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Opinião: “Berardo e o Estado”

raquel-varela_1_corAinda sobre Berardo e o Estado cumpre-me contar três histórias que conheço de quem paga estas contas. Além, claro, dos contribuintes como nós que pagamos serviços públicos que não funcionam.

A L. foi dar aulas para o Oriente, filha de pais humildes, ficaram desempregados para cortar custos depois de 2008, cortes que foram para pagar a Banca. De lá manda dinheiro para os pais. Ficámos com menos um quadro no país.

O M. da Madeira, estivador, perdeu a casa porque para lutar contra os salários baixos sindicalizou-se no SEAL- Sindicato dos Estivadores, e como retaliação foram-lhe retiradas horas extraordinárias.

E a Lídia O. que deu a cara publicamente contra a falência da Moviflor, também perdeu a casa, o emprego. Não perdeu a dignidade e ajudou a fundar uma Associação, A Casa, de defesa dos direitos dos trabalhadores.

O que é importante aqui -, além de dar voz aos exemplos de dignidade humana por oposição ao lixo moral que representa o sector financeiro -, é que não foi Berardo que desenhou o sistema legal que permitiu isto – foi o Estado. E o Estado não somos todos nós. Não nos escondamos no senso comum, que repete que o poder económico domina os Estados. Não é verdade. O poder político tem sempre a última palavra. E deu-a a Berardo. Que conservou a sua casa, a sua Associação, a sua colecção, a sua quinta, impune. Em 11 anos desde a crise nunca ninguém entrou com uma bateria de polícias e inspectores na sua casa. Mas o mesmo Estado levou uma semana a entrar na Ordem dos Enfermeiros e vasculhar as contas – abrindo um precedente gravíssimo para todos os sindicatos e ordens, com o claro propósito de amedrontar quem ousa lutar por si e pelos serviços públicos.

Raquel Varela

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Opinião: “Aumento da idade da reforma”

Sobre a proposta de aumento da idade da reforma para os 69 anos pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (Grupo Jerónimo Martins), deixo aqui o meu comentário curto:

Não existe ciência neutra, existe ciência séria. O estudo pode estar bem ou mal realizado, mas não passa a estar mal feito porque é financiado por um grupo de supermercados.

Discordo totalmente do estudo não por as contas serem enviesadas (não conheço, nem tenho razões para achar que o foram, pelo contrário) mas porque os pressupostos metodológicos do estudo, que são públicos e conhecidos, são diametralmente opostos aos meus e de vários colegas com quem trabalho na área da sustentabilidade da segurança social:

1) o estudo parte pressuposto de que não podemos aumentar os salários. Isto é, com salários de 600 euros e esta demografia a segurança social é insustentável. Eu, o Eugénio Rosa, o Pedro Nogueira Ramos e muitos outros que fizemos estudos sobre a segurança social partimos de outros pressupostos – não há um problema demográfico, nem económico. Quem reformou-se com 2 mil euros está a ser pago por quem ganha 600 euros – é isto que torna a segurança social insustentável. Isto não é um problema demográfico, nem económico, é um problema de relações laborais. Grave.

2) A esperança média de vida aumentou até aqui porque havia condições favoráveis sociais e económicas. Essas estão em decadência, é muito provável que daqui a uma década de maus salários, ma alimentação e ma saúde a EMV vá cair. Estamos ainda a celebra a revolução dos cravos e os seus efeitos, só daqui a 2 décadas vamos ver os efeitos na esperança média de vida do neoliberalismo.

3) Mesmo não contabilizando este facto a esperança média de vida é muito diferente entre quem trabalha – quem trabalha por turnos por exemplo tem menos esperança média de vida, os homens têm menos do que as mulheres, etc, pelo que fazer médias para calcular a reforma é errado. Nem todos vivemos o mesmo.

4) A esperança média de vida com saúde em Portugal é 13 anos abaixo da EMV. Ou seja os portugueses quando se reformam, e mesmo antes, estão já doentes. Aliás o que este estudo vem dizer – e essa é a conclusão – é que nenhum português vai trabalhara até aos 69 anos, mas vão entrar de baixa médica e reforma antecipada – a metade do valor – muito antes dos 69 deixando de ser um «custo» para a empresa.

5) A produtividade por trabalhador é hoje 5 vezes superior ao que era quando foram criados os sistemas de segurança social há 40 anos. Ou seja, pode haver menos 5 pessoas a trabalhar (mais 5 pessoas a ir para a reforma) por cada um que trabalha quando comparado com há 40 anos. Deve-se portanto usar essa produtividade para – no mínimo – reduzir os lucros das empresas, reduzir o horário de trabalho, diminuir a idade da reforma para os 60 ou menos.

A minha conclusão é a seguinte. A Fundação FMS (financiada pelos supermercados Pingo Doce) é um espelho da burguesia ou elites, como prefiram, deste país. Perante a escassez de força de trabalho que vai previsivelmente aumentar os salários propõem que a Segurança Social assuma os custos das empresas (ou que importemos migrantes baratos para aumentar a concorrência no mercado de trabalho – estas são as duas áreas de estudos da FMMS – aumentar a idade da reforma e aumentar o número de migrantes porque o Pingo Doce não terá força de trabalho a prazo de outra forma, mantendo os lucros). Ninguém vai trabalhar até aos 69 mas aos 55, 58, mortos vivos vão deixar de receber salário no Pingo Doce e passar a receber uma meia pensão da Segurança Social…É a eterna dependência do Estado que os grupos económicos portugueses mantêm historicamente. É, numa palavra, a incapacidade cabal de os de cima governarem, terem um projecto de país e bem estar, para o conjunto da população. É o salve-se a família Jerónimo Martins e os seus accionistas, mesmo que destruindo a Segurança Social e , por isso mesmo, a vida civilizada. Si, em sociedades urbanas, sem apoios de grandes famílias rurais, a vida civilizada é insustentável sem um forte Estado Social.

Não existe ciência neutra – mas existe ciência séria que se faz a pensar metodologicamente no bem estar geral. É essa a ciência que produzimos. Porque o bem estar colectiva é fundamento primeiro da liberdade individual. E por isso da vida civilizada.

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Opinião: “O sentido da vida são os outros, o respeito por quem trabalha”

Raquel VarelaOntem passei a manhã nas urgências do hospital do Funchal. Foram tantos os enfermeiros que passaram por mim – no SO ou nas urgências – e sorriram agradecendo «ter-nos defendido». Depois viajei na TAP, com um comissário que meteu conversa comigo, «vejo-a sempre por aqui», é que eu viajo demasiado, respondi. «Quero agradecer-lhe o estudo (pessoal de Voo) que está a fazer para nós sobre desgaste». Sorri. Uma professora abordou-me na rua «durmo descansada depois de a ler, descansa-me que haja alguém que não se resigna e que diz o que pensamos», outra disse-me «nós não temos voz». Todos os dias alguém me aborda na rua assim. Os elogios não são para mim, não faço nada sozinha. Tudo em equipa.

Vivemos na fase do elogio do homem financeiro, ainda que tenham espalhado a miséria no mundo depois de 2008. Leio nos jornais casos de mulheres de “sucesso” porque “alcançaram o topo das empresas”. É um lugar onde eu não queria estar. Queria que deixassem de existir topos. Acredito em direcções e hierarquias, em organização e responsabilidade, em trabalho sério, mas com base na democracia. O Estado, as empresas e as fábricas tornaram-se um lugar de sofrimento para quem trabalha. É uma desumanidade, uma involução que lança todos no medo. A minha quota é por isso junto da condição humana, de quem vive do trabalho. Não para distribuir roupa em segunda mão, com um ar caridoso, mas para fazer o melhor que sei e posso para que as pessoas se sintam com força para mudar a vida, e mudar o mundo onde vivem – só assim se muda a vida, não há ioga que substitua a necessidade de mudar as tremendas condições económicas que vigoram no mundo. O sentido da vida são os outros, o respeito por quem trabalha. Uma ex operária ontem num debate onde estive na Universidade da Madeira disse do público, com um vigor contagiante: «Estou farta de ONGs e caridade, de ordenados de 600 euros e aumentos de 2%, da facilidade com que se luta por caridade, farta! deve-se viver com direitos, de cabeça erguida.». Obrigada a vós.

Raquel Varela

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Crónica: Portalegre – “Sindicatos esmiúçam números do desemprego”

Crónica Linhas

Os dados mais recentes do número de desempregados nos centros de emprego mostraram, no país e na região, uma diminuição do desemprego no segundo trimestre deste ano face ao mesmo período do ano passado.

O caso do concelho de Elvas foi amplamente divulgado em que, de acordo com o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), existiam menos 464 desempregados em Julho deste ano face a igual período do ano transacto.

Nas redes sociais a análise a estes números geraram diversos comentários e apreciações distintas quanto às razões para a diminuição do desemprego, um dado que agora quisemos esmiuçar junto dos sindicatos, nomeadamente através dos responsáveis distritais da União de Sindicatos do Norte Alentejano/Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (USNA/CGTP-IN) e da União Geral de Trabalhadores (UGT).

Marco Oliveira

“O principal é as gentes do distrito terem trabalho”

O presidente da UGT no distrito de Portalegre, Marco Oliveira, revela que a existência de menos 1388 desempregados no distrito, comparado com o período homólogo, deve-se “à iniciativa privada e aos incentivos de algumas câmaras municipais, e não às medidas do Governo para o Interior.”

Marco António Oliveira traça o que cada uma das três cidades com mais habitantes no distrito de Portalegre está a fazer para diminuir o desemprego.

A descida do desemprego em Elvas é um ponto “positivo” para o responsável, argumentando que “isso não se deve a um acréscimo de medidas que o Governo possa estar a tomar para o interior do país. Continuamos a ouvir muito boas intenções, mas na prática não estamos a assistir a nada de visível”.

O concelho de Elvas poderá ser um caso paradigmático, em relação ao distrito de Portalegre, porque “existem formas de ocupar as pessoas e de as retirar dos locais onde estão afectas como desempregados. “Há gente que está neste momento a desempenhar determinadas funções na Câmara Municipal que, se calhar, não tem o rendimento que gostava de ter a nível financeiro, mas independentemente disso é uma forma de ocupar as pessoas e de lhes dar algum rendimento. A realidade é essa”, realça Marco Oliveira.

O presidente da UGT distrital revela ainda ter falado com alguns trabalhadores da Marktel, empresa espanhola que gera emprego em Elvas. “Sei que há determinado tipo de situações que não estão muito bem no que diz respeito à relação entre a empresa e os trabalhadores. O que é que eu quero dizer com isto? Estou a falar da precariedade, algo que diminui o desemprego, mas que levanta outros assuntos como o tipo de trabalho que temos no distrito, está tudo satisfeito, não existem maus-tratos (entre aspas) aos trabalhadores? Isso é que é preciso perceber”.

Para Marco António Oliveira o principal desígnio é as gentes do distrito “terem trabalho”. O responsável destaca o papel que Ponte de Sor tem tido ultimamente com a aeronáutica e que se traduz na geração de postos de trabalho, mas lamenta que Portalegre, enquanto sede de distrito, continue “a definhar” e, por isso, “não será dos melhores exemplos”.

Enquanto responsável distrital da UGT, para Marco Oliveira é importante a descida do desemprego, mas igualmente fulcral saber “como estão as pessoas, se vivem com qualidade, se a precariedade é demasiado elevada para aquilo que se pretende, portanto, nós temos que defender a região, porque se não formos nós ninguém a vai defender”.

Helena Neves

“Número de ocupados deturpa números do desemprego”

A coordenadora da União de Sindicatos do Norte Alentejano (USNA), Helena Neves, afirma que a CGTP-IN regista “como positivas” as notícias veiculadas acerca da diminuição do desemprego e aumento do emprego.

“Acerca da realidade nacional as preocupações da CGTP-IN são conhecidas e relacionam-se com a qualidade do emprego que está a ser criado. A precariedade continua a aumentar e atinge já 900 mil trabalhadores. 42% dos jovens até aos 35 anos têm um vínculo de trabalho precário. Os números falam por si mas é importante ter em atenção as suas consequências. Milhares de pessoas trabalham na iminência do desemprego, sem rendimento fixo, sem possibilidade de acesso a crédito para compra de habitação ou carro, sem a possibilidade de planear o seu futuro e o da sua família. Outro problema de fundo são os salários. Em 2014, 23% dos trabalhadores ganhavam o salário mínimo nacional, no 1º trimestre deste ano são já 40% os trabalhadores que no final do mês levam para casa 500 e poucos Euros, um rendimento que, todos os que vivem do seu salário concordam, é insuficiente para fazer face ao custo de vida”, refere Helena Neves.

A coordenadora da USNA salienta ainda que “a somar aos milhares de trabalhadores que ganham o salário mínimo nacional juntam-se todos aqueles que, cumprindo funções de carácter permanente muitos deles, num horário completo, 5 dias por semana, ganham 200, 300 euros, através de um contrato de emprego e inserção, num estágio, ou qualquer outro programa ocupacional. São os que o IEFP designa por ocupados”.

A responsável centra-se nos números do desemprego em Elvas. “Para termos uma ideia de que forma o número de ocupados deturpa os números do desemprego basta olharmos para os números do desemprego divulgados para o concelho de Elvas. É que em Junho deste ano, o IEFP revelava um total de 1266 desempregados no concelho, mas um total de 1619 pessoas desempregadas mais ocupadas. Significa que, 353 pessoas saíram dos números do desemprego, mas na prática continuam desempregadas, num estágio ou a esgotar desemprego num qualquer local de trabalho da administração pública, seja município, junta de freguesia, escola ou centro de saúde, ocupando um posto de trabalho permanente que, a corresponder a um vinculo efectivo de trabalho, baixaria realmente os números do desemprego e não apenas no papel…”, realça.

Os dados nacionais revelam ainda, no entender de Helena Neves, “que mais de metade dos desempregados estão nessa situação há mais de dois anos, os chamados desempregados de longa duração, muitos já desistiram de procurar trabalho e já não constam dos números do desemprego. 2 em cada 3 desempregados, não tem acesso a subsídio de desemprego e esta é também uma consequência dos elevados níveis de precariedade que levam a que muitas pessoas não trabalhem o tempo suficiente para garantir o acesso a esta prestação”.

A CGTP-IN reafirma que é com “a organização e luta dos trabalhadores em cada local de trabalho que juntos conseguiremos que cada vinculo precário se converta num vinculo efectivo, que se contratem trabalhadores em número suficiente e com salários dignos, combatendo a exploração e o empobrecimento. Melhores salários conduzem a maior poder de compra, determinante para o crescimento da actividade económica e a criação de mais emprego”.

Pedro Sena

At https://www.linhasdeelvas.pt/

Artigo de opinião: “Os “lambe-cus””

Elisio Estanque 1205557Eles são a contraparte da vontade de bajulação de personagens “importantes” cujos enormes umbigos – e as lambidelas diárias – os fazem sentir-se muito mais importantes do que realmente são.

No Portugal antigo, nos tempos da sociedade rural e do paroquialismo, era a “graxa” que dava “lustro” aos mais poderosos. Mais tarde surgiram os “lambe-botas”; e atualmente, é o tempo dos “lambe-cus”. A espécie não é obviamente um exclusivo do “habitat” lusitano. Mas não tenho dúvidas de que por cá ela germinou, floresceu e hoje multiplica-se a olhos vistos. Isto porque aqui encontra as condições ideais para a sua multiplicação. Os atuais lambe-cus são descendentes dos “lambe-botas”. Não deixa, no entanto, de ser curioso, e aparentemente paradoxal, que os lambe-botas (os pais dos lambe-cus) tenham sido tão combatidos, quase exterminados, com a restauração da democracia, e depois ressurgiram tão vigorosamente. À medida que o regime democrático se foi acomodando às suas rotinas burocráticas e, posteriormente, começou a ser corroído por dentro, eles brotaram das entranhas e estão agora por todo o lado. Digamos que a corrosão da democracia está em correspondência direta com o aumento dos lambe-cus. Porque será que isto ocorre e porque será que o país se tornou um “viveiro” tão fértil para esta espécie?

Na era da escravatura e ao longo do feudalismo a subserviência era uma obrigação. A resignação era intencionalmente fabricada para uso caseiro de soberanos e poderosos. O escravo servia com zelo e dedicação no interior de palácios, fazendas e casas senhoriais, em ambiente mais ou menos despóticos. Nos tempos do salazarismo e do Estado-Novo os “lambe-botas” foram cultivados e cresceram dentro das hostes do regime, nas corporações, no interior das forças repressivas e junto dos grupos dominantes. O aparelho de Estado e a doutrina oficial impunham a obediência geral, pelo que o “lambebotismo” era intrínseco aos bastidores do poder.

Por outro lado, com a chegada da democracia deu-se uma viragem. Houve uma espécie de “PREC” anti-lambebotas. Acresce que nessa fase os cus mais gordos e bem tratados saíram de cena, isto é, ou exilaram-se ou entraram numa espécie de clandestinidade. E isto também porque com a multiplicação do cidadão ativo e ciente dos seus direitos, estas duas subespécies tiveram grande dificuldade em prosperar. O cidadão pleno e emancipado, com a espinha dorsal no sítio, afirmava-se por si próprio e, durante algum tempo, os próprios lideres e dirigentes prescindiram dos lambe-cus e das suas manobras. Esse cenário foi, no entanto, passageiro. Rapidamente se começou a notar a grande resiliência desta camada de gente, que aliás, rapidamente renasceu das cinzas.

Com a entrada na era da tecnocracia (anos oitenta, por aí…), o novo-riquismo apoderou-se das estruturas dirigentes, donde resultou o vazio da política e, em vez dela, cresceu a burocratização e os cargos de decisão reverteram-se nos principais locus de incubação dos novos lambe-cus. Do ponto de vista genético o lambe-cus é despojado de coluna vertebral, ao contrário dos seus antecedentes (os lambe-botas) que ainda tinham algum resquício de coluna, embora torcida e vergada aos seus amos. Na sua versão mais pura, o lambe-cus possui qualidades que lhe permitem detetar à distância onde se encontra o cú mais proeminente e atrativo para ser lambido. Alguns desenvolveram até uma língua bífida, especialmente elástica e hipertrofiada, o que lhes permite lamber vários cús ao mesmo tempo sem que os respetivos donos se apercebam da concorrência. Já quanto ao “caráter” é um atributo que, pelo contrário, se encontra atrofiado ou não existe sequer. O “ego” do verdadeiro lambe-cus só se faz notar quando algum cu poderoso dá sinais de querer ser lambido.  É dotado de instintos caninos. Ele projeta-se totalmente na satisfação plena do seu dono.

É verdade que alguns lambe-cus entram por vezes em desgraça, sobretudo quando, dominados por uma pulsão exibicionista denunciam em público os cus que andaram a lamber. Mas o seu habitat natural são as zonas subterrâneas do poder: as grandes corporações e grupos empresariais, os bastidores da política, dos municípios, das universidades, etc. Em todo o lado onde a cultura burocrática cresceu, os séquitos de lambe-cus proliferam e fazem fila. Muitos tiram benefício material e pessoal da sua atividade, podendo até enriquecer, sobretudo depois de terem ajudado os seus patronos a um enriquecimento milhões de vezes superior ao seu. Mas a sua verdadeira recompensa está no próprio ato de lamber. Sem essa prática, constante e repetida, a sua existência não tem qualquer sentido. Eles são a contraparte da vontade de bajulação de personagens “importantes” cujos enormes umbigos – e as lambidelas diárias – os fazem sentir-se muito mais importantes do que realmente são.

Elísio Estanque

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Artigo de opinião: “Os seis pecados capitais da esquerda identitária pós-moderna”

Esquerda identitarios

Um artigo de Eric Fassin publicado no Libération do 6 de setembro de 2010 “Xenófobos, os franceses, não é assim tão certo Monsieur Sarkozy”, apelando à esquerda para se recompor perante a «xenofobia de Estado», dando mostras de audácia e de imaginação perante a campanha da direita, e rompendo com a sua culpada passividade anterior, perante ideias como «o limite de tolerância», oferece-nos a oportunidade de analisarmos como funciona a ideologia da esquerda identitária pós-moderna à qual pertence este sociólogo. Se à partida o seu texto expõe uma intenção generosa e numa abordagem simpática (acabar com a xenofobia de Estado, por muito vago que seja esse conceito), as suas conclusões políticas inscrevem-se no mais subserviente reformismo. Para ilustrar o nosso argumento, fomos ler outros textos do mesmo autor. Se alguma leitora ou leitor quiser comunicar-nos as suas reflexões para enriquecer este artigo (e encontrar um sétimo pecado capital…), estas serão bem-vindas.

O primeiro elemento comum a todos os identitários de esquerda é o apelo à compaixão, compaixão que é alvo de uma manipulação política.

Para a esquerda identitária pós-moderna, não se trata de apostar na revolta contra as injustiças, na vontade de deitar abaixo o sistema capitalista e destruir seus fundamentos, mas de um “sobressalto moral”, como escreve Eric Fassin, invocando as reacções do Papa e de alguns dirigentes da direita. Não, tem que se canalizar essa revolta até uma compaixão caridosa e “cidadã” a favor das “vítimas” das múltiplas “fobias” denunciadas por Fassin e seus amigos: xenofobia, islamofobia, judeofobia, homofobia, etc. As palavras acabadas em “ismo” (racismo, anti-semitismo, etc.) não ganham nada em ser transformadas em palavras acabadas em “fobia” porque passamos assim, sem nos darmos conta, do registo político ao registo psicológico, sendo a fobia mais um medo irracional, eterno, do que uma ideologia que se pode esmiuçar e desmontar, e contra a qual podemos combater colectivamente. A fobia faz parte, antes de mais, do imaginário individual, pessoal. Existe evidentemente uma dimensão psicológica associada a esses fenómenos mas a moda das “fobias” traduz bem mais uma capitulação perante a ideologia dominante que tende a psicologizar as questões e as relações sociais, mais do que afinar as análises políticas.

Mas esta escolha compassiva do pós-modernismo identitário de esquerda é lógica. Na continuidade dos movimentos do pós 68 que salientavam a libertação imediata dos desejos dos indivíduos contra todas as dominações, “a malta tornou-se efectivamente política”, mas de uma maneira inesperada e perfeitamente reaccionária. E a esquerda identitária pós-moderna caiu na armadilha, pensando romper com o dogmatismo marxista (portanto, bem real), com os velhos esquemas obsoletos da luta de classes, etc.

É essa a ideologia que inspira simultaneamente os reality shows e a comunicação política dos grandes partidos, tanto de esquerda como de direita, que encenam os problemas sociais apresentando-os como “individuais”: as mulheres maltratadas ou estupradas; as crianças martirizadas pelos seus pais; as esposas ou companheiras de homens que não as respeitam nem as sabem apreciar, ou que não assumem nenhuma tarefa doméstica, etc.; os imigrantes e seus filhos que sofrem discriminações, arriscam ser expulsos e vivem na angústia e na precariedade; os operários e as operárias despedidos que são expostos em palestras na televisão perante homens políticos paralisados; os sem domicílio fixo que não conseguem arranjar comida – até o nome “Restos du Coeur”[1] é significativo do muito cristão “A votre bon coeur Messieurs Dames”(Grato pela generosidade); de tudo isto até à política assistencialista de Martine Aubry, debatemo-nos em discursos humanitários consensuais e inofensivos para o sistema capitalista.

Os produtores de reality shows e os homens políticos de esquerda pregam, ambos, o “respeito” pelas “diferenças” e pelas “identidades”, sendo as identidades os inúmeros nichos que se têm que rentabilizar ao máximo, por motivos eleitorais ou comerciais.

A principal diferença entre os produtores de reality shows e os profissionais da comunicação política é que aqueles consideram que pertence à vítima a responsabilidade de tomar conta de si mesma (cf. O programa “Super Nanny” e a culpabilização dos pais) ou então esperar o gesto de um caridoso benfeitor ou vizinho bondoso (cf. “Les maçons du coeur” cujo título volta a glorificar as virtudes do famoso órgão fornecedor de compaixão).

Os partidários sociais-democratas da política assistencialista admoestam menos os pobres pelos seus comportamentos do que os apresentadores de televisão (embora a Segolène Royal ou o Manuel Valls sejam entusiásticos adeptos da política securitária e das casas de correcção para proletários selvagens); eles preferem louvar as coisas bem feitas do Estado Previdência ou a adesão a associações, a redes que visam difundir e mobilizar toda a compaixão necessária para “sacudir as coisas”… ou seja, claramente, colmatar penosamente as cada vez maiores brechas de miséria social e económica.

As vítimas prolongadas da miséria social ou psicológica confessam-se no pequeno ecrã; produzem-se programas de televisão e fabricam-se livros em tempo recorde à volta dos seus casos; circulam imagens chocantes (numa entrevista publicada no Libération, um participante da manifestação do 4 de setembro de 2010 contra a “xenofobia de Estado” conta ter decidido vir para a rua depois de ter visionado o vídeo de uma mulher Rom[2] grávida e maltratada pela polícia. Não se trata de menosprezar a indignação suscitada por esse facto ignóbil, mas de sublinhar o impacto da emoção, em detrimento do conhecimento – neste caso do conhecimento das politicas migratórias, que sempre foram hostis aos Rom, e às “pessoas itinerantes” francesas, bem antes da enésima viragem securitária do governo Sarkozy-Fillon exagerada pela esquerda moral).

Dentro do mesmo registo, o apelo “Não à política do cepo!” (eis mais uma metáfora da compaixão e da piedade pelas vítimas!) lançado pela Liga dos Direitos Humanos, mas recuperada e sustentada de maneira acrítica pela esquerda e pela extrema esquerda que expressava bem essa ideologia compassiva pelos “pobres” imigrantes “vítimas” da “xenofobia de Estado” e do “racismo”.

O segundo pilar da ideologia da esquerda identitária é a aproximação de todas as discriminações ao racismo e se for possível ao anti-semitismo genocidário[3], às práticas dos Estados fascistas ou para-fascistas, etc.

O antifascismo pós-moderno é, antes de tudo, compassivo, infrapolítico. Os campos de concentração, os campos de extermínio, a Gestapo, a Milícia, Hitler, Pinochet, Franco, Salazar, Videla, etc., são de facto “horríveis”, “ignóbeis”, “bárbaros”, “desumanos”, tudo aquilo que quiserem, mas não são só isso. A sua dominação, as suas ditaduras, não relevam apenas do uso político das pulsões de ódio e das frustrações sociais duma parte dos dominados, ou para utilizar um termo na moda entre os filósofos de esquerda e os psis, do “ressentimento” dos explorados. Têm uma função política e social, uma racionalidade económica, social e política que temos que destacar, se não queremos ficar confinados a explicações psicológicas ou “essencialistas” do tipo “é da natureza humana…”. E para isso, é preciso deixar o registo da indignação moral e da simples solidariedade sentimental com as vítimas. Mas a esquerda identitária não quer ver o vínculo entre fascismo, nazismo e capitalismo, tal como aliás não dispõe de instrumentos para compreender o estalinismo, em que uma das componentes essenciais sempre foi a defesa da identidade por detrás de um verniz pseudo internacionalista.

O terceiro credo da Esquerda identitária é o respeito pelas leis, pela Constituição e pela democracia burguesa.

É assim que Eric Fassin toma como exemplo as boas leis que souberam reprimir a homofobia e dar aos homossexuais o seu lugar na sociedade francesa. “É a lição do PACS: depois de Lionel Jospin ter acabado por assumir a lei vetada pela esquerda, foi Nicolas Sarkozy quem então, desde o verão de 1999, rejeitando as exageradas jogadas homofóbicas do seu campo, se comprometeu no terreno da tolerância para não o abandonar à esquerda. Os direitos dos homossexuais tornaram-se o cerne da disputa”. As suas considerações mostram bem que, ao contrário de todos os raciocínios na moda dos anos 70 e de certos argumentos feministas e libertários, ainda hoje, o combate à homofobia não ameaça radicalmente a dominação do Capital e do Estado (capitalismo, patriarcado e “hetero-normatividade” – isso é, dominação dos heterossexuais sobre os homossexuais, os trans-género, etc., ao impor normas, por exemplo – sendo supostamente indissociáveis). Que é um combate interclassista, e que, como todos os combates, beneficia sobretudo os burgueses e os pequenos burgueses homossexuais, e muito pouco os operários, os empregados e os trabalhadores imigrantes homossexuais vítimas de discriminação no trabalho e onde habitam.

Esse respeito pela legalidade burguesa, Fassin já o tinha exprimido, assinando, em 17 de dezembro de 2003, um texto sobre o hijab, com outros intelectuais, texto que proclamava “enquanto se recusar a dar aos descendentes dos povos que colonizou a igualdade prometida pela sua Constituição, pelas suas leis internas tanto como pelas suas obrigações internacionais, a França terá problemas”. Ou, na introdução a “A Inversão da questão homossexual”: “Sem dúvida concordamos todos em considerar que as escolhas económicas ou políticas relevam da negociação política. Mas terá que se considerar que as questões sexuais, sejam elas de género ou de orientação sexual, de casamento ou de família, de filiação ou de reprodução, escapam à deliberação democrática?”

“Deliberação democrática”, “obrigações internacionais”, “negociação política”, “Constituição”, “leis internas”, estamos pois a lidar com um democrata burguês.

O quarto credo da esquerda identitária é o respeito das identidades nacionais e por consequência também, de bom ou mau grado, dos Estados nacionais que defendem essas identidades nacionais.

Já que a esquerda identitária não pode atacar frontalmente o mito da Nação, ela é obrigada a separar e a opor, de maneira artificial, os bons nacionalismos progressistas do Sul aos maus nacionalismos (imperialistas, colonialistas, pós-colonialistas) do Norte.

É por exemplo o que diz muito explicitamente Houria Bouteldja, membro dos Indigènes de la République, numa intervenção num debate sobre identidade nacional (http://www.youtube.com/watch?v=FH2lD3Obe_Y ) ou na sua entrevista à revista Hérodote, e que encontramos também no livro de Sdri Khiari «Politique de la racaille»[4].

Não é portanto surpreendente que um identitário como Eric Fassin creia que a esquerda possa tomar a iniciativa no plano da imigração e, assim, obrigar a direita a recuar na sua campanha xenófoba, criar mesmo uma dinâmica eleitoral que fizesse progredir um limite de intolerância à xenofobia e ao racismo, “por que a esquerda não poderia por si mesma retomar a direcção no que diz respeito à imigração ? A evidência do problema da imigração poderia assim desfazer-se logo, sob o efeito de uma nova crença no limite de intolerância”, escreve ele no seu artigo.

Essa proposta mostra a incapacidade de Fassin e sobretudo da esquerda identitária de compreender a função do Estado nacional, e especificamente do estado republicano francês. A «xenofobia de Estado» que Fassin denuncia, com certeza com a maior sinceridade, é constitutiva do nascimento e do desenvolvimento da República Francesa, não só nas suas longínquas colónias mas também no seu território, não só perante os imigrantes das colónias mas também perante imigrantes europeus (dos alemães aos polacos, passando pelos italianos, os portugueses e os espanhóis) – e, se quiséssemos carregar mais um bocado, poderíamos até dizer, como Houria Bouteldja, na sua entrevista acima citada, que o Estado-nacional-republicano francês também esmagou os particularismos locais… Não serve para nada portanto invocar os manás da República (sobretudo os da Terceira, da Quarta e da Quinta!) para combater a xenofobia.

O quinto credo da esquerda identitária é a negação da luta de classes.

Uma identidade que não existe aos olhos da esquerda identitária é a identidade operária ou proletária (a não ser num remoto e vago passado, folclórico, mas que nem é digno do seu famoso “respeito”). Como o ódio aos trabalhadores (“operário-fobia”?) é um sentimento raramente expresso, na actualidade, de forma aberta, nos principais Media e que, não suscitaria guerra, compaixão dos pequenos burgueses e dos Media de esquerda (que só se interessam pelos problemas das “classes médias”), os identitários de esquerda negam ou ignoram a existência dos combates de classe, no passado mas sobretudo nos dias que correm. Esses combates só os podem assustar porque mobilizam (ou mobilizaram), não vítimas que mendigam “reparações” ou “indemnizações de despedimento”, desculpas (do Papa ou de um Primeiro Ministro ou Presidente da República qualquer) ou mais respeito das instituições burguesas, mas os homens e as mulheres que querem derrubar e aniquilar a ordem existente, não apenas consolar-se com algumas conquistas ou alguns direitos, sem tocar na dominação de classe da burguesia e do seu Estado. Esses combates assentam, não só em afrontamentos físicos, mas também em afrontamentos ideológicos que hoje em dia apavoram todos os intelectuais, inimigos do “sectarismo”, do “dogmatismo”, do “esquematismo”.

Assim se entendem os consensos moles a que chegam sempre os militantes de esquerda e de extrema esquerda quando agem juntos, esse menor denominador comum político que mais não é que a ideologia humanitária da esquerda identitária.

O sexto credo da esquerda identitária é um grande respeito pelas religiões, portanto uma incapacidade em afrontar o obscurantismo religioso e as tentativas das igrejas de ganharem mais poder na sociedade.

Esse aspecto não está referido na tribuna livre de Eric Fassin publicada no Libération, mas faz parte do património político dos identitários de esquerda, como testemunham as suas posições favoráveis à “laicidade aberta” e ao multiculturalismo dentro de todas as suas discussões sobre os “signos religiosos ostensivos”, o vestir o hijab e a burka, etc. Não se encontra nunca neles uma crítica radical à religião.

É assim que, no Le nouvel observateur de 6 de maio de 2010, Fassin consegue mais uma vez semear a confusão quando denuncia os ataques crápulas do ministro da Imigração: “Hortefeux pondera retirar a nacionalidade ao marido duma mulher que veste o niqab acusando-o de poligamia. Ora, quando Paul Bocuse se gabou das suas três mulheres (tem uma para o pequeno almoço, uma para o chá, outra para jantar”), quem se indignou? Há que ser francês de gema para poder ser polígamo?”

Partindo duma crítica justa aos delírios de Hortefeux a propósito da identidade nacional, Fassin chega a uma comparação absurda, ridícula, que coloca no mesmo patamar a poligamia islâmica, imposta pela charia, e reconhecida pelos tribunais dos Estados muçulmanos, e a pluralidade de parceiras dum homem, dentro dum quadro que não é regulamentado por nenhuma lei, fosse ela de inspiração religiosa ou laica. O facto de ter várias amantes pode assentar numa relação de dominação (financeira, se ele as sustenta!) ou outra, mas pelo menos essa relação não tem nenhum fundamento jurídico ou legal.

Estabelecendo essa comparação, Fassin justifica, sem dar por isso, a dominação masculina sobre as mulheres (aqui muçulmanas), dominação que a esquerda identitária pós-moderna tanto se esforça por denunciar com trémulos na voz.

Mas a ideologia identitária pós-moderna pouco faz de todas essas contradições quando consegue conquistar algum espaço mediático e político.

Terça-feira 7 de setembro de 2010, por Yves

Y.C.,
“Nem pátria nem fronteiras”,

[1] Cantinas sociais mas cuja tradução à letra seria « restaurantes do coração ».
[2] De etnia cigana.
[3] “ Por outro lado, a experiência das discriminações não fica sem efeito nas vítimas: contribui para a sua constituição enquanto sujeitos. Nos anos 30, muitos se reconheceram como judeus sob o efeito do anti-semitismo”, escreve Eric Fassin, num artigo com o título espantoso: “Raça objectiva vs. (contra) raça subjetiva”. A referência ao anti-semitismo é frequentemente, para os identitários de esquerda, mas também para muitos intelectuais de todas sensibilidades, uma maneira de contrabandear a sua ideologia, bloqueando todo tipo de objeção eventual com a referência ao judeocídio.
[4] Tradução “Política da escumalha”

At http://www.acasaonline.pt

Corticeira Amorim quer jornadas de 12 horas

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Nos plenários realizados esta terça-feira, os trabalhadores da unidade industrial da corticeira Amorim, em Coruche, repudiaram os horários de turnos contínuos de 12 horas que a administração pretende introduzir.

Os plenários foram convocados pelo Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Cerâmica, Cimentos e Similares, Construção, Madeiras, Mármores e Cortiças do Sul e Regiões Autónomas (CGTP-IN).

Em declarações ao AbrilAbril, Rui Aldeano, coordenador da União de Sindicatos de Santarém, explicou que, dos três plenários planeados, apenas dois foram realizados pois a empresa impediu um e tentou fazer o mesmo ao plenário da tarde, que contava com a presença do secretário-geral da CGTP-IN.

«Não conseguiram porque os trabalhadores insistiram e forçaram a barra», reiterou o dirigente, tendo afirmado que o sindicato vai apresentar queixa junto da Autoridade para as Condições no Trabalho (ACT).

Os trabalhadores da unidade industrial estão contra a intenção da corticeira de aplicar em algumas áreas a laboração contínua com jornadas de 12 horas durante três dias seguidos, dando depois três de descanso.

Intenção amplamente rejeitada

Classificando o novo horário como «muito penoso», os trabalhadores decidiram avançar com uma posição colectiva, estando a recolher assinaturas, que será entregue à administração para evidenciar o descontentamento.

Entre os motivos, apontam para as «profundas consequências negativas na saúde» que implicará trabalhar mais que oito horas diárias, especialmente quando se trata de turnos contínuos sem o devido descanso.

Além disso, o horário tem «implicações gravosas na organização e concilação da sua vida pessoal e familiar», privando-os do tempo de fim-de-semana com a família, como também resultará na diminuição dos seus rendimentos pois vão deixar de receber o trabalho suplementar.

O sindicato irá remeter os protestos dos trabalhadores à administração e à ACT, acompanhados com um novo pedido de reunião urgente.

At https://www.abrilabril.pt

O mundo precário dos hipermercados?

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QUEIXA DE UMA TRABALHADORA DO CONTINENTE.

Os hipermercados são um lugar horrível: cínico, falso, cruel. À entrada, os consumidores limpam a sua má consciência reciclando rolhas e pilhas velhas, ou doando qualquer coisa ao sos hepatite, ao banco alimentar ou ao pirilampo mágico. Dentro da área de consumo, cai a máscara de humanidade do hipermercado: entra-se no coração do capitalismo selvagem.

O consumidor, totalmente abandonado a si próprio (é mais fácil de encontrar uma agulha num palheiro do que um funcionário que lhe saiba dar 2 ou 3 informações sobre um mesmo produto), raramente tem à disposição mercadorias que, apesar do encanto do seu embrulho, não dependam da exploração laboral, da contaminação dos ecossistemas ou de paisagens inutilmente destruídas. Fora do hipermercado, os produtores são barbaramente abusados pelo Continente (basta que não pertençam a uma multinacional da agro-indústria), que os asfixia até à morte e, quando há um produtor que deixa de suportar as impossíveis exigências que lhe são impostas, aparece outro que definhará igualmente, até encontrar o mesmo fim. Finalmente, nas caixas do hipermercado, para servir o consumidor como escravos idênticos aos que fabricaram os artigos comprados, estamos nós.

O hipermercado está portanto no centro da miséria que se vive hoje no mundo. O consumidor, o produtor e nós temos uma missão comum: contribuir para que os homens mais ricos do planeta fiquem cada vez mais ricos – contribuir para que a riqueza se concentre como nunca antes na história. Se somos todos diariamente roubados e abusados, é por este mesmo e único motivo.

Vou-vos relatar apenas a minha banal experiência diária (sem pontos de exclamação já que o escândalo é comum a qualquer um dos tópicos que irei descrever). Espero que sirva de alguma coisa, apesar de saber que ninguém se incomodará muito com ela. Afinal, é a mesma selva que está já em todo o lado.

1 – salário

Trabalho 20h semanais em troca de 260€ mensais, o que dá pouco mais de 3€ por hora. Que isto se possa pagar a alguém em 2015 devia ser motivo de vergonha para um país inteiro. Que seja um milionário a pagar-me esta esmola devia dar pena de prisão efectiva.

2 – precariedade

Já vou no terceiro ‘contrato’ de seis meses e ainda não passei a efectiva. Quando chegar a altura em que poderei finalmente entrar para o quadro, serei dispensada como tantas outras. A explicação para a quebra brutal na natalidade está encontrada: afinal, alguém consegue ter filhos nestas condições?

3 – trabalho não remunerado fora do horário de trabalho

Se o futuro é uma incógnita, o presente é sempre igual: todos os dias, sem excepção, trabalho horas extra grátis que me são impostas. O meu horário de saída é às 15h mas, depois dessa hora, ainda tenho para executar várias tarefas obrigatórias, que me levam entre 15 a 20 minutos diários, como arrumar os cestos das compras e os artigos que os clientes deixam ficar na caixa ou guardar o dinheiro no cofre. No quase ano e meio que levo a trabalhar no Continente, devo ter saído uns 5 dias, no total, à hora certa. E já cheguei a sair uma hora e meia depois das 15h, apesar de os meus superiores saberem muito bem que dali ainda vou para outro trabalho e de, por isso, eu ter sempre imensa pressa para não me atrasar.

4 – trabalho em dias de folga

Para perpetuar a falta de funcionários na loja, obriga-se aqueles que lá estão a trabalharem pelos que fazem falta, oferecendo assim todos os meses algumas horas do seu tempo de vida e de descanso ao patrão, que deste modo poupa no número de salários a pagar. Mais absurdo: num dia em que esteja de folga, posso ser convocada para ir à loja para fazer inventário. Sou obrigada a ir, apesar de estar na minha folga, e apenas posso faltar mediante justificação médica. E, como se não bastasse, até já aconteceu eu ser avisada no próprio dia da folga.

5 – cada segundo de exploração conta

Neste ano e meio, cheguei uma única vez 5 minutos atrasada e a minha superior foi logo bruta e agressiva comigo, tendo-me gritado e agarrado pelo braço, apesar de supostamente haver uma tolerância para se chegar até 15 minutos atrasada. Nunca mais voltei a atrasar-me. Nem 10 segundos. (Já sair pelo menos 15 minutos mais tarde do que a hora prevista, isso é todos os dias.)

6 – formatação do corpo

Relativamente à aparência física, devemos formatá-la meticulosamente, ao gosto sexista do patrão. Na loja onde trabalho, várias colegas tiveram por isso de eliminar os seus pírcingues, apagar também a cor das unhas (lá só é admitido o vermelho) e uma até teve de mudar de penteado. O patrão quer que nos apresentemos como autênticas bonecas. Faz lembrar os escravos que eram levados para as Américas, a quem se retiravam as suas marcas corporais para serem explorados sem outra identidade que a de escravos (seres humanos transformados em mercadorias).

7 – pausa para comer/urinar/descansar é crime

Mas o pior de tudo é mesmo o que acontece durante o tempo de trabalho. Os meus superiores querem que eu esteja as 4 horas sentada a render o máximo que é humanamente possível, por isso, dificultam ao máximo as minhas pausas – que são legais e demoraram séculos a conquistar – para ir comer qualquer coisa ou ir simplesmente à casa de banho. A única coisa que me autorizam a levar para junto de mim, no meu posto de trabalho na caixa, é uma garrafinha de água previamente selada e nada mais. De resto, o que levar para comer e beber (sumos e iogurtes líquidos não podem ir comigo para a caixa) tenho que deixar no Posto de Informações e só tenho acesso quando da caixa telefono para lá. Normalmente, no Posto, fazem que se esquecem desses pedidos, passando uma eternidade até eu finalmente conseguir ir comer. E, quando a muito custo lá consigo obter autorização para ir comer, sou pressionada para ser ultra rápida, pelo que em vez de mastigar estou mais habituada a engasgar-me. O mesmo acontece com as idas à casa de banho, sempre altamente dificultadas.

8 – gerem-nos como se fôssemos animais

Há uns tempos, uma colega sentiu-se mal quando estava na caixa, fartou-se de pedir licença para ir à casa de banho, mas foi obrigada como de costume a esperar tanto, tanto que lá se vomitou, quase em cima de um cliente.

Não se calem e denunciem todos os abusos nas redes sociais e nos blogs.

(gostava imenso de assinar, mas os 260€ do salário fazem-me tanta falta)

At obeissancemorte.wordpress.com e http://www.bligz.com.pt/