Artigo de opinião: “Lume de chão…”

Bravo Nico 21271327_1509529919139547_8652725646851141330_nHá muito tempo que não acontecia, mas este ano, o frio chegou, mais ou menos quando era habitual chegar. Veio acompanhado de alguma chuva e embalado naquele vento norte que nos arrefece o corpo e nos mete dentro das casas mais cedo, ao final da tarde/princípio da noite.

Com o Outono instalado, a natureza prepara-se para uma longa travessia, até ao próximo ciclo de renovação, na próxima Primavera. No nosso quintal, deixámos de ver as formigas, os mosquitos e as vespas – que tanto trabalho nos deram, nos últimos meses –, as moscas ainda tentam manter a sua vida normal, mas andam moles a baterem nas coisas, e as osgas que regressaram às suas casas, bem escondidas, para, nelas, dormirem um longo sono. As plantas também se retraem e espreitam alguns raios de sol, naqueles dias soalheiros em que o frio tirou uma folga. A família felina que habita connosco, na nossa casa, também pouco sai e passa quase todo o tempo à procura de uma boa cama, onde se possa anafar, bem quente e tranquila. De preferência, à beira de uma braseira ou no sofá, perto da salamandra.

É à noite que o frio aperta e o lume reconforta: lume de chão, lareira ou salamandra são opções possíveis que nos levam ao encontro da lenha de azinho ou sobro, de preferência. Recolhida e partida, nos meses mais secos da Primavera ou do Verão, a lenha é arrumada em sítio seco e utilizada, de forma criteriosa. Os madeiros mais grossos, os paus médios e as feixas de lenha mais fina, para iniciar as combustões. Uma vez aceso o lume, as casas aquecem-se, por dentro, e deixam escapar o característico cheiro do Inverno: o cheiro das chaminés em funcionamento.

Lume 45538267_2011850768907457_1216781234437357568_n

Nestes dias, lembramo-nos de muitas coisas que vivemos, sentados à lareira: as torradas feitas com fatias de pão que se colocavam em garfos, viradas e reviradas para as brasas que se ajeitavam e que, acabadas de fazer, se comiam, umas atrás das outras; o café da brasa, que se fazia na velha escloteira e se bebia nas antigas canecas de porcelana; as comidas que se apuravam nas tijelas de fogo, que se alinhavam, no perímetro das brasas e de onde saiam os grãos com bacalhau ou a sopa da panela; a linguiça que se sacrificava no espeto e se assava, lentamente, enquanto se conversava e se preparava a grande falca de pão que a receberia, para nela ficar a gordura que pingava; a conversa que nunca mais acabava, com as palmas das mãos viradas para as labaredas que se iam esfumando, de um lume de que só já restavam as brasas, características da boa lenha do montado.

No dia seguinte, de manhã, restava a cinza: fria, como o frio da noite alentejana. Mas tudo recomeçava, ao final da tarde/princípio da noite…

Bravo Nico

At https://www.diariodosul.com.pt/

Anúncios

Opinião: “Carta aberta a António Costa”

Manuel Alegre 813619É chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correcto.

Antes mesmo de ele existir, já eu apoiava este Governo que tem vindo a espantar o diabo tantas vezes anunciado. Portugal, apesar das dificuldades, é hoje uma boa excepção, numa Europa e num Mundo marcados por um processo de desconsolidação da Democracia e pela emergência de várias formas de populismo. Os partidos tradicionais estão em decadência, alguns em vias de desaparecimento. E a revolta popular contra o sistema já não está do lado da esquerda, passou para a direita, estimulada e manipulada pela hegemonia do poder financeiro global.

Devíamos estar atentos. Mas às vezes a euforia conduz à distracção. Eu, por exemplo, vivo uma situação paradoxal. Apoio esta solução governativa, o PS está no poder e, no entanto, por vezes sinto a minha liberdade pessoal ameaçada. Não por causa do que se passa no Mundo. Mas porque o diabo esconde-se nos detalhes. Está no fundamentalismo do politicamente correcto, na tentação de interferir nos gostos e comportamentos das pessoas, no protagonismo de alguns deputados e governantes que ninguém mandatou para reordenarem ou desordenarem a nossa civilização.

deputado do PAN foi legitimamente eleito. Com pouco votos, mas foi. Tem o direito de defender as suas opiniões. Mas não pode virar o país do avesso, com a cumplicidade dos fundamentalistas de outros partidos (com a honrosa excepção do PCP) e o calculismo dos que pensam que, em certas circunstâncias, o voto dele pode ser útil para a maioria. Uma espécie de um novo deputado “limiano”, salvo o devido respeito. O facto é que um deputado, um só, traz milhares de portugueses inquietos. Isto não é normal nem saudável numa Democracia pluralista. De modo que é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correcto. É uma questão de liberdade. Liberdade para não gostar de touradas. Mas liberdade para gostar. Liberdade para não gostar da caça. Mas liberdade para gostar. Algo que não se pode decidir por decreto nem por decisões impostas por maiorias tácticas e conjunturais, Não é democrático. Para mim, que sou um velho resistente, cheira a totalitarismo. E não aceito.

Por isso, meu caro António Costa, peço-lhe que intervenha a favor de valores essenciais do PS: o pluralismo, a tolerância, o respeito pela opinião do outro. Peço-lhe que interceda pela descida de 6% do IVA para todos os espectáculos, sem discriminar a tauromaquia, já que os prejudicados serão os mais pobres, os trabalhadores que tornam possível este espectáculo. Peço-lhe que se oponha à proposta do PAN para alterar a Lei 92/95, que vem comprometer várias actividades do mundo da caça, como provas de Santo Huberto, largadas cinegéticas e cetraria – Património Mundial da Humanidade. A alteração da referida Lei provocará danos irreversíveis em muitas associações e clubes de caçadores, clubes de tiro desportivo, campos de treino e caça. Estão em causa centenas de postos de trabalho e elevadas perdas económicas para o País, sobretudo para aquelas regiões onde a empregabilidade e a actividade económica estão quase exclusivamente ligadas à caça. Sim, meu caro António Costa, trata-se de uma tradição cultural e social que é parte integrante da nossa civilização. É, também, um problema que diz respeito ao emprego e à vida de milhares de pessoas. E é, sobretudo, uma questão de liberdade, que sempre foi a essência e a alma do Partido Socialista.

Manuel Alegre

Militante histórico do PS; escritor

At https://www.publico.pt/