Artigo de opinião: “Porque é que há 18 anos não há uma equipa alentejana na I Divisão?”

Elvas foot
Magnusson, Nunes e Mozer numa visita do Benfica a Elvas em 1987-88, para o campeonato da I Divisão, num jogo que terminou empatado a zero.
© Arquivo DN
O Alentejo está há quase duas décadas sem representação nas ligas profissionais. Históricos Lusitano Évora, O Elvas e Campomaiorense estão longe da ribalta e distrito de Portalegre não tem sequer clubes nos nacionais.

Há 18 anos que não há uma equipa alentejana na I Divisão. A última foi o Campomaiorense, que desde 2013 nem sequer tem equipa sénior. O mesmo cenário verifica-se no vizinho O Elvas, que andou pela elite no final das décadas de 1940 e 1980 mas que nesta época só tem escalões de formação. Já o Lusitano de Évora, o representante alentejano com mais presenças na I Divisão (14, entre 1952 e 1966), anda pelos distritais, onde lidera o campeonato da Associação de Futebol de Évora.

Se os históricos andam a anos-luz dos tempos áureos, os três clubes alentejanos que disputam atualmente o Campeonato de Portugal estão em zona de despromoção da Série D – um deles, o Redondense, apenas amealhou um ponto em 25 jornadas. O Moura, único que se tem aguentado ininterruptamente pelas provas nacionais durante os últimos dez anos, desta vez terá de esperar por um milagre. O vizinho Vasco da Gama da Vidigueira ainda sonha, mas vive com a corda na garganta, sintomas de um distrito de Beja que na época passada não teve campeonato de juniores. E Portalegre não tem qualquer representante no terceiro escalão português porque o Eléctrico caiu nos distritais, o Mosteirense não usufruiu desse direito conquistado em campo e os possíveis substitutos Gafetense, Portalegrense e Crato rejeitaram essa hipótese.

A crise no futebol sénior alentejano é assumida de norte a sul da região, das associações distritais aos clubes com mais ou menos história, e todos apontam as mesmas razões: a desertificação do interior, a migração de jovens universitários para os principais centros urbanos e, sobretudo, a falta de um investidor que aposte como aconteceu recentemente em emblemas do interior mais a norte, casos do Arouca e do Tondela.

O caso do Campomaiorense

Finalista da Taça de Portugal em 1998-99 e primodivisionário por cinco vezes entre 1995 e 2001, há quase duas décadas que o Campomaiorense está desaparecido dos grandes palcos, mas o clube não mudou assim tanto neste período. O presidente, desde 1990, é João Nabeiro, da família proprietária do Grupo Delta Cafés. O emblema mantém-se e o Estádio Capitão César Correia continua com o mesmo aspeto que tinha quando recebia jogos da I Liga. Mas não há futebol sénior nem a azáfama dos jogos com os grandes. “Mostrei a minha indisponibilidade para continuar a investir milhões de euros para manter a equipa em patamares profissionais. A família Nabeiro há mais de 40 anos que tutela o Campomaiorense e os salários têm estado todos em dia porque existe um mecenas, que é o Grupo Nabeiro. O dinheiro dos sócios (quotização) é insuficiente para os encargos do clube”, resumiu o líder o dirigente máximo do clube, de 64 anos, ao DN.

Em Campo Maior abundam as saudades dos tempos áureos e de jogadores como o holandês Jimmy Hasselbaink, o brasileiro Isaías ou o búlgaro Stoilov. Mas esses tempos não deverão voltar tão depressa nem para a vila nem para todo o Alentejo. “É muito difícil pelo problema de capital. Não existem investidores para avançar. Falta aparecer um mecenas que apoie um Campomaiorense, um Lusitano ou um Juventude de Évora, um Elvenses ou um Desportivo de Beja”, acrescentou Nabeiro, que quer continuar apenas com os escalões de formação: “Enquanto eu for presidente, o clube estará disposto a suportar toda a formação. Os seniores são adultos, pessoas que se organizam…”

Das enchentes à nova realidade

A cerca de 20 quilómetros, em Elvas, também há um poço de saudades. “Lembro-me do topo norte cheio de gente num jogo muito equilibrado com o Benfica, de termos perdido 2-3 com o FC Porto, que tinha acabado de ser campeão europeu num jogo incaracterístico, e de ter visto aqui jogar o saudoso Vítor Damas pelo Sporting. As pessoas de Elvas têm saudades desses tempos, mas hoje a realidade é outra”, recordou o presidente João Carapinha, no centro do relvado sintético do Campo Patalino, um dos vários recintos municipais do concelho.

O Elvas, que nasceu de “uma fusão hoje impossível” entre as filiais de Sporting e Benfica na cidade, “está focado na formação”, tem os juniores bem colocados para subir aos campeonatos nacionais, mas uma eventual presença nesses patamares teria de ser equacionada. “Os miúdos acabam por abalar para as universidades e podemos estar limitados na quantidade de atletas. Há que pesar prós e contras. A universidade mais próxima, em Évora, está a 90 quilómetros”, lamentou, apontando esse como um dos principais problemas no desporto no Alentejo.

Se juniores há poucos, nesta época os seniores ficaram parados, mas poderão voltar na próxima temporada. Se isso acontecer, no distrito de Portalegre ficarão apenas a uma divisão de distância do Campeonato de Portugal, mas o líder do clube não quer dar o passo maior do que a perna. “Para chegar a patamares profissionais é preciso ter condições financeiras. Poucos serão os que reúnem condições para isso. Esses patamares só poderão ser alcançados com os clubes do interior a apostar tudo na formação e a arranjar alternativas para o futebol sénior através de investidores para colaborar”, frisou o dirigente, ex-jogador, treinador, diretor desportivo e vice-presidente do clube, 45 anos.

O fiasco da SAD no Lusitano

O presidente do Lusitano Ginásio Clube, Luís Valente, não era nascido quando o clube de Évora que dirige desde 2012 esteve na I Divisão, mas falam-lhe “de grandes jogos em que o Campo Estrela estava cheio” e lembra-se bem de ver o clube verde e branco participar em liguilhas de promoção no início da década de 1980. O campo continua lá, com uma bancada central coberta acolhedora, mas uma outra no lado oposto e um relvado em mau estado, a ser utilizado por uma equipa jovem. No fundo, as duas grandes bandeiras do clube: a história e o futebol de formação. Se Dinis Vital ou Falé são ídolos inesquecíveis, também se fala de Pedro Martelo (Sp. Braga e herói do título europeu sub-19), Tiago Rodrigues (Sporting), Bernardo Prego (Sporting), Gonçalo Oliveira (Deportivo da Corunha) e Lucas (Sp. Braga), que saltaram do Lusitano de Évora para grandes clubes.

Já a equipa sénior lidera o campeonato distrital, patamar em que está mergulhada há quase uma década, mas esperava-se mais quando há três anos foi apresentado ao clube um projeto para constituir uma SAD. As “ideias bastante boas” foram aprovadas em assembleia geral, mas “as pessoas que estavam à frente da SAD pouco ou nada cumpriram com a promessa de projeto”, conta o líder do clube, 45 anos, que, embora lamente a falta de grandes empresas na região e a migração de jovens para as universidades das metrópoles, acredita estar na cidade alentejana com mais potencial para ter um clube nas ligas profissionais, “pela dimensão da cidade, que é Património da Humanidade, tem alguma dinâmica e uma universidade com nove mil alunos”. Luís Valente até tem um plano traçado, mas falta quem o oiça e apoie: “Passaria por um estádio municipal e com Lusitano e Juventude separados na formação, mas a apostar numa só equipa sénior para ir mais além.”

Moura podia ser um oásis

Ao longo da última década, apenas o Moura esteve sempre a representar o Alentejo nos campeonatos nacionais. “O Moura podia ser um oásis no deserto. O clube tem tudo para atingir outros patamares, só falta dinheiro. Temos campo relvado, dois sintéticos e um estádio com seis mil lugares. A minha vontade foi sempre chegar à II Liga. Mas quanto mais vontade, menos apoio vamos tendo”, lamentou ao DN o presidente, Luís Jacob, de mãos atadas para tentar evitar o regresso da equipa aos distritais.

Ao DN, o presidente da Associação de Futebol de Beja, Pedro Xavier, frisou a dimensão territorial e a falta de autoestradas no distrito para justificar a pouca competitividade. “Quando uma equipa de Barrancos vai jogar a Odemira faz 400 quilómetros”, lembrou. António Pereira, da Associação de Futebol de Évora, lamentou a falta de “grandes empresas” na região. E Daniel Pina, da AF Portalegre, diz que “o estado do futebol é como o de outras vertentes na região”, mas olha para o copo meio cheio quando se fala em nove equipas e apenas uma divisão sénior no distrito: “É muito mais fácil para um investidor apostar num projeto em Portalegre porque muito mais facilmente sobe.”

David Pereira

At https://www.dn.pt/

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