Ideias claras sobre o fogo em Portugal

Domingos

Logo a seguir à tragédia de Pedrógão Grande, o primeiro-ministro pediu ao professor Domingos Xavier Viegas, do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, um estudo sobre o comportamento do fogo. A equipa de 14 pessoas foi mais longe e mostrou o que falhou na segurança das pessoas. Em conversa com o PÚBLICO na véspera do Conselho de Ministros que vai decidir que reformas vão ser feitas, o perito em incêndios alerta para soluções “oportunistas” e que parecem “salvadoras”, mas não o são. Entra em choque com algumas das recomendações da Comissão Técnica Independente e deixa algumas sugestões para serem seguidas pelas pessoas.

Pode explicar às pessoas o porquê de este fogo ter sido excepcional?
Neste incêndio houve coisas que foram fora do comum, pelo menos para nós que estudamos o comportamento extremo do fogo. Por exemplo a interferência, a interacção entre uma trovoada e um grande incêndio. Este incêndio teve uma particularidade dramática, relativamente grave, que foi a aproximação da trovoada. O que fez? Fez incidir sobre o incêndio correntes descendentes, o tal downburst.

Esse fenómeno não era previsível?
Eram previsíveis as condições meteorológicas, não o efeito. Que havia trovoada, sabia-se, que se estava a deslocar também. Penso que não há ainda dentro da estrutura a percepção da gravidade de uma situação destas. Pesquisámos literatura e não encontrámos muitos trabalhos. São muito poucos os casos.

O que aconteceu este fim-de-semana é de uma natureza diferente?
Penso que sim. Se o episódio de Pedrógão já nos tinha causado um grande choque, este agora é de uma dimensão que ainda não recuperei dele. Vamos analisá-lo. Aquilo que se me afigura é que havia uma situação de vento muito forte.

Por causa do furacão Ophelia?
Admito que sim. Vento quente, seco e forte. Em Pedrógão, quando o incêndio começou não havia praticamente vento, manifestou-se com a entrada da trovoada e o vento que o próprio incêndio gerou. Fazendo o paralelo com o 15 de Outubro, esse vento forte fez com que focos de incêndio se propagavam rapidamente e com projecções que se espalhavam por territórios imensos. Fiquei impressionado ao ver as imagens das áreas ardidas que são um pesadelo.

Tivemos duas catástrofes de natureza diferente, há a possibilidade de se repetirem com outras características? 
Diria que sim. Há um elemento que é comum a Pedrógão e a 15 de Outubro que é a seca. Os combustíveis estão extremamente secos. Monitorizamos a humidade dos combustíveis e na quinta ou sexta-feira na Lousã a humidade era de 4%, que é um valor baixíssimo. Correspondem a condições catastróficas.

Sabia antes do fogo de domingo? Teve interação com as autoridades?
Infelizmente, ultimamente não temos estado a fazer isso. Durante vários anos tínhamos o costume de enviar.

Deixou de enviar porque não havia um interlocutor do lado de lá?
Por ventura. Nós enviávamos, não me recordo de termos um grande feedback. Partilho que há essa falta de diálogo.

EDP desafia-o a provar que o incêndio começou por causa de um cabo de alta tensão?
O nosso papel é reportar o que vimos, os dados que temos. E segundo os dados que temos, com fundamentação técnica, estamos convencidos que é esta a causa do incêndio. Ao ponto de provar, não sei a que instância se refere, se é em tribunal, não nos compete a nós, penso eu tirar ilações ou conclusões de responsabilização civil. Mas temos esta conclusão e estamos preparados para defendê-la.

Acabou por alargar o seu relatório, achávamos que seria apenas sobre o comportamento do fogo?
O comportamento do fogo é por assim dizer a nossa especialidade, mas trabalhamos também as áreas da segurança pessoal e a prevenção, protecção das comunidades. Há aspectos do comportamento do fogo que ainda estamos a investigar.

Quais?
Uma coisa que não é muito conhecida, mas que é um fenómeno que temos vindo a identificar ao longo dos anos que é o encontro de frentes de incêndio. E aqui neste incêndio houve dois, o de Escalos Fundeiros e o de Regadas, que se desenvolveram independentemente, e a certa altura encontraram-se. Quando dois fogos se encontram, geram entre correntes de convecção muitos violentas e muito fortes, dão origem a tornados de fogo e de vento. Localizámos onde se deu esse encontro e onde se desenvolveram esses tornados.

A existência desse segundo incêndio foi uma novidade. Acredita que se tivesse sido dada importância a esta ocorrência, teria acontecido o que aconteceu? Admito que as coisas poderiam ter sido diferentes. Se for reconhecida uma nova ocorrência, o comando, de acordo com os procedimentos, precisa de outro ataque inicial.

Mas esse alerta não existiu?
Foi detectada pelos bombeiros. Foi lá um bombeiro para reconhecimento e que disse que estava fora de controlo. Mas não tinham meios para colocar. Se tivesse sido reconhecido como uma nova ocorrência, poderiam ter vindo meios aéreos que estavam a actuar no incêndio ao lado, em Góis, e poderiam ter sido divergidos para lá.

Durante duas horas não houve ataque aéreo, entre as 16h e as 18h. Isso fez toda a diferença? Naturalmente. No incêndio de Escalos, houve dois meios aéreos no início e retiraram-se. Infelizmente esse tempo foi crucial. Nesse período de tempo o incêndio poderia ter sido controlado. Mas também devo reconhecer que estes dois meios não eram suficientes. Seriam necessários mais meios aéreos e terrestres.

Foi uma questão de incompetência do comando, de desconhecimento? Falamos bastante no relatório que temos de ter mais qualificação e uma maior uniformidade na preparação dos quadros de comando. Na fase inicial do incêndio, não houve a percepção da gravidade, embora ela tenha sido reconhecida nas primeiras abordagens. Mas o que não houve foi a capacidade de traduzir isso com veemência para o comando nacional no sentido de serem alocados meios. No incêndio do lado foram pedidos esses meios mais ou menos a essa hora.

E são dois comandos diferentes, um é de Leiria e outro de Coimbra…
E foram alocados dois Canadair para esse incêndio. Ironicamente, esses Canadair quando iam abastecer à barragem do Cabril passavam por cima do incêndio de Escalos. Confrontámos o comando nacional com essa realidade. Se havia ali um incêndio grave porque não agiam lá.

O que lhe respondeu?
Dizia que não podem andar a saltitar com meios de um lado para o outro. Por outro lado a doutrina é também que se há um incêndio que se está a atacar, tem de se resolver esse, porque senão temos dois grandes incêndios. (…) É preciso dizer que os bombeiros lutaram com uma valentia… tenho um grande respeito por estes homens. Naquela primeira zona entre escalos e o IC8, não houve fuga de pessoas nem vítimas mortais.

Morreram do outro lado…
Já não foi possível chegar com recursos. Não foi só a mudança de direcção do incêndio como também o encontro das duas frentes.

Era impossível salvar aquelas pessoas?
Era muito difícil. Falando com as pessoas, elas dizem-nos que não havia bombeiros, que não havia água, electricidade, ficou tudo escuro, o incêndio fazia um barulho tremendo, entrou toda a gente em pânico. Apesar disso, houve muitas pessoas que optaram por ficar em casa.

Foi isso que as salvou?
É verdade. Devia ter havido antes de mais um aviso prévio às pessoas dizendo que é mais seguro ficar em casa, do que fugir. A permanência da pessoa em casa é a sua melhor garantia de sobrevivência, porque uma casa não começa a arder de um momento para o outro.

Diz que tem muitas reservas sobre as opções de evacuações compulsivas. Mas não foi isso que salvou muitas pessoas nos fogos do Verão?
A evacuação resolve o problema da salvaguarda da segurança das pessoas, desde que seja feita com tempo, porque também houve evacuações feitas tardiamente que acabaram por pôr em perigo não só as forças que estão a fazê-lo com as pessoas. A nossa realidade é que as casas são de algum modo resistentes e se há pessoas que têm capacidade psicológica e física para ficar e resistir, essas pessoas devem permanecer, porque uma casa que é abandonada é uma casa que é destruída.

As reformas necessárias para evitar estas tragédias não foram feitas?
Não podemos só pensar nas entidades e nas instituições. Claro que têm um papel e são responsáveis e têm de olhar para o problema de maneira diferente. Temos de olhar para as pessoas. Se olharmos para a paisagem aqui à volta, as condições estão lá para acontecer exactamente a mesma coisa. E o que estamos a fazer? Aqueles armazéns que há nas casas cheios de lenha, com vegetação à volta. As pessoas viram isto arder em Pedrógão. O que fizeram de Junho até Outubro? Muito pouco.

Houve queimadas…
Por exemplo. Temos de repensar, temos de reestruturar os espaços rurais de uma forma completamente diferente. Como pode haver uma zona industrial que está rodeada de pinheiros à volta, que não tem qualquer defesa?

O que é possível mudar? Que medidas têm de ser implementadas já?
O que tinha de ser feito era falar com as pessoas, dar-lhes indicações. Uma das coisas que publicamos aqui é um folheto de conselhos às pessoas, tem 10 anos ou mais. Disponibilizámos às autoridades e ninguém pega no assunto. As próprias autarquias que deviam fazer a sensibilização das pessoas não se preocupam.

O Conselho de Ministros vai decidir sobre que caminho tomar…
Tem de se ter muito cuidado e discernimento em distinguir o trigo do joio e não ir atrás de ideias oportunistas, de coisas que podem parecer salvadoras.

Está a falar da ideia de dar mais dinheiro a bombeiros?
Isso é fácil e se calhar é preciso fazer-se, mas não pode ser exclusivamente isso. Qualquer reforma que seja feita não pode excluir as coisas boas que o sistema tem. Neste momento, a nossa protecção civil, apesar de todo o descalabro que houve, é um serviço válido, deu provas ao longo destes anos. Tem de ser melhor estruturado, melhor dotado, melhor qualificado, mas não é coisa para deitar fora.

Concorda com as recomendações da comissão técnica?
A comissão técnica propõe a criação de uma agência para gerir prevenção e combate, inclusive vai ao ponto de recomendar que seja gerida por técnicos florestais. Que haja essa junção e articulação das duas tarefas, parece-me bem. No nosso relatório falamos de um plano de gestão de incêndios florestais que olhe para isto no seu conjunto. Tem de haver alguma estrutura que esteja por cima.

Parece-lhe que aquelas recomendações vão longe demais?
Participei num processo em 2006 e houve uma recomendação de criar-se os bombeiros florestais. Confesso que critiquei muito essa medida e se é isso que está a propor agora, tenho sérias reservas.

Bombeiros na prevenção e depois no combate?
Proponho que aquilo que já existe seja melhorado. Temos bombeiros que têm experiência no combate a incêndios florestais e que sabem combater incêndios em casas. Temos sapadores florestais que trabalham todo o ano na floresta e podem fazer trabalho de prevenção. O Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF) devia cuidar mais dessa força, que existe, que é numerosa, mas que não está devidamente treinada e enquadrada. Claro que os bombeiros têm de trabalhar em conjunto com eles, mas não vamos estar aqui a misturar as coisas. Não vamos estar a pôr os bombeiros a fazer limpeza da floresta, quando já temos uma força que faz isso.

Há mais alguma proposta que lhe mereça atenção?
Há uma situação que é um absurdo que é a de ter num incêndio bombeiros que vão combater o fogo na floresta e bombeiros que vão defender as casas. Porquê? Na nossa floresta, há casas por todo o lado. Se um incêndio está a deflagrar e chegar ao pé das casas, vamos fazer o quê? Vamos esperar que cheguem os bombeiros para proteger aquela casa? É absurdo.

A comissão técnica propõe a separação entre a protecção das pessoas e o combate ao incêndio…
Se é essa a ideia, que já foi apresentada há uns anos, estou completamente em desacordo. Veja-se o caso do dia 15 de Outubro. Alguém podia estar no meio da floresta a atacar o fogo? Da mesma forma que os bombeiros se retiram para proteger as casas, porque têm mais prioridade, também é uma segurança para eles. Vou mais longe: aquilo que temos assistido nos últimos anos da parte do sector florestal, do ICNF é que tem-se alheado completamente deste problema. Tem-se afastado deste problema.

Os presidentes de câmara culpam o ICNF pelo facto de deixar plantar eucalipto por todo o lado. Também acha que o ICNF está a falhar?
Claramente. Mas os próprios presidentes de câmara não fazem o seu trabalho. Há câmaras que não têm plano de defesa da floresta que foi o que aconteceu em Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra. Um plano pode ser papel, mas um plano feito com consciência significa que há alguém que sabe dizer onde existe o problema e qual deve ser a solução. E depois, há um problema até legal com o qual fomos confrontados agora. Quando confrontámos a ASCENDI com a falta de gestão das faixas ao longo das estradas, a resposta que eles têm é que diz na lei que essa limpeza é obrigatória nas zonas previstas pelo plano municipal, como esse plano não existia, ninguém os pode obrigar a fazer esse trabalho. Esta é a consequência que a omissão de autarcas pode ter neste processo. E são coisas dessas que se o ICNF tivesse mais pulso, [fariam com] que esses planos fossem de acordo com a lei. E porque não o são? Porque às vezes um autarca quer que seja de determinada maneira por causa de outros interesses.

At https://www.publico.pt/

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Artigo de opinião: “Os azeiteiros excelentíssimos”

Antonio GuerreiroComo é que a gente das cidades, neste tempo em que o planeta se urbanizou, se tornou tão analfabeta nas questões da meteorologia que só percebe que o “bom tempo” prolongado é um inferno quando tudo arde e as chamas e o fumo chegam à porta da cidade? A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar.

Mudemos de assunto. Quem passa pela região de Ferreira do Alentejo, vindo de Lisboa em direcção a Beja, pousa os olhos numa mancha verde-escura, compacta, de oliveiras. São milhares e milhares de hectares, cobertos por oliveiras que têm a forma de arbustos e foram dispostas de modo a formarem linhas de sebes paralelas, completamente fechadas. Entre as sebes, em sentido longitudinal, há um espaço livre cuja medida exacta é a largura de um tractor. Assim, as máquinas podem avançar sem obstáculos e ocupando o mínimo espaço possível. No meio de um desses olivais, quase à beira da estrada, foi construído um lagar que parece um edifício de Silicon Valley. Este lagar da empresa que produz o azeite da marca Oliveira da Serra, desenhado pelo arquitecto Ricardo Back Gordon, é de uma exuberância arquitectónica e tecnológica que reduz à insignificância os empreendimentos da civilização mediterrânica do azeite e do vinho. No site do Lagar do Marmeleiro (assim se chama a herdade onde ele está implantado), podemos ler que ele “homenageia o Olival português e representa o expoente máximo da tecnologia ao serviço da qualidade do azeite e da sustentabilidade ambiental”. Trata-se, portanto, de um monumento, de um” memorial” como aqueles que celebram as vítimas da guerra ou os heróis mortos em combate. E, para além de evocar a epopeia do azeite, o monumento foi construído em nome da “sustentabilidade ambiental”. Este discurso da sustentabilidade ambiental, acrescentado como um apêndice, é a manifestação de um sintoma: o sintoma da má-consciência. Parece o assassino que, sem que ninguém lhe peça contas, vai ao posto da polícia gritar: “Não fui eu que matei a minha mulher”. Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo. Aquele lagar imponente no meio da planície não homenageia o olival português: insulta-o. Apetece gritar, trazendo para este contexto duas palavras que deram expressão a um poderoso manifesto: ornamento e crime. Mas parece que as catástrofes lentas e serenas, como aquelas que advêm de olivais que parecem oásis no meio do deserto, não põem os bombeiros e as populações em estado de alerta.
Mudemos de assunto: as campanhas a favor de medidas que desacelerem o aquecimento da Antártida não estão a ser muito bem sucedidas. Entretanto, na Europa e muito especialmente no seu extremo ocidental, as reacções químicas do fogo e as reacções políticas misturaram-se e estão a provocar um perigo global. E de repente, confrontados com problemas tão arcaicos como os da água e do fogo, começamos a descobrir que talvez nunca tenhamos sido modernos.
António Guerreiro