25 de Abril: “Abertura de caminhos foi a prioridade do novo poder local”

Salgueiro Maia 18306414_wCkDV

A abertura e arranjo de caminhos foram “uma prioridade” entre as “principais preocupações” das comissões administrativas que estiveram à frente das câmaras municipais entre o 25 de Abril e as primeiras eleições autárquicas, em 1976.

“Uma das maiores necessidades eram os caminhos”, recorda à agência Lusa António Arnaut, advogado e fundador do PS e do Serviço Nacional de Saúde, que presidiu à comissão administrativa da Câmara de Penela entre Maio de 1974 e Abril do ano seguinte, tendo abandonado o lugar por entender que não deveria acumular essa função com o cargo de deputado à Assembleia Constituinte.

“O concelho de Penela estava parado no tempo, não tinha nada” e “com o pouco dinheiro que tinha”, a Câmara tratou, desde logo, de “tapar uns buracos (no sentido literal) nas ruas e estradas”, de “limpar umas silvas” e, sobretudo, de “abrir ou arranjar caminhos”, recorda António Arnaut.

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António Arnaut (ao centro), acompanhado dos Secretários de Estado Victor Vasques e Mário Mendes (em 1978)

Em Grândola, como na generalidade dos municípios rurais, em 1974, também “havia muita gente que vivia isolada” e “distante das maiores localidades”, afirma António Figueira Mendes (CDU), actual presidente da autarquia (cargo que também ocupou entre 1976 e 1989) e líder da Comissão Democrática Administrativa da Câmara Municipal de Grândola, eleita logo após o 25 de Abril.

Eram muitos os montes e localidades do “extenso concelho de Grândola”, cujos acessos não permitiam a passagem de um veículo motorizado e mesmo de carros de tracção animal, sublinha o autarca, explicando as reivindicações populares na época e o facto de a comissão a que presidia ter dado prioridade à abertura e arranjo de caminhos – em muitos casos com a participação das populações e de meios militares.

As Forças Armadas desempenharam um importante papel nessa tarefa, mas nem sempre responderam aos pedidos, pois “não tinham capacidade de resposta para as muitas solicitações que, então, lhes chegavam de todo o país”, explica Figueira Mendes.

As localidades de Vila Nova de Poiares também estavam, na maior parte dos casos, ligadas à sede do concelho apenas por trilhos “feitos pelas pessoas, que andavam a pé, ou por carros de bois”, testemunha Jaime Soares, presidente da comissão administrativa “eleita na rua, talvez por cerca de 1.500 pessoas”, logo após o 25 de Abril.

O alargamento e arranjo daqueles caminhos foi, “naturalmente, uma das prioridades”, mas não mais importante do que, por exemplo, a criação de fontenários – a maior parte da população do concelho abastecia-se em fontes de chafurdo, afirma Jaime Soares, que também foi presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares, pelo PSD, entre 1976 e 2013.

“A vila era pouco mais do que 22 casas à volta de uma igreja” e a Câmara de Vila Nova de Poiares tinha, “no armazém de máquinas e viaturas, uma velha camioneta Bedford, um jipe antigo, alguns carrinhos de mão, várias pás e picaretas e duas pequenas caldeiras para alcatrão, para remendar a Estrada Nacional 2”, que atravessava a vila.

Em Grândola, a recolha do lixo no centro urbano começou, então, a ser feita com carros de tração animal (mulas), exemplifica o autarca de Grândola, salientado que o parque automóvel da Câmara era constituído, em Abril de 1974, por “uma camioneta de carga, um jipe e um dumper [veículo de transporte de material a granel]”.

O encerramento da “sopa dos pobres” foi uma das primeiras medidas da comissão na Câmara de Grândola, afirma António Figueira Mendes, adiantado que a instituição era “um lugar lúgubre, na vila, onde as pessoas eram despejadas sem respeito, nem dignidade”.

Os utentes “passaram a ir à Misericórdia” de Grândola, que até então seleccionava os pobres que apoiava.

“Fizemos uma cantina para os alunos da escola da Cumeeira”, no concelho de Penela, que “custou vinte contos [equivalente hoje a cerca de 100 euros] e que ainda lá está”, recorda António Arnaut, sublinhando que “isso foi um avanço formidável”.

At http://www.sol.pt/ /Lusa

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