Artigo de opinião: “Mas o que é isto de festas ilegais?”

Adolfo-Mesquita-NunesVamos lá ver se nos entendemos: este conceito de festa ilegal que as autoridades públicas agora criaram não passa de um artificio para descartar quaisquer responsabilidades na persistência do surto pandémico. Pior do que um artificio: começaram a criar o muito provável bode expiatório, em particular os jovens.
As autoridades públicas sentiram-se à vontade para autorizar celebrações e manifestações, sempre com desculpas mais políticas do que sanitárias, e queriam o quê? Que o resto das pessoas não olhasse para o despropósito de ajuntamentos ao arrepio das regras que se aplicam a todos e não ficasse a pensar que a coisa afinal não passava de um exagero?
As autoridades públicas, a reboque de todas as iniciativas políticas do Estado, sempre prontas a dizer que não há qualquer problema nisto ou naquilo desde que lá esteja um membro do Governo a enfeitar ou a mandar, esperavam o quê? Que o resto das pessoas achasse que precisava de convidar um membro do Governo para a sua celebração, para a sua comemoração, se tornar legal, aceitável?
Desde quando é que é só é admissível a festa que a DGS politicamente aceita? É que a aceitação da DGS é política, note-se, porque os critérios sanitários são sempre descartados quando a DGS se pronuncia a favor de um ajuntamento.
Não estamos sequer perante a circunstância de haver um formulário a preencher por todos os que pretendam ajuntar-se, esperando por um deferimento do pedido. Isso já seria surreal.
Estamos perante coisa pior: há uma proibição geral, que as autoridades vão levantando com critérios que escapam aos critérios sanitários. Ele é porque é bom que venham turistas, ou porque há datas que se impõem, ou porque há valores que se levantam ou porque é um prémio pelo bom comportamento de Portugal.
É sempre tudo político, nunca sanitário. Estava a DGS à espera de quê? Estava o Governo à espera de quê? Que a população lhes conferisse esse poder político, esse poder de definir o que é que pode ou não celebrar-se em Portugal? Que nos remetêssemos à inaceitável condição de seres pouco livres, a precisar de um carimbo do Estado para validar a razão do ajuntamento?
E dizem-nos que há uma pandemia em curso, que nos mobiliza a todos. Há? Não é isso que parece quando os representantes políticos se passeiam, nem quando se associam a celebrações, nem quando dizem que há alturas em que se pode violar a regra, nem quando se caminha em grupo e fotografa em grupo a mostrar que o pior já passou, nem quando se usam argumentos surreais para explicar as excepções sucessivas que se vão autorizando.
É esse exemplo, esse persistente exemplo, sempre com o milagre na boca, que outra coisa não fez que não recordar-nos de que somos donos de algo que as autoridades só aceitam em alguns: liberdade.
Nem é questão de não haver milagre algum, é mesmo a insuportável arrogância de quem acha que as regras só se aplicam aos outros, de quem acha que pode cavalgar a onda quando ela parece vencida e colocar as culpas no povo irresponsável quando a onda se mostra por vencer.
Porque é disso que se trata, não tenhamos dúvidas: de construir a narrativa de que estava aí um milagre e foi o povo irresponsável que o comprometeu com as suas ilegais veleidades. Narrativa útil ao Estado, que infelizmente tem tudo para pegar porque há sempre na sociedade quem precise do conforto do culpado, do bode expiatório.
Não esperem é que não haja quem repare na estratégia: não, não foram as “festas ilegais” a comprometer o milagre. E é inaceitável que o Estado, seja por que autoridade for, venha emitir juízos morais sobre os ajuntamentos que a população decide organizar no uso da liberdade que a DGS só reconhece a alguns.

Adolfo Mesquita Nunes

At https://www.jornaldenegocios.pt/

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