Frei D. Vasco Fernandes: sepultado em Montalvão

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Frei D. Vasco Fernandes foi o último Mestre da Ordem do Templo ou Templária, tanto em Portugal, como na Europa, e Comendador de Montalvão.

Vamos aos detalhes:

– Como é sabido, os monges-guerreiros da Ordem do Templo, assim auto – designados, por defenderem o Templo em Jerusalém, contra as hordas de infiéis, no âmbito das Cruzadas, vieram para os territórios da atual Península Ibérica em auxílio dos monarcas católicos que desencadearam a Reconquista Cristã e por aqui foram ficando. Desenvolveram importante ação tanto na defesa e consolidação dos territórios reconquistados aos árabes, como no respetivo povoamento, organização e desenvolvimento económico e social, ao longo de, praticamente, três séculos. Os vastos territórios que lhes foram doados pelos nossos reis, não só como recompensa pelo auxílio prestado, mas, sobretudo, com aquelas finalidades, permitiram-lhes tornar-se um Estado dento do próprio Estado, com todas as vantagens (para eles próprios) e inconvenientes (pelos ódios e invejas suscitadas) que disso decorreram.

Como seria inevitável, a conjuntura acabou por se tornar hostil aos membros da Ordem, em Portugal, como na Europa, designadamente em França, onde os bens dos Templários suscitavam igual ou maior cobiça por parte da nobreza, sedenta de iguais privilégios de poder e riqueza, inclusive por parte do próprio Rei Filipe IV, que então ali governava, agravando desse modo as relações com a Igreja, em sentido lato.

Por morte do Papa Bento XI, o francês Bertrand de Got foi eleito Papa em 1305, tendo adotado o nome de Clemente (V). Como é evidente, as relações entre aquele monarca francês e o papado melhoraram substancialmente, tornando-se, desse modo, mais proveitosas para ambas as partes.

Muito antes, porém, já tinham findado em Portugal (1287) as desavenças entre a Ordem do Templo sediada em Portugal e a Diocese da Guarda, em resultado da subida ao trono de D. Diniz (1279), bem como das alterações verificadas naquela diocese com a nomeação de um novo Bispo (D. Frei João Martins) e de um novo Mestre da Ordem (D. Frei João Fernandes). Em consequência disso, a Ordem perdeu a jurisdição de Montalvão e de Nisa, que transitaram para a posse daquela Diocese.

O golpe fatal dado à Ordem Templária ocorreu em finais de 1307. O já mencionado Filipe IV, com a cumplicidade do Papa francês Clemente V, eleito dois anos antes, mandou prender centenas de Templários, neles se incluindo o próprio Grão-mestre Jacques de Molay, acusando-os de heresia (veja-se, a propósito, o apontamento neste “sítio” sobre a “Inquisição”), sendo brutalmente torturados pelos inquisidores.

Naquela altura, o Mestre da Ordem do Templo em Portugal era D. Frei Vasco Fernandes, igualmente Comendador de Montalvão, como mencionado antes.

Com a prisão de Jacques de Molay e a morte de muitos dos seus membros, a estrutura da rica e poderosa Ordem do Templo, e por isso invejada e temida, ficou irreparavelmente abalada e destruída, acabando por ser extinta em 1312, mediante decreto promulgado pelo Papa Clemente V, confirmando assim o que tais perseguições há muito prenunciavam. Como seria de esperar, os bens materiais da Ordem, após confisco, foram repartidos entre o Papado e a Coroa francesa, enquanto o Grão-mestre continuava nas masmorras da Inquisição.

Em 1314, o Grão-mestre Jacques de Molay seria condenado e queimado vivo, como aconteceu a tantos outros.

No mesmo ano, a Ordem Templária em Portugal foi abolida, mas em sua substituição o Rei D. Diniz, dois anos depois da extinção (1316), fundou a Ordem de Cristo.

Naquele interim, ou seja, entre a extinção da Ordem de que era Mestre e a criação da de Avis, D. Frei Vasco Fernandes permaneceu em Montalvão, onde se sentia a salvo da ira Papal, debaixo da proteção do seu Rei D. Diniz. Foi naquela sua Comenda que viveu até ao resto dos seus dias e onde morreu em 1323.

A seu pedido, terá ficado sepultado na Igreja Matriz de Montalvão, junto ao altar-mor.

Montalvão teve muitos outros Comendadores, antes e depois de D. Vasco Fernandes, mas o que torna este merecedor de maior destaque, é a circunstância de ter sido o último Mestre da Ordem do Templo em Portugal e, dado ter sobrevivido a Jacques de Molay, o Grão-mestre da Ordem Templária, ter sido, por consequência, o último também a nível europeu. Só por tais factos, seria para todo o sempre um mui ilustre montalvanense, a que acresce a vontade expressa em ficar sepultado na sua Montalvão, em detrimento de um outro local de maior destaque, junto dos seus pares, mais reforçando a sua condição de genuíno montalvanense, de que todos nos devemos orgulhar.

Bibliografia:

(1) BENTO, Luís Mário, O Anel de Lázaro-Romance histórico sobre as vilas de Nisa e Montalvão; Ed. Colibri;
(2) ROSA, Jorge, Montalvão-Ecos duma História Milenar; Ed. Colibri/Câmara Municipal de Nisa

At http://jfmontalvao.pt/

Artigo de opinião: “Molhar a palavrinha”

marcoHá um espaço reservado no ano, em que a população aumenta significativamente, assim como as transacções na economia local, e coloca, passado muito tempo de espera, gerações diferentes, principalmente no âmbito familiar, a interagir.

Tudo isto pela deslocação intensa de emigrantes e migrantes que se verifica no tão aguardado mês de Agosto, e onde o concelho de Nisa é exemplo máximo no Alto Alentejo.

O que há uns bons anos atrás trazia também associados alguns exibicionismos, os mesmos ficam hoje reservados para quem pode, e que se somam aos remediados e aos que podem menos, mas que tudo fazem para poderem estar perto do calor familiar mais distante, numa estratificação quase semelhante a supostas classes sociais. Há os que investem muito na vertente imobiliária, para assim usufruírem de maior qualidade de vida e reserva, e os que dispõem do que já têm quase secular, para assim desfrutarem momentaneamente do ambiente familiar na sua maior dimensão, numa lógica quase norte europeia. Foi precisamente a integração europeia que veio trazer algum, pouco, equilíbrio entre os seus membros, nomeadamente na óptica da cidadania.

Para além da forte componente de amizade e boa disposição que tanto cresce nesta altura, sobressaem também os amores que provavelmente nunca foram ou serão, pois só viveram em potência, mas também as inimizades daqueles que nunca se puderam ver, porque uma das partes sempre fez questão de ficar à distância, e que garantidamente não obrigam à violência que nesta altura também gosta de se mostrar por algumas festas populares. E depois há também os indiferentes, que, com maiores ou menores afectos, também querem sorrir com os que têm mais próximos.

É uma altura de excessos sim, que alguns sublinham, e bem, até porque são feitos com gosto, independentemente das consequências à saúde que possam trazer. É altura de “molhar a palavrinha” por várias esplanadas de cafés, bares e restaurantes, assim como pelas festas populares que não faltam em nenhuma freguesia.

É depois chegado o momento da tristeza do fim, que provoca sempre alguns desequilíbrios emocionais, e que ocorrem principalmente como “ossos de quem trabalha”. Tudo começa com o melhor dia para casar, e vai terminando consoante as malas dos carros vão ficando atascadas e se vão ouvindo buzinadelas de boa viagem em passagens de rua, se possível à distância, para que a despedida seja menos dolorosa.

Até para o ano … ou para o Natal!

At http://www.jornalaltoalentejo.com/ (versão em papel)