Artigo de opinião: “As ideias brilhantes do Ministro Cabrita”

Filipe Luis mw-320Em 2006, acompanhei, para a VISÃO, o mundial de futebol, na Alemanha. Estava baseado na pequena cidade de Bielefeld, próximo de Gutersloh, onde se instalava a Seleção Nacional. Uma bela manhã – e as manhãs das histórias são sempre belas… – deviam ser umas 6h30, tive de apressar o passo, para não perder o comboio que havia de transportar-me a Hamburgo – onde fui em turismo, devo confessar. Ao atravessar uma ruela estreita, sem vivalma nem automóveis a circular, fui paralizado por uma sirene de um carro de polícia, parado numa esquina. Tinha atravessado com o peão vermelho. Não vem para o caso, mas, já agora, completo a história: aproveitando-me de uma certa condescendência das autoridades, devido às instruções que tinham para receber bem os fãs do mundial, e também valendo-me da boa lábia “tuga”, escapei sem multa e apanhei o comboio.

Ora, há pouco tempo, num belo dia – lá está… -, leio a notícia de que o Governo se prepara para limitar a velocidade, nas localidades, aos 30 kms por hora. Alegadamente, “há demasiados atropelamentos”. Se calhar há. Portanto, é preciso começar a disciplinar os peões, diria eu, e a fiscalizar o cumprimento do limite de 50 kms. Mas não: não temos dados sobre as razões dos atropelamentos, mas o ministro da Administração Interna deve ter: os condutores andam depressa e, se calhar, por cima dos passeios.

Ainda mal refeito desta, oiço outra: se calhar, vai haver helicópteros e drones a vigiar os automobilistas. Quando ouvi isto pela primeira vez, apanhei (muito apropriadamente, sublinhe-se… ) a notícia no ar. Assim: “… e o Governo pondera o patrulhamento aéreo”. E eu para os meus botões: “Cá está… Uma coisa que ando a dizer e a escrever há tantos anos, finalmente pode vir a acontecer. Os meios aéreos destacados para os incêndios vão ser utilizados na vigilância. Acaba por se poupar dinheiro, vidas e bens… Eu podia ser MAI!” Só depois é que percebi que se tratava de um big brother rodoviário. Vá lá, que a vigilância aérea dos incêndios está, de facto, soube-se posteriormente, a ser ponderada, talvez porque o ministro Eduardo Cabrita não tenha só más ideias. Mas com drones, helicópteros e aviões em missões cruzadas pelos ares do País, uns para os incêndios, os outros para os “aceleras”, o tráfego aéreo vai ser mais intenso do que o IC19 em hora de ponta. Daqui a um ano, o Governo vai ter de considerar a vigilância terrestre dos prevaricadores aéreos, para reduzir a sinistralidade aeronáutica…

Bebi um copo de água para recuperar o fôlego mas zás: afinal, o que o ministro Cabrita acha que pode mesmo acabar com as mortes na estrada é a inibição do sinal de telemóvel nas autoestradas. E eu a pensar que as mortes em acidentes de carro se davam, sobretudo, nas estradas secundárias!… Afinal, deve haver dados, inacessíveis ao cidadão comum, com números arrepiantes sobre mortes nas autoestradas devido ao uso do telemóvel e, também, segundo o Governo, do kit mãos livres agora disponível nas viaturas mais modernas. Mas temos de ver o lado positivo: Portugal vai liderar a tecnologia nas telecomunicações, ao conseguir inibir o sinal do telemóvel do condutor, mantendo o sinal do aparelho do pendura ou dos passageiros nos bancos de trás. Ou esses também não podem receber chamadas? Se calhar, não. Bem, talvez o Governo esteja a pensar colocar cabinas telefónicas de emergência de 100 em 100 metros nas autoestradas, para prevenir as dificuldades em pedir assistência em viagem. E, em caso de acidente, os helicópteros que andam no ar aproveitam para evacuar os sinistrados. Poupa-se um dinheirão no INEM!

Parece que, em 2017, houve mais 64 mortos na estrada do que em 2016. Ora, nós não temos os dados que o Governo devia ter, antes de dizer asneiras. Por isso, as asneiras que possamos dizer têm mais desculpa. Então, é assim: a perceção de quem anda na estrada é a de que, talvez devido à boa situação económica, o número de viaturas a circular é muitíssimo superior ao dos anos anteriores. Só 64 mortes a mais?! Cada vida humana que se perde é uma tragédia, eu sei. É uma frase feita, mas verdadeira. Mas isso não impede que, estatisticamente, possamos supor ter havido muito menos mortes por cada, digamos, 100 mil carros a circular. Esta afirmação é especulativa. E então? O MAI não toma as decisões baseado em conjeturas especulativas?…

O ministro Eduardo Cabrita parece governar por impulso. Ou então, tem uma tabela onde consulta os 340 mil mandamentos do politicamente correto. Começou a perceber-se isso quando mandou retirar os livros “pró menino e prá menina” da Porto Editora. Continuou a “disparar antes de perguntar”, quando mandou fechar o Urban Beach. E, agora, ataca de novo, em voo picado sobre incautos automobilistas com pontos a mais nas respetivas cartas de condução. O homem não para. Alguém que o agarre, senão ainda atravessa com o peão vermelho!

Filipe Luís

At http://visao.sapo.pt/opiniao

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