Artigo de opinião: “Maldita pulhítica. Abençoado Alentejo”

Chão da Velha DJI_0094
Aldeia de Chão da Velha Set.2017

Antonio VenturaÉ com teimosia e grande obstinação que insisto.

Insisto sempre, como se o chamamento de um Deus me queira tornar às raízes longínquas da terra, ao campo, às searas e ao calor que inferniza as gentes nos verões alentejanos e lhes enregela os ossos e a alma quente nos invernos de estalar.

Insisto sempre. E não me vejo parar, sem sequer duvidar ser o resto do meu caminho, o trilho que vai dar àquele campo largo com pequenas casas brancas de faixa azul, amarela ou “pó de sapato” de vez em quando, em pequenas cidades e vilas, em montes e aldeias.

Abençoada seja a terra, venturosa gente.

Na absurda insistência, deparo-me então com frequência, com o talvez maior dos nossos males. E enfrento-os, sofro com eles, revolto-me, e de novo regresso à vontade de ficar e fazer…

Não temos dúvida que, se há perto de quarenta e dois anos, poderíamos carpir, e chorar de outros males – bem piores –  desde então, a santa liberdade trouxe-nos a factura. Uma conta que não logramos pagar nunca. O preço de ser livre.

Maldita pulhítica que nos arrasa, que nos tira do sério e nos esmigalha a coragem e o propósito.

Somos assim… tais quais!

Há alguns meses, na minha querida Portalegre, num encontro de gente boa que se dispôs a discutir o futuro e o turismo que também é futuro… e muito, escutaram-se as palavras de António Ceia da Silva, Presidente da Turismo do Alentejo – ERT que, a certo ponto da sua intervenção, muito apreciada, disse “… somos assim… fazemos noventa e nove coisas boas e uma mal. Somos criticados por essa, nunca apreciados pelas noventa e nove…”. Somos assim, pois então.

Mais tarde e recentemente, veio o mesmo nomear os novos Embaixadores do Alentejo, e bem. Gente que gosta de nós e do Alentejo, grande, abençoado, só e tantas vezes carregado de pinimas.

E vamos andando, derretendo vontades, excluindo actores, queimando projectos e matando o tempo que é pouco, para lograrmos alcançar, senão a felicidade apregoada, pelo menos o progresso, desenvolvimento e bem-estar numa terra bela, de cantes e encantos que, extasia e deslumbra forasteiros e nos arrebata os corações. E vamos andando…tais quais!

“Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que não os acheis”. Que perfeitas e certeiras palavras do Padre António Vieira, tão propositadas se aplicadas no tempo de hoje. E somos assim.

As vaidades, velhos e suspeitados rancores e o “não sei quê” que, não se explica nem nos é explicado, despeja-se num caudal turvo de incoerência, limitador de crescimento, de cooperação e vontade colectiva de crescer bem e sermos felizes, juntos. E vamos andando.

Recusando o propósito, ignorando o saber, cultivando a incompetência… desprezando os nossos.

O que aparentemente se faz crer, ser o acolhimento caloroso ou pelo menos formal, passa rapidamente, sabe-se lá porquê, ao quase desdém e incredulidade pela fascinação dos outros, que tais.

E fica a expectativa de que os “tais”, se auto condenem ao silêncio perpétuo. Somos assim.

Mas desentranhando as recordações, não se compreende esta nossa postura e desencanto, de tudo duvidando, a todos criticando do alto do nosso umbigo grande.

Maldita pulhítica.

E bordamos de encanto os sonhos e alinhavamos a vida que nos escorre pelo fio que, passa finamente na agulha do tempo.

E moldamos o barro do nosso encantamento.

E decoramo-lo preciosamente, cada peça única, como este nosso povo alentejano. Único é o Alentejo.

E pastamos os últimos ovelhuns e os já poucos caprídeos. E de repente, fazemos nascer o melhor dos queijos para regalo de todos, para fazer a fama dos, talvez melhores do Mundo.

E vemo-nos na nossa modorna, enfadados de tanto olhar o campo sem ver ninguém. Entediados, enfastiados sem saber que ficaremos sózinhos.

E olhamos de novo o campo, escutamos o balido do gado e lá ao fundo na estrada, vai um carro com mais um que decidiu abalar! Somos assim, tais quais…

E não nos juntamos, reunimos, entendemos, apenas e somente no solidário interesse da nossa terra e todos nós.

Maldita pulhítica. Abençoado Alentejo.

António Ventura

(7Abril2017)

O presente texto está redigido pelo signatário, em língua portuguesa, em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo chamado Acordo Ortográfico.

At http://desventuralusitana.blogspot.pt/

 

Anúncios