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Artigo de opinião: “Será que não aprendemos nada?”

António Tereno - BarrancosTerminado 2019, com tudo o que teve de bom, ou de mau, não será tempo de reflectir, analisar situações menos boas para a tauromaquia, como o sistemático adiar de decisões firmes que deveriam ter sido tomadas em defesa desta Cultura que nos continua a apaixonar, e que muitas vezes tão descuidada por nós é?

Parece-me que muito do que neste espaço dissemos, e das propostas que apresentámos, caiu em saco roto! Não houve coragem para “pegar o toiro pelos cornos”, de dizer alto e bom som o que queríamos, que futuro desejaríamos para o mundo dos toiros, se calhar perdemo-nos pelo caminho. Mas será que assim vamos a algum lado?

Após o imbróglio da situação vivida na Direcção da RTP, com afirmações de determinados responsáveis a defender o corte nas transmissões de corridas de toiros de forma prepotente, como se voltássemos a uma ditadura encapotada. Ditadura de opinião com claro menosprezo das regras democráticas através da apropriação de um importante órgão de comunicação social como a televisão pública, neste caso manobrada por homens de mão do animalismo. Sempre com o beneplácito da ministra da “incultura antitaurina”, a mesma que eu através de Carta Aberta, datada de 1-11-2018, pedi que se demitisse por ter ofendido a Tauromaquia no seu todo – claro apadrinhada pelo Primeiro-Ministro que tendo-se aproveitado desta cultura e da sua projecção em determinada altura, agora que já está no poder a renega. E que vivam os princípios morais!

Agora é proposta uma nova direcção presidida pelo jornalista António José Teixeira, que esperamos respeite todos os que gostam de ver corridas na televisão pública.

Tristemente, voltamos ao Index (instituído em 1559, no Concilio de Trento) da Inquisição de triste memória, á censura nua e crua?

Agora toca-nos a “fava” do aumento do IVA das touradas para 23%, o inevitável e cínico retorno da proposta, agora subtilmente integrada no OE 2020 a ser discutido e aprovado na Assembleia da República, com o apoio dos que mais combatem tudo o que lhes cheira a taurino.

Num País em que o Governo privilegia a injecção continua de milhões de euros (entre 22 a 24 ME) nos Bancos, em detrimento das melhorias na saúde, nas forças de segurança, na educação, nos salários e pensões miseráveis que nos colocam na cauda da Europa, está tudo dito! Será que o aumento do IVA dos espectáculos tauromáquicos vai ser a tábua de salvação do famigerado OE, ou será apenas o pôr-se de cócoras ante o animalismo?

Valham-nos as desassombradas afirmações do advogado e fiscalista Tiago Caiado Guerreiro, nas recentes Jornadas Parlamentares do PSD sobre a dita medida que consta da proposta do Orçamento de Estado: “As corridas de toiros são algo com mais de dois mil anos e que está representado na nossa História. Como é que se pode acabar ou através desta medida perseguir as touradas? Podemos não gostar delas mas não se destrói assim a cultura. Não há direito.”

Mostra-nos também o maquiavelismo com que o Governo encara a nossa realidade taurina, e como “manda ás malvas”, esta forma de expressão cultural, sem qualquer pudor, e apesar de estar consagrada na nossa Carta Magna, a Constituição Portuguesa. Uma vez mais ficámos a dormir!

Deveríamos ter visto todos no Canal TOROS, o excelente e pedagógico debate moderado pelo jornalista Rúben Amón e que contou com a participação do matador de toiros Luís Francisco Esplá, o Presidente da Federação de Peñas Taurinas da Catalunha Paco March, e o escritor e filósofo francês François Zumbiehl. Com tais intervenientes o debate foi esclarecedor, teve a qualidade que hoje falta nos nossos debates/colóquios, definiu a realidade taurina como se vive em Espanha, França, Portugal e América Latina e o importante papel dos municípios franceses na preservação da tauromaquia citando como exemplos a diversidade politica dos Maires de Arles (comunista) e Béziers (extrema direita), ambos defendem a mesma Festa e reivindicam a afirmação de identidade cultural do sul de França. Formas de ver e sentir a tauromaquia, a população destas zonas tem um sentimento de pertença, a Festa é algo seu e participa activamente.

Mais, alguém disse que a tauromaquia é cultura popular e deveria viver alheia ás ideologias políticas. Todos participam, todos sentem e vivem a corrida, porque ela faz parte da vida da cidade!

Aqui ao lado, em Espanha, a capital e referência do toureio apeado, com a formação do novo governo do socialista Pedro Sánchez, e com o líder do Unidas Podemos Pablo Iglesias com Vice-Presidente, devemos preocupar-nos seriamente pelo que se avizinha, tendo em conta que este político é um animalista confesso e opositor a tudo o que seja tradição popular!

Os ventos que correm não são bons, em todo o mundo taurino sucedem-se os ataques organizados e violentos contra a nossa forma de estar e viver esta arte ligada aos toiros. Quero ser optimista, mas estaremos devidamente organizados para responder aos mesmos? Tenho sérias dúvidas, e apenas responder não basta.

É preciso tomar a iniciativa, ou será que ainda não aprendemos nada?

António Sereno

At https://toureio.pt/

Crónica: “Esta “doença” dos motores”

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São os momentos negros que nos fazem ponderar sobre o que fazemos e para onde vamos. São as tragédias que nos fazem reflectir sobre as nossas escolhas.

“Com o sucesso, não aprendemos absolutamente nada. Com fracassos e contratempos, é possível tirar conclusões”, disse Niki Lauda, que nos deixou no ano passado, depois de uma vida recheada de sucessos, mas também de momentos difíceis. São momentos como o de ontem, com a notícia da morte de Paulo Gonçalves, que nos fazem parar para pensar.

O desporto motorizado é um dos mundos mais competitivos e difíceis, onde para ter sucesso não chega apenas ter talento. Para se chegar ao topo é preciso uma mistura de ingredientes especial, que não se encontra facilmente. O esforço, a entrega e os sacrifícios que se fazem, têm de ser “servidos em quantidades generosas” e nem sempre dão os frutos desejados… ou merecidos. Muitos foram os que tentaram e não conseguiram. Poucos foram os que conseguiram de facto deixar uma marca indelével.

Mas para quê? A troco de quê, tantos dão sangue suor e lágrimas, às voltas num circuito, ou a percorrer troços, a velocidades que fariam o comum dos mortais ficar congelado? Alguns pensarão que é apenas a busca da adrenalina, outros apenas a procura do reconhecimento ou do sucesso. É muito mais que isso. É uma luta pessoal em busca de ser cada vez melhor.

Ao ver a notícia da morte de Paulo Gonçalves foi-me impossível ficar indiferente, tal como a grande maioria dos portugueses. Admito que a minha “praia” é a velocidade e tudo o que implique um pouco mais de pó, não me atrai tanto, mas reconheço a valia, talento e coragem dos homens e mulheres que tentam chegar ao fim do mais duro rali do mundo. E sempre admirei a postura de Paulo Gonçalves… que sorte tivemos em tê-lo como representante das cores lusas. Um homem que nunca virou a cara à luta, que mostrou uma resiliência e determinação ao alcance de poucos, em especial no Dakar, uma prova que foi sempre algo ingrata para ele e que merecia ter vencido.

O seu currículo invejável, com inúmeros títulos conquistados, diz pouco sobre o homem, que nunca desistiu e sempre tentou até ao fim, apesar das dificuldades. Na minha mente fica a imagem recordada por João Carlos Costa nas suas redes sociais, de uma queda de Paulo Gonçalves em 2016. Uma queda violenta, que deixaria por terra qualquer um. Mas Gonçalves nem um segundo ficou no chão. Levantou-se logo, pegou na moto e seguiu. E talvez seja isto que nos deva ficar na memória. Um herói, que percorreu os troços mais difíceis, sempre com uma determinação inabalável, e que a cada queda respondeu com uma dose ainda maior de determinação.

Talvez seja isto o desporto motorizado… uma caricatura a alta velocidade da vida, em que os maiores nomes serão provavelmente os maiores exemplos de como andar neste mundo. Talvez seja esta superação constante dos artistas que nos faz gostar “disto” e dá sentido a este desporto. Burce McLaren disse uma vez “fazer algo bem vale tanto a pena, que morrer a tentar fazê-lo melhor não pode ser considerado loucura”.

Certamente que aos familiares e amigos esta consolação servirá de pouco num momento de tanta dor, mas no futuro, a certeza de que Paulo Gonçalves foi o verdadeiro exemplo do que é o espírito do Dakar e que o seu nome será recortado para sempre, será motivo de orgulho e que esta busca incessante pela vitória será inspiração para muitos. E isto não pode ser considerado loucura. Paulo Gonçalves e muitos outros artistas dos motores, serão recordados durante muito anos… a “imortalidade” é o prémio pelas suas conquistas e mais que isso, pela sua postura. A nós, resta-nos dentro das nossas possibilidade, pelo menos tentar seguir estes exemplos e recordar os seus feitos. E se assim for, talvez tudo isto, esta “doença” dos motores, faça mais sentido.

Fábio Mendes

At https://www.autosport.pt/

Feriado Municipal em Elvas

Elvas feriado

Os 361 anos da Batalha das Linhas de Elvas contam com um programa diversificado e que decorre ao longo do mês de janeiro, com diversas atividades previstas e em várias vertentes.

As iniciativas têm início no dia 14, terça-feira, feriado municipal, pelas 9.30 horas, com o hastear das bandeiras, nos Paços do Concelho, com a participação da Banda 14 de Janeiro. Meia hora depois, no Sítio dos Murtais, decorre a romagem ao Padrão comemorativo da Batalha das Linhas de Elvas e a Cerimónia de Homenagem aos Mortos, e, pelas 10.30 horas, a romagem ao Túmulo do General André de Albuquerque Riba-Fria, no Convento de São Francisco.

As cerimónias militares e militarizadas, na Praça da República, têm início pelas 11 horas, seguindo-se pelas 12 horas, o desfile das Forças em Parada, na Rua da Cadeia.

À tarde, na Igreja da Sé acontece um Te Deum de Acção de Graças, com a participação do Coro Beato Aleixo Delgado e presidido por sua Excelência Reverendíssima Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, a partir das 18 horas, culminando o programa comemorativo com o já tradicional Concerto da Orquestra Ligeira do Exército, no Cine-Teatro Municipal, pelas nove e meia da noite.

Neste dia, são ainda assinalados o 142º aniversário do Centro Artístico Elvense, na Praça da República, às três da tarde, e o 65.º aniversário da Banda 14 de Janeiro, a partir das 19 horas, na sede da coletividade, na Rua Sá da Bandeira.

O programa prossegue no dia 16 de janeiro, quinta-feira, pelas três da tarde, com um intercâmbio gastronómico com o Ayuntamiento de Monesterio, no Centro de Negócios Transfronteiriço. No dia 17, sexta-feira, realiza-se a conferência| “A Loja Liberalidade (1821-1823), e a implantação do Liberalismo em Elvas”, seguida da apresentação do livro “A Maçonaria no Alto Alentejo 1821-1936”, por António Ventura, na sala polivalente da Biblioteca Municipal de Elvas Dra. Elsa Grilo, a partir das 18 horas.

O programa prossegue sábado, dia 18, com a apresentação do livro “Invocações e Exortações dos Anjos da Guarda”, de Filomena Villas Raposo, na sala polivalente da Biblioteca Municipal de Elvas Dra. Elsa Grilo, às três da tarde, e no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, pelas cinco da tarde, tem lugar a inauguração da exposição “2012 2020, Obras da Coleção António Cachola, com obras de várias dezenas de artistas portugueses. Ainda neste dia, às nove e meia da noite, acontece o espetáculo musical “100 anos de Amália Rodrigues”, no Cine-Teatro Municipal de Elvas.

A Corrida e Caminhada das Linhas de Elvas decorrem a 19 de janeiro, domingo. A caminhada, na sua 16ª edição, parte do Padrão da Batalha das Linhas de Elvas, e tem chegada no Estádio Municipal de Atletismo, pelas 10 horas. Uma hora depois tem início a 28.ª Corrida das Linhas de Elvas, também com partida do Padrão da Batalha das Linhas de Elvas e chegada ao Estádio Municipal de Atletismo. Para os escalões mais jovens, as provas da corrida têm lugar no Estádio Municipal de Atletismo.

As comemorações prosseguem a 25 de janeiro, sábado, com o espetáculo gímnico “PIROUETTE”, organizado pela Federação de Ginástica de Portugal, no Coliseu Comendador Rondão Almeida, a partir das nove da noite.

Inserido neste programa comemorativo dos 361 anos da Batalha das Linhas de Elvas, vai decorrer a I Expo Alentejo, no Centro de Negócios Transfronteiriço de Elvas, entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro.

Um programa diversificado e para vários públicos, que conta com entradas gratuitas para os eventos.

Artigo de opinião: “Ouvir Pacheco Pereira é sempre uma tourada”

rodrigo-alves-taxaRidículo, patético e sobretudo ignorante. Assim caracterizo o triste episódio anti touradas ontem à noite realizado por Pacheco Pereira no jornal da noite da TVI, querendo começar este artigo que será necessariamente muito mais longo que os que costumo escrever, fazendo um conjunto de considerações.

A primeira para com honestidade intelectual afirmar publicamente que sempre tive alguma simpatia pelo perfil de Pacheco Pereira. Sempre lhe atribuí aquela dose de irreverência e coragem que permite aos que a têm, falar dos assuntos de que outros fogem a sete pés. Nesse sentido choca-me que um homem manifestamente inteligente e na maioria das vezes educado e polido, se tenha ontem transformado, ainda que por momentos, num verdadeiro grunho. A postura que ontem apresentou Pacheco Pereira é digna de um bronco, coisa que ele não é nem nunca foi. Portanto a primeira consideração é de lamento. Pacheco Pereira tem todo o direito em não gostar de touradas. O direito que já não tem é querer impedir-me a mim de vê-las se gosto.

A segunda consideração inicial, que até se articula com a anterior, é para dizer que nesta questão da tauromaquia, o gostar ou não gostar é secundário para efeitos de observação sociológica. O gosto só se encontra na base da discussão porque naturalmente se há touradas é porque as pessoas a elas vão, e se vão é porque gostam. No entanto, no seu âmago, a questão não assenta no domínio do gosto, mas no espectro do respeito pelo outro.

Aqui chegados, a terceira consideração inicial assenta numa grande confusão principiológica que inquina por completo a discussão sobre a tauromaquia desde o seu início, urgindo por isso esclarecê-la. É que tal como Pacheco Pereira, começo a ficar com falta de paciência para certas coisas. E sobretudo quando isso me acontece sou mais azedo num só dedo que Pacheco Pereira nos dez que tem nas mãos.

Caríssimo, pode dar as voltas que quiser ao texto. Um animal não é, seja no que for, um ser igual ou sequer equivalente ao ser humano. Não há qualquer equivalência entre ambas as espécies. Um animal não tem deveres. Ao não ter deveres, não tem direitos. Não tendo direitos, a tauromaquia não viola qualquer princípio, valor ético ou moral, pela simples razão de que aos animais e para com eles, não se aplicam quaisquer exigências intelectuais que entre nós devem ser fio condutor de rectidão social.

Se eu cravar três bandarilhas numa qualquer pessoa, isso é tortura. Se eu colocar três bandarilhas num toiro, não é tortura absolutamente nenhuma pela simples razão de que não há uma equivalência criminal entre ambas as condutas. Aliás, como tem obrigação de saber, o toiro de lide, e não de morte como erradamente o caracterizou, nem sequer está dentro da categoria dos animais de estimação ou companhia, perante os quais eu admito termos uma postura diferente, pela simples razão de que com eles se criam laços de proximidade e afeição muito superiores ao animal aqui citado que não passa na verdade de uma besta.

A menos que que queira experimentar afagar os cornos a um toiro. Boa sorte com isso. Enquanto tenta eu vou continuando o meu artigo.

Ridículo – O primeiro adjectivo que escolhi para caracterizar o que ontem ouvi sobre as touradas, deve-se ao que senti ao ver um homem que entre outras facetas, por ter sido toda a vida um homem de Estado e por isso sempre ter dito defender a democracia, parecer agora esquecê-la por pura embirração ideológica.

A democracia assenta na pluralidade. Assenta também por isso no princípio de que não poderá apenas ser permitido aquilo que eu gosto, aquilo que comigo se identifica e aquilo que por mim é compreendido.  Pacheco Pereiro esqueceu-se desde logo, portanto, que um dos pilares da democracia é a igualdade, e que essa igualdade se manifesta antes de qualquer outra coisa no respeito pela diferença.

Igualmente ridículo foi ver Pacheco Pereira procurar negar que a tauromaquia não tem qualquer raiz de natureza cultural, tendo tanto quanto percebi alvitrado que nem sequer representava grande parte da cultura rural. Ou seja, além de não gostar de touradas, Pacheco Pereira parece querer ser agora o definidor do critério da cultura nacional. Lá saberá o que pretende, eu cá por mim aconselhava-o a ter mais juízo que as suas vastas barbas brancas deviam ser sinónimo de que já devia ter idade para tê-lo.

Eu sou Ribatejano, nasci em plena ruralidade com muito orgulho e com o mesmo orgulho me definirei sempre como rural. A cultura da minha terra bem como do meu distrito é eminentemente taurina, sempre vivi perto de toureiros, forcados, ganadeiros, praças de toiros, campinos, cavalos e toiros. Em criança, bati o record de número de corridas toureadas por ano quando em cima do meu cavalo de pau, o “México”, (em homenagem ao melhor cavalo do toureiro que nessa altura mais gostava de ver tourear) bandarilhava com destreza os vasos das flores da minha mãe. Fui uma criança feliz. E sou sobretudo um homem feliz.

Considero-me além disso um homem bem formado, e nada e em nada inferior ou superior a quem possa ter uma cultura diferente da minha mesmo que não a perceba. Considero-me sobretudo bem formado porque mesmo que não a perceba não a quero eliminar. Muito menos que os outros sejam iguais a mim.

 Então agora vem o Pacheco Pereira armado em pateta explicar-me a mim o que é a minha cultura? Ridículo

Mas não me fico por aqui.

Outra circunstância ridícula, é o argumento tantas vezes invocado de que várias tradições acabam. Que o coliseu romano também acabou. Primeiro há que clarificar que as tradições acabam, quando delas já não há quem goste, as represente ou execute. Em segundo lugar e muito rapidamente, há que clarificar que uma tourada é em tudo diferente dos gladiadores e do coliseu de Roma. É diferente porque no primeiro caso o homem vai de livre vontade enfrentar um animal. Já no coliseu de Roma era um homem que obrigava outro homem a ir lutar com um animal que o poderia matar. E mesmo assim, se não fosse lutar com ele, morreria na mesma.

É capaz de ser um bocadinho diferente.

Claro que tanto num caso como noutro nem o toiro nem o leão do coliseu lá iam parar por sua livre vontade. Mas isso é natural porque o gozo e fruição da vontade é uma demonstração do livre arbítrio, domínio de que só dispõe tal como o concebemos, o ser humano.

Igualmente ridículo, foi Pacheco Pereira na forma como logo no inicio do debate, perante uma questão que lhe foi dirigida sobre se era aceitável que o Estado proibisse alguém de ir a uma corrida de toiros antes de completar dezasseis anos, vir referir que não seria admissível, na medida em que o admissível era desde logo acabar com as touradas.

Portanto, ficámos todos a saber que o mesmo homem que durante anos se sentou no parlamento nacional e europeu, auferindo um ordenado que era pago por todos os portugueses, onde se incluem os toureiros e os aficionados, assumiu publica e claramente que se estava a marimbar sequer para a discussão do tema e para os seus defensores. Era acabar e quem goste que se cale. Meu caro amigo, pode esperar sentado. Não vai ter tarefa fácil. Eu próprio me encarregarei de lhe tornar essa tarefa bem difícil.

Enfim, o show continuou, e depois de todas estas ridicularias de conteúdo houve também um notório ridículo de forma, na medida em que Pacheco Pereira mais parecia um qualquer reacionário descompensado e não o homem ponderado que sempre achei que fosse. Mas aí, todos temos dias e noites infelizes. Talvez a conta do jantar de Pacheco Pereira tenha sido cara ou a ementa lhe estivesse a causar azia.

Passo agora ao patético:

Ora bem, na vida é perfeitamente aceitável, diria mesmo que desejável, que todos nós tenhamos discordâncias. Agora argumentar as nossas discordâncias, assentando-as em falácias, argumentos desleais, imprecisões ou jogos de sombras é que é uma verdadeira patetice. Pacheco Pereira foi para ali falar de touradas sem que tivesse um único argumento sólido que sustentasse a sua posição. Já antes mencionei alguns, mas vou agora mencionar outros.

A primeira patetice foi dizer que a forma como tratamos os animas diz muito da maneira como tratamos as pessoas. O que eu gostava de perguntar a Pacheco Pereira, é se considera que uma qualquer pessoa por ser aficionada é por equivalência um ofensor nato dos seus semelhantes.

Eu sou muitíssimo aficionado. Considera-me, por sê-lo, menos integro que qualquer outra pessoa que não seja?

 É que sabe Pacheco Pereira, distintamente de si, entendo que a forma como muitos destes pseudo modernos seres humanos se preocupam com os animas, o que é, é uma demonstração bem clara da maneira como hoje se encaram as pessoas. São de segundo plano. O animal deve ser protegido. O ser humano logo se vê. Veja bem que até temos partidos com assento parlamentar que defendendo que eutanasiar um animal é um crime hediondo, dizem depois que fazê-lo num ser humano é um acto de bondade.

Diz muito da nossa sociedade. Esperava mais de si.

Outra patetice foi o meu caro amigo vir afirmar que a tourada é um espetáculo público. A tourada não é um espetáculo público Pacheco Pereira. É um espetáculo de público, o que é bem distinto. É organizado por empresas privadas, abrangidas pela legislação que a elas se aplica e, portanto, é feita no exercício de uma actividade com normas e preceitos legais, a que só vai quem quer, pagando o seu bilhete de livre e espontânea vontade para lá se dirigir. Pura deslealdade argumentativa.

Já que falo de lei, outra grande patetice por si explanada durante toda a sua intervenção foi por e simplesmente omitir a força da nossa ordem constitucional na qual em vários artigos se preceitua claramente a legalidade da tauromaquia. A menos que o meu caro amigo não respeite a constituição ou defenda que se faça outra. No primeiro caso é preocupante, se se aplicar o segundo, é legítimo.

Mas a haver uma alteração, esta não pode ser feita sem ouvir o povo. Até que aconteça, continuar-se-á a cumprir a actual. Portanto, a tauromaquia é uma manifestação cultural perfeitamente legal em todos os seus parâmetros, não podendo daí ser proibida ou limitada por decreto. Mas como eu sou boa pessoa, e sobretudo porque sei que o meu caro amigo não é jurista, aconselhava-lhe, nem que fosse por mera curiosidade, a leitura de alguns artigos da constituição.

Pode começar ali pelo princípio da igualdade para aprender o que é, depois passar para os direitos liberdades e garantias para ter uma breve noção de como tudo isto se articula e terminar dando uma passagem ali pela zona dos direitos sociais económicos e culturais. Se no fim da leitura ficar com dúvidas eu dou-lhe umas aulas de Direito Constitucional. E posso dar-lhe também uma de Introdução ao Direito para perceber juridicamente o que é o costume.

Veja bem que estou a dizer que lhe dou umas aulas. Não lhas cobro. Afinal um aficionado pode ser uma pessoa de bem.

Outra patetice:

A dada altura Sousa Tavares disse e bem que se o toiro de lide não fosse toureado por e simplesmente deixava de existir. Ora o Pacheco Pereira, pateticamente, transmitiu que pouco lhe importava o destino dos toiros se a sua existência assentasse no fim tourada. Portanto o caro amigo está tão, mas tão preocupado com um animal, que prefere que ele não exista, a existir para um fim com o qual não concorde.

Grande lógica. Como lhe chamaria um antigo professor meu, é a lógica da batata. Ou seja, desculpem-me todos o termo, uma lógica de merda.

Pelo reino das patetices podia continuar, dizendo que é patético haver partidos que querem colocar como idade mínima para assistir a uma tourada os dezasseis anos porque antes disso a pessoa não tem o carácter suficientemente desenvolvido para saber o que quer e não quer, mas em detrimento, defendem que muito antes disso já se tem a capacidade suficiente para decidir sobre a mudança de sexo; que patético é dizer que o sangue de uma tourada choca, mas que já não choca o sangue que se vê nos filmes, em determinados jogos ou mesmo em alguns desportos.

Não o vou fazer e passo ao último adjectivo; o ignorante.

O ignorante é aquele que não tendo conhecimento suficiente sobre determinada matéria, dela ignora a sua essência. Ora quando se é ignorante sobre algum assunto, manda a cautela que nos calemos sob pena de fazermos figura de parvos. É que a primeira circunstância é uma inevitabilidade. A segunda já é uma escolha.

Porque é que digo que Pacheco Pereira é um ignorante? Eu explico.

 A primeira grande ignorância foi ouvi-lo dizer que a tauromaquia é uma cultura machista. Ora certamente Pacheco Pereira desconhece que numa qualquer bancada de praça de toiros se encontram centenas e centenas de mulheres das mais variadas idades. Só se Pacheco Pereira ignora que elas lá estejam, e isso sim já é uma demonstração, não do machismo da tauromaquia, mas do seu próprio machismo pessoal.

Não obstante, foi igualmente ignorante, porque ou não sabe ou propositadamente procurou omitir, que na actualidade há pelo menos, assim que me lembre de repente, seis cavaleiras tauromáquicas no activo. E já que gosta de colecionar papéis, faça uma busca sobre cartelaria taurina e verá que já aí pelas décadas de 50, 60 e 70, existiam mulheres cavaleiras e até toureiras a pé.

Se não encontrar eu mostro-lhe.

Claro que o mundo taurino de então era machista. Como foi durante séculos o mundo político, académico, social e todos os outros. Tudo teve a sua evolução e a mulher chega à tauromaquia como chegou a qualquer outra área de actividade da sociedade. Mais tarde que os homens.

Amigo Pacheco, mais tento na língua se faz favor que ninguém tem que ser obrigado a aturá-lo, sim?

Outra ignorância foi ouvi-lo dizer que a cultura tauromáquica, dentro desta sua visão machista, era uma cultura em que o homem se gostava de armar em valente perante o toiro, eventualmente digo eu, para mostrar aos seus pares e às senhoras que é muito viril e valente. Portanto ser valente é agora sinónimo de ser machista. Eu sempre vi a valentia como uma característica sem sexo. A valentia e a cobardia. Eventualmente enganei-me.

Desta forma não compreendo esta argumentação e muito menos de que maneira ajuda a mesma a debater seriamente o tema. Ou melhor, compreendo. Esta argumentação é própria de quem por mero capricho pessoal e ideológico que sobrepor a sua opinião à dos outros nem que para isso tenha de aplicar toda e qualquer artimanha dialética por ausência de qualquer nível de razão.

Como isto já vai longo, e antes mesmo de terminar com uma preocupação e um desafio, deixo aquela que vi como a última e mais grosseira demonstração de ignorância da sua parte. Oh caro amigo, em Portugal não há toiros de morte desde o reinado de D. Maria II, exceptuando o caso de Barrancos, numa decisão maioritariamente assente no tal costume como fonte de direito que já lhe aconselhei que estudasse. Toiros de morte é em Espanha.

Então o caro amigo vem discutir um tema quando nem sequer o saber caraterizar e delimitar correctamente?

 Não sei que lhe diga.

Olhe por aqui me fico. Mas tal como disse, faço-o manifestando uma preocupação e fazendo um desafio. A preocupação é porque acho que algum trauma deve o meu amigo ter tido ou com as touradas, ou com algum toiro, ou mesmo com algum agente da tauromaquia, com qualquer coisa. Só assim percebo a sua descompensação e completo desrespeito pelos muitos milhares de aficionados portugueses.  Veja lá, se o poder ajudar a ultrapassar isso, diga-me, por favor.

O desafio que lhe lanço, e porque manifestamente ainda que tenha tentado, Sousa Tavares não lhe soube dar as respostas mais correctas porque tal como disse, deve ter visto aí umas seis corridas na vida, desafio-o para numa qualquer televisão, rádio, restaurante, café, sala de reuniões ou qualquer outro local, vir debater comigo, ponto por ponto, a tauromaquia. Até porque certamente muitos acharão que pessoalmente não lhe diria tudo isto que hoje aqui escrevi, e eu gostava de lho dizer de viva voz.

 Estou à sua inteira disponibilidade, no local e formato que a si mais adequado lhe parecer.

Olhe, em linguagem taurina, obviamente apelando ao seu sentido de humor e metaforicamente falando, coloco-me de praça a praça e dou-lhe a primazia da investida.

Rodrigo Alves Taxa

At https://ionline.sapo.pt/