Artigo de opinião: ” Kitsch em S. Bento: V. Constâncio prova que devemos vender já a CGD”

Luis Salgado MatosO depoimento ontem prestado pelo Dr. Vítor Constâncio à atual csão parlamentar de inquérito à Caixa Geral de Depósitos (CGD) seria só por si suficiente para o Estado renunciar imediatamente a ser proprietário da CGD. Constâncio depunha na sua qualidade de governador do Banco de Portugal (BdP) no começo deste século quando ocorreram atos de gestão da Caixa que vieram a verificar-se danosos. O S Dr. Almerindo Marques, então administrador da CGD, afirma te-los denunciado à época ao governador do BdP e supervisor bancário (mas à época não julgou necessário prevenir a opinião pública. Constâncio responde:

  • Não se lembra, «honestamente» de nada relativo à CGD que não lhe dava preocupações nenhuma pois tinha excelentes ratios;
  • Estamos todos enganados pois a supervisão bancária só se aplica a «ilegalidades claras» e não permite evitar a má gestão bancária deste ou daquele banco;
  • Mesmo que se lembrasse, mesmo que tivesse havido atos desses, Constâncio não era responsável pois delegara a supervisão bancária num vicegovernador do BdP e ele nada tinha a ver com ela em primeira mão.
Vitor Constancio
«Honestamente?», disse ele

A cena acima descrita é grotesca. Descontemos o «honestamente», que apenas revela a cumplicidade entre o depoente e os inquiridores. Todos sabemos hoje que foram praticados na CGD atos danosos para o contribuinte, e talvez mesmo atos criminosos. à época em que Constâncio devia supervisioná-la. Mas o Dr. Constâncio parou no tempo e explica-nos que correu tudo muito bem e não percebe que é hoje claro que os seus ratios estavam errados ou eram inadequados e insuficientes. O inquérito parlamentar deveria ter por objeto saber qual o motivo ou motivos por que o Dr. Constâncio consentiu tais atos.

Mas a Comissão de inquérito e branqueamento da CGD regista atentamente as memórias pessoais do antigo governador como se estivesse a tratar dos seus sentimentos de amor filial e ignora que ele cobertura aos desconchavos da CGD, pelo menos durante parte da sua vida recente, e que as acusações produzidas (ou não) pelo Dr. Almerindo Marques são grosso modo verdadeiras. O pudendo comportamento dos senhores deputados inquiridores sobre factos ocorridos há décadas revela sem margem para dúvida que os bancos portugueses estão isentos de supervisão bancária, quer exercida pelo BdP, quer exercida em segundo grau pelas sucessivas e sempre tardias comissões parlamentares de inquérito.

O leitor terá anotado que a falta de memória é endémica nos governadores do BdP e que o atual, o Dr. Carlos Costa, já foi à mesma comissão queixar-se de idêntica doença. Se a CGD hoje está melhor, não é devido à supervisão bancária. É por uma resposta casual a um excesso de constancites. Por isso. O depoimento picaresco de ontem deve por isso levar a que a CGD seja imediatamente vendida a quem der mais,

Vitor Constancio 2
Três instantâneos do Dr. Constâncio como regulador bancário

A definição de supervisão bancária dada pelo Dr. Constâncio é obviamente falsa, mais que não fosse por esquecer a sua omnipresente dimensão deontológica, e destina-se apenas a autodesculpar-se. Anote-se que, à época, o Dr. Constâncio nunca declarou em público que oos seus poderes de supervisor coincidiam com os da Procadoria Geral da República ou de um Revisor Oficial de Contas. O leitor supôs que o Dr. Constâncio foi feito governador do BdP e supervisor bancário por ser um fiscalizador hiperativo?

O Dr. Constâncio tem razão: o leitor é tonto ao acreditar na supervisão bancária e ele, ex supervisor, é sábio em não acreditar pois, não tendo cumprido o seu dever, foi promovido ao Banco Central Europeu (BCE) e o leitor, que por certo cumpriu o seu dever,. paga com os erros dele com os seus impostos. Constâncio e a Caixa são um belo exemplo do sistema que felizmente nos rege.

Talvez seja por estas e outras que a Srª Lagarde, responsável do Fundo Monetário Internacional (FMI), disse ontem mesmo que o BCE não está em condições de enftrentar uma nova crise brancária.

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