Artigo de opinião: “Sai de casa hoje e esqueci-me de levar empatia”

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“Sai de casa hoje e esqueci-me de levar empatia.

As saidas de casa estão reservadas a três tipos de ocorrências na minha familia. Compras, levar o lixo e fazer um passeio diário. As compras são feitas num supermercado do bairro, onde entram cinco pessoas de cada vez e as funcionárias usam luvas e máscara. Serve para o essencial e o caos dos principais supermercados consegue ser evitado. Os passeios diários são urgentes. Para revigorar, para manter a sanidade. Usamos tanto quanto possivel a estrada das ruas do bairro residencial. Esticar as pernas, apanhar ar puro, ver se o mundo está ou não perto de enlouquecer.

Hoje, mal saimos para o tal passeio diário, encontrámos um homem jovem, a falar na lingua nativa do sitio onde estamos, a qual não entendemos. Respondemos a Inglês. Em gestos e um inglês quase nulo, ele pediu dinheiro. E pediu cigarros. E levou a mão à boca. Pouco interessa se não traziamos carteira. Pouco interessa se já deixei de fumar. Pouco é relevante se poderiamos comunicar. Dissemos Não. Dissemos não a um desconhecido em tempos de crise. Dissemos não a quem pode apenas e só andar a vaguear ou quem pode não comer há vários dias. Dissemos não e não tivemos coragem de nos aproximar.

Tenho tido medo dos meus prognósticos. É isso que me apavora cá dentro. Os meus prognósticos. Prevejo muito as coisas, o bom e o mau, o positivo e o negativo. Procuro soluções e procuro o meio termo. Deduzo o que pode ser o desfecho de cada acção tomada. Minha e do mundo. Leio muito, procurando pontos de vista crediveis. E faço pressuposições do que podemos ter que vir a enfrentar. Numa semana, já consegui contornar dilemas e evitar males, à conta destes prognósticos. Já foi declarado o Estado de Emergência. Falta pouco para soldados andarem nestas ruas e já há um conjunto grande de relatos de desentendimentos em supermercados. E sei que mais uns dias, pode ser perigoso andar na rua, especialmente em ruas vazias, em ruas com supermercados limitados, com mais pessoas desesperadas. Foi a primeira vez que vi alguém pedir dinheiro no meu bairro, à porta de minha casa. E disse Não. Não levei carteira, não levei tabaco, não levei empatia. Devia ter feito melhor e não fiz. E tenho medo que esta tenha sido a primeira vez de muitas.

O meu passeio foi uma merda e não me orgulho disto. Hoje é mesmo melhor isolar-me socialmente.”

MJP

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