Faz hoje 20 anos: “Batalha campal no Jamor”

Ao segundo dia do festival T-99, o signo do rock norte-americano voltou a fazer das suas. Os fatos-macaco dos industriais Ministry, as plumas e lantejoulas dos glamourosos Black Crowes e o cabedal sagrado dos monstros Aerosmith eram os pratos fortes da jornada. Os Guano Apes, quarteto pós-grunge alemão liderado pela fleumática presença vocal da louríssima Sandra Nasic, têm muitas e boas razões para se sentirem “Proud Like a God”. O seu álbum de estreia pode não ser divinal, mas garantiu-lhes ao menos um seguidismo devoto em ambos os lados do Atlântico. Como Portugal não foge à regra, Nasic e os restantes macacos teutónicos fizeram valer os seus créditos de jovens simpáticos e animosos, e ao som de temas como “Open your eyes” e “Lords of the boards” despoletaram as maiores orgias de violência domesticada – vulgo “mosh” – da jornada. O público gostou, pedinchou por mais e os resultados não se fizeram esperar: os Guano Apes foram a única banda do T-99 que não sendo cabeças-de-cartaz tiveram direito a “encore”.Antes deles tinham actuado os Hands On Approach, os únicos portuguese do dia, sem direito a extensões e com um público pouco dado à pop de rosto aligeirado que melhor sabem praticar. Quem também não teve honras de “encore” foram os norte-americanos Ministry. Antigos amantes da “synth-pop” cultivada pelos novos românticos ingleses, os Ministry viraram-se para o “hardbeat” europeu e para o “psychobilly” industrial antes de encontrarem na rebelião metal o antídoto para a expiação de todos os seus males. Al Jourgensen não é Trent Reznor e os Ministry não são os Nine Inch Nails, mas quando uma banda é responsável por devolver o niilismo à era do sample temos nas mãos a garantia de um concerto ganho. Só o foi no final, quando os Ministry se entregaram de corpo e alma aos temas mais fortes do brilhante “Psalm 69” – em “Just one fix” clamou-se pela presença de William Burroughs – e Jourgensen fez questão de desvendar as razões por que se autointitula “um deliquente juvenil muito bem pago”.O público dedicou-se então ao ensaio da fase pedagógica dos festivais.1999 está condenado a ser o ano das batalhas campais. Fazendo-se valer de todo o lixo que se encontrava à mão, as duas dezenas de milhar de pessoas que aí se encontravam passaram o resto da noite a alvejar o parceiro do lado. Houve quem fintasse os acordos tacitamente estabelecidos, e os objectos leves e inofensivos logo deram lugar às garrafas cheias de água e sempre disponíveis para abrir as primeiras cabeças. Quem não se livrou da nova ordem lúdica dos festivais foram os Black Crowes, pássaros sulistas amantes da tradição do rock clássico e dos costumes do “rythm’n’blues”. Sabe-se que este é um formato resistente à mudança, e o mesmo pode ser dito da sua carreira. Chris Robinson e seu ar de bruxa em potência manteve a pose, convidou Steven Tyler e Joe Perry, dos Aerosmith, a subir ao palco, e lembrou ao público aquilo que este se recusou a aceitar: as modas vão e vêem, mas as verdades eternas como o blues estarão sempre do nosso lado. Os Aeromith emprestaram ao Jamor o privilégio de encerrarem aí a digressão “A Little South Of Sanity”, na estrada há já dois anos. Último bastião da velha máxima “o excesso comanda a vida”, tão bem defendida nos anos 70 por nomes com Jimmy Page e os seus Led Zeppelin, a decana banda norte-americana é hoje um emblema do rock milionário rendido aos atributos do espectáculo grandioso e sinestésico. Sóbrios e profissionais, os Aerosmith traçaram com fulgor uma carreira à beira de cumprir os trinta anos, dominada pelas acrobacias vocais “bluesy” do andrógino Tyler e pela pose richardiana do intratável Perry. Do rock de linhas clássicas de “Living on the edge”, “Walk this way” e “Janie’s got a gun” às baladas de gosto duvidoso como “Crazy”, os Aerosmith apenas tiveram contra si um público pouco conhecedor.

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T-99 não foi um presente para a Tournée

A oferta desenfreada de eventos musicais em Portugal fez as suas primeiras vítimas. O Festival T-99, que decorreu no passado fim-de-semana no estádio Nacional do Jamor, ficou aquém das expectativas. Com pouco público e sem patrocinador, a promotora Tournée viu o maior e mais ambicioso festival de Verão português transformar-se “num enorme desastre do ponto de vista financeiro”. A pensar no T-2000.

O Festival T-99 não foi o presente de aniversário que a promotora Tournée desejaria receber na passagem dos seus 20 anos de actividade em Portugal. O evento ficou aquém das expectativas iniciais, e das 50 mil pessoas esperadas apenas 15 mil compareceram no passado fim-de-semana no Estádio Nacional do Jamor. Pensado como o mais ambicioso festival de Verão português, o T-99 acabou por ser, segundo declarou ao PÚBLICO o responsável pela Tournée Ricardo Casimiro, “um enorme desastre do ponto de vista financeiro”.Há várias razões que explicam o insucesso do T-99. Segundo Casimiro, falhou a existência de um patrocinador, sem o qual não se pode partir para uma aventura destas: “É preciso ter em conta que os encargos de um festival desta natureza rondam os 300 mil contos, entre o concurso das bandas e os custos de produção. A Tournée avançou para este festival a pedido de uma marca de cervejas, e as bandas foram contratadas em nome da empresa. Mas acabaram por mudar de ideias e deixaram-nos com o menino nos braços. Muito do rombo financeiro do festival passa por aí.”A oferta desenfreada de eventos musicais num país e num mercado de pequenas dimensões é outra das causas apontadas, e a prová-lo está o facto de outros dois grandes eventos terem decorrido no mesmo fim-de-semana do T-99: o festival Rock do Ermal, em Vieira do Minho, e a concentração de motos de Faro, por onde passaram cerca de 20 mil potenciais consumidores das principais bandas que se apresentaram no Jamor. Para Ricardo Casimiro, existem depois sinais que apontam para uma recessão do consumo de música em Portugal. “A indústria discográfica tem vindo a cair todos os meses, e estas pequenas coisas todas somadas acabaram por contribuir para o insucesso financeiro do festival”.Em causa esteve também o modelo de festival que a Tournée pensou para o T-99. A promotora apostou em devolver os habituais três dias de música aos grandes centros urbanos, contrariando a tendência dos últimos anos para a realização de festivais fora desses espaços. A excessiva centralização do festival ainda tentou ser combatida pela instalação de um parque de campismo nas imediações do estádio, um pedido que acabou por ser rejeitado pelos responsáveis pelo complexo desportivo do Jamor.Segundo Casimiro, “a tendência do mercado é de facto para se sair dos grandes centros urbanos e entender os festivais como escape, como o local onde as pessoas vão mais pelo evento do que pelo elenco. Até porque em termo de elenco não tenho dúvidas em afirmar que este terá sido um dos melhores cartazes que alguma vez passaram por Portugal”. O elenco do T-99 apresentou como cabeças-de-cartaz bandas de primeira linha do panorama musical norte-americano, frequentadoras habituais dos grandes palcos e dos grandes estádios. Mas dada a oferta excessiva de eventos musicais em Portugal, nomear hoje uma banda capaz de encher um estádio afigura-se cada vez mais difícil. A última experiência do género remonta a 1997 e ao concerto dos U2 em Alvalade, uma época em que os efeitos da oferta não se faziam sentir como agora. Num mundo em que os gostos estão cada vez mais fragmentados e selectivos, os modelos generalistas são modelos condenados, isto tendo em conta a realidade de um país onde o poder de compra não é grande. Musicalmente, o terceiro dia do festival limitou-se a cumprir o ritual dos duas jornadas anteriores: um rodopio entediante de bandas de plano secundário e uma longa e aturada espera pelos cabeças-de-cartaz. Repórter Estrábico, Zucchero, Swell e Stereophonics têm muito pouco em comum, e muito menos têm com um público que ao fim do primeiro dia, logo após o concerto dos Metallica, viu esgotado o verdadeiro motivo de interesse que o levou ao festival. Foi penoso assistir ao desapego com que o público encarou as demais bandas em cartaz, e mais penoso ainda foi ver quer esse desinteresse se manifestou a mais das vezes pelo arremesso de tudo quanto era objecto para o palco. No meio do naufrágio salvaram-se os Garbage, que mesmo assim não se livraram de alguns problemas. Ao fim do primeiro minuto de concerto, Shirley Manson mandou suspender a actuação e avisou a navegação que se continuassem a lançar objectos ela imediatamente se retiraria. Assustado com a ameaça fria e imprevista, o público foi trazido à consciência e reencontrou-se com a banda ao som dos principais êxitos de “Garbage” e “Version 2.0”.Para o livro de recordações do T-99 fica a memorável actuação dos Metallica, a sedutora prestação dos Guano Apes e as condições atractivas oferecidas pelo Estádio Nacional. O responsável pela Tournée não afasta a hipótese de voltar a realizar aí um novo festival, “com modelos e características que terão necessariamente de ser diferentes”.”Temos que tirar muitos ensinamentos de tudo isto e não embarcar em aventuras. Jamais avançaríamos para um encargo desta natureza se não tivéssemos a promessa de um ‘sponsor’. Foi uma situação deselegante por parte da entidade em causa, e agora resta-nos pensar num formato possível para o próximo ano. É nosso firme desejo continuarmos a saga do ‘T’, e acredito sinceramente que podemos vir a realizar para o ano o T-2000″, sublinha Ricardo Casimiro.

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