Arquivo de etiquetas: Religião

Crónica: “A maior herança”

Jose Luis PeixotoDiscordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre. Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

Ainda no carrinho de bebé, procurei fazer várias viagens com os meus filhos, todas as que foram possíveis. Em tempos, os meus pais fizeram o mesmo comigo. Com os meus filhos, as pessoas que viajavam ao nosso lado no avião tiveram de ter paciência com o bebé a chorar às vezes. Com os meus pais, nunca hei de esquecer o cheiro do carro de madrugada. Num e noutro caso, havia o fascínio pelo caminho e a expetativa por tudo o que imaginávamos acerca do lugar para onde nos dirigíamos.

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos.

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.

José Luís Peixoto

Novembro de 2015

At https://www.voltaaomundo.pt/

Opinião: “Os deslizes da ‘imprudência’.”

Patriarcado

Bruno CarapinhaO Patriarcado afirmou que a publicação de uma explícita recomendação de voto no Basta, no Nós Cidadãos e no CDS foi uma ‘imprudência’. Mas quer a publicação da recomendação de voto, quer a expressão usada para a comentar oferecem-nos confissões muito interessantes.

A primeira confissão é a da continuada interferência da Igreja na vida democrática do país, usando a adesão de crentes à confissão religiosa como mecanismo de exercício de poder sobre as suas vidas e opiniões políticas.

A Igreja vai a jogo, está no combate político, não paira acima da vida política – e, portanto, não pode continuar imune ao escrutínio mais apertado que esse posicionamento obriga. É a essa luz que se torna necessário um debate maior sobre a laicidade do Estado, sobre a sua omnipresença institucional, sobre os privilégios que esta confissão continua a ter no país e sobre os inúmeros mecanismos de financiamento directo e indirecto que insidiosamente vai conseguindo impor com o apoio expresso de alguns partidos.

A segunda confissão é a normalização da extrema-direita em Portugal. O Patriarcado deu o sinal de que mais facilmente se oporia ao PS e ao PSD do que ao Basta. Se isso não é a validação católica das mensagens xenófobas e autoritárias, não sei o que poderia ser.

O histórico da Igreja Católica não a ajuda. Ao longo de milénios, ela fez mensagens de apoio aos mais fracos mas conviveu sempre foi com os mais fortes; jurou proteger os marginais, mas perseguiu e apoiou a exclusão de minorias étnicas, religiosas, políticas, sexuais, etc. E, claro está, no último século, esteve quase sempre do lado dos fascismos e dos autoritários.

Perante a emergência de uma nova vaga autoritária global, a Igreja tem responsabilidades, quer na recusa da validação do extremismo antidemocrático, quer no efectivo combate à sua propagação. Ao permitir esta colagem, o seu contributo vai exactamente em sentido contrário. E confessa uma visão pequena do impacto e dos perigos de uma sociedade envenenada pela xenofobia, pelo obscurantismo e pelo ostracismo promovidos por movimentos como o Basta para o centro da mensagem católica.

A terceira confissão é a mais subtil e, por isso, mais perigosa. O Patriarcado não diz que errou. Não se demarca do apoio implícito às mensagens autoritárias e xenófobas, à reintrodução da pena de morte, à crítica à alegada inversão da escravatura com que o Basta sujou as ruas das nossas cidades.

Poderia dar-se o caso da página estar a ser gerida por um qualquer radical católico. Mas a Igreja não disse nada disso. Não emendou a mão. Perante a forte reacção nas redes sociais, apagou o post. Mas já deveria saber que, uma vez na internet, para sempre na internet.

O Patriarcado afirma que foi uma ‘imprudência’. Não era para publicar. Não era para se saber. Não quer o escrutínio. A Igreja quer continuar a fazer o que faz longe dos olhares dos outros, cujas vidas também afecta, mesmo que não sejam crentes. Perante as perguntas dos jornalistas sobre o apoio explícito a estes partidos, não o nega, escusa-se a comentar.

Publicar nas redes sociais expôs a Igreja, as máscaras caíram. Mas convenhamos que nada disto é novo. O recurso ao passa-palavra, às homilias, às orientações directas foram sempre os métodos habituais de uma intervenção que não cessa. Assim foi nas campanhas eleitorais, no referendo da IVG, na mobilização do seu aparelho social e institucional contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou em defesa dos contratos de associação de escolas privadas suportadas com dinheiros públicos – e em tantos outros processos.

Mas se o Patriarcado pensa que a coisa fica por aqui, deveria antes saber que a resposta dada é imprudência maior que a publicação. Não se demarcar, não fazer desta posição da tal federação uma posição minoritária, não a tirar do centro da sua mensagem, obriga a muitas perguntas – e a respostas mais profundas. Os outros também têm memória.

Bruno Carapinha

At https://www.facebook.com/

Crónica: “O gulag de Franco: 296 campos de concentração onde reinava o horror”

Franco 1552333653542

Um exaustivo estudo documenta quase 300 centros de internamento franquista e denuncia as penalidades sofridas nestes por quase um milhão de prisioneiros.

O jornalista Carlos Hernández de Miguel, autor de “Los últimos españoles de Mauthause”, fala de um sistema repressivo baseado no medo, extermínio e a reeducação.

A transferência em vagões de gado, a fome, “os exércitos de piolhos, percevejos e pulgas” (que faziam que a roupa se movesse sozinha pelo chão, evocava um preso), as enfermidades (tifos, tuberculose, sarna…), a falta de assistência sanitária e de condições higiénicas, a sobrelotação, as humilhações, o frio e o calor extremos…, as surras e torturas letais, o trabalho forçado em muitos casos, o medo de morrer a qualquer momento… “tiravam-lhes os seus pertences e a roupa mal chegavam, rapavam-lhes o cabelo e convertiam-nos em uma massa amorfa e despersonalizada que devia mover-se a golpes de porrete e renegar os seus ideais e crenças se não quisessem morrer.

Era um processo global de desumanização dos prisioneiros, que não eram considerados pessoas e eram tratados como infra-homens e escravos. Um antigo prisioneiro dizia que lhes tratavam pior que aos cães e às bestas porque a elas davam-lhes de comer bem”, explica o jornalista Carlos Hernández de Miguel, falando do resultado da exaustiva investigação que dispensou em “los campos de concentración de Franco” (Ediciones B), que chega esta quinta às livrarias e onde, através de arquivos e testemunhos de sobreviventes, documenta até 296 campos de concentração — 14 deles na Catalunha —, considerados como tais pelo regime e abertos durante a guerra civil por aquela ditatorial “Nueva España”. Como avisava a Falange de Cádiz na portada do seu periódico ‘Águilas’: “Criaremos campos de concentração para vadios e meliantes políticos; para maçons e judeus; para os inimigos da Pátria, do Pão e da Justiça”.

E por eles passaram entre 700.000 e um milhão de homens e também mulheres. Segundo os franquistas, “uma horda de assassinos e foragidos” que não merecia a protecção do Convénio de Genebra, e que, segundo o psiquiatra de família de Franco, Antonio Vallejo-Nágera, eram identificados como “enfermos do gene vermelho”. Sobre eles “não pesava nenhum encargo nem acusação nem condenação sólida. Eram prisioneiros de guerra republicanos, esquerdistas (políticos e sindicalistas) ou o professor da aldeia…”, recorda o também autor de outro monumental e necessário ensaio, ‘Os últimos espanhóis de Mauthausen’ (2015), do qual surgiu ‘Deportado 4443’ (2017), com o desenhador Ionannes Ensis.

“Fugir da sombra de Auschwitz”

Ao falar de campos de concentração é impossível não pensar no extermínio de Hitler, com barracões rodeados de alambrados, ou nos gulags de Estaline. As penalidades e condições citadas foram similares, porém “há que fugir da sombra de Auschwitz e evitar a comparação directa com o nazismo — avisa Hernández — porque pode parecer que ante a barbaridade de seis milhões de exterminados nas câmaras de gás as vítimas dos restantes crimes contra a humanidade sejam menos vítimas. Franco tinha as suas necessidades, as guerras foram distintas e os campos do franquismo eram um sistema com as suas próprias peculiaridades. Queriam exterminar a uns quantos e reeducar o resto”.

“Foram improvisados e houve desorganização, porém a sua criação foi premeditada”, constata o autor, ex-correspondente em conflitos como o Kosovo, Palestina, Afeganistão e Iraque. O primeiro campo abriu-se a 19 de Julho de 1936, apenas 48 horas depois do golpe contra a República, em Zeluán, no antigo protectorado espanhol de Marrocos. “Já em Abril, o general Mola havia apelado a criar essa atmosfera de terror e a fuzilar a qualquer um com vínculos com a Frente Popular”. O campo mais longevo foi o de Miranda de Ebro (Burgos), que encerrou em 1947 e por ele passaram 100.000 prisioneiros. “Foram uma rama mais, horrível e aterrorizador, do sistema repressivo franquista”; os cárceres mereciam outro livro. À medida que os nacionais conquistavam territórios iam abrindo campos em praças de touros, espaços desportivos, conventos e mosteiros, manicómios, fábricas, armazéns, hipódromos…, cujas condições de vida e morte dependiam da arbitrariedade de cada oficial ao comando.

“Os presos recordam o medo de morrer a qualquer momento. Temiam que se abrisse a porta e viessem buscá-los para uma ‘saca’, o que significava que lhes iam fuzilar em uma qualquer valeta”.

Dos testemunhos dos presos destaca Hernández vários rasgos que os definiam. “Um, o medo de morrer em qualquer momento. O pânico aos ruídos de noite, porque se ouviam que se abria a porta significava que vinham buscar algum para uma ‘saca’ e ser fuzilado”. E de dia, à vista de falangistas que buscavam vingar-se de antigos vizinhos e viúvas à caça dos supostos assassinos dos seus maridos. O destino era o mesmo, acabar morto em qualquer valeta.

Dois, a fome e os seus efeitos, “que descrevem de forma descarnada”. Água negra de castanhas, água com espinhas de pescados e minhocas, beber a própria urina… “Embrutecemos-nos até ao ponto de perder toda a dignidade humana”, recordava o preso José María Muguerza. Como exemplo, o caso que contava Guillermo Gómez Blanco do cão lobo que trouxe, “para impressionar”, “um tenente muito à maneira da Gestapo, com chicote e oculitos sem armação”, e que em um descuido desapareceu. “Engolimos em seco!”

“Os sacerdotes tiveram um papel importante no adoutrinamento e na reeducação. E violavam o segredo de confissão para obter informação dos presos”

E, três, que ademais de “lugares de extermínio eram-no também de reeducação, para lograr a submissão ideológica e mental”, porque como dizia Franco, o seu objectivo “não era só vencer, mas também convencer”, ainda que os seus métodos só conseguissem submeter e reafirmar o desprezo dos prisioneiros em relação ao regime. Cantar o “Cara al sol” e outros hinos franquistas, formar várias vezes ao dia e fazer a saudação fascista, missas e comunhões obrigatórias… Os presos, se saíam (impossível sem o aval de algum padre, alcaide ou político fascista), deviam sair “reformados”. Aí teve também um papel fundamental e nefasto a igreja católica exercendo, denuncia Hernández, “um adoutrinamento obrigado e forçoso por parte dos sacerdotes”. Estes “violavam o segredo de confissão para obter informação dos presos e utilizá-la contra os seus companheiros”. Pistola ao cinto, também houve padres verdugos, como o padre Nieto, na ilha de São Simão, a quem recordavam a golpear com o seu bastão a um fuzilado agonizante e gritando-lhe: “Morre, morre, vermelho ímpio”.

A cifra dos mortos é difícil de concretizar. A de 10.000 que se atreveu a dar o historiador Javier Rodrigo, que havia constatado em seu dia 188 campos, segundo Hernández, fica muito curto. “Agora, após documentar só os mortos em 15 dos 296 campos, já somam 6.000”. Não há dados em registos nem em cemitérios, falsificavam-se as causas das mortes, a maioria segue, hoje, em fossas comuns e cunetas, e muitos, os considerados “inimigos irrecuperáveis”, entre eles todos os oficiais do Exército republicano, foram fuzilados após sair do campo para ser submetidos a conselhos de guerra e a julgamentos sumaríssimos sem garantias.

Viver com “medo e vergonha”

Um daqueles presos, Luis Ortiz, libertado em 1943 e cujas palavras encerram o livro de Hernández, faleceu a semana passada aos 102 anos. Dizia que queria morrer com as botas postas e fê-lo, com a mensagem de contar aos jovens a verdadeira realidade do regime. “Durante a ditadura estes homens que haviam defendido as ideias democráticas, viveram com medo e vergonha porque a sociedade identificava republicanos com criminosos e assassinos de padres — lamenta o jornalista. A quem hoje quer branquear o franquismo há que contestar-lhes com dados para que se recorde que neste país houve um regime democrático que foi violentado por um golpe fascista com o apoio dos nazis e de Mussolini”.

Vexames e violação de mulheres

Não houve campos de mulheres, mas sim mulheres nos campos, como no de Los Almendros de Alicante ou o de Cabra (Córdoba). A maioria esteve nas prisões, porém sofreram a fome, a sobrelotação e o maltrato tal como os homens. E vexames: davam-lhes óleo de rícino para que tivessem diarreia enquanto as obrigavam a desfilar com o cabelo rapado. Prática estendida nos campos, segundo múltiplas testemunhas, era a violação de esposas e filhas de cativos quando acudiam a levar-lhes roupa e comida. Os presos sabiam que a elas não lhes restava outra que “rebaixar-se”. Em Castuera, quando se levava um ao paredão, os seus companheiros cantavam: “Mulher que adoro, quanto o sinto/não poder-te abraçar já (…) choro porque tudo terminou/ por salvar-me a tua honra deste/ isso também o sei eu”. Quase 31.000 bebés roubou o franquismo às republicanas, segundo dados da Audiência Nacional para a ONU.

Ana Abella

At https://www.elperiodico.com/