Crónica: “O gulag de Franco: 296 campos de concentração onde reinava o horror”

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Um exaustivo estudo documenta quase 300 centros de internamento franquista e denuncia as penalidades sofridas nestes por quase um milhão de prisioneiros.

O jornalista Carlos Hernández de Miguel, autor de “Los últimos españoles de Mauthause”, fala de um sistema repressivo baseado no medo, extermínio e a reeducação.

A transferência em vagões de gado, a fome, “os exércitos de piolhos, percevejos e pulgas” (que faziam que a roupa se movesse sozinha pelo chão, evocava um preso), as enfermidades (tifos, tuberculose, sarna…), a falta de assistência sanitária e de condições higiénicas, a sobrelotação, as humilhações, o frio e o calor extremos…, as surras e torturas letais, o trabalho forçado em muitos casos, o medo de morrer a qualquer momento… “tiravam-lhes os seus pertences e a roupa mal chegavam, rapavam-lhes o cabelo e convertiam-nos em uma massa amorfa e despersonalizada que devia mover-se a golpes de porrete e renegar os seus ideais e crenças se não quisessem morrer.

Era um processo global de desumanização dos prisioneiros, que não eram considerados pessoas e eram tratados como infra-homens e escravos. Um antigo prisioneiro dizia que lhes tratavam pior que aos cães e às bestas porque a elas davam-lhes de comer bem”, explica o jornalista Carlos Hernández de Miguel, falando do resultado da exaustiva investigação que dispensou em “los campos de concentración de Franco” (Ediciones B), que chega esta quinta às livrarias e onde, através de arquivos e testemunhos de sobreviventes, documenta até 296 campos de concentração — 14 deles na Catalunha —, considerados como tais pelo regime e abertos durante a guerra civil por aquela ditatorial “Nueva España”. Como avisava a Falange de Cádiz na portada do seu periódico ‘Águilas’: “Criaremos campos de concentração para vadios e meliantes políticos; para maçons e judeus; para os inimigos da Pátria, do Pão e da Justiça”.

E por eles passaram entre 700.000 e um milhão de homens e também mulheres. Segundo os franquistas, “uma horda de assassinos e foragidos” que não merecia a protecção do Convénio de Genebra, e que, segundo o psiquiatra de família de Franco, Antonio Vallejo-Nágera, eram identificados como “enfermos do gene vermelho”. Sobre eles “não pesava nenhum encargo nem acusação nem condenação sólida. Eram prisioneiros de guerra republicanos, esquerdistas (políticos e sindicalistas) ou o professor da aldeia…”, recorda o também autor de outro monumental e necessário ensaio, ‘Os últimos espanhóis de Mauthausen’ (2015), do qual surgiu ‘Deportado 4443’ (2017), com o desenhador Ionannes Ensis.

“Fugir da sombra de Auschwitz”

Ao falar de campos de concentração é impossível não pensar no extermínio de Hitler, com barracões rodeados de alambrados, ou nos gulags de Estaline. As penalidades e condições citadas foram similares, porém “há que fugir da sombra de Auschwitz e evitar a comparação directa com o nazismo — avisa Hernández — porque pode parecer que ante a barbaridade de seis milhões de exterminados nas câmaras de gás as vítimas dos restantes crimes contra a humanidade sejam menos vítimas. Franco tinha as suas necessidades, as guerras foram distintas e os campos do franquismo eram um sistema com as suas próprias peculiaridades. Queriam exterminar a uns quantos e reeducar o resto”.

“Foram improvisados e houve desorganização, porém a sua criação foi premeditada”, constata o autor, ex-correspondente em conflitos como o Kosovo, Palestina, Afeganistão e Iraque. O primeiro campo abriu-se a 19 de Julho de 1936, apenas 48 horas depois do golpe contra a República, em Zeluán, no antigo protectorado espanhol de Marrocos. “Já em Abril, o general Mola havia apelado a criar essa atmosfera de terror e a fuzilar a qualquer um com vínculos com a Frente Popular”. O campo mais longevo foi o de Miranda de Ebro (Burgos), que encerrou em 1947 e por ele passaram 100.000 prisioneiros. “Foram uma rama mais, horrível e aterrorizador, do sistema repressivo franquista”; os cárceres mereciam outro livro. À medida que os nacionais conquistavam territórios iam abrindo campos em praças de touros, espaços desportivos, conventos e mosteiros, manicómios, fábricas, armazéns, hipódromos…, cujas condições de vida e morte dependiam da arbitrariedade de cada oficial ao comando.

“Os presos recordam o medo de morrer a qualquer momento. Temiam que se abrisse a porta e viessem buscá-los para uma ‘saca’, o que significava que lhes iam fuzilar em uma qualquer valeta”.

Dos testemunhos dos presos destaca Hernández vários rasgos que os definiam. “Um, o medo de morrer em qualquer momento. O pânico aos ruídos de noite, porque se ouviam que se abria a porta significava que vinham buscar algum para uma ‘saca’ e ser fuzilado”. E de dia, à vista de falangistas que buscavam vingar-se de antigos vizinhos e viúvas à caça dos supostos assassinos dos seus maridos. O destino era o mesmo, acabar morto em qualquer valeta.

Dois, a fome e os seus efeitos, “que descrevem de forma descarnada”. Água negra de castanhas, água com espinhas de pescados e minhocas, beber a própria urina… “Embrutecemos-nos até ao ponto de perder toda a dignidade humana”, recordava o preso José María Muguerza. Como exemplo, o caso que contava Guillermo Gómez Blanco do cão lobo que trouxe, “para impressionar”, “um tenente muito à maneira da Gestapo, com chicote e oculitos sem armação”, e que em um descuido desapareceu. “Engolimos em seco!”

“Os sacerdotes tiveram um papel importante no adoutrinamento e na reeducação. E violavam o segredo de confissão para obter informação dos presos”

E, três, que ademais de “lugares de extermínio eram-no também de reeducação, para lograr a submissão ideológica e mental”, porque como dizia Franco, o seu objectivo “não era só vencer, mas também convencer”, ainda que os seus métodos só conseguissem submeter e reafirmar o desprezo dos prisioneiros em relação ao regime. Cantar o “Cara al sol” e outros hinos franquistas, formar várias vezes ao dia e fazer a saudação fascista, missas e comunhões obrigatórias… Os presos, se saíam (impossível sem o aval de algum padre, alcaide ou político fascista), deviam sair “reformados”. Aí teve também um papel fundamental e nefasto a igreja católica exercendo, denuncia Hernández, “um adoutrinamento obrigado e forçoso por parte dos sacerdotes”. Estes “violavam o segredo de confissão para obter informação dos presos e utilizá-la contra os seus companheiros”. Pistola ao cinto, também houve padres verdugos, como o padre Nieto, na ilha de São Simão, a quem recordavam a golpear com o seu bastão a um fuzilado agonizante e gritando-lhe: “Morre, morre, vermelho ímpio”.

A cifra dos mortos é difícil de concretizar. A de 10.000 que se atreveu a dar o historiador Javier Rodrigo, que havia constatado em seu dia 188 campos, segundo Hernández, fica muito curto. “Agora, após documentar só os mortos em 15 dos 296 campos, já somam 6.000”. Não há dados em registos nem em cemitérios, falsificavam-se as causas das mortes, a maioria segue, hoje, em fossas comuns e cunetas, e muitos, os considerados “inimigos irrecuperáveis”, entre eles todos os oficiais do Exército republicano, foram fuzilados após sair do campo para ser submetidos a conselhos de guerra e a julgamentos sumaríssimos sem garantias.

Viver com “medo e vergonha”

Um daqueles presos, Luis Ortiz, libertado em 1943 e cujas palavras encerram o livro de Hernández, faleceu a semana passada aos 102 anos. Dizia que queria morrer com as botas postas e fê-lo, com a mensagem de contar aos jovens a verdadeira realidade do regime. “Durante a ditadura estes homens que haviam defendido as ideias democráticas, viveram com medo e vergonha porque a sociedade identificava republicanos com criminosos e assassinos de padres — lamenta o jornalista. A quem hoje quer branquear o franquismo há que contestar-lhes com dados para que se recorde que neste país houve um regime democrático que foi violentado por um golpe fascista com o apoio dos nazis e de Mussolini”.

Vexames e violação de mulheres

Não houve campos de mulheres, mas sim mulheres nos campos, como no de Los Almendros de Alicante ou o de Cabra (Córdoba). A maioria esteve nas prisões, porém sofreram a fome, a sobrelotação e o maltrato tal como os homens. E vexames: davam-lhes óleo de rícino para que tivessem diarreia enquanto as obrigavam a desfilar com o cabelo rapado. Prática estendida nos campos, segundo múltiplas testemunhas, era a violação de esposas e filhas de cativos quando acudiam a levar-lhes roupa e comida. Os presos sabiam que a elas não lhes restava outra que “rebaixar-se”. Em Castuera, quando se levava um ao paredão, os seus companheiros cantavam: “Mulher que adoro, quanto o sinto/não poder-te abraçar já (…) choro porque tudo terminou/ por salvar-me a tua honra deste/ isso também o sei eu”. Quase 31.000 bebés roubou o franquismo às republicanas, segundo dados da Audiência Nacional para a ONU.

Ana Abella

At https://www.elperiodico.com/

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