Opinião: “Eis o meu relato”

FB_IMG_1499250398863Há trabalhos que nos impõem cautela redobrada e exigem que até os jornalistas dêem explicações. Este foi o caso. Um dos casos mais difíceis da minha vida.

Antes de ser jornalista, sou cidadã portuguesa, e em matéria de incêndios posso, desde 2003, ano em que arderam 400 mil hectares em Portugal, tragédia que cobri em direto diariamente, falar com propriedade.

Quando morrem 64 pessoas, o Estado não pode enfiar a cabeça na areia à espera que a tempestade passe!

Eis o meu relato: ( muito para além das falhas, muito para além da comprovada falta de meios que todos os populares denunciaram desde o primeiro minuto)

Quando cheguei ao posto de comando de Avelar, segunda, dia 19 de Junho, com o repórter de imagem Rui Silva, deparei-me de imediato com uma inacreditável feira de vaidades.
Um corrupio de ministros e Presidente da República e uma desorientação estampada na cara dos operacionais.
Achei peculiar.
Eu estava mergulhada em angústia.
Dividida entre ajudar ou reportar.
Ao primeiro impacto com as primeiras vítimas daquela monstruosidade de chamas, desabei em lágrimas. Percebi que nunca mais seria a mesma. Sim, porque gente que é gente, sente, dói-se, ajuda, fica ao lado. Não foge. Não se aproveita. Percebe que tem uma missão que ultrapassa a profissão.
Logo no primeiro dia, desabafei com o Rui Silva que estávamos a fazer muito mais do que jornalismo. Ouvir aquelas pessoas, abraçá-las, valeu muito mais do que qualquer palavra ou qualquer reportagem que faça na vida.
Percebi de imediato que o erro foi não terem evacuado as aldeias de imediato. Às 3 da tarde. Como fizeram em Gois, ao mínimo sinal de perigo, logo no dia seguinte.
Ninguém teria fugido para aquele corredor da morte, se tivesse havido bombeiros para os socorrer. As vítimas ficaram encurraladas entre a morte certa e a morte incerta. Morreram na mesma. Sozinhas. Desamparadas. A isto chama-se negligência!
E depois das mortes? O silêncio sobre as causas seguido de uma feira de vaidades.
Quando as populações ainda precisavam que as autoridades as acudissem, as autoridades andavam a mostrar as chamas e a tragédia às altas entidades.
Ouvi o desabafo de GNR’s a quem o chefe de Estado exigiu entrar em zonas perigosas, pondo em risco várias pessoas que o acompanhavam, apenas porque queria ver.

Que país é este que não se comove?
Que na hora de salvar civis, tem 5 bombeiros e um helicóptero?
E quando a desgraça vem ainda pensa mais no espetáculo mediático do que na verdadeira missão de salvar civis?
Não precisamos de mais comissões independentes.
A verdade está à vista.
Está contada na caixa negra da proteção civil que o Sexta às 9 revelou em primeira mão ao país logo ontem.
As vítimas merecem um gigantesco pedido de desculpa!
Não há nada que lhes possa trazer os familiares de volta. Mas a espera é outro crime.
Um Estado que se digne usar este nome tem o dever moral de as ressarcir já!
Sem mais demora.
Sem nenhum hesitação!
Não foi um evento meteorológico imprevisível ( porque como se comprova estava tudo previsto 48h antes) nem qualquer falha no Siresp que provocou a tragédia.

A natureza e a tecnologia seriam ótimos bodes expiatórios, mas está à vista que o que falhou foi a ausência total de decisões humanas à altura.

A missão da proteção civil é salvar pessoas e bens.
Tal como a minha é contar a verdade.

Não tenho mais lágrimas para partilhar com quem sofre hoje o que nunca imaginei ser possível.
Famílias inteiras destroçadas.
Crianças que perderam os pais.
Pais e avós que ficaram sem os filhos e os netos.
Para esses todos, segue o meu abraço. Emocionado. Não valendo de nada, é tudo o que lhes posso dar. Com a promessa de que estarei sempre aqui, para lhes dar voz e para que nunca sejam esquecidos!

Sandra Felgueiras

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