Artigo de opinião: “Eu sou mais populista do que tu…”

Pedro Marques Lopes JA55Na sequência da política de reposição de rendimentos, os ladrilhadores, com vínculo laboral ao Estado, verão repostos os 5% que tinham sido cortados aos seus salários.

Não, não são os ladrilhadores que terão os seus vencimentos repostos, são os membros dos gabinetes políticos. Alguém acredita que se levantaria alguma polémica se tivessem sido de facto os ladrilhadores ou outros profissionais quaisquer a ver as suas retribuições repostas? Veríamos o CDS e o BE a verberar contra a oportunidade da medida? Claro que não. O CDS e o BE, que parecem apostados em concorrer ao título de melhor partido populista, sabem bem qual a palavra-chave: “políticos”. Se se acrescentar cortes aos salários de quem quer que tenha alguma relação com o poder político, ou incompatibilidade com qualquer outra atividade ou diminuição de alguma regalia, é certo e sabido que teremos gente a bater palmas. Se são os próprios políticos a dizer que são malandros, como não ser verdade?

Desengane-se quem pensa que esta atitude dos dois partidos corresponde a uma hierarquia de prioridades entre profissionais mais ou menos necessitados ou com mais direito a revisão salarial, de progressão nas carreiras ou do que quer que seja. O que está em causa é simplesmente um explorar de sentimentos que eles e outros membros da classe política foram semeando. No fundo, o que nos estão a dizer é que a atividade política é uma espécie de mal, que os membros de gabinetes políticos não passam de uns boys, que devem ser olhados, na melhor das hipóteses, como cidadãos de segunda categoria.

A mensagem é clara, estes trabalhadores não são, de facto, trabalhadores como os outros. Têm menos direitos porque, muito simplesmente, ajudam quem tem de tomar decisões sobre questões que dizem respeito a toda a comunidade.

Se a visão do BE, do CDS e de outros prevalecer, quem quererá ocupar estes lugares? Quem estará disposto a ser olhado como uma espécie de malandro? Cada vez menos gente, claro está. Melhor, quem não encontrar outro emprego, quem tiver menores habilitações, quem for pior profissional. Assim, teremos pessoas menos capazes a ajudar os políticos e, bem entendido, teremos piores decisões. Mas que importa se com esse discurso se tiver mais uns votinhos? Que importa ter pior gente e piores decisões se isso der mais popularidade?

Agora imagine-se o que seria se a proposta também incluísse os políticos e gestores públicos. Uma medida, diga-se, que tarda em ser aplicada, mas que desconfio não será tomada nos anos mais próximos – se chegar sequer a acontecer. Se está a ser o que está a ser com meros ajudantes, caía o Carmo e a Trindade se fosse com os decisores. E, claro, os primeiros a fomentar as campanhas populistas contra os políticos seriam os mesmos políticos, os mesmos que não perdem uma oportunidade de se desprestigiar e de contribuir para que os melhores e mais bem preparados fujam de assumir responsabilidades públicas. Muitas vezes parece que há uma estratégia pensada para afastar os bons profissionais da atividade política, ou que há quem queira que só os ricos, os que não precisam de salário para viver, possam dedicar-se ao bem comum.

Queixamo-nos da cada vez pior qualidade do pessoal político, mas queremos gente cada vez menos preparada a representar-nos e a tomar decisões importantes que dizem respeito à comunidade.

Como em tudo, em democracia os cidadãos têm a palavra final. Se a ideia é piorar a qualidade dos políticos e, nessa medida, da democracia, estão a fazer um bom trabalho. Eles e partidos como o BE e o CDS.

Trincheiras e acordos

Os que acham que a atividade política é uma espécie de guerra de trincheiras, e que os vários partidos e atores políticos não devem sequer dialogar, não gostaram dos acordos assinados nesta semana entre o PS e o PSD.

As análises centraram-se em quem ganhou mais ou menos e em quem ia obter mais ou menos dividendos eleitorais. Não as desprezo, mas antes dessas consequências convém verificar o que alguns, com indisfarçável desprezo, chamaram de sinal político.

Sim, é um sinal político, um excelente sinal. É uma indicação de que existe abertura de espírito para ouvir o outro lado, que se compreende que no cerne da democracia há o entendimento de que as soluções negociadas são sempre melhores do que as impostas, mesmo que achemos que a nossa visão dos problemas é a certa e a nossa solução a melhor.

Fora do mundo que políticos, jornalistas e comentadores frequentam, e que, não poucas vezes, é infelizmente distante do dia-a-dia das pessoas, existem problemas que precisam de ser resolvidos, questões verdadeiramente importantes que dependem de consensos entre partidos ou de, pelo menos, plataformas alargadas de entendimento. Pensar que as pessoas estão mais interessadas em que os partidos explorem o que os divide e não o que os une, ou seja, o bem da comunidade, é ter uma visão completamente distorcida do que as pessoas querem da política e dos políticos.

Mais do que os possíveis ganhos pontuais de um partido ou de outro, os acordos assinados pelo PS e pelo PSD ajudam à dignificação da política e dos políticos. A imagem de que se é capaz de sair das posições iniciais para benefício de todos faz mais pelo prestígio dos políticos do que um pacote inteiro de medidas sobre incompatibilidades e de supostas medidas para impor comportamentos à classe política. E se nós precisamos de fazer crescer a confiança nos nossos representantes…

Pedro Marques Lopes

At https://www.dn.pt

Opinião: “César”

Mario 12341353_10205114287436173_5675977369215367317_nA César o que é de César. A César não basta ser, tem que também parecer.
Contudo, o César não é nem parece. Mas a impunidade de César é de César, uma impunidade a roçar a inimputabilidade, aquela que nos tempos presentes é outorgada aos “pais da nação”, de uma Nação que já o foi e que hoje é uma farsa. Longe o tempo em que Valores, Princípios, Moral e Ética eram os baluartes da Nação.
Neste «Portugal dos pequeninos», César é um “grande”, um “pai”, um “padrinho”, um que tudo controla, que tudo dá e que tudo recebe, sem princípios, mas com valores, valores materiais, indevidos, que para a moral e a ética de César são devidos.
É esta a república de César, não imperial, mas material, a quem tudo é devido, no campo material, ele que se autointitula “pai da pátria”, da sua “pátria de interesses”, materiais.
A impunidade face a “pequenos delitos” é o caminho para os “grandes delitos”, que para César, “pequenos” ou “grandes”, ficarão sempre impunes, dada a inimputabilidade dos “pais da pátria”. Segundo ele, César.
Que são, que significam Pátria e Nação para César, ele que na sua condição imperial há muito que está acima de qualquer conceito Moral ou Ético? Pequenos nadas, dir-se-á, no seu grande império material.
Será a natureza humana serva do “vil metal”?
Um dia, alguém dizia que «somos todos Charlie». Mas não éramos.
Hoje, será que «somos todos César»? Com certeza que não!
E amanhã, «somos todos Açorianos»? Há mais vida para além do dinheiro.

Mário Casa-Nova Martins
Rádio Portalegre, 23 de Abril de 2018