rio server – o rio que se vê sem se ver

Rio Sever. Talvez seja mais do que um rio.

Nasce na Serra de São Mamede a uma altitude aproximada de 1000m e faz a sua viagem de Sul para Norte, desaguando no rio Tejo depois de uma viagem de 63km. Percorre os concelhos de Marvão, Castelo de Vide e Nisa, todos pertencentes ao norte alentejano. Mas o seu ponto de maior destaque, na sua definição geográfica, é o facto de funcionar como fronteira entre Portugal-Espanha durante 40km. Uma fronteira silenciosa e convergente. 

Este rio separa dois países da mesma forma que aproxima duas culturas. Chamando como suas duas nações e concedendo-lhes o carinho de pai e mãe, ao mesmo tempo que colhe traços genéticos dos dois, transformando-o num rio com uma personalidade distinta.

Conheci, ou melhor, ouvi falar no rio Sever na minha viagem a Castelo de Vide. Ouvi falar dele com o carinho de uma figura omnipresente, quase como algo espiritual e presente em cada canto e cada história. No passado a fronteira não era pacífica e o rio funcionava como escudo no primeiro embate, no passado serviu como porta de entrada aos judeus sefarditas que fugiam da inquisição espanhola, no passado também, serviu como ponto de superação aos contrabandistas que viviam nas noites escuras da raia. Também foi fonte de alimento, directo, com o peixe a saltar das suas águas para a sopa de muita gente de trabalho, e indirecto, com a força das suas águas a mover os moinhos que abasteciam de farinha as padarias locais. Todos estes pontos são de uma força capaz de correr no sangue de cada castelovidense, mas talvez não sejam eles que fazem do rio um santo capaz de ombrear com santos. O rio Sever é uma fonte de vida. Ninguém me o disse, mas foi fácil de o sentir.

Castelo de Vide é um Alentejo diferente daquele que vem nos postais. É um Alentejo verde onde a terra não se sente dura, mas fértil. Tanto para a pastorícia, como para o cultivo. Do leito do rio correm inúmeras ribeiras, que ligam como a vida que sai do coração para as veias, como alimento para a vida que cresce diariamente nas terras de Castelo de Vide, talvez como em nenhuma outra no Alentejo.

Percorri ao som da natureza quase todas as estradas que preenchem e ligam o concelho de Castelo de Vide. Lugar de grandes espaços. Depois de todas as histórias que ouvi, senti o rio a cada passo, a cada flor, a cada árvore, a cada barulho da água da ribeira a bater na rocha, a cada animal que vive em terras do rio Sever. Senti-o como se falasse para mim numa língua de elfos que transforma um alfabeto em brindes da natureza. 

A muitos perguntei: “qual o melhor caminho para o rio?” 

“O rio é do mais lindo que existe, é para lá que me vou refugiar, mas com esse carro não chegas lá, as suas encostas são muito íngremes”. 

“O meu pai tinha moinhos do rio, já não existem. Vivi por lá histórias incriveis”.

“Ir ao rio, só a cavalo”.

“Sempre desejei ir ao rio, mas nunca fui, talvez os mais antigos conheçam o melhor caminho”

E muitas outras pequenas frases ouvi. O carinho é grande, mas é algo quase inacessível. O que não me afastou, apenas despertou, ainda mais a minha curiosidade. Quase como um mito, que sabemos que não é mito, mas que a dada altura precisamos de o ver, tocar e cheirar, para sabermos que é verdadeiro. Muitas vezes, sobretudo entre os mais velhos, senti o rio como um segredo que querem preservar. Com a sua fonte de vida, que guardam num santuário, cujo caminho está num mapa que poucos conhecem. 

Na intriga destas pequenas histórias, senti o rio cada vez mais próximo. Várias vezes tentei aproximar-me, mas nunca dei o passo final. Não sei porquê. Na verdade sempre soube que não precisava de um cavalo. Mas o último passo ficava para mim. Quase como a desejar que o mistério continue. 

Algures na Meada, sentado no campo, ouvi o rio. Ouvi mesmo. Percebi que não precisava de o ver, para o ver, percebem?

Talvez este rio seja mesmo muito mais do que um rio. É uma fonte de vida.

At https://www.omeuescritorioelafora.pt/

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