Artigo de opinião: “Olivenza/Olivença: O passado também é futuro”

Há passagens da minha infância que ainda são cristalinas. Ainda me lembro como eu furava com alguma dificuldade entre a multidão de homens que se congregava no passeio ao pé do Café da Lola, a conversar, discutir, gracejar, em português. Ou no meu percurso quotidiano, da escola para casa, a ouvir conversas fugazes de mulheres que saiam da fonte da Rala: «Então a tua mãe, coitada?», «Vai melhorando, graças a Deus». A língua de Camões era ainda muita viva, com espontaneidade, quotidiana e natural em cada esquina de Olivença e as suas aldeias, e naquele tempo grande parte da sua população ainda praticava um bilinguismo real.

Hoje em dia, as últimas pessoas falantes de português, que então tinham uns 40 anos, são octogenárias ou já não estão connosco. E a realidade é que o português está quase extinto nas nossas ruas. É assim como morrem as línguas, lenta e encobertamente. Quem tiver memória e pensar nisto é difícil que não sinta tristeza. No fim de contas, é a língua ancestral que ouvimos aos nossos avós, e que sempre tivemos como «música de fundo» aqueles que já não tínhamos o português como língua materna. E é que, para lá de um meio de comunicação as línguas são um veículo de transmissão de vivências, tradições e afetos. São, simplesmente, vida. Seguramente nenhum de nós tem culpa da situação, mas talvez alguma responsabilidade. A única coisa que é certa é que naquela altura tínhamos um tesouro cultural, embora não tivéssemos consciência disso. De todas as perdas do património cultural que tenhamos podido sofrer no último século, a da língua portuguesa é com diferença a que mais nos empobreceu.

Começar de maneira pessimista para uma pessoa otimista pode parecer uma contradição, mas é necessário fazer uma leitura realista para olhar para o futuro. Porque, nomeadamente, é do futuro do que importa falar. E, paradoxalmente, olhar para o futuro implica olhar para o passado sem descolar os pés do presente. Um presente que passará à história, dada a situação que estamos a atravessar e o seu impacto na saúde e na economia, mas também pela sua função célere de profundas mudanças sociais, tecnológicas, laborais, etc. que haviam de chegar.

E o que é que tudo isto tem que ver com a cultura? Pois tem que ver com a sua enorme importância e as oportunidades que nos brinda, num contexto de profundas mudanças socioeconómicas, e com a necessidade de aproveitar ao máximo e de maneira sustentável os nossos recursos. A cultura, além do seu indiscutível valor intrínseco, que nos enobrece, é um valor seguro e um crescente setor económico que gera riqueza e emprego. Muitas cidades e regiões têm na cultura a sua principal indústria, sendo nela que se nutrem setores como o turismo, os serviços, o comércio, o lazer, a criação e a produção artística, etc.

Patrimônio de Olivença

Olivença é privilegiada. O seu patrimônio material e imaterial é único, fruto de uma história partilhada e ímpar na península ibérica o que lhe proporciona um cunho especial. Biculturalismo é uma expressão habitual que reflete o desejo de salientar o valor identitário de uma terra com dupla pertença. Este distintivo é transversal e manifesta-se na sua história, edifícios, tradições, festividades, gastronomia, etc. Porém, sejamos realistas, falar de biculturalismo pleno na atualidade não é possível enquanto nos faltar o mais importante, a língua. Em outras palavras, não existe biculturalismo se não existir bilinguismo. Portanto, falamos de um conceito que ainda não é uma realidade senão um horizonte de futuro que, ao meu ver, nos deveria ilusionar e comprometer, e que necessariamente deve contar com a promoção do português como principal baluarte.

É de justiça valorizar o labor que nas últimas décadas têm desenvolvido as instituições, associações e cidadania de Olivença na recuperação do seu património e no que é o mais relevante, uma mudança profunda de mentalidade que nos tem proporcionado um olhar renovado para Portugal e as nossas raízes.

A recente criação de uma Comissão de Língua e Cultura Portuguesa, constituída pela Câmara Municipal, representantes da cidadania e centros educativos de primária e secundária, tem sido fundamental para potenciar o português no ensino. Já se conseguiu algum sucesso, sendo o mais importante a criação de uma Secção Bilingue na Escola Pública Francisco Ortiz. Ademais, a função da Universidade Popular no ensino de português a distintos níveis tornou-se crescente com a sua externalização, desde a colaboração em todas as creches para as crianças se iniciarem no português até às atividades com os seniores nos três lares de Olivença, desempenhando uma dupla missão, social e cultural, através da recolha de material sonoro de quem ainda preserva o português oliventino. O intuito é potenciar e harmonizar o ensino da língua portuguesa dando coerência a todo o currículo formativo, de modo a que toda a trajetória educativa que os jovens completam em Olivença e as suas aldeias (infantil, primário e secundário) seja acompanhado pela sua aprendizagem.

Igualmente, o português soube-se visualizar em diversas iniciativas, como a rotulagem triglota dos painéis turísticos, a dupla toponímia no centro histórico ou o bilinguismo na sinalética e promoção do Museu Etnográfico. Também no jornal hiperlocal ‘Hoy’, ao qual lhe agradeço a sua iniciativa inédita brindando-me a oportunidade de publicar este artigo em português. E a tudo isto é preciso acrescentar o requerimento de Bem de Interesse Cultural para o português oliventino, não esquecendo que o próprio Conselho da Europa no último relatório reconhece o valor deste património intangível e insta as instituições para tomar medidas para a sua proteção e promoção.

É necessário ter em conta que em Olivença a língua portuguesa tem um duplo valor: cultural e estratégico. Se o espanhol é a segunda língua mais falada do mundo o português ocupa o quinto lugar, e o primeiro no hemisfério sul. Ambas são línguas nossas. E falá-las proporciona-nos grandes ferramentas para as relações humanas e culturais, o turismo, o intercâmbio comercial e a economia em geral, quer no contexto da península ibérica quer nos quatro continentes onde estão presentes, dentro de um mundo globalizado.

Do mesmo modo, paulatinamente estão a dar-se grandes passos em algo essencial como são as relações com Portugal a nível institucional e da cidadania. Exemplo disso é a geminação entre Olivença e Belmonte, com o vínculo de Frei Henrique de Coimbra e o navegador Álvares Cabral no achamento do Brasil e a primeira missa lá celebrada. Ou a adesão de Olivença à Rede de Judiarias de Portugal, salientando a importância que outrora teve a comunidade judaica na nossa localidade. E muito importante foi a recente integração de Olivença na UCCLA (União de Cidades Capitais de Língua Portuguesa), uma porta aberta para a nossa projeção cultural e económica nos países da comunidade lusófona de todo o mundo, como o Brasil, Angola, Cabo Verde, Macau, etc.

Há vários anos que Olivença participa de forma ativa em diversas festividades como o Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Lusófonas, o 10 de Junho, com diversos atos culturais que têm contado sempre com uma significativa participação escolar. Por sua vez, a Filarmónica de Olivença tem participado no desfile de bandas de música que cada ano se celebra em Lisboa nos atos comemorativos do 1.º de Dezembro, demostrando que as relações entre Olivença e Portugal já não se cingem só às instituições senão também ao âmbito popular.

Apostar no biculturalidade

Muito do que há uma década teria sido inimaginável é hoje uma realidade. Teríamos imaginado ouvir uma missa bilingue na igreja da Madalena retransmitida na televisão? Teríamos pensado em votar nas eleições portuguesas e espanholas? Alguma vez acreditámos que os oliventinos e descendentes teriam a opção de requerer a nacionalidade portuguesa? Atualmente a comunidade de pessoas com dupla nacionalidade é aproximadamente um milhar e, com independência do seu significado a nível afetivo ou cultural, especialmente para os mais jovens supõe uma porta de acesso ao mundo universitário ou laboral em Portugal e no espaço lusófono. Não esqueçamos que a situação estratégica da nossa localidade que serve de elo entre a hispanidade e a lusofonia, junto ao Lago de Alqueva e ao caminho natural entre Lisboa e Madrid, com importantes investimentos previstos nas comunicações, situa-nos numa posição de privilégio como dupla via de entrada, em Portugal e em Espanha. E tudo isto somado ao valor simbólico e à ambiguidade de Olivença, que a poderiam converter num lugar de referência.

Poderíamos dizer, por conseguinte, que nas últimas décadas temos perdido umas coisas, mas temos ganhado outras. E convém pensar e assinalar que na cultura temos um recurso transversal com muito para percorrer e onde há muito por fazer: reavivar a nossa apaixonante história através da investigação e divulgação; embeber-nos na arte, a música e gastronomia portuguesas; valorizar as nossas raízes; promover o bilinguismo; abraçar as relações com Portugal; alentar as iniciativas empresariais com projeção na lusofonia, etc.

Merece a pena apostar no ‘biculturalidade’ em Olivença, sem complexos e com novos horizontes, pensando que não só incumbe às instituições senão particularmente à cidadania e às empresas. Simplesmente depende de nós, do que as oliventinas e os oliventinos quisermos ser, da nossa capacidade de derrubar barreiras e sermos empreendedores no amplo sentido da palavra, aplicando inovação, sensibilidade, criatividade, emoção e qualidade à cultura e às atividades económicas que lhe são associadas. É verdade que nestes tempos o futuro apresenta incerteza, mas prefiro pensar que também se presenta apaixonante e cativante.

Joaquín Fuentes Becerra

At https://olivenza.hoy.es/

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