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Opinião: “O salário médio, cerca de 950/1000 euros, é o mínimo para se sobreviver”

“O Governo e os sindicatos na sua maioria estão agora a debater o salário mínimo, mas eu considero urgente abrir uma discussão pública em Portugal sobre o salário médio, porque na realidade o salário médio, cerca de 950/1000 euros, é o mínimo para se sobreviver; e o mínimo – 635 euros – é de facto o salário miserável. É urgente passarmos da discussão da “mais pobreza ou menos pobreza” para falarmos de qualidade de vida, do direito a viver dignamente do trabalho, sem chegar ao fim do mês com mês e sem dinheiro. Sem poder ter vida própria, acesso à cultura, ir ao cinema ou ao teatro, ir de férias – a maioria dos portugueses, na indústria, nos serviços, e mesmo nas profissões qualificadas, hoje trabalha para pagar contas essenciais – é aliás aqui que reside a baixa produtividade do país, nos salários baixíssimos. Que são também a causa da sangria da emigração que não é voluntária, mas economicamente forçada. Salários abaixo do limiar da sobrevivência – 653 euros; ou no limiar dela, 1000 euros”.

Raquel Varela

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Artigo de opinião: “O Chega quer proibir o sindicalismo”

Raquel Varela 36397388_10212151214190668_1506337673151774720_nFui ler o Programa do Chega – propõe a generalização dos despedimentos sem justa causa, e a proibição do sindicalismo, o fim do SNS e da escola pública, está tudo em baixo em link. Depois de enganados pelo PS e pelo PSD, desiludidos pelo PCP e o BE, ou adormecidos pelo PAN, desistindo da humanidade, os portugueses têm este Ventura como um “tipo que diz umas verdades”. Tive a paciência de ler tudo – agradeço a parte cómica em que Ventura defende vender as escolas aos professores…ou dar – caso não possuam poupança para as comprarem…

Salazar era o braço direito do grupo CUF, Mello etc, gente que toda a vida falou de empreendedorismo e viveu na sombra do Estado, enriqueceram única e exclusivamente à custa de baixos salários em Portugal, e trabalho compulsivo nas colónias. Esse tipo de trabalho era garantido com a proibição de sindicatos decretada por Salazar. Salazar estava ameaçado de uma revolução social – a partir da Espanha revolucionária – quando apoiou o líder fascista Rolão Preto, um cão de guarda que ficava com a tarefa de chefiar uma milícia, os camisas azuis, cuja função era – oficial e oficiosamente – perseguir revolucionários ou gente que defendia os direitos do trabalho. Quando Rolão Preto fez o serviço Salazar mandou prendê-lo. Hitler fez o mesmo com as SA, a milícia de homens musculados. Primeiro usou-os para matar dirigentes políticos de esquerda, a seguir mandou matar e prender os membros das SA. Para que pudesse pôr o Estado ao serviço das empresas privadas como a Bayer, Thyssen etc, agora usando o trabalho escravo (campos de concentração) sem a oposição dos lideres revolucionários. Cumprido o serviço sujo pelas SA cadeia com eles, que as empresas têm mais que fazer, é o lucro pá e a culpa era dos comunistas – mata-se e tudo fica impecável, um país sério. Milhares de desempregados, trabalhadores puseram-se, desesperados, ao serviço dos Rolão Preto e das SA, para depois acabarem dizimados, presos, torturados pelos amos que serviram, os seus donos, que os manipularam com a suposta sinceridade da violência e de dizer “umas verdades”.

O programa do Chega tem 16 linhas sobre saúde – prevê a total privatização da saúde e da educação -, e 1 linha – não estou a brincar – é 1 linha, não é 1 página, sobre trabalho. O que diz lá? Proibir o tempo de dedicação dos dirigentes sindicais, mesmo que 1 hora por mês. Todo o tempo, ou seja, trata-se de proibir o sindicalismo em Portugal de facto. Sobre salários miseráveis, condições de trabalho miseráveis, burnout, assédio moral, má alimentação, habitação, tudo relacionado com os baixos salários, zero, está lá escrito zero. Mais à frente noutra secção pode ler-se a defesa dos despedimentos por qualquer razão, sem justa causa. Sobre trabalho há uma linha – proibir os trabalhares de se organizarem. Quem vai ser o Rolão Preto deste Ventura, que enriquecerá á conta do Estado onde, agora na Assembleia, já se instalou?

Aqui vos deixo o link, página 51 – é preciso sublinhar que os media entrevistam este Senhor como se de um político democrata se tratasse.

PS escusam de me vir com a conversa da esquerda que não actua – é verdade, a nossa esquerda é deprimente, e o que dizer de um Partido dos animais, numa altura em que as pessoas sofrem mais do que muitos animais, e o que dizer do mais importante, do PS e do PSD que, no poder, deixaram este Estado de coisas – quem isso não admite não poderá encontrar soluções. Mas mais deprimente é vir um Partido como o Chega defender a flexibilização total dos despedimentos – e em cima disso defender a proibição de os contestar. Isto é capitalismo selvagem mais ditadura, é o come e cala, numa palavra é isso o Chega. Se com os partidos actuais tantos portugueses – justamente- se sentem enganados, que dizer deste advogado bem falante Ventura que os manipula como se fosse um senhor honesto a defender a pátria, e nada mais propõe a não ser a legalização da semi-escravatura que já grassa em tantos locais de trabalho onde de facto os trabalhadores já têm medo de se organizar?

Página 51
https://partidochega.pt/wp-content/uploads/2019/09/PROGRAMA_POLÍTICO_2019_CHEGA-2.pdf

Raquel Varela

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Opinião: “Berardo e o Estado”

raquel-varela_1_corAinda sobre Berardo e o Estado cumpre-me contar três histórias que conheço de quem paga estas contas. Além, claro, dos contribuintes como nós que pagamos serviços públicos que não funcionam.

A L. foi dar aulas para o Oriente, filha de pais humildes, ficaram desempregados para cortar custos depois de 2008, cortes que foram para pagar a Banca. De lá manda dinheiro para os pais. Ficámos com menos um quadro no país.

O M. da Madeira, estivador, perdeu a casa porque para lutar contra os salários baixos sindicalizou-se no SEAL- Sindicato dos Estivadores, e como retaliação foram-lhe retiradas horas extraordinárias.

E a Lídia O. que deu a cara publicamente contra a falência da Moviflor, também perdeu a casa, o emprego. Não perdeu a dignidade e ajudou a fundar uma Associação, A Casa, de defesa dos direitos dos trabalhadores.

O que é importante aqui -, além de dar voz aos exemplos de dignidade humana por oposição ao lixo moral que representa o sector financeiro -, é que não foi Berardo que desenhou o sistema legal que permitiu isto – foi o Estado. E o Estado não somos todos nós. Não nos escondamos no senso comum, que repete que o poder económico domina os Estados. Não é verdade. O poder político tem sempre a última palavra. E deu-a a Berardo. Que conservou a sua casa, a sua Associação, a sua colecção, a sua quinta, impune. Em 11 anos desde a crise nunca ninguém entrou com uma bateria de polícias e inspectores na sua casa. Mas o mesmo Estado levou uma semana a entrar na Ordem dos Enfermeiros e vasculhar as contas – abrindo um precedente gravíssimo para todos os sindicatos e ordens, com o claro propósito de amedrontar quem ousa lutar por si e pelos serviços públicos.

Raquel Varela

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Opinião: “Aumento da idade da reforma”

Sobre a proposta de aumento da idade da reforma para os 69 anos pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (Grupo Jerónimo Martins), deixo aqui o meu comentário curto:

Não existe ciência neutra, existe ciência séria. O estudo pode estar bem ou mal realizado, mas não passa a estar mal feito porque é financiado por um grupo de supermercados.

Discordo totalmente do estudo não por as contas serem enviesadas (não conheço, nem tenho razões para achar que o foram, pelo contrário) mas porque os pressupostos metodológicos do estudo, que são públicos e conhecidos, são diametralmente opostos aos meus e de vários colegas com quem trabalho na área da sustentabilidade da segurança social:

1) o estudo parte pressuposto de que não podemos aumentar os salários. Isto é, com salários de 600 euros e esta demografia a segurança social é insustentável. Eu, o Eugénio Rosa, o Pedro Nogueira Ramos e muitos outros que fizemos estudos sobre a segurança social partimos de outros pressupostos – não há um problema demográfico, nem económico. Quem reformou-se com 2 mil euros está a ser pago por quem ganha 600 euros – é isto que torna a segurança social insustentável. Isto não é um problema demográfico, nem económico, é um problema de relações laborais. Grave.

2) A esperança média de vida aumentou até aqui porque havia condições favoráveis sociais e económicas. Essas estão em decadência, é muito provável que daqui a uma década de maus salários, ma alimentação e ma saúde a EMV vá cair. Estamos ainda a celebra a revolução dos cravos e os seus efeitos, só daqui a 2 décadas vamos ver os efeitos na esperança média de vida do neoliberalismo.

3) Mesmo não contabilizando este facto a esperança média de vida é muito diferente entre quem trabalha – quem trabalha por turnos por exemplo tem menos esperança média de vida, os homens têm menos do que as mulheres, etc, pelo que fazer médias para calcular a reforma é errado. Nem todos vivemos o mesmo.

4) A esperança média de vida com saúde em Portugal é 13 anos abaixo da EMV. Ou seja os portugueses quando se reformam, e mesmo antes, estão já doentes. Aliás o que este estudo vem dizer – e essa é a conclusão – é que nenhum português vai trabalhara até aos 69 anos, mas vão entrar de baixa médica e reforma antecipada – a metade do valor – muito antes dos 69 deixando de ser um «custo» para a empresa.

5) A produtividade por trabalhador é hoje 5 vezes superior ao que era quando foram criados os sistemas de segurança social há 40 anos. Ou seja, pode haver menos 5 pessoas a trabalhar (mais 5 pessoas a ir para a reforma) por cada um que trabalha quando comparado com há 40 anos. Deve-se portanto usar essa produtividade para – no mínimo – reduzir os lucros das empresas, reduzir o horário de trabalho, diminuir a idade da reforma para os 60 ou menos.

A minha conclusão é a seguinte. A Fundação FMS (financiada pelos supermercados Pingo Doce) é um espelho da burguesia ou elites, como prefiram, deste país. Perante a escassez de força de trabalho que vai previsivelmente aumentar os salários propõem que a Segurança Social assuma os custos das empresas (ou que importemos migrantes baratos para aumentar a concorrência no mercado de trabalho – estas são as duas áreas de estudos da FMMS – aumentar a idade da reforma e aumentar o número de migrantes porque o Pingo Doce não terá força de trabalho a prazo de outra forma, mantendo os lucros). Ninguém vai trabalhar até aos 69 mas aos 55, 58, mortos vivos vão deixar de receber salário no Pingo Doce e passar a receber uma meia pensão da Segurança Social…É a eterna dependência do Estado que os grupos económicos portugueses mantêm historicamente. É, numa palavra, a incapacidade cabal de os de cima governarem, terem um projecto de país e bem estar, para o conjunto da população. É o salve-se a família Jerónimo Martins e os seus accionistas, mesmo que destruindo a Segurança Social e , por isso mesmo, a vida civilizada. Si, em sociedades urbanas, sem apoios de grandes famílias rurais, a vida civilizada é insustentável sem um forte Estado Social.

Não existe ciência neutra – mas existe ciência séria que se faz a pensar metodologicamente no bem estar geral. É essa a ciência que produzimos. Porque o bem estar colectiva é fundamento primeiro da liberdade individual. E por isso da vida civilizada.

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Opinião: “O sentido da vida são os outros, o respeito por quem trabalha”

Raquel VarelaOntem passei a manhã nas urgências do hospital do Funchal. Foram tantos os enfermeiros que passaram por mim – no SO ou nas urgências – e sorriram agradecendo «ter-nos defendido». Depois viajei na TAP, com um comissário que meteu conversa comigo, «vejo-a sempre por aqui», é que eu viajo demasiado, respondi. «Quero agradecer-lhe o estudo (pessoal de Voo) que está a fazer para nós sobre desgaste». Sorri. Uma professora abordou-me na rua «durmo descansada depois de a ler, descansa-me que haja alguém que não se resigna e que diz o que pensamos», outra disse-me «nós não temos voz». Todos os dias alguém me aborda na rua assim. Os elogios não são para mim, não faço nada sozinha. Tudo em equipa.

Vivemos na fase do elogio do homem financeiro, ainda que tenham espalhado a miséria no mundo depois de 2008. Leio nos jornais casos de mulheres de “sucesso” porque “alcançaram o topo das empresas”. É um lugar onde eu não queria estar. Queria que deixassem de existir topos. Acredito em direcções e hierarquias, em organização e responsabilidade, em trabalho sério, mas com base na democracia. O Estado, as empresas e as fábricas tornaram-se um lugar de sofrimento para quem trabalha. É uma desumanidade, uma involução que lança todos no medo. A minha quota é por isso junto da condição humana, de quem vive do trabalho. Não para distribuir roupa em segunda mão, com um ar caridoso, mas para fazer o melhor que sei e posso para que as pessoas se sintam com força para mudar a vida, e mudar o mundo onde vivem – só assim se muda a vida, não há ioga que substitua a necessidade de mudar as tremendas condições económicas que vigoram no mundo. O sentido da vida são os outros, o respeito por quem trabalha. Uma ex operária ontem num debate onde estive na Universidade da Madeira disse do público, com um vigor contagiante: «Estou farta de ONGs e caridade, de ordenados de 600 euros e aumentos de 2%, da facilidade com que se luta por caridade, farta! deve-se viver com direitos, de cabeça erguida.». Obrigada a vós.

Raquel Varela

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Crónica: Portalegre – “Sindicatos esmiúçam números do desemprego”

Crónica Linhas

Os dados mais recentes do número de desempregados nos centros de emprego mostraram, no país e na região, uma diminuição do desemprego no segundo trimestre deste ano face ao mesmo período do ano passado.

O caso do concelho de Elvas foi amplamente divulgado em que, de acordo com o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), existiam menos 464 desempregados em Julho deste ano face a igual período do ano transacto.

Nas redes sociais a análise a estes números geraram diversos comentários e apreciações distintas quanto às razões para a diminuição do desemprego, um dado que agora quisemos esmiuçar junto dos sindicatos, nomeadamente através dos responsáveis distritais da União de Sindicatos do Norte Alentejano/Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (USNA/CGTP-IN) e da União Geral de Trabalhadores (UGT).

Marco Oliveira

“O principal é as gentes do distrito terem trabalho”

O presidente da UGT no distrito de Portalegre, Marco Oliveira, revela que a existência de menos 1388 desempregados no distrito, comparado com o período homólogo, deve-se “à iniciativa privada e aos incentivos de algumas câmaras municipais, e não às medidas do Governo para o Interior.”

Marco António Oliveira traça o que cada uma das três cidades com mais habitantes no distrito de Portalegre está a fazer para diminuir o desemprego.

A descida do desemprego em Elvas é um ponto “positivo” para o responsável, argumentando que “isso não se deve a um acréscimo de medidas que o Governo possa estar a tomar para o interior do país. Continuamos a ouvir muito boas intenções, mas na prática não estamos a assistir a nada de visível”.

O concelho de Elvas poderá ser um caso paradigmático, em relação ao distrito de Portalegre, porque “existem formas de ocupar as pessoas e de as retirar dos locais onde estão afectas como desempregados. “Há gente que está neste momento a desempenhar determinadas funções na Câmara Municipal que, se calhar, não tem o rendimento que gostava de ter a nível financeiro, mas independentemente disso é uma forma de ocupar as pessoas e de lhes dar algum rendimento. A realidade é essa”, realça Marco Oliveira.

O presidente da UGT distrital revela ainda ter falado com alguns trabalhadores da Marktel, empresa espanhola que gera emprego em Elvas. “Sei que há determinado tipo de situações que não estão muito bem no que diz respeito à relação entre a empresa e os trabalhadores. O que é que eu quero dizer com isto? Estou a falar da precariedade, algo que diminui o desemprego, mas que levanta outros assuntos como o tipo de trabalho que temos no distrito, está tudo satisfeito, não existem maus-tratos (entre aspas) aos trabalhadores? Isso é que é preciso perceber”.

Para Marco António Oliveira o principal desígnio é as gentes do distrito “terem trabalho”. O responsável destaca o papel que Ponte de Sor tem tido ultimamente com a aeronáutica e que se traduz na geração de postos de trabalho, mas lamenta que Portalegre, enquanto sede de distrito, continue “a definhar” e, por isso, “não será dos melhores exemplos”.

Enquanto responsável distrital da UGT, para Marco Oliveira é importante a descida do desemprego, mas igualmente fulcral saber “como estão as pessoas, se vivem com qualidade, se a precariedade é demasiado elevada para aquilo que se pretende, portanto, nós temos que defender a região, porque se não formos nós ninguém a vai defender”.

Helena Neves

“Número de ocupados deturpa números do desemprego”

A coordenadora da União de Sindicatos do Norte Alentejano (USNA), Helena Neves, afirma que a CGTP-IN regista “como positivas” as notícias veiculadas acerca da diminuição do desemprego e aumento do emprego.

“Acerca da realidade nacional as preocupações da CGTP-IN são conhecidas e relacionam-se com a qualidade do emprego que está a ser criado. A precariedade continua a aumentar e atinge já 900 mil trabalhadores. 42% dos jovens até aos 35 anos têm um vínculo de trabalho precário. Os números falam por si mas é importante ter em atenção as suas consequências. Milhares de pessoas trabalham na iminência do desemprego, sem rendimento fixo, sem possibilidade de acesso a crédito para compra de habitação ou carro, sem a possibilidade de planear o seu futuro e o da sua família. Outro problema de fundo são os salários. Em 2014, 23% dos trabalhadores ganhavam o salário mínimo nacional, no 1º trimestre deste ano são já 40% os trabalhadores que no final do mês levam para casa 500 e poucos Euros, um rendimento que, todos os que vivem do seu salário concordam, é insuficiente para fazer face ao custo de vida”, refere Helena Neves.

A coordenadora da USNA salienta ainda que “a somar aos milhares de trabalhadores que ganham o salário mínimo nacional juntam-se todos aqueles que, cumprindo funções de carácter permanente muitos deles, num horário completo, 5 dias por semana, ganham 200, 300 euros, através de um contrato de emprego e inserção, num estágio, ou qualquer outro programa ocupacional. São os que o IEFP designa por ocupados”.

A responsável centra-se nos números do desemprego em Elvas. “Para termos uma ideia de que forma o número de ocupados deturpa os números do desemprego basta olharmos para os números do desemprego divulgados para o concelho de Elvas. É que em Junho deste ano, o IEFP revelava um total de 1266 desempregados no concelho, mas um total de 1619 pessoas desempregadas mais ocupadas. Significa que, 353 pessoas saíram dos números do desemprego, mas na prática continuam desempregadas, num estágio ou a esgotar desemprego num qualquer local de trabalho da administração pública, seja município, junta de freguesia, escola ou centro de saúde, ocupando um posto de trabalho permanente que, a corresponder a um vinculo efectivo de trabalho, baixaria realmente os números do desemprego e não apenas no papel…”, realça.

Os dados nacionais revelam ainda, no entender de Helena Neves, “que mais de metade dos desempregados estão nessa situação há mais de dois anos, os chamados desempregados de longa duração, muitos já desistiram de procurar trabalho e já não constam dos números do desemprego. 2 em cada 3 desempregados, não tem acesso a subsídio de desemprego e esta é também uma consequência dos elevados níveis de precariedade que levam a que muitas pessoas não trabalhem o tempo suficiente para garantir o acesso a esta prestação”.

A CGTP-IN reafirma que é com “a organização e luta dos trabalhadores em cada local de trabalho que juntos conseguiremos que cada vinculo precário se converta num vinculo efectivo, que se contratem trabalhadores em número suficiente e com salários dignos, combatendo a exploração e o empobrecimento. Melhores salários conduzem a maior poder de compra, determinante para o crescimento da actividade económica e a criação de mais emprego”.

Pedro Sena

At https://www.linhasdeelvas.pt/

Artigo de opinião: “Os “lambe-cus””

Elisio Estanque 1205557Eles são a contraparte da vontade de bajulação de personagens “importantes” cujos enormes umbigos – e as lambidelas diárias – os fazem sentir-se muito mais importantes do que realmente são.

No Portugal antigo, nos tempos da sociedade rural e do paroquialismo, era a “graxa” que dava “lustro” aos mais poderosos. Mais tarde surgiram os “lambe-botas”; e atualmente, é o tempo dos “lambe-cus”. A espécie não é obviamente um exclusivo do “habitat” lusitano. Mas não tenho dúvidas de que por cá ela germinou, floresceu e hoje multiplica-se a olhos vistos. Isto porque aqui encontra as condições ideais para a sua multiplicação. Os atuais lambe-cus são descendentes dos “lambe-botas”. Não deixa, no entanto, de ser curioso, e aparentemente paradoxal, que os lambe-botas (os pais dos lambe-cus) tenham sido tão combatidos, quase exterminados, com a restauração da democracia, e depois ressurgiram tão vigorosamente. À medida que o regime democrático se foi acomodando às suas rotinas burocráticas e, posteriormente, começou a ser corroído por dentro, eles brotaram das entranhas e estão agora por todo o lado. Digamos que a corrosão da democracia está em correspondência direta com o aumento dos lambe-cus. Porque será que isto ocorre e porque será que o país se tornou um “viveiro” tão fértil para esta espécie?

Na era da escravatura e ao longo do feudalismo a subserviência era uma obrigação. A resignação era intencionalmente fabricada para uso caseiro de soberanos e poderosos. O escravo servia com zelo e dedicação no interior de palácios, fazendas e casas senhoriais, em ambiente mais ou menos despóticos. Nos tempos do salazarismo e do Estado-Novo os “lambe-botas” foram cultivados e cresceram dentro das hostes do regime, nas corporações, no interior das forças repressivas e junto dos grupos dominantes. O aparelho de Estado e a doutrina oficial impunham a obediência geral, pelo que o “lambebotismo” era intrínseco aos bastidores do poder.

Por outro lado, com a chegada da democracia deu-se uma viragem. Houve uma espécie de “PREC” anti-lambebotas. Acresce que nessa fase os cus mais gordos e bem tratados saíram de cena, isto é, ou exilaram-se ou entraram numa espécie de clandestinidade. E isto também porque com a multiplicação do cidadão ativo e ciente dos seus direitos, estas duas subespécies tiveram grande dificuldade em prosperar. O cidadão pleno e emancipado, com a espinha dorsal no sítio, afirmava-se por si próprio e, durante algum tempo, os próprios lideres e dirigentes prescindiram dos lambe-cus e das suas manobras. Esse cenário foi, no entanto, passageiro. Rapidamente se começou a notar a grande resiliência desta camada de gente, que aliás, rapidamente renasceu das cinzas.

Com a entrada na era da tecnocracia (anos oitenta, por aí…), o novo-riquismo apoderou-se das estruturas dirigentes, donde resultou o vazio da política e, em vez dela, cresceu a burocratização e os cargos de decisão reverteram-se nos principais locus de incubação dos novos lambe-cus. Do ponto de vista genético o lambe-cus é despojado de coluna vertebral, ao contrário dos seus antecedentes (os lambe-botas) que ainda tinham algum resquício de coluna, embora torcida e vergada aos seus amos. Na sua versão mais pura, o lambe-cus possui qualidades que lhe permitem detetar à distância onde se encontra o cú mais proeminente e atrativo para ser lambido. Alguns desenvolveram até uma língua bífida, especialmente elástica e hipertrofiada, o que lhes permite lamber vários cús ao mesmo tempo sem que os respetivos donos se apercebam da concorrência. Já quanto ao “caráter” é um atributo que, pelo contrário, se encontra atrofiado ou não existe sequer. O “ego” do verdadeiro lambe-cus só se faz notar quando algum cu poderoso dá sinais de querer ser lambido.  É dotado de instintos caninos. Ele projeta-se totalmente na satisfação plena do seu dono.

É verdade que alguns lambe-cus entram por vezes em desgraça, sobretudo quando, dominados por uma pulsão exibicionista denunciam em público os cus que andaram a lamber. Mas o seu habitat natural são as zonas subterrâneas do poder: as grandes corporações e grupos empresariais, os bastidores da política, dos municípios, das universidades, etc. Em todo o lado onde a cultura burocrática cresceu, os séquitos de lambe-cus proliferam e fazem fila. Muitos tiram benefício material e pessoal da sua atividade, podendo até enriquecer, sobretudo depois de terem ajudado os seus patronos a um enriquecimento milhões de vezes superior ao seu. Mas a sua verdadeira recompensa está no próprio ato de lamber. Sem essa prática, constante e repetida, a sua existência não tem qualquer sentido. Eles são a contraparte da vontade de bajulação de personagens “importantes” cujos enormes umbigos – e as lambidelas diárias – os fazem sentir-se muito mais importantes do que realmente são.

Elísio Estanque

At https://www.publico.pt/