Opinião: “O António Barrete”

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Recentemente, António Barreto teve um artigo publicado no Público em que recupera uma das narrativas favoritas da direita: o suposto ataque à liberdade de expressão por parte da esquerda. Uma boa parte do texto parece ter sido escrita em estado de delírio, com Barreto a desenvolver uma sucessão de falácias primárias e erros factuais para tentar encostar a actual geometria política portuguesa a regimes fascistas. Basicamente, o mesmo que faz a maioria dos colunistas do Observador, mas, agora, exportando esta simplória propaganda para o Público.

A diatribe de António Barreto é tão disparatada que chega ao ponto de tentar vitimizar autores de crimes previstos na lei, tornando verdadeiros nazis – daqueles que têm cadastro pela participação em crimes violentos relacionados com ódio racial – em vítimas de uma suposta intolerância institucional, que Barreto alega vir da influência do PCP e do Bloco de Esquerda sobre o Governo.
Vale a pena parar uns segundos para interiorizar o facto de que António Barreto saiu em defesa de verdadeiros nazis, reclassificando-os como vítimas da opressão do Bloco de Esquerda.

Após criar este enorme espantalho, acompanhado de várias falsas equivalências, Barreto prossegue com a sua divagação, chegando à conclusão de que, com a actual solução governamental, a liberdade de expressão está ameaçada. Tal como grande parte da malta de direita, Barreto parece comungar daquela opinião de que só existe democracia quando a direita governa. Se o Governo em funções não lhes alegrar, esse executivo passa automaticamente a ser autoritário, fascista, etc. O facto de que estas pessoas não entendem sequer o quão intolerante esta postura é continua a ser o aspecto mais irónico desta narrativa. Talvez um dia entendam que a democracia não existe só quando eles e os amigos governam.
Enquanto esse dia não chega, deixamo-vos com algo que costuma causar reacções histamínicas em Observadores e Companhia: factos.

A máquina de propaganda da direita dá-se mal com factos, mas os factos estão-se nas tintas para a propaganda, por isso, a imagem desta publicação traz informação objectiva para um debate que tem sido preenchido com propaganda.
A imagem mostra os resultados do estudo do MediaLAB, do ISCTE-IUL, elaborado para o European Journalism Observatory, em 2019. O estudo propunha-se a analisar a representatividade dos partidos políticos nacionais na televisão portuguesa e a força das correntes políticas de esquerda e de direita no debate televisivo. Os dados obtidos no estudo destroem a idiotice defendida pelos propagandistas de direita.
Em canais como a SIC, a preponderância de comentadores de direita é absoluta, enquanto que a TVI se divide entre 50% de comentadores de direita e 50% de comentadores que não estão alinhados com uma corrente politica concreta. Ou seja, nas duas estações de televisão privadas em sinal aberto não há um único comentador político residente de esquerda. Recordemos que os dois espaços de opinião de referência semanais em horário nobre estão reservados para Marques Mendes e Paulo Portas – os grandes educadores das massas.

Vale a pena salientar que o Parlamento português tem quase 55% de deputados de esquerda, estando a direita em clara minoria. O único canal de televisão que se aproxima desta proporção representativa é a RTP3. Canais como a SIC Notícias ou o Canal Q dividem quase a meio a representatividade entre direita e esquerda, enquanto que todos os outros variam entre 0% e 45% de representantes da esquerda nos espaços de comentário residente. Ou seja, o universo de comentadores políticos na televisão é o completo oposto dos representantes políticos que os eleitores portugueses escolhem.
Se ficarem com a ideia de que a propaganda de direita está a ser-vos insistentemente impingida, não é por acaso. É mesmo isso que está a acontecer.

Enquanto isso, os Antónios Barretos desta vida, que são às centenas e têm desde há décadas lugar cativo em todas as plataformas da Comunicação Social portuguesa, continuarão a queixar-se de silenciamento, de censura e de mais uns quantos disparates de que se vão lembrando.
Apesar de terem o grupo Impresa, do co-fundador do PSD, como o grupo mais influente no panorama da Comunicação Social em Portugal, apesar de terem o grupo Cofina, do Correio da Manhã, como constantes promotores de populismo anti-governo no jornal de maior tiragem nacional, apesar de terem jornais financiados por milionários ligados ao PSD e ao CDS-PP, como o Observador, criados especificamente para enviesarem para a direita o debate público no país, e apesar de estarem distribuídos por todas as outras plataformas de informação portuguesas, desde as televisões à imprensa, os Antónios Barretos desta vida continuarão a queixar-se das ameaças à sua liberdade de expressão, não porque estão objectivamente ameaçados, mas porque gostariam de falar sem contraditório. O que estas pessoas querem não é liberdade de expressão, é hegemonia. O mais interessante é que, olhando para os factos objectivos, eles quase já têm essa hegemonia, mas querem mais.

E é com isto que fechamos o círculo e regressamos ao título deste texto. As “ameaças” de que fala António Barreto no seu texto do Público não existem. As falácias primárias que o autor alinhou são um barrete que ele tenta enfiar a quem o lê. É com esse nome que ele deveria ter assinado aquele disparatado pedaço de prosa, com o nome de António Barrete.

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Fontes e referências:
https://pt.ejo.ch/top-stories/a-esquerda-no-parlamento-e-a-direita-na-televisao
https://www.publico.pt/2019/08/18/opiniao/opiniao/ameacas-1883613

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