Opinião: “O que são fakenews?”

raquel-varela_1349828739Já ouviram algum amigo, um aluno, um deputado dizer «eu penso isto, é a minha opinião, logo tenho razão». Bom, isto é uma fakenews.

Vou contribuir com uma pequena explicação histórica e filosófica, que parece complicada, mas que é necessária. E, creio, fácil de compreender. De outra forma não compreendemos a pós-verdade ou as fakenews.

Sempre existiram mentiras. De indivíduos, colectivos e Estados. São tão antigas como a humanidade.Por isso todas as sociedades desenvolveram modelos de reprimir mentiras, da reprimenda a outras sanções mais graves.

Mas hoje nós temos um outro paradigma, mais perigoso. Em que não há mentira ou verdade, apenas opinião de cada um. Porquê? Somos essencialmente sociedades filhas das revoluções burguesas – como a revolução francesa – nas quais a burguesia lutou para acabar com a razão divina, ou seja, o irracionalismo, o poder do Rei e de Deus. E colocá-lo – ao poder – no Homem, em defesa da ciência, da educação, e por isso também do laicismo. Isso é o iluminismo, é um grande avanço do capitalismo face ao que existia anteriormente, o poder feudal e da Igreja. Mas o que temos hoje, na fase de decadência do capitalismo, é um retrocesso face ao iluminismo, é o pós modernismo. No capitalismo a defesa da razão seria sempre limitada porque o critério da verdade é o indivíduo e o mercado. O que deu origem inevitável – sublinho inevitável -ao relativismo pós-moderno. Não há capitalismo, hoje, nem vai haver, sem pós-modernismo.

Porquê inevitável? Porque no capitalismo o critério é o indivíduo e isso é sempre relativo, é uma espécie de obscurantismo solipsista. É isto que levou a que tantos alunos nossos sem ler, sem estudar, sem compreender opinem sobre o que não sabem com convicção na frente de todos. E que muitos governantes ou politólogos etc. assumam posições sem sustentação e disso não se envergonhem. Porque o critério não é a verdade mas a opinião de cada um, a um individuo corresponde uma opinião, mesmo que ela não tenha qualquer verificação em factos reais.

Ora a verdade não está em nós, como indivíduos. Ela tem que ser sujeita ao exterior, a provas, factos, verificação empírica.
A razão que hoje domina o neoliberalismo e o capitalismo é esta, a razão instrumental, cujo critério é o individuo. Quando o que precisamos é de razão critica, em que o que pensamos tem como confirmação ou negação, ou crítica, metodologias externas a nós de verificação da verdade. Por isso se querem resolver um qualquer problema social a primeira coisa que precisam não é de um técnico mas de um filósofo, cientista social crítico. Vejo aliás com curiosidade ver o sociólogo Boaventura Sousa Santos, o pai do pós-modernismo de esquerda em Portugal, defender hoje abertamente, sofisticado como ele é, a razão instrumental e não a razão crítica. É que a esquerda em grande medida aderiu também a esta visão de que não há verdade, ela é instrumental.

Por isso, em suma, para os pós-modernos, por exemplo no meu campo, da história, que hoje têm muito peso nas Universidades – mesmo quando não sabem ou não assumem – o interesse não é pelos factos, acontecimentos, mas pelos discursos, símbolos, memórias. São no oficio diário contra o iluminismo, os Annales e o marxismo, porque, no fundo, no limite não há verdade – cada um pensa o que quer – e estuda o que quer. Mesmo aquilo que não tem grande interesse ou urgência social. Ou seja, o problema da pós-verdade está muito longe de ser restrito ao jornalismo, contaminando grande parte da produção intelectual social contemporânea. É ele também que dá aso a que pessoas impeçam outros de fazer humor ou arte porque se dizem ofendidas – já que o critério não é o da liberdade em arte, exterior a nós, mas da subjectividade de cada um. Se se diz ofendido pode impor ao outro a censura – mas chama-lhe politicamente correcto.

Evidentemente que quer nos media, nas artes quer na Universidade ainda há muitos bons exemplos que resistem a isto.

Dito isto e sem fugir ao assunto: sem condições de trabalho dos jornalistas a montante, com razão critica ou instrumental, tão poucos vamos resolver a questão das fakenews. Eles precisam de tempo para verificar fontes, dados, metodologias.

Raquel Varela

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