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Artigo de opinião: “É hora de desobedecer”

Matilde Alvim.jpgEm jogo estão os recursos naturais, o equilíbrio de forças, a sobrevivência e a justiça. Então, como nos podemos resignar e conformarmo-nos com um sistema que abre caminho, a toda a velocidade, em direcção ao ecocídio e à catástrofe climática?

Desobedecer, sim.

Perante o cenário de um futuro caótico e depois de décadas de tentativas praticamente falhadas, só nos resta a desobediência. De forma pacífica, sempre, mas não menos perspicaz.

Parece quase óbvio. Se estivéssemos, num futuro distante, a olhar para trás na História e a ver esta fresta de tempo que estamos a viver, interrogar-nos-íamos sobre o porquê de não termos feito nada. É quase instintivo: em jogo estão os recursos naturais, o equilíbrio de forças, a sobrevivência e a justiça. Então, como nos podemos resignar e conformarmo-nos com um sistema que abre caminho, a toda a velocidade, em direcção ao ecocídio e à catástrofe climática?

A desobediência civil é o acto consciente de um ou mais cidadãos desobedecerem à lei, num acto de protesto político que demonstra desacordo e inconformidade com a ordem estabelecida, existindo várias formas de o concretizar pacificamente. Já Thoreau, no século XIX, usou a desobediência civil como um meio para contestar a guerra americana contra o México, recusando-se a pagar impostos (que financiavam essa mesma guerra). No fundo, a premissa passa por questionar se a lei equivale mesmo à moral, e qual a legitimidade que os cidadãos comuns têm em desobedecer às estruturas superiores quando estas entram em conflito com a sua ética. Como diria Thoreau, o cidadão não pode nunca resignar a sua consciência à legislação, abandonando-a e deixando-a a cargo do poder político. Para além do mais, é até responsável quando apoia os agressores e a injustiça, mesmo sendo este apoio a simples resignação e obediência à lei.

A verdade é que cerca de 100 empresas são responsáveis por cerca de 71% da emissão de gases com efeitos de estufa (GEE) e, enquanto as emissões anuais sobem para recordes históricos, as minas de carvão e as petrolíferas continuam tranquilamente a sua exploração, isentas e impunes de qualquer responsabilização e até, em alguns casos, apoiadas por estados. Talvez a parte mais absurda é que esta situação é, sem dúvida, a ordem dada como normal e até aceitável.

O movimento ecologista surgiu nos anos 70. As emissões globais de GEE aumentaram 75% desde esses anos até 2004, segundo dados do estudo da Netherlands Environmental Assessment Agency.

E agora? Agora, depois de décadas a tentar chamar a atenção para o problema usando o protesto legal, é hora de recorrermos à insubordinação pacífica contra o sistema que permitiu não só que a crise climática se criasse, como a alimentou conscientemente. Serão legítimos os bloqueios a minas de carvão, os acampamentos em prospecções de gás e as obstruções de vias públicas? Sim, sem dúvida. Com certeza não será legítima a destruição do planeta de todos em prol dos interesses de alguns. Aceitar esta situação é compactuar com ela e ser, em parte, responsável e cúmplice da sua continuação e da loucura da crise climática.

A verdade é que a maioria dos cidadãos comuns condena a destruição ávida dos ecossistemas, a exploração frenética dos recursos e o contorno sistemático às normas e leis ambientais em nome dos interesses corporativos, é só verificar a enorme onda de solidariedade após os incêndios na Amazónia. Mas mesmo que estas atrocidades ambientais, inseridas num sistema que as banaliza, vão contra a vontade e a ética dos cidadãos, muito poucos têm a coragem de se insubordinar.

E parece tão óbvio, tão simples, quando olhamos para os livros de História e nos perguntamos o porquê de poucos terem tido a coragem de se revoltar contra a escravidão ou desobedecido ao nacional-socialismo. E vai parecer cristalino quando, por fim, encararmos o futuro que nos espera se não agirmos, olharmos para trás e perguntarmos a nós próprios: porque é que ninguém se insurgiu?

E é tão óbvio: ou é agora ou é nunca. É hora de reunir a nossa coragem.

Matilde Alvim

Estudante e activista pela justiça climática na Greve Climática Estudantil

At https://www.publico.pt/

Vem aí a “maior” Festa do país – “Avante”

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A Festa do «Avante!» é a maior e mais bonita iniciativa político-cultural feita algum dia no nosso País, uma obra colectiva alicerçada e edificada pelos valores da generosidade, do empenhamento militante, da solidariedade e convívio fraterno em que o trabalho e a arte brotam como fonte de realização humana.

Uma Festa que é um espaço privilegiado para a cultura e a criação artística. Aqui, com esforço mas com grande fraternidade, criamos condições para que artistas e criadores de todas as formas de expressão encontrem lugar e espaço para apresentar aos visitantes da Festa os resultados do seu trabalho e do seu modo de olhar o Mundo.

Data de Fundação: 1976

At https://www.facebook.com/

Transportes e preços para o Festival do Crato

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RODOVIÁRIA DO ALENTEJO
27 A 31 DE AGOSTO 2019

PARA FESTIVALEIROS QUE VENHAM DE OUTRAS LOCALIDADES:
Se vem do Porto, de Lisboa, do Algarve ou de outro ponto do país consulte o site da Rede Expresso e faça o seu itinerário (https://www.rede-expressos.pt/tickets)
Reforço de Autocarros:
Portalegre > Crato – 24 a 26 de agosto
Crato > Portalegre – 1 de setembro, às 14h30, junto ao Camping para ligação à Rede Expresso com destino a outras localidades do país.

Circuito 1 – Partida de Tolosa: 2€ / cada viagem
Partida de Gáfete: 1€ / cada viagem
Tolosa / Gáfete / Vale do Peso / Flor da Rosa / Crato e regresso
Partida de Tolosa: 18h30 – 21h00 – 22h00 – 1h00 – 4h00
Partida do Crato: 20h30 – 21h30 – 0h30 – 3h00 – 4h30 – 6h30

Circuito 2 – 2€ / cada viagem
Alagoa / Fortios / Portalegre / Crato e regresso
Partida de Portalegre: 18h30 – 21h00 – 22h00 – 23h00 – 1h00 – 4h00
Partida do Crato: 20h30 – 21h30 – 22h30 – 0h30 – 3h00 – 4h30 – 6h30

Circuito 3 – Partida de Ponte de Sôr: 3€ / cada viagem
Partida de Seda: 2€ / cada viagem
Ponte de Sôr / Chança / Cunheira / Seda / Crato e regresso
Partida de Ponte de Sôr: 18h30 – 20h30 – 1h30 – 4h30
Partida do Crato: 19h30 – 0h30 – 0h30 – 4h30 – 6h30

Circuito 4 – 1€ / cada viagem
Pisão/ Crato e regresso
Partida de Pisão: 19h15 – 20h15 – 23h45
Partida do Crato: 19h30 – 23h30 – 2h00

Circuito 5 – 2€ / cada viagem
Nisa / Alpalhão / Crato e regresso
Partida de Nisa: 19h00 – 20h30 – 21h30 – 1h00 – 4h00
Partida do Crato: 19h30 – 21h00 – 0h30 – 3h00 – 4h30 – 6h30

Circuito 6 – 2€ / cada viagem
Avis / Fronteira / Cabeço de Vide / Alter do Chão / Crato e
regresso
Partida de Avis: 18h30 – 20h00
Partida de Fronteira: 19h00 – 20h30 – 21h30 – 1h00 – 4h00
Partida do Crato: 19h30 – 21h00 – 0h30 – 4h30 – 6h30
(só os horários das 4h30 (de3ªfeira a 5ªfeira) e 6h30 (6ªfeira e sábado) seguem viagem até Avis)

Circuito 7 – Partida de Gavião: 2€ / cada viagem
Partida de Monte da Pedra: 1€ / cada viagem
Gavião/ Comenda/ Monte da Pedra / Aldeia da Mata / Crato e regresso
Partida de Gavião: 19h00 – 20h30 – 22h00 – 1h00 – 4h00
Partida do Crato: 19h45 – 21h15 – 0h30 – 3h00 – 4h30 – 6h30

Circuito 8 – 2€ / cada viagem
Portagem / Castelo Vide / Alpalhão / Crato e regresso
Partida de Portagem: 19h00 – 20h30 – 22h00 – 1h00 – 4h00
Partida do Crato: 19h45 – 21h15 – 0h30 – 4h30 – 6h30

Local de embarque:
– Na paragem habitual da rodoviária em cada localidade
– No Crato junto ao Mercado Municipal

Os horários das 4h00 (partida das localidades) e o das 6h30 (partida do Crato) só se efectuam na sexta-feira e sábado.

PREÇÁRIO FESTIVAL DO CRATO

27, 28 e 29 de Agosto

27, 28 e 29 de Agosto

Bilhete Diário
30 e 31 de Agosto

30 e 31 de Agosto

Bilhete Diário
Passe

Passe

Passe de 5 Dias
Passe

Passe

Passe 5 dias c/ acesso a Camping Ocasional

Opinião: “O preço do Brasil por ter um boçal no poder”

Telmo 15400405_1376760399001220_626770123602206139_nTchau, acordo comercial com a União Europeia! O imbecil Boçalnaro conseguiu, em tempo recorde, transformar o Brasil num país vilão internacional, carbonizando a imagem do país no mundo.

Pelo Twitter, o presidente francês, Emmanoel Macron, não moderou as palavras: “Nossa casa queima. Literalmente. A Amazónia, o pulmão do nosso planeta que produz 20% do nosso oxigénio, está em chamas. É uma crise internacional. Aos membros do G7, vejo vocês em dois dias para falarmos sobre esta emergência“.

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Daqui a dois dias começa, na francesa Biarritz, a cúpula que reúne, além da França, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Itália, Japão e Reino Unido e um representante da União Europeia. Será que Bolsonaro vai pedir a Donald Trump que defenda o Brasil da condenação internacional pelos danos ambientais? Acho difícil, não concordam?

Falta pouco – ou talvez já nem falte nada – para que se proponham sanções internacionais ao Brasil boçalnarista. Seria, de facto, inaceitável que isso fosse feito se os brasileiros estivessem a defender o seu território e sua soberania, não o direito de “tacar fogo” na floresta amazónica. Não pensem que a reprimenda mundial vá despertar patriotismo: como a “causa” é péssima, o que traz é vergonha.

Anos e anos de esforço de Lula e Dilma para transformar o país num interlocutor das nações mais poderosas, para melhorar a sua inserção do sistema de trocas internacionais, para ser uma voz respeitada, que aspirava até a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU para, em poucos meses, virarmos um pária internacional, um motivo de escárnio para o mundo.

O estúpido, inculto e imbecil Boçalnaro, conseguiu uma proeza. Mobilizou a opinião pública mundial contra o Brasil num grau e numa velocidade inacreditáveis. É mesmo provável que o número de queimadas e a área desmatada no país tenha crescido com seu discurso de tirar a fiscalização ambiental “do cangote” de fazendeiros, garimpeiros e madeireiros. E, ainda mais, com o clima de terror que ele impôs aos servidores dos órgãos fiscalizadores, vários deles já punidos com transferências para longe de seus locais de trabalho.

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Tudo o que está a ocorrer, por pior que seja, porém, não chega nem perto da repercussão que a idiotia presidencial conseguiu dar ao tema.

1 – Um vídeo da Reuters tem meio milhão de acessos, dizendo que “onda enorme [de queimadas] veio depois de Boçalnaro tomar posse em janeiro”.
https://twitter.com/Reuters/status/1164226909745500161

2 – O The New York Times diz que ” o desmatamento da Amazônia aumentou rapidamente desde que Boçalnaro, eleito em outubro, tomou posse e seu governo cortou os esforços para enfrentar actividades ilegais na floresta tropical”.
https://www.nytimes.com/…/…/americas/amazon-rainforest.html…

3 – A inglesa BBC (1) também divulga vídeos, assim como a rede de televisão norte-americana NBC (2), o francês Le Monde faz o mesmo, dizendo que Bolsonaro é uma ameaça à Amazónia.
(1) https://twitter.com/BBCWorld/status/1164295357750284288
(2) https://twitter.com/NBCNews/status/1164227161345024000

4 – A Al Jazeera (1) diz que o país vive em black-out durante o dia pela fumarada e até os vizinhos argentinos, no meio de uma crise, destacam o tema: “Incêndios na Amazónia atingem nível recorde e Jair Boçalnaro aponta contra ONGs“ (2)
(1) https://twitter.com/AJEnglish/status/1164117055353827328
(2) https://www.clarin.com/…/incendios-amazonas-alcanzan-nivel-…

Os prejuízos que os incêndios e o desmatamento da Amazónia trazem são imensos, mas vão muito além de árvores e animais queimados. Tornaram o Brasil e seu governo “malditos” no mundo, ao contrário dos tempos em que outros governos atraíam a solidariedade da opinião pública mundial.

Não é verdadeira a “máxima” de que um país não tem amigos, tem interesses. Amizade é a primeira porta para os negócios e o imbecil brucutu Boçalnaro está a transformar o Brasil num país que, em lugar de encantar, horroriza o mundo.

Telmo Vaz Pereira

At https://www.facebook.com/

Opinião: “Ser Emigrante Português”

Marta Sousa 68788375_2310396442341655_7817123985216241664_nDesde que sou emigrante conheci uma realidade que nunca me apercebi sequer que existia.. a baixa consideração e a quantidade de piadas que existem sobre os emigrantes.

Não vou analisar o porquê disso, porque honestamente não vale a pena. Vou assumir que é por falta de informação, por isso vou informar-vos.

Ser emigrante é largar uma vida que é tua desde que te lembras para abraçar o total desconhecido, é largar todos os teus amigos e familiares para abraçar pessoas com uma cultura totalmente diferente, é largar a língua que estudaste desde pequenino para abraçar uma língua que nem sabes conjugar os verbos, é largar a rotina que estás habituado para abraçar uma realidade que nem sabes se vai dar certo.

Um emigrante não larga Portugal porque quer. Um emigrante larga o seu país por necessidade, seja ela qual for. E se vocês soubessem o que se passa dentro de nós no dia que nos despedimos de Portugal. Por muito que sair seja o que queremos e seja uma decisão nossa, vocês não imaginam o nó na gargante e no estômago e o sentimento que sentimos no dia final da despedida.

Eu, no meu caso em particular, há quase 2 anos emigrei porque estudei anos a fio para ser licenciada na minha área de paixão – educadora de infância – e acreditem a faculdade em Portugal é das mais exigentes que existem! E no final, o mercado estava sobrelotado de pessoas que se querem reformar e não podem. E nós, os novos, o que fazemos? Acabamos por conseguir encontrar trabalhos que no máximo nos pagam uns 700€, que nem sempre são os que queríamos, mas mesmo assim o que é que um jovem faz com esse dinheiro??? Iniciar uma vida, sair da casa dos pais, explorar o mundo, investir em nós, tudo custa muito mais de 700€, ainda por cima se quisermos ser boas pessoas e ajudar a nossa familia que tanto trabalhou para nos dar tudo aquilo que temos e que já bem que merecem descanso!

Mas já conheci muitas realidades dos “porquês” dos emigrantes, e acreditem, alguns cortam-nos o coração.

Já conheci várias nacionalidades de emigrantes, e sabem qual é a que nunca esquece o seu país? Os PORTUGUESES! Em qualquer casa que entrem de um português emigrante encontram: a bela Sagres ou Superbock, a tipica Cerelac para as crianças, o famoso bacalhau de molho, os canais portugueses sintonizados para ver o telejornal, e sempre que há uma jantarada o prato é tipico português! Somos portugueses e não escondemos de ninguém, dizemo-lo com ORGULHO!

E sabem uma coisa? O povo português é o único que mesmo que os filhos nasçam no estrangeiro, fazem sempre tudo para que eles saibam que são portugueses! Qualquer criança filha de português, a primeira língua que aprende é o português e todos vos dizem que as férias são em Portugal com um sorriso gigante na cara. E se lhes perguntarem onde gostavam de ir, todas aquelas crianças vos respondem “PORTUGAL”, sabem porquê? Porque os pais emigrantes portugueses, não esquecem as suas origens e passam-nos aos seus filhos.

Ser emigrante não é fácil. O início custa.
Ser emigrante é ter saudades daí quando estamos cá e ter saudades de cá quando estamos aí.
Ser emigrante é ser emigrante aqui e aí.
Ser emigrante é ter dois lugares distintos que consideramos casa.
Ser emigrante é a tentativa de uma vida melhor, que o nosso país infelizmente não nos pôde dar.

Ser emigrante é ser português, por isso não critiquem quem teve a coragem de sair do seu país e se quiserem venham também. Sim, porque acreditem, emigrante é ter empatia, por isso no dia que quiserem vir, o emigrante português estará cá para vos receber de braços abertos e ajudar, porque sabe o quanto custa ser emigrante.

Todos somos portugueses, seja aqui ou aí, por isso não distingam o emigrante e o português.

Marta Sousa

At https://www.facebook.com/

Artigo de opinião: “CAMÕES: O que está vivo n’Os Lusíadas”

Antonio Valdemar author_photo_457Camões não se pode reduzir aos jogos partidários e aos expedientes da retórica política, aos aproveitamentos de governos e governantes de vários regimes para justificação de exacerbações nacionalistas.

Deparamos, passo a passo, n’Os Lusíadas, um sentido crítico, uma perspetiva humanista e uma visão ampla e diversificada em torno das grandes questões políticas, sociais e filosóficas. Ao pronunciar-se acerca da máquina do mundo, do argumento perentório da existência de Deus não hesita interrogar: «é Deus? mas quem é Deus, ninguém o entende/ que a tanto o engenho humano não se estende?» Faz apelos contínuos para a urgência da liberdade e a reposição da justiça, a fim de construir uma sociedade assente nos princípios da honra e nos valores da solidariedade.

Sucessivas gerações de eruditos portugueses e estrangeiros continuam a recapitular hipóteses formuladas desde os mais antigos biógrafos e comentadores, o chantre Severino de Faria, o licenciado Manuel Correia, o arbitrário Manuel Faria de Sousa e o memorialista João Soares de Brito.

Perduram as controvérsias acerca do local e dia do nascimento, da identificação dos pais; dos estudos na Universidade de Coimbra, do serviço militar em Ceuta, do que ocorreu na passagem na Índia e em Macau; da residência em Constância; do valor da tença atribuída e da sua equivalência em dinheiro atual; do dia da morte, da sepultura em Lisboa e, ainda, da autenticidade dos ossos trasladados para o túmulo nos Jerónimos. Estes e outros aspetos continuam por esclarecer e, na maior parte dos casos, repletos de lendas e fantasiosas conjeturas.

Todavia, a leitura d’Os Lusíadas, das líricas, dos sonetos, dos autos e das cartas colocam-nos perante reflexões e advertências profundas. O homem, o Camões de carne e osso, – tal como o retrataram os que o conheceram – manifestou-se com frontalidade e independência. Não recorreu – como era habitual na época – a um prefaciador para o panegírico tradicional na apresentação d’Os Lusíadas, nem se esquivou a enfrentar poderosos, a contrariar opiniões dominantes, a insurgir-se contra a grave situação que o País vivia.

A Inquisição estava instalada desde 1536. A censura encontrava-se em pleno funcionamento. Os livros eram submetidos à leitura prévia e só poderiam ser impressos e postos a circular depois da autorização do Santo Ofício. Assim aconteceu, em 1572, com Os Lusíadas. Estudiosos camonianos – Sousa Viterbo e Aquilino Ribeiro, por exemplo – formularam hipóteses acerca do que terá sido truncado no manuscrito e, também, acerca das possíveis intervenções do censor ao fabricar versos, para condescender na publicação de outros.

Num tempo de perplexidade e angústia, Camões reforçou a identidade coletiva e defendeu a autonomia política de Portugal. Quando voltamos a estar confrontados com problemas de extrema complexidade, Os Lusíadas representam uma fonte de energia para transpor a impaciência e o fatalismo. Camões celebrou as memórias gloriosas de Portugal e de portugueses, mas sem virar as costas à crise política e à degradação humana, em tantos aspetos, com analogias com a época em que vivemos.

Numerosas passagens d’Os Lusíadas aplicam-se à atual realidade portuguesa; a uma classe política, sedenta de poder e de elogios públicos, sem dignidade e sem carácter e sem qualquer projeto voltado para o futuro: nenhum ambicioso, que quisesse/subir a grandes cargos, cantarei, /só por poder com torpes exercícios/usar mais largamente dos seus vícios.

Deplora os fatores de insegurança e a precaridade dos vínculos laborais: nenhum que use de seu poder bastante/para servir a seu desejo feio/a despir e roubar o pobre povo! Manifesta apreensão por tudo quanto gera o desespero, multiplica a violência, aumenta a criminalidade e intensifica a apagada e vil tristeza.

E a crise na saúde? E as listas de espera nos hospitais que aumentam de forma vertiginosa e assustadora? Faz recordar Camões ao deplorar a morte nos hospitais em pobres leitos/os que ao rei e à lei servem de muros.

E a crise na justiça? O sistema judicial que não funciona, as reformas essenciais por fazer, por estudar e por decidir? A obrigação de restabelecer a normalidade para impedir a generalização do caos. A recomendação de Camões continua oportuna: quem faz injúria vil e sem razão/ com forças e poder em que está posto, /não vence, que a vitória verdadeira/é saber ter justiça, nua e inteira.

E a crise moral? A venalidade, o suborno e a corrupção aos mais diversos níveis? Camões revoltou-se contra as honras e dinheiro que a ventura forjou. Para concluir que não lava o muito dinheiro/ a nódoa da desonra.

Por tudo isto e muito mais seguiu de perto as grandes inquietações e os problemas do seu tempo e de todos os tempos. Enfrentou o fantasma do medo: a vida que se perde e que periga/que, quando ao medo infame não se rende/ então se menos dura, mais se estende. Resistiu aos profetas da desgraça que anunciam sempre o pior como se estivéssemos sempre às portas do fim do mundo.

António Valdemar

At Viajando com Livros