificuldades com que se cruza atualmente no Alto Alentejo, contrastam com as da República Democrática do Congo. “Portugal é um país democrático, que estabeleceu linhas de conduta entre o Estado e a Igreja e cada uma das partes respeita as suas prorrogativas, ao contrário do seu país. O Congo tem uma dimensão gigantesca. A guerra no leste do país, que envolve não só os rebeldes congoleses, como outros de países vizinhos, alastraram-se até ao centro”. E neste universo, “as crianças são as mais martirizadas”, uma realidade na província de Kasai Ocidental, motivada pela morte de um soba, em 2016, pois as suas milícias continuaram a luta e o governo acredita que as crianças e jovens são portadores de um “feitiço”, para matar os soldados. Então, “o Governo mandou matar inocentes, sobretudo as crianças, por acharem que eram os que tinham um poder natural sobre eles”. No ano passado visita a sua cidade e constatou que o ambiente é catastrófico. “Vi muitas crianças órfãs, muitas viúvas abandonadas, falta de comida, tanto que os Médicos Sem Fronteiras, além da saúde, ajudam as pessoas a encontrar o que comer e o que beber”. A situação não está bem, “pelo que o Papa pediu para todos rezarem pelo povo congolês. Mas também a nossa Diocese se interessou por esta situação e o donativo para ajudar a criar um Centro de Saúde para ajudar as crianças que já não têm ninguém para cuidar delas e sofrem de má nutrição é muito importante”. Pode ser apenas uma gota no ma de ajuda que se precisa, mas todas são bem vindas. “O desejo é que os cristãos vivam a caridade entre eles, mas não só, porque a caridade começou com a Igreja no segundo século, e esta é uma maneira também de contribuirmos, porque não sofremos na pele aquela atrocidade, mas sofremos no coração, daí o contributo como irmãos.

AJUDA Recorde-se que o bispo de Portalegre e Castelo Branco anunciou que, este ano, 75 por cento da renúncia quaresmal da Diocese será doada à Arquidiocese de Kananga, Província do Kasai Central, na República Democrática do Congo, e ao Fundo Social Diocesano, gerido pela Cáritas, para ajudar a construir um Centro de Saúde na Arquidiocese de Kananga. D. Antonino Dias explicou que o é, sobretudo, “socorrer as crianças roubadas às famílias” e que foram usadas como soldados ou que perderam os seus pais na guerra. O restante valor desta partilha solidária dos fiéis da Diocese, recorde-se, vai reverter para o Fundo Social Diocesano que é gerido pela Cáritas e que “prestou todo o seu apoio à reconstrução”, e a outros gastos inerentes, de 14 casas de primeira habitação que arderam nos incêndios do verão de 2017, na zona do Pinhal.

Quanto aos gestos solidários, são consubstanciados no dom da fé que “não espera recompensa para dar o passo, não exige retribuição para se comprometer. Ao dom recebido responde sempre com a entrega confiante. É motivação, confiança, liberdade e compromisso. Nunca obrigação”. O próprio Papa Francisco convocou, na primeira sexta-feira da Quaresma, uma jornada mundial de oração e jejum papel paz, tendo em mente a República Democrática do Congo e o Sudão do Sul, comunidades que vivem em sobressalto, devido aos conflitos armados, mas que poucas vezes são notícia ou lembrados na Comunicação Social.

Lídia Barata

At http://www.reconquista.pt