Opinião: “Acuso António Costa”

ACUSO ANTÓNIO COSTA PELO CRESCIMENTO DA EXTREMA DIREITA EM PORTUGAL: André Ventura conseguiu: meio milhão de votos, é agora um actor determinante na vida política nacional. Pode agradecer a António Costa, o seu principal aliado da propaganda ao “Chega”.

A propaganda ao “Chega” assentou num modelo conhecido e decorreu, de forma reiterada, em três actos. No primeiro acto, escolhido um tema fracturante (a eutanásia, o desrespeito pelas forças policiais, os ciganos, as questões constitucionais), André Ventura proclamava a sua indignação, associou eutanásia a crime, denunciou a insegurança dos polícias – rasgando as vestes, num discurso mais apropriado a um comentador desportivo do que a um político. Os órgãos de comunicação social, manipulados pelo governo, deram a estes discursos um eco gigantesco, desproporcionado face à dimensão política do deputado. A RTP chegou a falhar a cobertura de manifestações de apoio a Rui Pinto em detrimento duma reunião do “Chega”, para assim propagandear André Ventura.

No segundo acto, entravam os actores principais, os altos dirigentes do Partido Socialista: o primeiro-ministro António Costa acusou Ventura de cobardia, o presidente do Parlamento censurou-o pelo uso da palavra “vergonha”, a líder parlamentar “indignou-se pelo facto de Ventura desrespeitar a Constituição – dedicando-lhe um tempo de antena e de debate político incomensuravelmente superior à sua dimensão parlamentar. O PS dedicou mais tempo a Ventura do que ao próprio PSD, maior partido da oposição. E fê-lo na esperança de que o “Chega” crescesse, roubando votos ao CDS e, sobretudo, ao PSD. O que conseguiu. Desta forma, o PS mantém a sua hegemonia.

No terceiro acto, entravam os figurantes. Comentadores acompanharam a pseudo-indignação de António Costa (e acólitos) face ao discurso extremista de Ventura. Os jornais encheram-se de artigos de opinião de condenação e até censura a Ventura, alguns encomendados, outros genuínos. Ao mesmo tempo, surgiam os que se indignavam… com a indignação de Costa, Ferro e Ana Catarina Mendes. As redes sociais hiperbolizaram todas estas reacções, Ventura ganhou notoriedade, tempo de antena… e, como ontem se viu, centenas de milhar de votos.

Esta estratégia do Partido Socialista de promover a extrema-direita, enfraquecer o centro-direita e beneficiar eleitoralmente com isso, não é, aliás, original. Foi a táctica usada por Miterrand em França, que tudo fez ao seu alcance para ajudar a crescer a “Frente Nacional” do Senhor Le Pen, para assim tirar votos e ganhar as eleições à direita mais moderada de Giscard d’Estaing, Jacques Chirac ou Alain Juppé. Costa replicou, em proveito próprio e de forma pouco original, o fenómeno em Portugal.

Se agora se repetir o que se passou em França, daqui a alguns anos, teremos um enorme peso da extrema-direita xenófoba e até – quem sabe – a extinção do PS, à semelhança do que ocorreu com o PS (francês).

É claro que nada disto interessa a António Costa. Costa está disposto a ajudar a crescer a extrema-direita no médio prazo e mesmo a destruir o seu próprio partido a longo prazo – desde que mantenha intacto e reforçado o seu próprio poder no curto prazo.

Paulo de Morais

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