Carta aberta aos ex. camaradas

Depois de muita reflexão, decidi escrever uma carta aberta aos meus ex. camaradas do Partido Socialista e aos eborenses que, não o sendo, poderão interessar-se pelo seu conteúdo. Faço-o, porque entendo que já existe o distanciamento necessário para isso, por respeito a muitas pessoas que estimo e que aí militam, e claro, porque decidi tornar público o meu percurso político, até ao momento, o qual durante, praticamente, 12 anos, se fez enquanto militante do PS.

Os rótulos são uma estratégia muito comum nos partidos. Claro que a minha experiência resulta sobretudo, do meu percurso neste partido, mas conheço muitas pessoas de outros partidos que se queixam do mesmo. Os rótulos são um dos principais instrumentos de propaganda nos partidos, para o bem e para o mal. Consegues ser bestial e num ápice passares a besta, por várias razões, mas a principal, está relacionada com o acesso e controlo do poder. Claro, também há a inveja, a maledicência pura e dura…

A minha expetativa ao escrever esta carta aberta é que quem a leia possa perceber a honestidade e transparência com que a escrevi e fique a conhecer o meu percurso.

Começo pelos “tachos” que o Partido Socialista “de forma abnegada” me concedeu. Se o conceito de “tacho” for “lugar por convite político”, tive dois. Em ambos, o meu papel foi trabalhar para políticos de primeira linha e corresponder, na dimensão das responsabilidades que me atribuíram. Isto é, fazia parte do “staff”. Exatamente as funções que, por convite, desempenhei no Partido, não para as quais fui eleita.

Era aquela que nos bastidores fazia acontecer. Espera… também fui aquela que se fez eleger e enquanto dirigente partidária e militante se fez ouvir. E sim, nem sempre fui “agradável”, ou politicamente correta. Tenho o “mau” hábito de dizer o que penso, mesmo que isso me prejudique, e prejudicou! A idade tem-me ajudado a moldar a forma como o faço. Ser frontal não é sinónimo de ser insensível. Tenho feito esse esforço de “moderação”, não só na política como na vida também. É um caminho…

Voltando aos “tachos”, fui adjunta da Governadora Civil de Évora (2008/11) e fui adjunta de Secretária de Estado (2017/19). Em ambos os lugares, aprendi. No primeiro, foi uma grande aprendizagem profissional e política, com uma grande líder, com quem já tinha tido a oportunidade de trabalhar, naquela que é a minha entidade patronal, a Câmara Municipal de Évora. O segundo, valeu pelas amizades e pela aprendizagem em matéria de relações humanas na política.

No partido, trabalhei sempre para aqueles que estavam na primeira linha, os “verdadeiros” e únicos políticos do PS Évora, há décadas. Apoiei sempre quem quis, nunca me senti pressionada para apoiar ninguém, pese embora, tenha sido influenciada por opiniões de camaradas que estimava e a quem ouvia. No entanto, a decisão foi sempre minha e assumo-a sem reservas. Umas vezes senti-me confortável com ela, outras, nem por isso. Nunca escondi que tinha ambições políticas. Eu gosto da política. Do seu exercício. Da sua prática. A política é um serviço público nobre que pode melhorar a vida das pessoas ou piorá-la bastante, conforme a qualidade do seu exercício. Pena tenho que muitos que a praticam, não todos, se encarreguem de a arrastar para a lama todos os dias.

Foi esta minha vontade, expressa e assumida, de querer deixar de pertencer apenas ao “staff” e poder sim ter a oportunidade de exercer a política de “primeira linha”, que fez com que passasse de bestial a besta no partido. Castigos! Perseguição, sim! Tudo, porque tive a veleidade de querer ser política, no meu tempo, e isso, só poderia acontecer no tempo em que alguns decidissem ser o meu tempo.

Candidatei-me à liderança da Federação do Partido Socialista de Évora (2016) e perdi. Perdi com honra e de cabeça erguida. Todos sabem disso. Às e aos camaradas que me apoiaram, corajosa e incondicionalmente, estou grata! Muitas e muitos, hoje, são meus amig@s, pessoas que admiro e que contarão sempre comigo para o que precisarem.
Antes, fui Presidente do Departamento das Mulheres Socialistas (2011/14), durante dois mandatos. O trabalho que aí realizei deixo para os camaradas avaliarem.

Entrei para o Partido em 2009. Tinha 36 anos. Militei durante quase 12 anos. Saí em 2020.
Até aí nunca tinha posto os pés num partido político. Fui sempre independente. Filiei-me, porque ocupava um lugar político (Adjunta da Governadora Civil) a convite de uma pessoa que ainda hoje estimo e respeito e não queria que ninguém lhe apontasse que “tinha nomeado uma independente que, ainda por cima, era comunista”!

Se era comunista? Não. Nunca fui. Fui eleita na lista da CDU para a minha freguesia (Horta das Figueiras), onde ainda hoje vivo, como independente, nas eleições autárquicas 2001/05. Nas Autárquicas em que o PS ganha a Câmara de Évora, em 2001 vejam a ironia, com um autarca que toda a vida tinha sido comunista). Nunca entrei nas instalações da rua de Aviz, mas honra seja feita, nunca me senti, minimamente, pressionada a fazê-lo. Era uma jovem cheia de motivação para fazer coisas na minha freguesia. Respeitava os líderes autárquicos, à data, e aceitei o convite. Sem medo e certa de que ia fazer a diferença. (foi uma desilusão essa experiência, mas não vou debruçar-me sobre isso agora).

Trabalho desde os 17 anos (1990). Sou a filha mais nova de uma família humilde de comerciantes, que juntou duas filhas a estudar na Universidade e não conseguia pagar as propinas das duas filhas. Fomos trabalhar, eu e a minha irmã, o meu salário era, exatamente, o valor das propinas.
Tirei o curso de Assistente Social e comecei a trabalhar de imediato, estávamos em 1995. Ingressei na Câmara Municipal de Évora em 1998, vinda de Lisboa, onde trabalhei na Segurança Social (97/98), precedida de dois anos numa associação de desenvolvimento local de Serpa (95/97). Fiz, e continuo a ser assim, exigente, o meu percurso profissional sustentado sempre, na dedicação ao trabalho, na competência e no mérito.

Sempre fui muito ativa civicamente, participei na criação e/ou fui dirigente de associações da área da pobreza, deficiência, igualdade e fui dirigente sindical.

Fui dirigente na Câmara de Évora, pela primeira vez, em 2004, pela mão de uma Vereadora Socialista que me deu essa oportunidade em resultado do meu trabalho. Nada tinha a ver com o Partido Socialista ou outro qualquer. Nada! Fui dirigente, e sou, em Câmaras lideradas por socialistas (2013 e 2020), sim. Em resultado de concursos públicos nos quais fiquei selecionada.
Todavia, foram também Câmaras lideradas por socialistas que me “tiraram”, indevidamente, o lugar de dirigente, e por isso tiveram de me indemnizar, ou que me “chumbaram” em concursos para dirigentes, apesar de ter o melhor currículo. Alegadamente, fiz uma péssima entrevista!

Entrei para a Administração Pública e sempre progredi na carreira profissional, desde 1996, mediante concursos públicos e avaliação de desempenho, mesmo quando o facto de ser dirigente me permitia não o ter feito (2007).
A competência, dedicação e capacidade de trabalho é-me reconhecida por aqueles com quem trabalhei ao longo dos 31 anos da minha vida profissional e por aqueles a quem respondi hierarquicamente. Haverá alguns que não me reconhecem tais “habilidades”, pois bem, é razão para que eu continue a trabalhar para melhorar, continuadamente, o meu desempenho.

Os rótulos e a maledicência não mais são que estratégias de manutenção do poder. As grossas fatias do bolo têm dono, as migalhas, também, e ai de quem almejar por elas sem o respetivo “salvo conduto”. É ambicioso, quer é “tacho”. Não sabe esperar. Outros, não. Outros, estão na política apenas por amor à camisola, à pátria ou ao partido.

É assim que é feita a gestão do poder nos partidos, entre os “bons” e os “maus”. Os que são ambiciosos desmedidos e os que são altruístas e só por isso exercem cargos políticos. Aliás, postura exclusiva destes. Os outros, não passam de ambiciosos ressabiados que querem a política para se servir e não para servir. “Vão com sede ao pote!”

Uma última palavra, porque esta missiva já vai longa, para os militantes de base que conheci, e alguns dirigentes do partido também, que na sua esmagadora maioria não ambicionam lugares ou o exercício da política, mas antes, querem apenas dar o melhor de si para que sejam os ideais do seu partido a prevalecer e a contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas. Sim, há muitos militantes e dirigentes que acreditam, genuinamente, nisto, e é só isso que os move. Pessoas boas, altruístas e batalhadoras. Da minha parte terão sempre o meu reconhecimento e respeito!

A hipocrisia tem uma camada muito fina, já a transparência exige uma carapaça muito dura de coragem e resiliência, por isso, aqui fica o meu percurso no partido socialista, onde recebi muito, pelo que estou grata, e onde dei muito de mim, também. Quem me acompanhou de perto neste percurso, e conseguir ser honesto, tem de me fazer essa justiça e reconhecer isso.

Agora é tempo de seguir em frente, na certeza de que tenho orgulho no meu percurso e que pior do que mudar de opinião, é não ter opinião ou coerência nos seus princípios e valores.

Foto: Última Comissão Política Distrital em que participei e tomei a palavra, disse o que pensava, desta feita com o Secretário Geral Adjunto do PS presente, o mesmo que, meses depois, aceitou a minha demissão de imediato.

Florbela Fernandes

At https://www.facebook.com/

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s