Miranda Calha, um ano depois

Faz hoje (28 de Março) justamente um ano que faleceu Júlio Miranda Calha, fundador do Partido Socialista de Portalegre, secretário de Estado da Administração Interna e do Desporto, homem da Defesa, da Liberdade, da Europa e do Atlântico, aos 72 anos de idade. Tive a honra de o conhecer e de o chamar amigo, coisa que não creio que se importaria que aqui escrevesse. Tive também a sorte de o entrevistar, por bom conselho de outro amigo, e de reviver com ele alguns momentos da sua extensa biografia política. Era, à data, o deputado mais antigo da Assembleia da República. E, da reforma agrária à sua sobrevivência a um atentado, da primeira medalha olímpica portuguesa às celebrações com Mário Soares, passando pelas viagens no Alentejo ao volante de um descapotável, Calha não se importou de vasculhar o fundo das suas memórias. O futuro‒ do país e do seu partido ‒preocupava-o muito mais do que aquilo que estava já feito.

Calha falava baixinho, pouco e para dentro, quase em sussurro, como se não atribuísse especial relevância ao que proferia nem pretendesse chamar a atenção para pormenores em particular. Se queríamos ouvir Calha, tínhamos de escutar Calha. Se fôssemos capazes de curiosidade, ele seria proprietário de paciência. O olhar e a voz elevavam-se apenas por advertência e atualidade, sendo-lhe intolerável ver Portugal longe da linha da frente europeia. A sua análise era lúcida, previdente e de meter inveja a qualquer um. Três anos antes da reeleição de Marcelo, dava o apoio do PS ao Presidente da República como “natural”; algo que se provou e comprovou. Dois anos antes da morte da “geringonça”, constatava que o governo de António Costa, que elogiou pelos resultados financeiros, não teria governado de forma muito diferente sem os parceiros da esquerda; algo que o fim da parceria vem igualmente demonstrando. As suas observações eram taciturnas; a sua mente, atenta.

Calha não confundia pragmatismo com situacionismo. Não prescindia de convicções em nome de calendários ou ares do tempo. Era um político. E, nas palavras do seu primeiro-ministro e Presidente, um político assume-se. Várias vezes me tenho recordado dele quando converso com socialistas, como se ainda estivesse presente nos bancos de pedra onde fazia companhia aos camaradas que iam fumar ao estacionamento de São Bento. Há um debate onde estou certo que deixaria nota e em que não me perdoo ter esquecido de lhe perguntar. Sobre o PS, Calha sentenciava com autoridade: “Somos um partido popular, não um partido populista.” E a verdade é que o PS de hoje, com a responsabilidade de ser o último partido nacional do regime, tem de se estabelecer a si próprio. Tem de saber se a viragem à esquerda é matricial e que consequências terá ela na mobilização do seu eleitorado (e na dos eleitorados que pretende combater). Tem de saber se está onde sempre esteve, se já não quer estar onde estava e se deixou de ir para onde ia. Tem de decidir se deseja‒ ou não livrar-se de uma tenaz que cruza radicalismo e imobilismo, e almejar mais. “Interessa saber o que queremos para o país”, apontava Calha. E interessa.

Por ignorância e desapego, desconheço se o Partido Socialista tem vontade ou força para tal tarefa. Mas sei que, caso aconteça, lá em cima, junto aos nossos gigantes, Júlio Miranda Calha estará sentado, de fato, gravata e lenço, a sorrir-nos com amizade.

Sebastião Bugalho

At https://www.dn.pt/

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