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“Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha.”

Da passagem medieval por Castelo de Vide à sinagoga do Porto criada no século XX. Do imaginário literário à materialidade da saudade. A TSF seguiu a rota da memória sefardita por Portugal e nela encontrou a terra prometida.

Judeus Sefarditas

Michael Rothwell leva o livro sagrado até à linha dos olhos e abre-o com reverência, diante de uma sinagoga calada, a 25 Sivan do ano hebraico de 5779. O calendário civil marca 28 de junho de 2019, uma sexta-feira, e faltam poucas horas para o pôr-do-sol que inicia o sabat, e que apenas se extingue, de acordo com o Génesis, ao aparecimento das primeiras três estrelas da noite de sábado.

O templo está esvaziado da união de 10 homens de mais de 13 anos necessária ao serviço religioso, mas guarda a luz, sempre acesa, dirigida para Jerusalém. Para os judeus, a sinagoga tem de se orientar, como a própria ação o indica, para Oriente, onde o templo verdadeiro existiu em tempos.

“Escuta, Israel, o eterno é nosso Deus, o eterno é um. Bendito seja o nome daquele cujo glorioso reino é eterno. Amarás ao eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses.” As palavras são lidas da Tora, onde o hebraico e o português convivem como secularmente se falaram, sem empecilhos. A sinagoga portuense, Kadoorie – Mekor Haim (“Fonte de Vida”), a maior da Península Ibérica, reverbera as palavras de culto contra as paredes de azulejos com inspirações marroquinas, a favor da estrela de David.

Michael Rothwell não ignora que há 500 anos poderia ser apanhado entre as rezas, pelos colarinhos, e levado até aos autos-de-fé. Há um peso histórico que se abate sobre os seus ombros, uma lembrança que vai sendo renovada, como uma história que tem várias formas de ser contada.

“Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica, e sabemos que o que hoje está bem amanhã pode não estar”, confidencia, à TSF, o professor de matemática, inglês, de 65 anos. As sombras de uma mão pesada da Inquisição são apenas silenciadas nos programas escolares, onde a questão judaica, aponta, raras vezes encontra protagonismo.

“Luz simboliza vida, não é? Tem de se manter sempre acesa essa luz.” Foi debaixo deste ideal que a comunidade judaica do Porto foi criada há 96 anos, em 1923. Reza a história judaica que o militar Barros Basto, guiado pela motivação de fazer retornar ao judaísmo as famílias de cripto judeus/ marranos que tinham sido forçadas à conversão a partir de 1496. Em plenos anos 20, lembra Michael Rothwell, criar pontes entre as várias aldeias remotas de Portugal era uma tarefa hercúlea.

Alguns jovens foram trazidos para o Porto para se tornarem líderes comunitários, depois de uma jornada penosa: “Não havia estradas, e ele ia a cavalo. Foram muito difíceis as viagens e as conversas com os cripto judeus, que por natureza escondiam a sua religião.”

Na escalada que antecedeu a II Grande Guerra, no entanto, “o capitão foi alvo de inveja e de ódio, acusado de crimes que não tinha cometido, pelo que foi afastado do exército”. Os marranos deixaram de sentir confiança no líder e regressaram às aldeias de origem. “Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade de sobrevivência”, conta o representante da maior sinagoga da península.

As obras tinham terminado em 1938, um ano particularmente dramático para os judeus, com novembro a assinalar a Kristallnacht (Noite de Cristal), em que dezenas de judeus foram violentadas até à morte e as suas lojas vandalizadas, até partir o orgulho judaico em mil pedaços de vidro que faziam sangrar no peito. “Provavelmente foi a única sinagoga inaugurada na Europa nesse ano.”

Ainda que o projeto de Barros Basto tenha sido deitado por terra nos seus primeiros anos, as sementes judaicas portuguesas tinham-se espalhado pelo mundo, sem que os fundamentalismos tivessem conseguido dizimá-las. “A cultura sefardita manteve-se ao longo dos séculos. Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais”, explica Michael Rothwell.

Hugo Vaz, 31 anos, um dos casos raros de conversão ao judaísmo, ergue um molho de chaves, que tilintam: “Um dos objetos mais representativos dessa presença é precisamente este. Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496.”

“As casas já não existem, mas as chaves ainda existem”, completa o professor de 65 anos. Em tempo de diáspora, os judeus levaram pedaços de Portugal e Espanha dentro do coração e pelos quatro cantos do mundo. “Ainda hoje há pessoas na Turquia com avós que falam ladino e que conseguem chegar cá e entender-nos, sem que qualquer membro da família, desde 1497, tenha pousado os pés na Península Ibérica”, assevera o membro da direção da comunidade judaica do Porto.

Docente, Michael Rothwell volta-se para a História com a mesma ênfase com que soma conhecimentos matemáticos. Na perspetiva do inglês radicado em Portugal, é urgente rever os manuais escolares. “Muitas pessoas, senão todas, têm raízes judaicas em Portugal. Depois da expulsão decretada em Espanha, em 1492, estimamos que 100 mil judeus de Espanha se tenham juntado aos 100 mil que já havia em Portugal, o que perfazia 20% de população judaica. É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus.”

De acordo com Michael Rothwell, a comunidade judaica prefere manter-se discreta, resguardada do antissemitismo que “vem da inveja, porque há, sem dúvida, muitos judeus bem-sucedidos e inteligentes”.”Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada relativamente à sua quantidade”, concretiza.

Uma comunidade pequena, sobre a qual ainda são apregoadas “teorias da conspiração”, com um léxico português a favorecer preconceitos. As expressões ‘és como um judeu’ ou ‘judiarias’ não encontraram trava-línguas com o passar dos séculos e radicaram-se na cultura do país.

A chave que voltou a casa, 400 anos depois

Foi em Castelo de Vide, no nordeste alentejano e a 12 quilómetros de Espanha, que se construiu uma das mais antigas e significativas ruas de habitações judaicas portuguesas. É um marrano que anda pela judiaria (no Priberam, ‘bairro de judeus’ ou ‘reunião ou conjunto de judeus’) sem travessura, mas com o olhar atento sobre os menorás – candelabros de sete braços – estilizados na pedra à porta das casas e sobre as reentrâncias onde se guardavam as escrituras judaicas sagradas.

Carolino Tapadejo, antigo autarca e estudioso dos assuntos sefarditas em colaboração com a Universidade Hebraica de Jerusalém, conta de cor as origens da História judaica em Castelo de Vide, que são também as páginas escritas pelos seus antepassados. E inicia-se assim: quando, em 1320, 17 famílias hebraicas se estabelecem na vila pertencente ao concelho de Portalegre. “Com o tempo, juntaram-se muitas outras famílias na rua da judiaria.”

Com a chegada da Inquisição a Portugal, em 1536, a lista de vítimas assassinadas em autos-de-fé avolumou-se, e o branco no preto não mente: foram mais mulheres perseguidas, para que se quebrasse o vínculo da educação judaica que a progenitora passaria aos filhos. Clara Mendes, Catarina Gomes, a Bonita, Isabel Gomes, Beatriz Henriques, Violante Lopes, Mécia Rodrigues, Inês Tristôa, Leonor Vaz. Estes são apenas alguns dos nomes por que Mário Soares, Presidente da República em 1989, pediu perdão “em nome de Portugal”.

Em compromissos velados, algumas casas mantiveram as práticas (e as sinagogas escondidas) que o judaísmo lhes instruíra. Os cripto judeus, forçados à conversão por um batismo na fonte central da vila, continuaram a dizer ‘dessa água não beberei’, no que ao catolicismo dizia respeito, tudo isto consagrado em rituais secretos e à sombra do medo. “As minhas vizinhas, nas sextas-feiras à tarde, faziam umas cerimónias que eu nunca compreendi, e uma delas colocava aqui uma vela [retira a tampa de um jarro de argila]. Ela cortava em pedaços o rebordo do recipiente para lá dentro poder alojar a candeia. Dizia que a luz não podia ser vista da rua. Faziam isto sem saber explicar muito bem porquê”, recorda Carolino Tapadejo, em entrevista à TSF.

O entusiasta que já passou por Espanha, Grécia, Itália, França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Canadá e Brasil numa cruzada com recurso apenas ao dom da palavra veio a encontrar uma das histórias de amor à terra mais surpreendentes em Israel.

“Estive a dar uma palestra numa universidade a norte de Telavive. Quando já estava a sair do palco, uma das senhoras, já idosa e muito doente, disse-me, num ladino muito alterado: ‘Eu sou de Castelo de Vide, mas eu nunca lá fui.’ Eu disse-lhe que não tinha compreendido, e ela respondeu-me: ‘A minha família fugiu de Castelo de Vide, na primeira metade do século XVI, para o Império Otomano; Constantinopla, depois Istambul, mas sempre me disseram que a minha terra era Castelo de Vide. Eu vi que vinha cá um homem da minha terra-mãe, e quis vir ouvi-lo.'” A castelo-vidense, deslocada em geografia mas nunca em identidade, percorreu mais de 170 quilómetros, porque não tinha descendentes, estava com cancro e só queria voltar a casa.

Foi em 2015 que se fechou o último capítulo de um livro há tanto tempo guardado nas prateleiras do legado familiar. Chegada a Castelo de Vide, “a senhora depositou nas minhas mãos a chave medieval e os nomes da rua e de umas vizinhas”. Guardião da casa e da História dos seus conterrâneos espalhados pelo mundo, Carolino Tapadejo afiança: é a primeira vez que uma chave daquela época retorna à porta que em tempos abriu.

Em ladino, também se diz ‘saudade’

“É interessantíssimo como chegámos ao século XX e depois ao século XXI com uma diáspora de judeus pelo mundo que mantém uma lagrimazinha no cantinho do olho quando se fala de Sefarad. Sefarad transformou-se quase num mito, o que significa que muitos judeus de origem portuguesa hoje procuram Portugal para fazer uma arqueologia da sua memória.” As palavras são de Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

Sefarad – Portugal e Espanha – permaneceu no imaginário destas famílias obrigadas a abandonar o território peninsular como uma terra de esperança, uma terra onde foram felizes, onde houve prosperidade e possibilidade de diálogo, desde a época do domínio islâmico e até à primeira dinastia. “Efetivamente, para muitos judeus sefarditas, o fim da história não é Jerusalém. O fim da história é Portugal e Espanha”, analisa o embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions.

Capítulos que ainda não encerraram com um final feliz encontraram oportunidades de reconstruir a imagem idílica que estes antepassados longínquos têm de terras lusas. Desde 2016, mais de 2100 sefarditas solicitaram cidadania portuguesa , e, no final de junho de 2018, os israelitas já se encontravam em segundo lugar entre os candidatos à nacionalidade portuguesa. De portas abertas, Portugal dificilmente voltará a sofrer fenómenos de perseguição à comunidade judaica, de acordo com Paulo Mendes Pinto, que explica: “Curiosamente, nós não temos o antissemitismo que grassa pela Europa central. A maioria dos portugueses garantidamente nunca se cruzou na rua com um judeu, e, mesmo que tivesse cruzado, não o saberia.”

Com mais literacia e cuidados com a higiene que os demais habitantes medievais das vilas e centros urbanos, os judeus foram ostracizados e incompreendidos. “O judeu começa a ser visto como o bode expiatório por todas as situações que corram mal: pode ser um ano em que há fome, pode ser um ano de peste, pode ser uma fonte com água contaminada”, revela o autor, que aponta que os judeus mais religiosos não adoeciam por terem já hábitos de desinfeção, limpeza e fervura das roupas usadas.

O Bar Mitzvá, realizado aos 13 anos no caso dos rapazes e aos 12 para as raparigas, obrigava também a que todos comungassem da literacia para que, sem dificuldades, dissessem as palavras sagradas. “Aos 12 anos, qualquer judeu é letrado, sabe ler e escrever. Temos provas de que funcionava assim, e isso lançava sobre eles um olhar incómodo da turbe cristã analfabeta. No século XV, alguém que é letrado, tem conhecimentos de matemática e consegue calcular juros e percentagens está muito mais preparado para ter sucesso.”

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”

Para ter sucesso e para gerir as finanças das grandes instituições portuguesas. “A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa. Antes da conversão forçada, todas as cidades e aldeias tinham uma comunidade judaica. Eram sapateiros, mercadores, alfaiates e participavam ativamente na vida pública. Tiveram também a sua participação nos Descobrimentos.” É assim que Richard Zimler, autor de 11 romances, levanta o véu ao que desvelou, desde 1996, data de publicação d’O Último Cabalista de Lisboa.

“Começava ao mesmo tempo a compreender que, ao voltar para Lisboa, me era dada a possibilidade de reparar o desvio do meu destino”, está escrito nas primeiras páginas. Longe desse mergulho iniciático, Richard Zimler, mais judeu por identidade do que por crença, norte-americano, português, filho de um marxista que considerava ser a religião o “ópio do povo”, continua a encarar com fascínio a presença sefardita na Península Ibérica.

“O que mais me espantou, quando comecei a escrever ‘O Último Cabalista de Lisboa’, foi que, sempre que eu falava com os meus amigos sobre o massacre de Lisboa de 1506, em que milhares de cristãos-novos foram queimados e mortos no Rossio, todos eles – advogados, médicos e professores catedráticos – respondiam: ‘Mas qual massacre?’ Ninguém sabia de nada, talvez apenas meia dúzia de peritos”, recorda Richard Zimler. O estigma fazia com que nem mesmo o código genético e as raízes dos portugueses lhes fossem assuntos familiares: “As pessoas tinham medo e não queriam investigar a ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu, porque aprenderam, depois de 240 anos de Inquisição e de 50 anos de ditadura, a não falar de certos temas como o judaísmo.”

Numa mesa de café, à roda das conversas mundanas, o autor, cidadão de Nova Iorque, Porto, Lisboa, Israel, mundo, faz questão de lembrar que os próximos tempos testarão a abertura e flexibilidade da jovem democracia portuguesa. “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.” É a frase de José Saramago que ali se entrelaça nas ideias e convicções do também jornalista.

“A terra prometida, para os judeus sefarditas, não era a Palestina. Era Espanha e Portugal. Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto.” Podiam não falar um português perfeito, mas sabiam como soa, quando bate, a palavra ‘saudade’.

Embaixadores do judaísmo português da época moderna

Para José Oulman Carp, antigo presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, basta abrir o álbum de família para compreender como a História de Portugal se dilui, anónima e indistintamente, no legado dos judeus sefarditas. O primeiro registo que encontra data de 1818, ano em que Abraão Bensaúde retorna aos Açores, à ilha de São Miguel, por ainda constatar que, no território continental, o cenário não era nada católico, ou, por outra, era demasiado católico.

“A minha família chegou a Marrocos com o nome Hassiboni. No cemitério judaico de Ponta Delgada – um cemitério muito bonito, aliás, e com um nome muito adequado para um cemitério, que é Campo da Igualdade -, as campas mais antigas são de Bensaúde, depois de Hassiboni, e, mais tarde, voltam a ser Bensaúde”, conta. Os primeiros retornados judeus pós-Inquisição iniciaram a edificação da mais antiga sinagoga portuguesa desde a perseguição cristã em Ponta Delgada, logo no ano de 1836.

Pioneiros na exportação da laranja açoriana, fundadores da fábrica de tabaco micaelense e donos de estufas de ananases, os Bensaúde, família judaica, impulsionaram a economia da região insular. Os conhecimentos eram trazidos do estrangeiro, onde os mais novos estudavam, porque, “nos finais do século XIX, os judeus não podiam frequentar universidades portuguesas”.

José Oulman Carp detém-se sobre cada uma das fotografias, e, entre os dedos, desfia as contribuições mais diretas dos seus familiares. “A Matilde era uma mulher notável, que estudou em Portugal e nos Estados Unidos, e introduziu o certificado fitossanitário, que hoje ainda é utilizado em muitas transações de mercadorias.”

“O Joaquim foi engenheiro e historiador. Publicou cerca de 300 livros, todos sobre o período das viagens de circum-navegação”, continua. “O Alfredo Bensaúde fundou o Instituto Superior Técnico.” José Oulman Carp é também sobrinho de Alain Oulman, poeta e compositor de fados cantados por Amália Rodrigues.

Portugueses, judeus, comerciantes, engenheiros e artistas, devolveram a diversidade religiosa e cultural ao país. “Cada pessoa é uma planta de estufa. Precisamos de luz, de água, de terra. Temos de cuidar uns dos outros, sobretudo quando somos uma comunidade tão pequena. Ser presidente da comunidade foi como ser um jardineiro que cuida desta página da História do judaísmo”, conclui José Oulman Carp.

At https://www.tsf.pt/

Artigo de opinião: “CAMÕES: O que está vivo n’Os Lusíadas”

Antonio Valdemar author_photo_457Camões não se pode reduzir aos jogos partidários e aos expedientes da retórica política, aos aproveitamentos de governos e governantes de vários regimes para justificação de exacerbações nacionalistas.

Deparamos, passo a passo, n’Os Lusíadas, um sentido crítico, uma perspetiva humanista e uma visão ampla e diversificada em torno das grandes questões políticas, sociais e filosóficas. Ao pronunciar-se acerca da máquina do mundo, do argumento perentório da existência de Deus não hesita interrogar: «é Deus? mas quem é Deus, ninguém o entende/ que a tanto o engenho humano não se estende?» Faz apelos contínuos para a urgência da liberdade e a reposição da justiça, a fim de construir uma sociedade assente nos princípios da honra e nos valores da solidariedade.

Sucessivas gerações de eruditos portugueses e estrangeiros continuam a recapitular hipóteses formuladas desde os mais antigos biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o arbitrário Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito.

Perduram as controvérsias acerca do local e dia do nascimento, da identificação dos pais; dos estudos na Universidade de Coimbra, do serviço militar em Ceuta, do que ocorreu na passagem na Índia e em Macau; da residência em Constância; do valor da tença atribuída e da sua equivalência em dinheiro atual; do dia da morte, da sepultura em Lisboa e, ainda, da autenticidade dos ossos trasladados para o túmulo nos Jerónimos. Estes e outros aspetos continuam por esclarecer e, na maior parte dos casos, repletos de lendas e fantasiosas conjeturas.

Todavia, a leitura d’Os Lusíadas, das líricas, dos sonetos, dos autos e das cartas colocam-nos perante reflexões e advertências profundas. O homem, o Camões de carne e osso, – tal como o retrataram os que o conheceram – manifestou-se com frontalidade e independência. Não recorreu – como era habitual na época – a um prefaciador para o panegírico tradicional na apresentação d’Os Lusíadas, nem se esquivou a enfrentar poderosos, a contrariar opiniões dominantes, a insurgir-se contra a grave situação que o País vivia.

A Inquisição estava instalada desde 1536. A censura encontrava-se em pleno funcionamento. Os livros eram submetidos à leitura prévia e só poderiam ser impressos e postos a circular depois da autorização do Santo Ofício. Assim aconteceu, em 1572, com Os Lusíadas. Estudiosos camonianos – Sousa Viterbo e Aquilino Ribeiro, por exemplo – formularam hipóteses acerca do que terá sido truncado no manuscrito e, também, acerca das possíveis intervenções do censor ao fabricar versos, para condescender na publicação de outros.

Num tempo de perplexidade e angústia, Camões reforçou a identidade coletiva e defendeu a autonomia política de Portugal. Quando voltamos a estar confrontados com problemas de extrema complexidade, Os Lusíadas representam uma fonte de energia para transpor a impaciência e o fatalismo. Camões celebrou as memórias gloriosas de Portugal e de portugueses, mas sem virar as costas à crise política e à degradação humana, em tantos aspetos, com analogias com a época em que vivemos.

Numerosas passagens d’Os Lusíadas aplicam-se à atual realidade portuguesa; a uma classe política, sedenta de poder e de elogios públicos, sem dignidade e sem carácter e sem qualquer projeto voltado para o futuro: nenhum ambicioso, que quisesse/subir a grandes cargos, cantarei, /só por poder com torpes exercícios/usar mais largamente dos seus vícios.

Deplora os fatores de insegurança e a precaridade dos vínculos laborais: nenhum que use de seu poder bastante/para servir a seu desejo feio/a despir e roubar o pobre povo! Manifesta apreensão por tudo quanto gera o desespero, multiplica a violência, aumenta a criminalidade e intensifica a apagada e vil tristeza.

E a crise na saúde? E as listas de espera nos hospitais que aumentam de forma vertiginosa e assustadora? Faz recordar Camões ao deplorar a morte nos hospitais em pobres leitos/os que ao rei e à lei servem de muros.

E a crise na justiça? O sistema judicial que não funciona, as reformas essenciais por fazer, por estudar e por decidir? A obrigação de restabelecer a normalidade para impedir a generalização do caos. A recomendação de Camões continua oportuna: quem faz injúria vil e sem razão/ com forças e poder em que está posto, /não vence, que a vitória verdadeira/é saber ter justiça, nua e inteira.

E a crise moral? A venalidade, o suborno e a corrupção aos mais diversos níveis? Camões revoltou-se contra as honras e dinheiro que a ventura forjou. Para concluir que não lava o muito dinheiro/ a nódoa da desonra.

Por tudo isto e muito mais seguiu de perto as grandes inquietações e os problemas do seu tempo e de todos os tempos. Enfrentou o fantasma do medo: a vida que se perde e que periga/que, quando ao medo infame não se rende/ então se menos dura, mais se estende. Resistiu aos profetas da desgraça que anunciam sempre o pior como se estivéssemos sempre às portas do fim do mundo.

António Valdemar

At Viajando com Livros

Comemorações da Batalha de Ourique

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Batalha de Ourique desenrolou-se muito provavelmente nos campos de Ourique, no atual Baixo Alentejo(sul de Portugal), mais precisamente em Castro Verde, em 25 de Julho de 1139 — significativamente, de acordo com a tradição, no dia do provável aniversário D. Afonso Henriques e de São Tiago, que a lenda popular tinha tornado patrono da luta contra os mouros; um dos nomes populares do santo, era precisamente “Matamouros“.

Foi travada numa das incursões que os cristãos faziam em terra de mouros para apreenderem gado, escravos e outros despojos. Nela se defrontaram as tropas cristãs, comandadas por D. Afonso Henriques, e as muçulmanas, em número bastante maior.

Inesperadamente, um exército mouro saiu-lhes ao encontro e, apesar da inferioridade numérica, os cristãos venceram. A vitória cristã foi tamanha que D. Afonso Henriques resolveu autoproclamar-se Rei de Portugal(ou foi aclamado pelas suas tropas ainda no campo de batalha), tendo a sua chancelaria começado a usar a intitulação Rex Portugallensis (Rei dos Portucalenses ou Rei dos Portugueses) a partir 1140 — tornando-o rei de facto, sendo o título de jure (e a independência de Portugal) reconhecido pelo rei de Leão em 1143 mediante o Tratado de Zamora e, posteriormente o reconhecimento formal pela Santa Sé em Maio de 1179, através da bula Manifestis probatum, do Papa Alexandre III.

A primeira referência conhecida ao milagre ligado a esta batalha é do século XIV, depois da batalha. Ourique serve, a partir daí, de argumento político para justificar a independência do Reino de Portugal: a intervenção pessoal de Deus era a prova da existência de um Portugal independente por vontade divina e, portanto, eterna.

At https://pt.wikipedia.org/

Crónica: “A maior herança”

Jose Luis PeixotoDiscordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre. Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

Ainda no carrinho de bebé, procurei fazer várias viagens com os meus filhos, todas as que foram possíveis. Em tempos, os meus pais fizeram o mesmo comigo. Com os meus filhos, as pessoas que viajavam ao nosso lado no avião tiveram de ter paciência com o bebé a chorar às vezes. Com os meus pais, nunca hei de esquecer o cheiro do carro de madrugada. Num e noutro caso, havia o fascínio pelo caminho e a expetativa por tudo o que imaginávamos acerca do lugar para onde nos dirigíamos.

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos.

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.

José Luís Peixoto

Novembro de 2015

At https://www.voltaaomundo.pt/