Opinião: “o silêncio do Estado”

raquel-varela_1349828739O que assistimos em matéria de alegados crimes cometidos por Sócrates, Salgado, Pinho, Dias Loureiro e tantos e tantos é moralmente intolerável, é talvez uma das maiores crises que o Estado viveu nestes anos – a pouco e pouco vão saindo notícias que dão conta, a se provar, de um assalto ao Estado da classe política associada ao Bloco Central. O mesmo Bloco Central que se faz agora de morto, e sem passado, dizendo “que cabe à justiça julgar”, como se este não fosse um caso de regime e apenas “mais um como tantos processos”. Não é mais um – é o processo. É verdade que cabe à justiça julgar. Mas a justiça não é só a aplicação da lei. Há uma ética que convoca os partidos a pedirem desculpas ao país pela – alegada – quadrilha que o colocaram a gerir. Não descansem na opinião publicada. A opinião pública está furiosa – não saio à rua sem que várias vezes por dia, idosos, trabalhadores de vários sectores e pequenos empresários me abordem dizendo “isto é uma vergonha”, “que roubalheira”, “já não acredito em nada”. O Correio da Manhã vende crime, e sexo, mas também espelha os sentimentos populares que não têm expressão na imprensa mainstream porque o popular em Portugal é tido como ignorante. Muitas vezes é, o nível cultural médio do país é baixo, do CM é mais baixo. Mas uma pessoa pode ouvir Quim Barreiros e isso não a impede de saber o que custa trabalhar e por isso em quando foi roubada. A população em larga escala sente-se, com razão, despeitada.

O silêncio não vai ocultar o estrago social que isto fez no regime e no Estado; o nosso silêncio, até que, em 2076, 2089, tudo seja esclarecido, não vai ajudar a resolver nada. Como um amigo dá 2 mil euros a outro por dia, e outro carrega 2 milhões para um offshore? Sim, como? Como é possível que a maioria das pessoas deste país, mais de 80%, viva do trabalho sem nunca conseguir mais do que com sacrifício aguentar a família, e as pequenas empresas que se esgotam para pagar contas e alguém entra e sai da política, alegada e visivelmente, milionário? Não nos chocarmos com isto porque nos indignamos com o processo – e eu fui e sou crítica da forma – é cairmos no vazio formal. Desculpo-me por ter de certa forma caído na armadilha que nos jogaram estes meses – fazer do MP e do processo o alvo e da forma o problema. O nosso problema fundamental é político. É aí que a forma engendra o conteúdo e que os impostos para pagar o SNS acabam a pagar paraísos fiscais e casas de férias – em lugares ainda mais pirosos do que a música do Quim Barreiros.

Raquel Varela

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