Opinião: “Globos”

Francisco Seixas da Costa 16473811_10210276909492645_6210069141578709270_nOntem, ao ver Trump enganar-se e trocar o nome da Síria pelo do Iraque, numa entrevista, pensei que podia ser-lhe útil ter um globo no gabinete, por forma a poder conhecer um pouco melhor o mundo que manda bombardear, enquanto come bolos de chocolate com líderes chineses.

Já um dia escrevi algures sobre a importância que para mim teve um pequeno globo metálico, com os países identificados a cores, que havia na casa onde vivi a minha infância. O globo rodava num suporte de que eu muitas vezes o tirava, para o que tinha de achatar os polos, para constante irritação das pessoas mais velhas.

Um tio que ia lá por casa, em férias, foi o grande responsável pela minha educação na geografia política e étnica. Ensinava-me onde havia índios e cowboys, onde viviam os pretos (deixemo-nos de eufemismos, era assim que se falava nos anos 50 e 60), qual era a terra dos “chineses de olhos em bico” e outras caricaturas simplificadoras desse género, que me foram ajudando a confabular o que iria por esse mundo fora.

Desde muito miúdo que eu sabia apontar para o Egito, quando me perguntavam “onde é que estão as pirâmides”, mostrava o deserto do Saara (na altura, ninguém falava no Sahel), a terra dos esquimós, a bota que era a Itália, o canal do Panamá, etc.

Também por via dessas imaginativas descrições, fui levado a criar uma ideia menos simpática do cabo das Tormentas, que o meu pai me ensinou a teatralizar, com a história do Adamastor, nos desenhos que representavam as viagens das caravelas para a Índia e mais além.

A linha do Equador foi então, para mim, um traço mítico que separava dois mundos (aliás, o próprio globo lá de casa era desmontável em duas calotas hemiesféricas, que se encaixavam, precisamente no equador). Mal eu sabia que, um dia, iria ter a sorte de poder estar simultaneamente com os pés nos hemisférios sul e norte, ao colocar-me na linha de meio campo do “Zerão”, o sugestivo nome do estádio de Macapá, no norte do Brasil, construído exatamente sobre a linha do Equador.

Mas nunca ninguém, à época da infância, me conseguiu explicar, de forma conveniente, o interesse dos trópicos de Câncer e de Capricórnio – e a verdade é que eu só leria Henry Miller bem mais tarde…

Mas cedo soube de cor onde estavam situadas todas as “nossas províncias ultramarinas” e, recordo bem, o facto de me terem dito que a Nova Zelândia se situava “do outro lado” do mundo levou-me a inquirir intimamente por que diabo se não fazia um túnel para lá…

Os pólos, a norte e a sul, pintados no globo a branco, nunca me seduziam por aí além, talvez porque Trás-os-Montes já era demasiado frio para o meu gosto comodista.

As lições de geografia que, com o globo, eu recebia seriam, com o tempo, complementadas com um mapa da Europa em que alguns países eram simbolizados por animais e outras figuras. Nele, a Rússia, lembro-me bem, era identificada por um imenso urso. Já não tenho na memória, mas imagino que o Reino Unido (a Inglaterra, como então se simplificava) devesse ter um John Bull a representá-la e a Holanda (país que, antes de Dijsselbloem, me tinha habituado a respeitar, por me terem dito que vivia abaixo da linha do mar – o que sempre me impressionou) pelo inevitável moínho, rodeado de tulipas.

A perceção do resto do mundo para além do nosso era então também ajudada pela coleção das “Raças Humanas”, com fotografias coloridas de caras bizarras, que cedo comecei a colecionar. E os muitos desenhos do “Cavaleiro Andante” faziam o resto do trabalho educativo.

Vieram, por fim, os selos, que me ajudaram a perceber ainda melhor o mundo, com as subtilezas políticas de cidades como Tânger, Trieste ou Dantzig (hoje designada por Gdansk), explicadas pela família. A filatelia acabaria por ser uma das minhas grandes escolas da geografia política.

Foi assim que o “meu” mundo foi criado e, ao fazê-lo, foi-se gerando em mim alguma vontade em vir conhecê-lo. Mal eu sabia, à época, que a vida me iria dar o ensejo de o frequentar com alguma extensão e até assiduidade. Tive muita sorte!

Ainda se oferecem globos às crianças? Se não, é pena! E, repito, pelo sim pelo não, é melhor dar um a Trump.

Francisco Seixas da Costa

At https://www.facebook.com / Francisco Seixas da Costa

Triatlo volta a juntar terras alentejanas

trialqueva

O Triatlo é um evento atlético composto pela combinação de três modalidades, natação, ciclismo e corrida. Mas para além do carácter desportivo a prova também pode servir para reforçar laços de cooperação entre territórios separados por fronteiras.

É o caso do Trialqueva Internacional de Elvas – Olivenza, uma prova transfronteiriça composta por 1,9 quilómetros de natação, 94 quilómetros de ciclismo e 20 quilómetros de corrida, que vai envolver as terras portuguesas de Elvas e Alandroal, no Alto Alentejo e Alentejo Central e Olivença, (administrada) da província de Badajoz, na Comunidade Autónoma da Estremadura Espanhola.

Esta prova, que vai para a sua segunda edição, parte este ano de solo português, decorre no próximo dia 23 de abril e tem abertas as inscrições

At Tribuna do Alentejo