Fez ontem 25 anos: “Guns N’ Roses em 1992? Estive lá e sobrevivi”

Amadora, freguesias da Mina e da Venteira. Portela de Sacavém e Chelas, bairros I, J, entre outras letras do alfabeto. Campolide, entre Sete Rios e os bolsos cheios das Amoreiras.Todos os caminhos iam ter ao Estádio de Alvalade, o outro. Já demolido e sem hipótese de redenção, pelo menos desde a birra de Axl Rose. O futuro só podia passar pela demolição e pela construção daquele templo que haveria de albergar o novo Sporting e um supermercado Lidl.

Estávamos em 1992 e eu trazia às costas apenas 16 anos e alguns meses de vida. À época, nos píncaros da fama, tínhamos a prometida SIC, entidade mítica anunciada para Outubro que ainda não tinha sequer arrancado com a “Chuva de Estrelas” ou o “Perdoa-me”, mais a selecção de futebol da Dinamarca, acabada de conquistar de forma inesperada um europeu de futebol (does it ring a bell?) e, a uma escala mais contida, os Guns N’ Roses, que desafiavam o mercado e a sua mão invisível com o lançamento de não um mas dois — exacto, dois — álbuns de rock n’roll: Use Your Illusion I e, evidentemente, Use Your Illusion II.

A tournée europeia prometia um espectáculo de orelha, rabo, volta à praça e saída em ombros nas imediações do Campo Grande e todo o bicho careta salivava por um concerto de Axl, Slash e companhia. De alguma forma é complicado agradar a gregos, troianos e amantes do metal mas os Guns conseguiam fazer uma síntese que fazia inveja aos resumos Europa-América: rock e sensibilidade, atitude punk e dimensão do espectáculo. E nós, adolescentes nascidos durante o PREC, ávidos de internacionalismo que não implicasse necessariamente a libertação de Saigão, preparávamos a ida a um evento que prometia ser único. Como o mercado da UE (não vale rir) ou a Expo de Sevilha. O problema é que o acesso a tal evento implicava o dispêndio de seis contos de reis, seis mil escudos, se não me falha a memória, 30 euros há 24 anos, caramba, verba que não lembrava ao careca mas que fazia as delícias da entourage da banda. E eu, fã da lógica baixo-bateria-guitarra, estava disposto a mover mundos e fundos de forma a conseguir comprar uma entrada.

Daí o périplo pelas cercanias de Lisboa — Amadora, Portela e Chelas —, mais Campolide, lugares nos quais entreguei com denodo dezenas de folhetos do Euromarché, tarefa pela qual haveria de ser pago ao dia, contra recibo verde. Uma entidade que me acompanha há mais de duas décadas em várias circunstâncias, graças a Deus e à Direcção-Geral de Contribuições e Impostos. Ou seja, foi graças às campanhas de novilho, bolachas e esfregonas que eu fui capaz de comprar um bilhete para os Guns, acompanhado dos meus amigos André e Tiago e de uma T-shirt dos Sex Pistols pintada em casa com a cotonetes e lixívia. Punk’s not dead e os produtos abrasivos muito menos.

E franqueada a porta do estádio naquele 2 de Julho de 1992, tudo parecia encaminhado para um final feliz. Ainda o sol raiava e os Soundgarden protagonizavam um espectáculo competente de abertura, capaz de entreter as massas ávidas de rock’n’roll e azeite em forma de canções. Logo de seguida haveriam de fazer estragos os Faith No More de Mike Patton, uma espécie de messias laico, que pôs o povo a arrancar relva do recinto e a lançar garrafas de plástico para o palco como se não houvesse amanhã. Enfim, o Fukuyama tinha acabado de anunciar o fim do mundo, logo, os amanhãs que cantassem contavam muito pouco. A verdade é que o soberbo concerto da banda acabava de lançar Angel Dust com a chancela Slash Records haveria de deixar marcas involuntárias, quer dizer, haveria de deixar garrafas involuntárias. Em palco. À disposição de um pé mais afoito. Mike Patton incentivou as vítimas da fome ao lançamento de garrafas e as massas cumpriram em demasia.

Após um longo interregno que na minha cabeça rondou as duas horas, mais minuto, menos minuto, Axl e companhia entravam em palco com todo o gás, ou pelo menos com o butano suficiente ao som de “It’s so Easy”. Porra, isto estava mesmo a acontecer, louvados sejam (fossem) os folhetos do Euromarché, mais tarde Carrefour, e também o fiambre da pá e as porteiras da Portela que nem sequer nos abriam a porta, não fôssemos nós violar as caixas postais da classe média alta.

Acontece que à quarta ou quinta música — e não me apetece o rigor que o Google poderia proporcionar, até porque o rock não é uma ciência exacta — o Axl caiu do céu. Esteve knockin’ on heaven’s door mas veio de lá aos trambolhões à conta de uma garrafa de plástico por varrer que o fez cair e que provocou um amuo do tamanho do mundo que o fez sair de palco. E voltar. E voltar a sair. E regressar para cantar a “Civil War”, portento do Use Your Illusion II, enquanto insultava os detentores de pequeníssimos repuxos de fogo de artifício, algures entre a vela de aniversário e o isqueiro incandescente.

A partir daí, todo o clima esfriou (estávamos em Julho e o Vilfort tinha acabado de marcar um golo contra a Alemanha, caramba) e nem o solo de bateria de Matt Sorum ou a guitarra insinuante de Slash seria capaz de compor as expectativas e os corações. Os largos minutos que iriam interpor-se entre a birra do Axl e a saída do estádio em busca de um táxi só serviram para aprofundar a mágoa, até porque tivemos, eu, o Tiago e o André, de caminhar até Entrecampos, lugar onde uma cabine telefónica e uma moeda de 25 escudos permitiu finalmente um pedido de socorro e transporte. Cá dentro do peito, apenas ressentimento. Pior: à saída do estádio, um miúdo irresistivelmente naif afirmava perante as câmara de televisão que o concerto de Michael Jackson, programado para uns dias depois, haveria de redimir os caprichos daquele herói canhestro da música popular, mais preocupado com garrafas de plástico do que com os seus calções de lycra. Debalde.

Nada poderia salvar aquele dia, marcado pelo flop dos Guns em placo e pela morte de Camarón de La Isla, mago do flamenco e dos lamentos em forma de canção. Raios, ao menos o Camarón vinha de uma linhagem cigana, habituada aos tormentos da vida; já o Axl não passava de um miúdo que tomáramos erradamente por uma estrela, corpo celeste que vemos brilhar, mesmo depois de já estar morto. Parece que é nessa condição que regressa a Portugal (os bilhetes são colocados à venda no sábado) e a verdade é que dispenso revê-lo. Aliás, já nem sequer há Euromarché ou folheto que justifique o interesse. Hoje em dia é um activo musical (?) que já só dá direito a desconto em cartão.

Pedro Vieira

Consultor da Booktailors, pivô de televisão e ilustrador relutante

At https://observador.pt/

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